Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Antes havia mais carolice hoje h profissionalismo

Antnio Flix - 02 de Dezembro, 2013

Amaral Aleixo dos poucos atletas que se imps em duas modalidades diferentes

Fotografia: Jornal dos Desportos

Amaral Aleixo na história do futebol nacional, é um antigo avançado, que deixou a sua marca. Foi campeão africano em júnior, e nas equipas por onde passou, foi um avançado que se impôs. Em 1991 militou no Sagrada Esperança da Lunda- Norte, dadas as características que reunia de goleador foi o melhor marcador do Girabola com 23 golos. No ano seguinte, já ao serviço do Petro de Luanda repetiu o feito, com 20 golos, por isso - a par de Flávio Amado – um dos que figuram atrás do até agora imbatível Carlos Alves, que rubricou 29, pelo 1º de Agosto, em 1980.

Entrevistado pelo Jornal dos Desportos, Amaral Aleixo, antigo artilheiro do futebol nacional, falou do passado, e do que pensa sobre o motivo de haver poucos golos no campeonato. Também falou dos clubes, treinadores e dos jogadores que admira, desde o tempo colonial aos dias de hoje, assim como teceu algumas contribuições como os Palancas Negras devem ser mais fortes.

Ainda se lembra do primeiro golo oficial que marcou no Girabola, contra quem, e de como foi a jogada?
Marquei o meu primeiro golo oficial três meses depois de ter saído do basquetebol. Foi nos Coqueiros, à noite, no Girabola de 1987, num 1ºAgosto- Ferroviário da Huíla. Decorriam 16 minutos da segunda parte, entrei, fiz o golo a passe do Nelo dos Passos, já falecido, foi o terceiro golo do jogo.

E o último golo oficial?

O meu último golo oficial foi no Lobito, com a Académica. No momento em que o marquei fui massacrado por dois adversários. Acredito, que foi sem maldade mas, tive múltiplas fracturas na região tibiotársica, até hoje uso planilhas para o suporte da minha locomoção. Aconteceu em 1998, em Julho.

Por onde passou, quem mais o servia nos lances de golo?
Barbosa e Nelson Baptista no 1º Agosto, Bukaka e Esquerdinho-Man João-no Sagrada Esperança, Felito, Bumba e Rosário no Petro Luanda e, já na selecção, era o Carlos Pedro e o Paulão Alves.

Qual foi o golo mais bonito que marcou e porquê o considera assim?
Considero três golos bonitos, espectaculares. Primeiro, em Luanda com 1º Maio, na linha do meio campo descaído para esquerda. Aproveitei o adiantamento do guarda-redes rematei forte, rasteiro muito junto à relva, e a bola entrou bem juntinha ao segundo poste. Segundo, em Maputo com Moçambique. Após passe de cabeça do Paulão Alves fiz um chapéu quase sem ângulo ao guarda-redes. Terceiro, em Benguela, de novo com o 1º Maio. Foi da linha de fundo, quase na bandeirola, com a parte externa do pé esquerdo fiz uma “trivela” que manteve estático o guarda-redes, pois ele esperava por um cruzamento.

Qual foi o jogo em que deu tudo para marcar e não logrou?
Foi com o Tômbwa em Luanda para a Taça de Angola em 1992, nos Coqueiros à noite. Nesse jogo acabei por fracturar uma costela e fui parar ao Hospital. Fiquei 15 dias de repouso absoluto.

 Qual o jogo em que mais facturou e se foi fácil?
Aconteceu no jogo com o Sporting de Benguela, no Dundo, e com a Eka do Dondo. Marquei quatro golos em momentos diferentes...Os golos nunca são fáceis.

Qual é a dica que dá para quem queira ser goleador temido?

Deve ter talento e bastante trabalho.

GOLEADORES DE SEMPRE
“Admiro Carlos Alves e Jesus”


Modéstia  à parte, qual é, para si, até hoje, o melhor marcador de golos no futebol depois da independência?
Carlos Alves e muito depois Jesus, mas há um menino que admiro pelo estoicismo e capacidade de sacrifício e, portanto, também marcador de lindos golos. O Flávio Amado.

