Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Artur de Almeida, lider da lista B ao pleito eleitoral na FAF

Paulo Caculo - 23 de Maio, 2011

Lder da lista B decidido a mudar imagem do futebol

Fotografia: Jornal dos Desportos

A aposta num projecto concreto e cujas bases assentam em acções práticas representam o grande “trunfo” que Artur Almeida e Silva, candidato da lista B às eleições da Federação Angolana de Futebol (FAF), diz ter na “manga”, para convencer o eleitorado.
Numa longa e esclarecedora entrevista ao nosso jornal, o experiente gestor de empresas garante ter soluções para tirar o futebol do “marasmo” em que se encontra. Promete aliviar os gastos dos clubes e tornar a disputa do campeonato de futebol muito mais atraente, transformando-a numa Liga profissional, na qual os clubes poderão lucrar muito mais do que uma simples taça de campeão.

O que o motiva a candidatar-se à presidência da FAF?
Sobretudo o facto de pretender dar o meu contributo para a melhoria das condições em que se encontra actualmente a federação, mas também para perspectivar um futuro bem melhor para o futebol e o desporto em geral no país. Acho que é o momento de se procurar fazer uma viragem, relativamente a algumas práticas que têm sido desenvolvidas a nível do desporto, e do futebol em particular.

Sente estar em condições de fazer melhor?
Apesar de ter estado na federação muito pouco tempo, deu para perceber esse fenómeno com a profundidade necessária, estar um pouco por dentro de toda essa dinâmica do futebol e ter percebedido que se pode fazer muito melhor do que aquilo que tem sido feito. Muita gente está na modalidade não para a servir mas antes para se servir dela. Acho ser o momento para se fazer uma viragem em todo esse panorama existente a nível do nosso futebol.

Como está a encarar o facto de algumas pessoas espelharem algum receio em apostar em si?
As pessoas que acompanharam a minha trajectória enquanto membro da federação perceberam que a minha acção em termos de grupo foi sempre no sentido de fazer diferente. Ou seja, de trabalhar em prol do futebol. É assim que durante a minha estada na FAF, enquanto membro da direcção, tive a oportunidade de apresentar dois projectos: um de reestruturação do futebol jovem e outro da federação. Esses projecto acabaram por ser a “bandeira-estardante” da FAF enquanto lá estive.

Esses projectos foram concretizados?
Infelizmente não foi possível iniciar esses projectos, porque surgiu a crise a nível da federação, mas quem esteve mais atento há-de dar conta que realizei, depois de sucessivamente não ter sido possível realizar os campeonatos em 2009 e 2010, os campeonatos de jovens em 2011. E, segundo críticas, eles foram dos campeonatos mais bem organizados pela federação. Acredito que por aquilo que fiz enquanto membro da FAF as pessoas perecebem que foi diferente no cômputo geral.  

Muita gente teme que grande parte das promessas feitas pelos candidatos possam cair em saco roto. Como pensa transmitir a ideia de que os seus projectos sairão da gaveta?
Queremos coisas muito concretas, objectivas. Os clubes deixarão de pagar aos árbitros directamente. Os árbitros deixarão de ser alojados directamente pelos clubes. A FAF e as associações vão assumir essa responsabilidade. Os clubes de formação deixarão de estar a pagar árbitros, porque aquilo que estes clubes gastam com pagamentos de árbitros, campos e tudo o resto devia ser investido a nível das suas equipas e dos escalões de formação, para podermos ter crianças muito mais saudáveis a praticar futebol. Podemos ter instalações muito mais cómodas para aqueles que praticam futebol. Penso que temos de mudar esse paradigma.

Espera desafogar os clubes em termos de gastos?
Há aqui coisas que se fazem mal, mas que podem ser rapidamente invertidas a bem dos praticantes de futebol. Estas duas acções que referi em relação ao árbitro e aos valores que se pagam relativamente à disputa dos campeonatos jovens e dos alugueres de campo e o resto, acredito que se pode fazer muito profundamente, no sentido de aliviar os custos para os clubes. Queremos que eles invistam nas suas infra-estruturas e nas condições para poderem dar melhor condição atlética aos seus formandos.

O facto de ser alguém que já esteve na FAF e conhece a realidade pode ser uma vantagem?
Sem dúvida. Pode ser uma grande vantagem. Mas uma coisa é nós termos conhecimento dos factos e outra é termos a capacidade de mudar esses factos no sentido positivo, no sentido de aglutinar aos conhecimentos que obtive enquanto membro da federação outros aditivos que possam permitir que façamos uma mudança. Quero com isto dizer que não é uma questão de apagarmos o passado, mas de se partir para o futuro com as boas práticas do passado. Aquelas que foram as más práticas vamos pô-las de lado, e aproveitar o que de bom foi feito.

