Jornal dos Desportos

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Entrevistas

\"As selecções trabalham a custo zero\"

Silva Cacuti - 31 de Julho, 2017

Joaquim Cafuxi Muachimica Gestor do complexo desportivo da Cidadela MICA

Fotografia: José Cola| Edições Novembro

Quando se fala do Complexo Desportivo da Cidadela, fala-se de quê, concretamente?
" Queria primeiro agradecer a oportunidade que o Jornal dos Desportos me oferece. Estamos a falar de um conjunto de instalações desportivas, em que enquadramos o Estádio Nacional de Futebol, que inicialmente foi concebido para uma capacidade de cerca de 60 mil espectadores, mas hoje em função de algumas situações com a desmobilização do segundo anel passou a ter aproximadamente 25 mil lugares, que é o primeiro anel de bancadas. Significa dizer, que o segundo anel já não é utilizado há  mais de 10 anos, e quando falamos do estádio, restringimo-nos ao primeiro anel.
O Complexo Desportivo da Cidadela (CDC) também tem outras três instalações, que são o pavilhão principal e dois pavilhões anexos.
De uma forma geral, este é o conjunto de instalações que constitui o CDC. Tem os parques de estacionamento, as Federações nacionais,  tem algumas instalações  à volta do Estádio Nacional, que são áreas de serviço como lojas, que para um aproveitamento melhor em função das  necessidades estas áreas estão arrendadas".

Que actividades acolhem cada um destes pavilhões?
"O pavilhão principal é o que normalmente recebe os grandes eventos desportivos de sala, estamos a falar de basquetebol, andebol hóquei em patins, futsal, voleibol e outros, tem uma capacidade de 6 mil 720 lugares. Depois temos dois pavilhões anexos de apoio que servem para o basquetebol, voleibol, futsal, e andebol, cada um deles tem uma capacidade de cerca de 2 mil pessoas.

Há espaços privados dentro do que circunscreve o CDC, como o Centro de Alto Rendimento de Angola, afecto à Federação Angolana de Ténis de Mesa?
" Não. Ao lado da Galeria dos Desportos há um espaço que pertence ao CDC, é nosso. Temos sim, pode considerar-se assim, a Federação Angolana de Ténis de Mesa,  que é uma infra-estrutura que se encontra dentro do CDC, mas é gerida à parte, não por nós. É gerida pela Federação de Ténis, e dentro dela tem outros serviços que não são da nossa competência.

A direcção do CDC tem avenças que vêm daquele edifício?
- Não.
Então é um espaço cedido...
"Aquele é um espaço da Federação que criou lá o centro de estágios e para apoio ao centro foi criado um restaurante. Todas as receitas provenientes do centro e do restaurante cuja gestão foi cedida a terceiros, são alocadas à Federação. Há um contrato que existe nós não conhecemos os meandros.

Quem são os principais usuários ou clientes do CDC?
"O principal usuário do CDC são as Associações desportivas. Federações, por via das selecções nacionais  e os clubes, por via das equipas que nos solicitem para treinos, jogos, enfim. Estes são os potenciais usuários, na vertente de instalações desportivas.
Depois temos outros usuários que são os clientes a quem arrendamos os espaços que temos para dar aproveitamento.

Quais são os serviços que o CDC oferece ou dispõe?

"Para além dos campos, temos espaços que estão arrendados, uns são armazéns e ou  escritórios. Arrendamos espaços para recolher receitas para sobrevivermos".


“Os clubes pagam os treinos e jogos”

Quem arrenda os campos?

"Temos de entender que arrendamos os campos não às Selecções Nacionais, sempre que for necessário, trabalham de forma grátis. Não há nenhuma cobrança para as Selecções Nacionais. Só não cobramos às selecções. Se em algum momento alguém disser que não treinou na Cidadela, foi porque não teve disponibilidade de campo ou porque lhe foi cobrado, só peço a vocês que exijam o comprovativo de pagamento. Éramos incompreendidos, porque antes, quando uma selecção nos solicitasse um campo, fazíamos o cálculo do uso da instalação, horas, dias, consumo de água, energia e mandávamos para a Federação para conhecimento de que durante a utilização houve este gasto, entretanto não era cobrada".

Quem é que paga pela utilização destes recintos?
"Se um clube nos solicitar para  um treino ou um um jogo, temos de cobrar e temos procedido assim. Se uma Federação solicitar para a realização de um campeonato nacional, cobramos porque aí são os clubes que pagam uma taxa à Federação, e nós temos de cobrar".

E, qual era a razão de fazer cálculos, e enviar à Federação se não era cobrado?
" Este calculo para nós é uma estatística. Temos de informar ao Ministério que a selecção "A", "B" ou "C" treinou durante um mês, e que durante esse tempo tivemos esta ou aquela despesa, porque são dados para entrarem nas nossas estatísticas".

