Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Artur Almeida prope um novo ambiente no futebol

Paulo Caculo - 28 de Outubro, 2013

Artur Almeida quer alteraes na forma de gesto do nosso futebol para recuperar a sua mstica no continente

Fotografia: Jornal dos Desportos

Artur Almeida está preocupado com o estado actual do nosso futebol. O dirigente desportivo, que em 2011 tentou sem êxito chegar ao “cadeirão” máximo da Federação Angolana de Futebol, sugeriu, em entrevista ao Jornal dos Desportos, que é urgente a mudança de mentalidade das estruturas que regem a modalidade 'rainha' no país. “Penso que precisamos de criar um novo ambiente em volta do futebol, porque se avaliarmos o que está a acontecer ao longo dos últimos tempos, e é só olhar para o ranking da FIFA, notamos que Angola decaiu muito e é agora o 93º colocado.”

O mentor do projecto que recuperou e notabilizou o clube Vitória do Sambizanga justificou a sua inquietação pelos resultados que as nossas selecções e clubes têm obtido e ficam muito longe de ser os melhores. “Acho que é o momento de pararmos e ver, de facto, aquilo que está mal no nosso futebol e onde é que podemos melhorar. Tenho uma visão bastante profunda desta situação, porque na altura em que me candidatei à direcção da federação tinha um projecto a médio e longo prazo, em que prevíamos estruturar o futebol de Angola, de forma que ele se enquadrasse dentro da realidade futebolística mundial”, recordou.

O jovem empreendedor considera que o actual cenário permite hoje perceber que a modalidade vive um momento de “grande desestruturação”, quer a nível dos campeonatos quer da selecção nacional. “Devemos todos parar um pouco e reflectir sobre o momento que o nosso futebol está a atravessar”. Artur Almeida apontou soluções a médio e longo prazo, para dar uma certa sustentabilidade àquilo que pretende fazer: “Tudo isso passa por se estruturar técnica, administrativa e desportivamente as associações e a própria federação e, por sua vez, os clubes vão ser obrigados a organizar-se de acordo com as estruturas que estas associações e a própria federação tiverem.”

O apelo do dirigente desportivo vai em primeiro lugar para a mudança de mentalidade, “para se trazer para dentro das estruturas de gestão desportiva os processos administrativos e técnicos adequados”. Artur Almeida valoriza o facto de o Ministério da Juventude e Desportos ter manifestado preocupação com o estado actual do desporto-rei no país, no que foi reforçado com o apelo do Presidente da República, José Eduardo dos Santos, no recente discurso do estado da Nação.

“O Chefe de Estado deu indicadores de como deve ser estruturado o desporto, sobretudo o futebol, e disse que devemos criar condições para reestruturarmos e desenvolvermos o nosso desporto. Sei que o ministério está a preparar um plano para o futebol e o desporto no geral.”

DESEJO
“Temos de profissionalizar a modalidade”


Artur Almeida tem o desejo de ver profissionalizado, nos próximos tempos, o futebol que se pratica em Angola. O responsável garante que os níveis de organização que pretende no futebol passam pela profissionalização da modalidade. “Fazer um bom profissional, do ponto de vista técnico ou desportivo, obriga a que esse profissional veja no emprego que tem uma carreira profissional, a nível da federação ou associação”, disse o antigo aspirante a presidente da direcção da FAF.

 “Acho fundamental a profissionalização do futebol e a profissionalização dos agentes prende-se com os funcionários dos departamentos das selecções nacionais e também para os departamentos que apoiam as associações e os clubes. Estas pessoas têm de ser formadas, mas a formação obedece a critérios que nem precisamos inventar, porque já existem.”

Há muita gente interessada em apoiar a federação de futebol, mas essas pessoas deixaram de se sentir mobilizadas porque as querem cada vez mais distante, lamenta Artur Almeida. “Tudo isso é o culminar de um processo que todos nós, angolanos, queremos, porque o futebol mexe com o coração de milhões de angolanos. E tem de ser visto com essa profundidade.”

CONFISSÃO
“Estou aberto para contribuir”


A realização de uma reunião ou encontro nacional do futebol para discutir os problemas da modalidade é defendida por Artur Almeida. O responsável acredita que no actual quadro esta pode ser uma das soluções viáveis para se reunirem condições que ajudem a melhorar o estado do futebol. Todos aqueles que podem dar o seu contributo devem ser chamados, para que os que têm conhecimentos da gestão desportiva possam participar, defende o dirigente desportivo. “Pessoalmente, sempre estive aberto para dar o meu contributo aos problemas do futebol, o projecto que tenho é de todos, de toda a família do futebol”, salientou Artur Almeida.

O jovem dirigente lamenta que existam pessoas na federação de futebol sem capacidade para ajudar a fazer evoluir a “máquina”, e que é insuficiente que o presidente tenha boa vontade e um bom projecto. “É preciso que haja pessoas capazes de materializar na prática aquilo que está na teoria, em projecto. E entre a teoria e a prática existe uma distância muito grande.”

PROJECTO
“Modalidade precisa
de projecto exequível”


O antigo candidato à presidência da FAF nas eleições de 2011 Artur Almeida acredita que uma das soluções que pode ajudar a “salvar” o futebol do marasmo em que se encontra é a aposta em projectos exequíveis com acções práticas e muito concretas. “As nossas federações, concretamente falando do futebol, deve ter um projecto exequível que vise tirar o futebol do período conturbado que atravessa e isso passa pela organização e reestruturação da própria federação e das associações.”

