Jornal dos Desportos

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Entrevistas

"As nossas atletas so patriotas"

Silva Cacuti - 06 de Dezembro, 2013

O sete nacional estreia-se amanh, diante da Argentina, e Pedro Godinho afirma que nunca faltou vontade s atletas de representarem o pas

Fotografia: Jornal dos Desportos

Jornal dos Desportos (JD) – Começa hoje o Campeonato do Mundo. Que perspectivas há, o que se pode projectar em relação à participação angolana?

Pedro Godinho (PG)- De há uns anos para cá, por causa da coincidência de datas entre mundiais e africanos (os mundiais disputam-se em Dezembro e os africanos em Janeiro) sempre foi prioridade total os campeonatos africanos e todas as nossas equipas técnicas faziam do campeonato mundial uma espécie de estágio competitivo para o campeonato africano. A partir de 2007, quando fizemos aquele brilharete no mundial de França, com o técnico Gerónimo Neto, em que obtivemos o 7º lugar, sentimos que no Campeonato do Mundo passou também a ser um objectivo ter resultados acima da média, ou seja, dentro das 12 melhores do mundo e dentro do grupo, sempre que o sistema de cruzamento permitir, ir aos quartos-de-final e, acredito, começámos a estar muito próximos de um dia entrar nas meias-finais.


JD - É isto que está definido como objectivo?

PG - Definimos como primeiro objectivo passar para os quartos-de-final e penso que no mundial todos os grupos são iguais e quem quer atingir resultados tem que ganhar os jogos que são possíveis ganhar. Olhando para o nosso grupo, com maior ou menor dificuldade, vamos estar nos quartos-de-final. Ainda temos hipóteses de surpreender ou a Polónia ou a Espanha e tentar ficar em terceiro ou segundo na fase preliminar. Não ficar em quarto também é um objectivo para evitar na outra fase o primeiro do grupo D. Se assim for, podemos começar a antever a nossa chegada aos quartos-de-final. Então auguro como média mínima, nunca fora das 12 melhores do mundo. Depois, como objectivo, dentro das oito melhores do mundo. Uma coisa é a média exigível e outras são os nossos objectivos.


JD - Esta meta e objectivo revela ambição mas também algum receio de assumir.
PG - Se conseguirmos isso, vai motivar o grupo, vai fazer-nos acreditar, porque estamos com uma selecção em franca renovação. Já não contamos com quatro ou mais atletas que entendemos serem daquela geração de atletas nucleares, como Nair Almeida, Elzira Tavares, Bombo Calandula, Odeth Tavares, Isabel Fernandes. Já mudámos, pelo menos, seis atletas e em termos de entradas registámos algumas subidas de atletas. Felizmente, a nossa política de conseguirmos estar sempre presentes em campeonatos africanos e mundiais nos escalões de cadetes e juniores permite que elas entrem já com algum “back ground”, algum traquejo em competições mundiais. Neste aspecto, elegemos o ano de 2014 para correr todos os riscos, é o ano em que estamos a substituir, quer dizer, que substituímos um percentual superior ao recomendado.


JD - Há indicadores para a estabilidade dos níveis alcançados pela selecção, apesar deste quadro de substituições ou renovação?
PG - Os indicadores que temos são positivos. Por via do torneio da Coreia do Sul, do torneio do Brasil, deste torneio que disputámos agora na Sérvia, por via do jogo com a França, vice-campeã do mundo, em que perdemos por quatro golos e vencíamos ao intervalo, acredito muito sinceramente que o professor Vivaldo está a atingir os níveis para atingir este objectivo. Se conseguirmos isso, acredito que em 2015 vamos ter uma selecção mais consistente e, se calhar, vamos assumir já em 2015 uma proximidade mais efectiva aos lugares de medalhas.


