Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Antnio Alegre defende tcnicos com competncia

Paulo Caculo - 09 de Dezembro, 2014

Se quisermos ter um futebol de excelncia em Angola, necessitamos de tcnicos tambm de excelncia, disse Antnio Alegre, para em seguida lamentar a m qualidade dos relvados de alguns estdios de futebol no pas.

Fotografia: Miqueias Machangongo

António Alegre defendeu em entrevista ao nosso jornal, a selecção rigorosa de técnicos que venham trabalhar para os clubes do Girabola ou outras competições nacionais, como garantia para a melhoria do nível de qualidade exibicional das equipas angolanas. Falando na esteira de uma abordagem em torno da recém terminada época futebolística, o crítico do futebol sugeriu aos dirigentes dos clubes  investirem muito mais na criação de condições para que os seus quadros possam frequentar cursos da UEFA.

“Penso que teremos de ser mais selectivos ao nível dos técnicos e criar urgentemente condições para que estes possam tirar os cursos da UEFA, desde o nível 1 ao nível 4. Se quisermos ter um futebol de excelência em Angola, necessitamos de técnicos também de excelência”, disse António Alegre, para em seguida lamentar a má qualidade dos relvados de alguns estádios de futebol no país.

“Acho que deveríamos criar e cumprir regras muito rigorosas, relativamente ao estado dos relvados. O que vemos em certos estádios do nosso Girabola é vergonhoso e deveria ser punível com multas severas. Isto, em termos gerais, porque o aprofundamento de todas as questões daria tema de conversa que só talvez um debate muito profundo poderia resolver”, sublinhou.

António Alegre “Toni” considera por outro lado, que a gestão desportiva não devia ser feita sem conhecimento da matéria. “O Ministério da Juventude e Desportos e a Federação Angolana de Futebol, em concertação, têm de impor um conjunto de regras e fiscalizá-las com rigor e profissionalismo”, sugeriu.

De acordo com  o nosso entrevistado, esta sincronização não deve ser feita apenas  a partir das escolinhas de futebol, mas também entre o clube e as Associações provinciais da modalidade, a Associação Provincial e a Federação Angolana de Futebol.

DESPORTO ESCOLAR
Técnico quer massificação


Muito se tem falado, ultimamente,  sobre a massificação do desporto escolar e sobre a aposta nos escalões de formação. António Alegre considera o investimento nesta área, uma necessidade imperiosa e que deve ser imposta no mosaico desportivo angolano. Garante que o incentivo à prática do desporto a partir das escolas e à criação de núcleos ou selecções provinciais, pode ser uma solução viável para a busca de qualidade.

“Havendo desporto escolar, os clubes podem organizar os seus núcleos de prospecção dentro do próprio sistema escolar. Partindo desse pressuposto, há uma concertação natural entre clubes e selecções jovens provinciais na captação desses talentos para as selecções jovens provinciais, esclareceu.
“Chegando a este nível”, acrescenta “deveria haver um coordenador técnico nacional que com o apoio e colaboração de toda a estrutura da FAF, estaria em perfeitas condições para poder escolher os melhores futebolistas a nível nacional”.

“Como sabe, trabalhei dentro de uma estrutura na selecção de Sub-16 do Conselho de Loulé e a detecção de talentos era dentro destes moldes e com excelentes resultados. Dada a nossa conjuntura cultural e demográfica, não me parece que este modelo com alguns acertos pontuais deve ser diferente. Ou seja, nesta pirâmide hierárquica em que a escola está na base e a Federação no topo é aquele que melhores resultados poderia oferecer", assegurou.

A organização dos escalões etários, de acordo  ainda com António Alegre, deveria obedecer alguma ordem,  na primeira fase deste processo, os atletas entre os 6 e os 9 anos de idade jogam campeonatos distritais de futebol 7, porque acredita que nesta fase da formação é muito importante que os jogadores não estejam presos a esquemas tácticos ou qualquer tipo de limitações na sua forma de abordar e perceber o jogo. “Esta é uma fase em que o jogador fica a conhecer a si mesmo e ganha uma a habilidade que nas outras etapas da sua formação serão determinantes na potencialização do seu talento”, garantiu.
PC

CONSTATAÇÃO
“ Paixão move o futebol”


O crítico desportivo acredita, piamente, que a grande paixão que os adeptos sentem pelos clubes é que ajuda a mover o futebol. Em face disso, sugere que os clubes criem condições para que os espectadores se sintam não só confortáveis, mas sobretudo seguros dentro dos estádios. “O que move o futebol é a paixão e a paixão clubista é algo que se fomenta desde pequenino. Eu sou um louco apaixonado pelo futebol, mas se me perguntar se eu levo uma criança de três ou  quatro  anos comigo, a um estádio de futebol para ver determinados jogos, a minha resposta é não, porque nem sempre estamos seguros”, justificou.

A vertente financeira é outro dos problemas que António Alegre constatou nesta sua primeira experiência, após longos anos a cumprir uma carreira como jogador e treinador em Portugal. O comentador, pai de Wilson Alegre, antigo guarda-redes do 1º de Agosto, aconselha os clubes a encontrarem soluções para minimizar os problemas financeiros.

“Penso que ao nível dos pequenos e médios clubes, devem resolver o problema financeiro e estrutural, para poder ser competitivos e não desvirtuar as competições, porque neste momento a concorrência não é leal. No nosso Girabola temos clubes cumpridores e mais de 1/3 das equipas que nele participam são incumpridores”, disse.

António Alegre considera existir um longo caminho que as equipas têm de percorrer, por exemplo, em termos de marchandising. Esta é uma área que, na opinião do comentador desportivo, está muito pouco explorada pelos clubes. “O nosso campeonato deveria tornar-se auto-suficiente e deixar de lado a cultura do pedinte, em que os clubes em vez de se auto-financiarem, ficam à espera que algo ou alguém injecte capital nos mesmos”.
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CARREIRA
“Espero voltar a treinar"

António Alegre não afasta a hipótese de retomar a carreira de treinador. O antigo craque do Sporting Clube de Portugal confessa estar com saudades dos tempos em que sofria próximo dos relvados, pelo que espera voltar a orientar uma equipa. “Penso que a competência não tem fronteiras. Preparei-me para esta profissão desde os 13 anos de idade.

Fiz cursos em Portugal, estágios em Inglaterra, mais especificamente com Alan Pardew, que como todos sabem, é o actual manager do Newcastle”, sublinhou o ex-futebolista, que se sente orgulhoso por não ter queimado etapas ao longo da formação. Apesar de ainda não ter provado no mercado nacional as suas reais capacidades como treinador, sublinhou que algumas pessoas conhecem as suas qualidades como técnico.

“Penso que elevei os parâmetros de avaliação para níveis antes nunca alcançados. Não sou vaidoso, mas sinto-me muito orgulhoso que toda a nossa nação reconheça o meu mérito”, finalizou.
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