 Esta reestruturação, diz o dirigente desportivo, deve passar por profissionalizar as mais diversas áreas da organização da federação e das associações provinciais de futebol. Mas tal organização, defende Artur Almeida, deve obedecer a uma visão dos processos de negócios da própria FAF e das APF, porque “o futebol hoje em qualquer parte do mundo é também um negócio”.

Gerir qualquer estrutura do futebol obriga a processos organizacionais para gerir negócios, defende Artur Almeida. Ou seja, argumenta, “a federação quando inscreve um atleta a nível internacional está a fazer um negócio, porque paga por essa inscrição e recebe também por ela”, sublinhando que “todas as organizações que preenchem uma estrutura de gestão têm negócios”.

“Temos de definir um modelo”

As mudanças de treinadores ao nível das selecções nacionais mereceram igualmente avaliação de Artur Almeida. O dirigente desportivo foi categórico na sua abordagem, e diz ser apologista de que as soluções para o futebol, passam pela definição de um modelo de trabalho e nunca pela troca sucessiva de treinadores. “Temos de definir que futebol queremos praticar em Angola. Que modelo devemos introduzir no nosso país e como vamos adoptar, para que todos os clubes tenham a mesma base”, refere, sublinhando ser necessário prestar maior atenção ao trabalho  que se faz nos clubes porque são eles que fornecem os jogadores às selecções.

“É insuficiente mudarmos de seleccionador. As pessoas estão mais viradas para a selecção nacional de honras, mas o segredo está nos clubes e nas escolas de formação, porque são eles que trabalham São os atletas que servem as selecções. Temos de criar uma base, escolher um modelo do futebol que vamos praticar”, defende Artur Almeida.

O importante, na óptica do nosso entrevistado, é definirmos onde queremos que se jogue o futebol profissional e o amador. Esta caracterização, segundo Artur Almeida, vai ajudar a definir as boas práticas de gestão e de negócios a nível da gestão desportiva do futebol nacional. “Caso contrário, vai ser bastante difícil inverter o quadro actual. Temos de ter coragem para fazer as coisas. É importante agirmos e com acções práticas, aliás, nunca se inventa nada, mas sim materializarmos aquilo que é melhor para o nosso futebol e que no futuro possa orgulhar a todos os angolanos”, sublinhou.

FUTURO  PALANCAS NEGRAS
“Técnico deve ter perfil reconhecido”


Artur Almeida considera que na fase actual do futebol angolano e aliada à nossa realidade, o melhor para os Palancas Negras é ter um treinador nacional. Justifica a sua preferência por um técnico angolano, ao contrário de um estrangeiro, porque o angolano conhece melhor as características do nosso futebol, dos nossos jogadores, as dificuldades do país e dos nossos atletas.

“Acredito que o treinador angolano mais facilmente consegue dominar o balneário, facto que dificilmente acontece com um treinador estrangeiro, que tem de vir adaptar-se à realidade para depois iniciar um processo de trabalho de acordo com esta realidade. Por isso é que defendo a contratação, de um treinador nacional.”

Artur Almeida diz que até pode ser um técnico estrangeiro, mas para tal é necessário salvaguardar os nossos interesses e sermos transparentes nos nossos objectivos, “desde que ele viesse contratado de acordo com os padrões que pretendemos para a nossa selecção”. Artur Almeida considera fundamental avaliar o perfil do seleccionador que queremos e definirmos prioridade nas competições em que estivermos comprometidos. “O futuro técnico dos Palancas  deve apresentar um currículo que vá de encontro com os padrões de futebol que queremos para a nossa selecção.”
É o técnico que tem de ser enquadrado nas nossas definições e nunca o contrário, defende Artur Almeida.

RESGATE DA MÍSTICA

Dirigente quer
técnicos formados

O futuro do futebol angolano, segundo Artur Almeida, depende muito da aposta na formação dos treinadores nacionais. Segundo o dirigente, é cada vez mais importante capacitar os nossos técnicos, quer a nível dos clubes, quer das selecções, para que possam corresponder às exigências actuais.
“O futebol hoje é cada vez mais uma ciência. O processo de 'scauting', por exemplo, é hoje básico para o treino desportivo, sobretudo no futebol. Para além da espontaneidade, tem de existir algum mecanismo científico e isso hoje treina-se e faz-se com conhecimento.

Então a formação de técnicos no geral, de árbitros, de seccionistas, para podermos profissionalizar o nosso futebol, é muito importante e urgente”, afirma. Artur recorda que sempre defendeu a profissionalização dos técnicos angolanos e na aposta deles nas selecções. Por isso, acrescenta, quando apresentou a candidatura à direcção da FAF, manifestou o desejo de pegar em dez bons treinadores nacionais, sobretudo jovens, e colocá-los fora do país, para formação e estágios práticos.

“Eram técnicos formados para trabalhar desde os escalões mais jovens até à selecção de honras. Este é o nosso princípio e achávamos que isso podia ser feito. Mas também podíamos trazer para o nosso país grandes formadores, para nos ajudarem a fazer formação de técnicos a nível interno, sobretudo os dos escalões mais jovens. Penso que reside aqui o segredo do futuro do nosso futebol”, garante Artur Almeida.