 Antes disso, pela história, do que leu e ouviu, quem melhor marcou golos antes do período colonial?
Ouvi falar muito do Manecas do Sporting de Luanda e do próprio Carlos Alves, também do Matreira e do Firmino Dias.

Alguma vez notou um jogador completo no verdadeiro sentido da palavra que o impressionou mais até hoje em Angola?
Tenho referências de Santo António, do Petro de Luanda, António Neto e o Paulo Alves “Paulão” que eram, sim, jogadores completos.

Hoje ainda podemos ter jogadores com a mesma qualidade de craques do antigamente?
Já tivemos sim, aliás, para mim, é tudo uma questão de gerações.

ALÉM DE NDUNGUIDI
“Abel e Saavedra também singraram”


Depois de Ndunguidi Daniel qual o jogador que só actuou no país mas que se o fizesse no estrangeiro podia singrar muito?
O Abel também singrou, o Saavedra, o Akwá, o Mantorras. É preciso entender que não existem caminhos rectilíneos, pois, tudo tem a ver com as circunstâncias, consubstanciadas em diversos fenómenos.

É no mercado futebolístico português onde os nossos jogadores dão-se melhor do que em outros cantos da Europa?
 Já era altura de abrirmos outras janelas, mas, antes, temos de trabalhar muito e muito e bem.

PALMARÉS
Ex-goleador na “galeria”

Amaral Aleixo ao logo das edições do Girabola, que começou em 1979, só é superado por Carlos Alves, e igualado por Flávio Amado em número de golos.

1980 - Carlos Alves - 1º de Agosto (29)
1981 - Maluca - 1º de Maio (20)
1982 - Jesus - Petro Luanda (21)
1983 - Maluca - 1º de Maio (17)
1984 - Jesus - Petro Luanda (22)
1985 - Jesus - Petro Luanda (19)
1986 - Túbia - Inter Luanda (20)
1987 - Mavó - Ferroviário Huíla (20)
1988 - Manuel - 1º de Agosto (16)
1989 - André - Desportivo da Cuca (18)
1990 - Mona - Petro Luanda (17)
1991 - Amaral Aleixo - Sagrada Esperança (23)
1992 - Amaral Aleixo - Petro Luanda (20)
1993 - Serginho - Desportivo da Eka (14)
1994 - Kabongo - Sonangol do Namibe (16)
1995 - Serginho - Desportivo da Eka (19)
1996 - César Kaná - Académica do Lobito (15)
1997 - Zé Nely - Petro Huambo (12)
1998 - Betinho - Petro Luanda (14)
1999 - Isaac - 1º de Agosto (16) e Avelino Lopes - Petro Huambo (16)
2000 - Blanchard - Benfica de Luanda (19)
2001 - Flávio - Petro de Luanda (23)
2002 - Flávio - Petro de Luanda (16)
2003 - André - Inter de Angola (12)
2004 - Love Kabungula - ASA (17)
2005 - Love Kabungula - ASA (13)
2006 - Manucho Gonçalves - Petro Luanda (16)
2007 - Manucho Gonçalves - Petro Luanda (15)
2008 - Santana - Petro de Luanda (20)
2009 - David - Petro de Luanda (19)
2010 - Daniel Mpelempele - Kabuscorp do Palanca (14)
2011 - Love Kabungula (Petro de Luanda) com 20
2012 - Yano- Progresso do Sambizanga (14)
2013 - Meyong – Kabuscorp (20)

AMARAL ALEIXO  
“Antes havia mais carolice hoje há profissionalismo”


Antigamente, o modo de estruturação dos clubes muitas vezes ajudou na aparição de bons jogadores. Não havia o profissionalismo nem os benefícios de hoje, mas espírito de entrega que se via nos dirigentes e clubes, proporcionaram vitórias, que arrastavam multidões, e os adeptos gostavam. Também sobre estas questões Amaral Aleixo respondeu às questões que se seguem.

Como encara hoje a organização dos nossos clubes em comparação com a de ontem?
Não há comparação possível, isso até pelo número de praticantes hoje e o crescimento a que o nosso desporto está sujeito. A estruturação dos clubes está condicionada ao volume de processos desportivos vigentes. Antes havia carolice, agora existe profissionalismo, embora, como em tudo, com bons, normais e péssimos. Os últimos abundam.

