Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Arbitragem do Girabola no est mal como se diz

AUGUSTO PANZO - 04 de Novembro, 2011

Francisco Mazale est radiante com as suas actuaes na alta roda do futebol nacional

Fotografia: M. Machangongo

Jornal dos Desportos – O Bengo conseguiu, após longos anos, colocar o primeiro árbitro no Girabola, por intermédio da sua pessoa. Como se sentiu quando foi indicado pelo Conselho Central?
Francisco Mazale: Senti-me muito regozijado, porque foi uma mais valia pelo facto de em nome do Bengo ter sido eleito para arbitrar no Girabola, algo que, até agora acredito que foi inédito. Foi muito importante a minha nomeação, porque pode servir de mola impulsionadora para aqueles que, por iniciativa própria, querem ver o Bengo na mais alta competição futebolística do país.

 JD: Quem lhe passou pela primeira a informação?
FM: Obtive-a através dos meus colegas, baseados naquilo que eles viram nos comunicados que o Conselho Central de Árbitros de Futebol da FAF lança em cada fim de época. Depois deles terem constatado o facto, ligaram para mim, dando-me conhecimento do facto.

JD: A algumas horas do fim do Girabola de 2011, que análise faz sobre aquilo que foi a arbitragem nesta temporada?
FM: Bem, a arbitragem do Girabola não está tão mal como se diz. Acho que nós conseguimos fazer um trabalho razoável. É claro que não faltaram erros ao longo da prova, mas são próprios de quem trabalha, porque também somos humanos. Considero que a arbitragem angolana já é boa, e está acima da média.

JD: Com que sensação ficou quando dirigiu o primeiro jogo neste Girabola?
FM: Em princípio, como qualquer outro árbitro, senti aquele calafrio, porque como pode perceber, foi o meu primeiro desafio a enfrentar, numa prova de maior responsabilidade. Mas pronto, é como tudo. No princípio foi difícil, mas aos poucos fui-me concentrando, até ficar com os pés bem assentes e a cabeça erguida, sobretudo porque tive o necessário apoio dos meus assistentes. A partir deste suporte que tive dos colegas, acabei por fazer normalmente o jogo.

JD: Qual foi o primeiro jogo que ajuizou neste Girabola?
FM: Fui baptizado, passe a expressão, com o jogo entre o Santos FC e o Interclube.

JD: Como caracteriza essa sua primeira?
FM: A avaliação tem de ser feita por outras pessoas e não por mim próprio. Mas ainda assim, acho que essa minha primeira participação foi boa, na medida em que não sofri muitas críticas ao longo da prova. Terá havido alguns erros, tal como já me referi antes, mas penso que não terão sido muito determinantes nos resultados. Aliás, sem querer me gabar, tenho recebido elogios de que tenho tido boas actuações. Para mim dou graças a Deus por isso, e espero melhorar ainda mais essas minhas performances. É o meu primeiro ano, e acho que tive uma actuação acima da média.

JD: De quem tem recebido esses elogios?
FM: De várias pessoas, desde dirigentes do próprio órgão máximo que superintende a arbitragem de futebol no país, passando para os meus familiares, até os amigos.

JD: Que perspectivas faz daqui para frente como árbitro?
FM: Bem, sou muito jovem ainda. Com trinta anos de idade que tenho, penso que tenho muito ainda a dar nessa vida de arbitragem, durante os mais 15 anos que a lei de arbitragem permite. De facto quero explorar da melhor forma esse período de tempo e tentar os patamares mais altos. Acho que os meus principais objectivos passam por ali.

JD: O que quer dizer com o atingir?
FM: Quero dizer que pretendo chegar o mais longe possível nessa vida de árbitro de futebol, porque condições para tal não me faltam, para além da esperança que tenho. Aliás, tal como se tem dito, sonhar não é proibido, e a esperança é a última coisa a morrer.

“Deveria merecer
palavras de apreço”

JD: Recebeu alguma motivação por parte do governo do Bengo, depois que foi promovido à Primeira Divisão?
FM: Infelizmente ainda não. Não estou a pedir que assim seja feito, mas trata-se de algo inédito a nível da província, e como tal, acho pelo menos que deveria merecer algumas palavras de apreço pelo sucedido. Mas não podemos forçar a barra.
 