Uma das grandes preocupações dos clubes prende-se igualmente com o prémio dado ao campeão. Está disposto a tornar o Girabola mais atrativo a esse nível?
No nosso projecto pensamos resolver esse problema, definindo ao nível do nosso futebol sénior o que é que pretendemos: se é amador, semi-amador ou profissional. Pensamos que devemos profissionalizar o futebol, no caso concreto da alta competição.

Pensa evoluir o Girabola para uma Liga profissional?
Perspectivamos a criação de uma Liga profissional, que deverá funcionar como uma actividade que permitirá rentabilizar. Os clubes que participarem da Liga, naturalmente serão pagos pela participação. Os campeões, os segundos e terceiros colocados terão um prémio muito superior em relação aos custos da sua participação.

Não serão muitos encargos para uma federação que há muito afirma ter escassez de recursos financeiros?
Não estou a dizer que a federação é que vai criar. A FAF tem que entregar esta responsabilidade a entidades privadas e há muita gente interessada. Já temos bancos interessados em financiar e patrocinar essa actividade profissional que é o futebol. Pensamos que vamos retirar um grande peso à federação.

A tarefa da federação será apenas fiscalizar?
A federação terá que centrar as suas atenções a nível das selecções, da Taça de Angola e da Supertaça. E também responsabilizar-se um pouco mais por criar instrumentos que visem regular e desenvolver o futebol. Esta é a nossa visão. Nós ajudaremos a criação de uma Liga profisional, que vá ajudar a profissionalizar o futebol senior no mais alto nível de competição. Penso que vai ser o grande mote para o desenvolvimento do nosso futebol.

Artur Silva promete acções concretas

Com que apoios está a contar?
Conto com muitos apoios, quer a nível clubes quer a nível nacional. E este apoio foi manifestado por altura do campeonato de jovens em Benguela e em Malange, porque afluiram para estas duas províncias um grande número de presidentes de associações e clubes antigos a nível da formação, e como a minha grande aposta é a formação, creio poder contar com o apoio de todos os clubes a nível nacional e, sobretudo, das associações nacionais.

Qual é a sua principal “arma” para convencer o eleitorado?
É a prática de fazer. Sou um homem de realizações e já mostrei à sociedade angolana aquilo que posso fazer no campo empresarial. Tenho hoje, a nível das empresas a que estou ligado, quase dez mil funcionários, empresas muito bem estruturadas, com bases muito sólidas. Dou o meu contributo à nação, com zelo, dedicação, mas sou um homem do terreno, de realizações.

Acredita que a longa experiência que acumula como gestor de empresas será fundamental?
Tenho a certeza que estando na liderança da federação vamos inverter o quadro da modalidade em Angola, porque pretendemos inverter o quadro, quer a nível dos campeonatos nacionais, quer das associações, das competições de futebol seniores. Quando se fala de futebol terá de se falar em profissionalização em termos desportivos e de gestão. Essa é a minha grande aposta. Gestão dos activos do futebol, quer em termos de recursos humanos quer de infra-estrutruras e organização.

Sente que tem em mãos um projecto valioso para o futebol?
No nosso projecto dividimos o país em cinco zonas de competição, às quais vamos procurar aglutinar três a quatro províncias em cada uma delas, de forma a permitir que possam trocar experiências entre si em termos de competição. Cada uma dessas zonas poderá eleger um representante que vai para a federação como membro da direcção, no sentido de levar rapidamente aquelas decisões.

E como será o contacto com a federação?
Tudo aquilo que se decidir em termos favoráveis para as associações provinciais, implicará que um representante leve para a zona e distribuia imediatamente, para que possamos estar mais próximos das associações e dos clubes. Queremos uma federação que viva directamente os problemas das associações e dos clubes.

“Tenho argumentos
para vencer as eleições”

Como encara o seu opositor, cuja lista é integrada, como se diz, por alguns “pesos-pesados” do país?
Considero o general um peso-pesado, um candidato da mais alta estirpe, mas conheço as minhas capacidades e os argumentos profissionais que tenho e a minha realidade em termos de prática empresarial. Pelo conhecimento técnico do desporto que tenho, porque a minha formação é desportiva e porque também fui praticante ao longo de toda a minha vida, tornei-me dirigente desportivo muito cedo através do Vitória do Sambizanga, acredito ter argumentos para vencer estas eleições, respeitando a capacidade do general.