O que falta para temos uma selecção forte durante muitos anos?
Este assunto é muito complexo e decorre de factores conjunturais bem como, o que é mais grave, estruturais. Mas é possível com os meios humanos e materiais existentes formar-se nos próximos dez anos uma geração para durar 12 anos no top do futebol africano.

E para termos bons treinadores?
 Todo o contexto embica para um vértice. Formação sistemática de recursos humanos, criação racional de plano nacional de formação. O desporto em geral, e o futebol em particular, iam a esta fonte absorver os quadros.

Não temos ainda bons treinadores?
Temos sim bons treinadores, temos já uma elite, existem categorias desde a qualidade aceitável e vice-versa. O problema é o termo comparativo com os das outras latitudes. Temos de ser mais competitivos e, nalguns casos, se necessário, petulantes, para mostrarmos o nosso valor. Temos de procurar mercados exteriores, temos de ser criativos, pró -activos, mas, sobretudo arrojados, e tentar, tal como os atletas o fazem, tentar o desconhecido, o diferente. Olha a história de Mourinho.

RECONHECIMENTO
“A geração de Flávio também tem craques”


Uma geração é sempre diferente da outra, mas as questões comparativas, na história do futebol nacional, também se colocam sempre que se avaliam as qualidades, as habilidades e notoriedade dos jogadores. Amaral Aleixo teve o seu tempo. Houve outros que o antecederam e outros que o sucederam. Como não podia deixar de ser também tem a sua opinião formada.

 Por que razão, no país, muitos anos depois, não tem alguém a superar ainda os 29 golos marcados por Carlos Alves em 1980?
A geração de Flávio, Love, Gilberto Amaral, Manucho Barros, Lunguinha, e Job, embora mais novo, também tem os seus craques que deliciam os adeptos. De acordo com as circunstâncias, também apresentam grande qualidade técnica e táctica.O que está eventualmente na base de hoje no fim de cada época verem-se muitas equipas a sofrem mais golos em casa e a marcarem menos fora.

Isso deve-se a jogadores com fraco faro de golo ou a defesas permissivas?

O factor casa é sempre um pressuposto valorativo até a psicologia descobrir outros paradigmas a transitarem para o desporto. Aliás no quotidiano vivenciamos o factor casa.

É correcto a uma equipa que tenha um jogador a concorrer para melhor marcador jogue mais para ele a fim de subir na contagem?
É lícito e nada de amoral existe nestes casos. Já vivi essa experiência sim e com muito agrado, pois demonstrava o respeito, amizade, solidariedade e cumplicidade existente num grupo de trabalho.

Os treinadores baixam ordens expressas para isso?

Que eu saiba nenhum treinador prepara-se para orientar jogadores para títulos individuais, mas sim e apenas para o colectivo. Até mesmo quando um jogador triunfa é porque o grupo funcionou.

PROMESSA DE CEM GOLOS
Jogador acreditou
no técnico Miroslav


O técnico Miroslav Maksimovic, quando assumiu o comando técnico da equipa principal do Petro de Luanda, prometeu uma equipa bastante ofensiva, que ia marcar muitos golos para ser campeão nacional. A verdade é que não passou disso mesmo, a ponto da então direcção de futebol, liderada por Tomás Faria sem outra saída teve de despedir o treinador e, em seu lugar, indicar o então adjunto Miller Gomes, para ocupar o posto até ao final da época, para onde, se chegou com poucos golos. Ao tempo, o entrevistado, Amaral Aleixo, já era um dos responsáveis da equipa tricolor e, como homem do futebol, tem também questões e respostas à propósito

Na sua visão e não como dirigente do clube, acreditou no técnico Miroslav Maksimovich que, quando chegou ao Petro de Luanda, prometeu que a equipa marcaria mais de cem golos numa época?
Acreditei. Não só era viável como motivou a equipa, os adeptos, e demais agentes do futebol. Note que a equipa, a par do Girabola, se chegasse à última fase quer da Taça de Angola, como da Taça CAF tinha números alcançáveis. O problema esteve na interpretação da sua mensagem. A.FÉLIX