“Vamos disputar o Mundial
com jogadoras patriotas”


JD - Sentimos que este processo foi envolvido em equívocos, levando as pessoas a pensar em desistências e até a pensar-se na falta de patriotismo da parte das atletas.
PG – Houve, sim e não estamos alheios às informações, reparos e até às críticas. O que se criou foi um espectro de desistência, de recusa, inclusive e de alguma falta de patriotismo. Quero aproveitar para dizer que, em cinco anos de presidente da FAAND, pela primeira vez no dia da apresentação das 25 atletas convocadas apareceram 23, que se equiparam e estavam prontas a dar início aos trabalhos. Não esteve a Maria Pedro, que tinha uma situação familiar de uma sobrinha que estava internada, não esteve a Azenaide Carlos que, por saber que estava lesionada, entendeu que não tinha necessidade de se apresentar. Também para evitar este espectro que já se sentia no ar tive o cuidado de reunir com os dois presidentes dos clubes que mais atletas cedem à Selecção Nacional, o senhor general Carlos Hendrick, do 1º de Agosto e o senhor Mateus de Brito, do Petro de Luanda, de quem recebi garantias de colaboração com a selecção, por serem eles que cedem as suas trabalhadoras para o sete nacional.


JD - E então surgiram as dispensas...
PG - Tivemos cinco ou seis casos em que nos pediram dispensas e devo dizer que todos os pedidos que tivemos foram analisados, caso por caso, pelo douctor Abel que coordena o departamento médico e a direcção da Federação. São os casos da Nair, Azenaide Carlos, a Juliana Machado. Dispensámos a Alzira Barros que usou do estatuto sublime de mulher. Pelas mesmas razões a Bombo Calandula. A Maria Pedro, mal terminou a preocupação com a sua sobrinha, juntou-se à Natália Bernardo que não foi ao estágio com o grupo porque ia receber o diploma de licenciatura. A Albertina também não foi, porque, por ser menor, entendemos que devia fazer as provas primeiro e depois seguir para o estágio. E juntaram-se ao grupo. Por isso, posso dizer que vamos jogar o Mundial com um grupo de atletas patriotas que colocaram em primeiro lugar os interesses da Nação, em detrimento das suas preocupações. Foi gratificante para mim notar que dos pedidos de dispensa, em nenhum momento nos deram a entender que houvesse falta de vontade de jogar pela selecção.


JD - Não houve exigências novas da parte das atletas em termos de condições de trabalho, subsídios e prémios?
PG - É natural. Pediram-nos para melhorar as condições da selecção. Depois de tudo o que têm dado, é natural que quisessem estar neste Mundial em condições melhores que na última empreitada. As atletas quando treinam recebem subsídios, complementos alimentares, subsídios de treino, de transportes, ajudas de custo, a equipa técnica é contratada e por causa da gestão financeira decorrente do acordo de parceria com a Total, aceitámos melhorar os subsídios diários e penso que atingimos um ponto entre a satisfação e o poder pagar. Vimos qual é a nossa disponibilidade financeira, apresentámos uma proposta e elas a contra-proposta e toda a gente saiu de Angola com os valores acertados para serem pagos que, devo dizer, são cerca de 30 por cento melhores que os do Mundial anterior.


JD - Mas vamos ter logo depois do Mundial os campeonatos africanos. O que se faz para que o desempenho das nossas selecções e resultados estejam assegurados?
PG - Em relação à equipa feminina, devo dizer que a Azenaide, a Isabel Fernandes, Wuta Dombaxi estão a trabalhar com o preparador físico, para melhoria da condição e são possibilidades para a equipa em função de eventualidades. Também já vamos poder contar com a Juliana Machado que está em Espanha com disponibilidade para ser opção para o treinador, porque queremos ganhar o campeonato.


Revelação
Masculinos têm condições asseguradas
JD - O que há para a Selecção Nacional masculina?
PG
- Um dos ganhos que a Federação já teve era o torneio internacional de Cabinda que todos os anos permitia potenciar as nossas selecções porque, como sabe, os masculinos têm o mesmo drama dos femininos que é o défice de jogos de grande intensidade. Os países do Magreb estão alguns pontos acima de nós, nesta ordem, Tunísia, Egipto e Argélia. A Argélia, que vencemos há alguns anos atrás, quando ganhámos o direito de jogar o Mundial, não é a mesma, renovou a sua equipa e ressurgiu.