Não teme, no entanto, pelo “peso” do concorrente?
Acredito que o mais importante é respeitarmo-nos mutuamente naquilo que são as nossas intenções e procurar mostrar o melhor argumento que convença, de facto, os nossos associados. Creio que pelos meus feitos nos últimos tempos, os amantes do desporto e os agentes desportivos ligados à modalidade irão, com certeza, optar pela minha pessoa, porque acredito reunir condições para num futuro muito breve mudar o quadro do futebol no nosso país.

Acredita que os nomes não decidirão nada nesta disputa?
Os nomes não significam realizações. Sou um homem de trabalho e aposto sobretudo em quadros, em recursos humanos e na capacidade de realização das pessoas. O elenco que trago comigo é bastante jovem e com muita capacidade. Não tenho nomes, mas pessoas, que profissionalmente vão corresponder às exigências de gestão empresarial que queremos impor dentro da FAF.

Tem confiança no elenco que criou?
As pessoas que convidei para a minha lista, além do compromisso que assumirão com a federação, assumirão também um compromisso pessoal com o candidato Artur Almeida, no sentido de honrarmos ética profissionalmente os compromissos que iremos assumir durante a tomada de posse para os quadros gerentes da federação. Daí que são pessoas bem escolhidas, que no seu dia-a-dia têm referências profissionais que as habilitam a estarem ao meu lado para este grande desafio que é mudar a imagem do nosso futebol.

A que se deve todo esse optimismo?
O cenário em si é favorável à minha pessoas. A sociedade desportiva precisa e quer mudanças e os clubes e as associações precisam de ter esperança no futuro. Penso ser o candidato que pode transmitir essa esperança a estas pessoas e aos amantes do futebol. Com a nossa juvialidade, perseverança e a dinâmica de trabalho e gestão estratégia de futuro, creio correspondemos, de facto, aos anseios dos amantes do futebol.

“Sou uma pessoa de trabalho”

Tendo sido o Jesus a pessoa que o convidou a integrar o elenco da FAF, que razões o levaram a não o integrar na sua lista?
De facto fui convidado, certa altura, pelo Jesus. Quem me conhece sabe que sou uma pessoa de trabalho. Posso dizer textualmente aquilo que disse na altura em que fui convidado pelo Dr. Justino Fernandes para integrar a sua equipa. Fui convidado depois de um debate, aquando da realização das eleições em 2004, que fruto da minha intervenção, simplesmente virada para o futebol, defendia que não devia atacar quem quer que fosse, nem atacar pessoalmente as acções, mas ver o futebol como um todo. O Dr. Justino Fernandes achou que um dia, mesmo ganhando ou não, eu devia trabalhar com ele.

Então, há muito que estava destinado à FAF?
Já tinha sido um convite quase prévio à minha pessoa. Foi então que na eleição seguinte fui abordado para fazer parte da lista e nessa altura já tinha falado também com o Jesus para que pudessémos fazer parte. Aceitei o convite, mas disse na altura ao Dr. Justino Fernandes o seguinte: aceito, mas devo dizer que sou uma pessoa de trabalho e tenho uma imagem e nome a defender, pelo que não vou para a federação para trabalhar em prol do futebol, mas sobretudo para ajudá-lo pessoalmente naquilo que seria a dinâmica de gestão da FAF.

Que ilações pôde colher dessa experiência com Justino Fernandes?
Nessa altura pude perceber que depois de termos sido enquadrados na lista para o elenco fui desenvolvendo o meu trabalho, tal como havia prometido. A dinâmica de trabalho ditou a realidade de hoje. Não foi para ultrapassar ninguém. Foi pelo facto de ter imprimido uma dinâmica de trabalho que permitiu granjear confiança por parte dos membros da direcção da federação, sobretudo o seu presidente, que foi uma das pessoas que me impulsionou a candidatar-me. Daí que tenho um enorme apreço e condideração pelo Dr. Justino Fernandes, por ter confiado na minha pessoa e na minha capacidade de realizar.

Mas considera Jesus um bom aliado para a missão que pretende empreender?
Vou tê-lo como um grande aliado a nível de assessoria e, se possível, um dos principais assessores a nível da própria federação. Vamos criar a nível da FAF um conselho de sábios do futebol, ou seja, aqueles que serão os verdadeiros conselheiros da federação. Mas não estamos a dizer uma coisa de retórica, são factos para realizar. Teremos um grupo de pessoas, que podem ser 20 ou 30, a nível nacional, que farão parte do grupo de sábios da FAF, aos quais deveremos recorrer sempre para o aconselhamento necessário, e Jesus será uma das primeiras pessoas.