JD: Que apelo faz para os seus colegas do Conselho Provincial do Bengo?
FM: O apelo que faço para esses colegas é que eles estejam mais motivados, e que vejam o Mazale como um exemplo a seguir. Foi preciso um grande esforço da minha parte, para chegar até onde estou agora.

 JD: Quem impulsionou o Francisco Mazale para acatar a actividade de arbitragem de futebol até chegar à categoria nacional?
FM: Em princípio devo dizer que foi uma bênção de Deus, porque comecei por iniciativa própria a apitar jogos nos bairros, e aos poucos fui subindo, até que no ano passado (2010) passei a ajuizar jogos da Segundona. Acho que foi em função da pontuação obtida nesse Zonal de Apuramento do ano passado que o Conselho Central me promoveu à categoria nacional.

JD: O que espera da nova direcção do Conselho Central de Árbitros de futebol da FAF?
FM: Em princípio é uma direcção que considero competente, porque está composta por gente experiente, além de serem pessoas que lidam de forma agradável com todos os juízes. Temos uma relação muito boa com eles, e espero que façam um bom trabalho na medida do possível, e que aguardem também pela nossa ajuda como árbitros, dando o nosso máximo, para o engrandecimento da arbitragem do futebol angolano.

“O Bengo está
na mó de baixo”


JD: O que nos pode falar sobre a arbitragem no Bengo?
FM: Além de mim que já estou a apitar no Girabola, posso dizer que no Bengo essa franja não está bem neste momento. Não sei por que razão, mas infelizmente tirando os jogos do Zonal de Apuramento, já não outra competição lá. Contudo, acho que devemos dar força ao Conselho Provincial, bem como a Associação Provincial de Futebol do Bengo (APFB), para que no próximo ano haja competição, porque só com jogos é que os árbitros aparecem, fazem os trabalhos e, com base nisso são avaliados. Em função disso, posso mesmo afirmar sem medo de errar que a arbitragem no Bengo está na mó de baixo.

“Admito que tenha falhado”

JD: Pensa atingir a internacionalização?
FM: Logicamente que sim. Como primeiro passo para chegar até lá, sei que devo trabalhar mais, para depois aguardar pela avaliação dos dirigentes do nosso sector da arbitragem.

JD: Existe ou não corrupção na arbitragem do futebol angolano?
FM: Acho melhor não falar sobre isso, porque ao que me parece, é um assunto muito melindroso e tem havido muitos dizeres das pessoas sobre essa matéria.

JD: Já alguma vez sofreu tentativa de suborno ao longo do Girabola?
FM: Prefiro não responder também a essa pergunta.

JD: Porquê?
FM: Porque ainda que eu diga não, as pessoas vão interpretar como mentira a minha afirmação, uma vez que nós árbitros, somos sempre vítimas de más interpretações, de intrigas e de suspeitas. Se disser sim, também haverá outras repercussões a respeito. Por isso, o melhor é não responder a essa questão. Até porque sou muito novo nessas andanças.

JD: Há quem diga que teve uma mancha no jogo entre o Kabuscorp do Palanca e a Académica do Soyo, por não assinalar um alegado um lance que deveria dar penalti à equipa do Soyo. O que se passou de concreto naquele lance?
FM: Como se diz, o erro é humano. Depois de rever a jogada em casa através das câmaras da televisão, reconheço que foi um lance de penalti. Por isso admito que tenha falhado. Foi um erro meu.

JD: O jogo era decisivo para a situação classificativa dos dois conjuntos, principalmente para a equipa do Palanca que estava lançado para a conquista do título. Acredita que esse erro que cometeu terá sido incorporado pelas pessoas no capítulo de erro humano ou na versão de suborno?
FM: É complicado de facto, pela diversidade de interpretação das pessoas sobre o caso. Só que, cada um é livre de pensar como achar conveniente. Mas apesar desse direito que lhes assiste, eu reafirmo aqui que houve um erro humano da minha parte naquele lance e não tem nada a ver com essas tendências.

Perfil

Nome: Francisco Mazale
Data de nascimento: 23 de Fevereiro de 1981
Local de nascimento: Caxito/Dande
Formação académica: 1º Ano do Instituto Superior Técnico
de Angola (ISTA)
Melhor país: Angola
Cidade: Paris
Férias: Angola
Escritor: Agostinho Neto
Ídolo: Hélder Martins
Música: Kizomba
Prato preferido: Funje com kizaca