Temos estado a potenciar a selecção masculina. Se reparar, fizemos um investimento um pouco alto a nível de cadetes e juniores. Estes escalões, quando vão aos Campeonatos do Mundo, vão só para participar. Numa eventual limitação financeira era normal que não houvesse estágios no estrangeiro, que fôssemos directamente para os mundiais, que fizéssemos o que na gíria se diz “preparação possível”, mas nós, dentro da estratégia de potenciar a selecção masculina, investimos um bocado e foi possível, quer a selecção de juniores quer a de cadetes, fazer estágios competitivos bons, em países do leste da Europa, porque sabíamos da grande potencialidade destas selecções em ceder atletas para a selecção nacional de seniores.


JD – Concretamente, qual é a estratégia para o Africano?
PG - Bom, quem nos tem impedido de chegar ao pódio, muitas vezes são os países da África subsariana. Então, identificamos as equipas que eventualmente uma vez ou outra ganham a Angola, Camarões e RDC. A RDC ganhou-nos aqui em Angola e quanto aos Camarões, ainda agora na Taça dos Clubes Campeões foi uma das suas equipas que afastou o 1º de Agosto. Então, a nossa estratégia foi fazer um torneio em que nos esquecemos um pouco dos árabes. Os países africanos vivem este défice de jogos e aceitaram o nosso convite para vir jogar um torneio aqui, RDC, Camarões e Congo Brazzaville, com as equipas principais, e este torneio vai ser o nosso primeiro estágio. Eles já estão há alguns dias a treinar.


JD - Depois do torneio, qual é o programa de preparação subsequente?
PG - No dia 1 ou 2 de Janeiro a selecção vai retomar a preparação com um estágio no leste da Europa, na Sérvia, para tentarmos chegar à Argélia no máximo da nossa força.


Comissão de Atletas

“IHF é um lugar
da Marcelina”


JD- Marcelina Kiala consta da lista de 17 candidatas à comissão de atletas da Federação Internacional de Andebol. Ao que nos constou foi a Federação que avançou com a candidatura. Como decorreu o processo?
PG - Isto, modéstia à parte, foi ideia minha. Quando fui ao congresso da IHF, em Doha, Qatar, fui informado de que este ano havia de decorrer a eleição da Comissão de Atletas. Então, tive a ideia de consultar a Marcelina Kiala, já que esta candidatura obedece a alguns termos de referência, como um certo número de presenças em campeonatos mundiais e jogos olímpicos. A Marcelina aceitou e apresentámos a sua candidatura, depois de consultar a direcção da federação.


JD - Porquê a Marcelina Kiala, quando podia pensar-se em outras atletas?
PG - Temos todos consciência de que a Marcelina está a jogar o seu último Campeonato Mundial e provavelmente em Janeiro faça também o seu último Africano. Então, entendemos que era o momento ideal para podermos investir um pouco mais na sua imagem, tendo em conta o “day after” dela. Lembro que a Marcelina já esteve numa lista para a direcção da Federação, já era o assumir do abandono definitivo. Ela esteve na lista do candidato Camilo Ceita e, por alguma sorte, a lista não ganhou e conseguimos convencer a atleta e as pessoas vêem com que nível ela ainda joga.


JD - Com este acto também não se está a precipitar o fim da carreira da Marcelina?
PG - Agora não, a realidade é diferente. Agora sentimos todos que, infelizmente, já é um esforço muito grande ela estar no Mundial e no Africano. Se ela quiser ainda jogar em 2016, se a sua condição física permitir não é a Federação que lhe vai fechar a porta, de forma alguma. Mas entendemos que é bom para ela, para Angola, sermos nós angolanos a liderar em África um projecto de ter atletas na Comissão Mundial. É assim que depois de cumprida a primeira formalidade vamos pedir ajuda aos órgãos de comunicação social para irmos passando a mensagem a todos os angolanos, para a nossa Marcelina ter um lugar de direito. Acho que é de direito, depois de ter sido uma das melhores marcadoras do Mundial, ter sido nomeada para uma das melhores jogadoras do mundo. Então, acho que era uma forma de ajudar a atleta a sair do andebol em beleza, já com uma ocupação a nível do dirigismo desportivo.