Jornal dos Desportos

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Entrevistas

"As mulheres angolanas so batalhadoras"

Rosa Napoleo - 31 de Março, 2015

Olga Mendes tambm deu o seu contributo na seleco nacional de cadetes.

Fotografia: Jornal dos Desportos

A discriminação do género é uma realidade na sua profissão?
Não. Nunca fui discriminada, nunca percebi este tipo de comportamento e nunca parei para notar este tipo de situações. Pelo contrário, os meus colegas tratam-me com muito carinho. Se alguma vez aconteceu, passou-me despercebida. Tenho uma característica: nunca me importo com o que dizem de negativo a meu respeito. Faço o meu trabalho e sigo em frente.

Existe mulheres que desejam ser treinadoras, mas temem as responsabilidades. Que conselhos se lhe oferece dar?
Que sejam corajosas e não tenham medo de correr atrás daquilo de que gostam. Tudo na vida requer sacrifícios. As mulheres angolanas, em particular, são batalhadoras. E as que têm talento, aconselho-as a juntarem-se ao grupo existente, porque existem lacunas no lado feminino. O país precisa de mulheres no processo de desenvolvimento do desporto nacional. Juntem-se a nós.

Qual é a sua ambição neste ofício como treinadora?
Como qualquer treinador e simples desportista, desejo chegar ao escalão de seniores, sem utopia, ambiciono dirigir uma selecção nacional nos Jogos Olímpicos, a meta de qualquer desportista. Tenho a consciência do quanto é difícil chegar até lá, mas devemos sonhar sempre algo grande e crer que podemos atingir tarde ou cedo.  É certo que o primeiro passo nesta luta vai ser chegar aos nacionais de seniores. Sei que, com trabalho e dedicação, vou chegar lá. Tenho recebido bastante apoio dos colegas de trabalho e familiares e tenho abraçado sempre os conselhos que me levam a melhorar o meu trabalho.

Como  conciliar o treino com a gerência da família?
Para ser franca, não é fácil conciliar estas duas tarefas. Temos de ser dinâmicas para controlar tudo, mas felizmente conto com a compreensão do meu marido que facilita bastante o meu trabalho.  Muitas vezes, quando tenho de estar em campo ou com a equipa em treinos tenho de deixar a minha filha e o meu companheiro entende e ajuda. Se estiver em casa sem trabalho, sou incentivada a estar no campo sempre que há jogos agendados. Tudo para ganhar mais experiência. Portanto, não  posso queixar-me a esse respeito.    

Que  dificuldades  teve para chegar a este patamar?
Na vida tudo é difícil, não há nada que se adquire com facilidade. Tive muitas dificuldades  no princípio, porque não acreditava que possuía as condições para treinar uma equipa. Nunca fez parte dos meus objectivos ser treinadora, mas como estudei educação física e leccionava nesta área, foi-me feito o convite. Penso que temos de ter força de vontade e persistência para atingir os nossos objectivos. Lutar e não olhar para as críticas. Elas vão surgir ao longo da caminhada.

Ao registar 40 anos de independência nacional, como avalia o nível competitivo dos atletas, em particular no andebol?
A cada dia, o desporto angolano tem alcançado patamares cada vez maiores. Hoje, temos equipas a qualificarem-se para os Jogos Olímpicos como é o caso do andebol, a canoagem o basquetebol e outras. O andebol feminino, em particular, tem mostrado que está a crescer, é uma selecção nova, mas que está a substituir com dignidade as antigas estrelas. Ao contrário de outros tempos, hoje as atletas já se interessam em acompanhar os jogos nos pavilhões e nos estádios, estão informadas do que se passa no desporto nacional. Isso é muito bom.

Quais as vantagens da prática do desporto?
O desporto é de relevância importância para qualquer sociedade. A prática do desporto ajuda a melhorar a qualidade de vida, reduz o risco de desenvolvimento de doenças, aumenta a esperança de vida,  em fim, proporciona a saúde física e mental das pessoas. Por outro lado,  o desporto diminui a delinquência no seio da juventude. Nós, treinadores, vamos continuar a fazer o nosso trabalho, além de formar atletas,  circunscreve-se  no incentivo da juventude (feminina e masculina) a competir para dignificar a nossa Bandeira.

Que história guarda do amor ao andebol?
O gosto pela arte de treinar veio da prática do andebol. Entrei na modalidade como atleta na equipa do Petro Atlético de Luanda e evolui até atingir o escalão de seniores. Mais tarde, comecei a dar aulas de educação física na escola da IGCA. Lembro-me que a minha equipa esteve alistada para um torneio, a “Taça Chamavo”, e preparei-a sem experiência para a competição. Ganhámos a prova e o professor Moreira (falecido) convidou-me a começar a treinar. Na altura, temia, mas aceitei o convite. Hoje, estou há mais de dez anos como treinadora. O meu clube sempre foi o ASA e também já prestei serviços à selecção nacional de juniores e de cadetes.
Silva Cacuti