Então vocês conseguem com este método quantificar a utilização dos espaços desportivos por semana, mês, semestre, ou ano?
"Sim. Neste momento se alguém quiser que lhe dê a informação do que é que temos de utilização, posso abrir a minha palmilha  e sabemos".

As Federações remetem a vocês os programas da época para facilitar o vosso trabalho?

"Temos estado a conversar com as Federações, mas a de andebol, por exemplo, é a única que antes da época terminar submete-nos o programa da época seguinte, em termos de utilização, tanto dos campeonatos nacionais, taça de Angola e das selecções nacionais . Isto, facilita o nosso trabalho e jogamos com as outras modalidades. Por exemplo, quem vem com um pedido para fazer um jogo em determinado dia, já sei que nesta data não posso, porque desde o início do ano tenho o programa da Federação X. Aí, não explicamos, mas manifestamos à indisponibilidade e nem sempre temos compreensão neste aspecto".


ALUGUER DE RECINTOS
“A prioridade é actividade desportiva”


E, com aqueles que querem realizar actividades não desportivas nestes recintos?
"Temos sempre o cuidado de avisar a quem nos solicite nestes termos, que a prioridade número 1, número 2 e número 3, é sempre a actividade desportiva. Se essa actividade desportiva se considerar relevante, então avisamos a quem nos solicitou o recinto antes, com muita antecedência, que infelizmente temos que dar espaço à actividade desportiva. Não temos tido problemas, mas pode acontecer".

É cara a utilização dos pavilhões?
"Depende da perspectiva. Se é na perspectiva da actividade desportiva como tal,  ou extra-desportiva. Temos dois cenários".

Como pagam aqueles que fazem desporto e os que não fazem desporto. Há taxas distintas?
"Pagam taxas diferenciadas. Vou dar um exemplo, no caso do andebol. Por cada jogo realizado à noite, cobramos 108 mil Kwanzas. Se forem quatro jogos, então o valor é multiplicado. A nossa política para além de arrecadar receitas para conservar o espaço e nos mantermos, e não dificultar os clubes ou Federações no sentido de não utilizarem o espaço. Neste caso concreto, estão previstos seis jogos por dia, só estamos a cobrar o equivalente a um jogo por dia. Achamos que esta é a nossa forma de comparticipar na modalidade.
Se for uma actividade musical, por exemplo,  o valor do aluguer ronda os 2 milhões de Kwanzas. Ainda assim, comparativamente com outros espaços, não é caro, porque quem vem para cá beneficia de um parque de estacionamento, enfim.

Qual é o quadro de força laboral de que dispõe para manter o CDC?
"Nós temos, no total, 11 trabalhadores. Não é um quadro para a demanda.  Trabalham até ao limite. Temos um nível de trabalhadores que muita gente não conhece, são os nossos colegas portadores de deficiência. Têm salários, segurança social garantida, enfim.


“Gestão do parque pode ser terceirizada”

Vocês não rentabilizam os estacionamentos?
"Tivemos esta ideia, mas as pessoas..., cada uma pensa que é dona da cidadela, é do Estado, cada um faz o que bem entender. Já tentámos cobrar o acesso aos parques, mas tivemos uma reacção negativa, então, estamos a ver outra forma.

Concretamente...
-"Se merecermos esta anuência, criar uma estrutura, ao invés de sermos nós, fazer o que se faz no aeroporto, alguém toma conta do parque para rentabilizar. Vamos ser criticados, mas as coisas estão assim, nós precisamos de sobreviver.

A Cidadela não é uma unidade orçamentada?
-"Muita gente pensa que o CDC é uma unidade orgânica orçamentada, mas não é. Nunca foi. Se houve tempos em que CDC teve saúde financeira boa, já foram. Hoje em dia, não temos saúde financeira. A Cidadela vive única e simplesmente de receitas que arrecada desses alugueres aí, e das actividades extra-desportivas. Se não rentabilizarmos isso, os nossos trabalhadores não têm salários. Se não rentabilizarmos, não temos condições para garantir o IRT, a segurança social dos nossos trabalhadores, e nem sequer  a sua manutenção".


“Estádio sempre esteve operacional”

Nós vemos os jogos do Girabola no Estádio Nacional, qual é a sua actual situação?
"O Estádio Nacional está operacional e sempre esteve operacional. Tenho de dizer isso com toda a franqueza, acho que houve alguma infelicidade de algumas pessoas que se precipitaram, em função dos acontecimentos do Uíge. O Estádio é uma infra-estrutura antiga, tem deslocamento de placas e em função dos deslocamentos, houve uma decisão do Ministério de não utilizar o segundo anel. Então, há décadas que se ouvem comentários de que o Estádio vai cair, mas não cai.
Quando houve a situação no Uíge, fizeram-se comentários e o Progresso era a única equipa que jogava aqui, e algum membro da FAF terá sugerido ao Progresso que não devia mais fazer os jogos aqui,  por razões de segurança, e o clube escreveu-nos a alegar razões de segurança. Paradoxalmente, a Federação tinha feito uma vistoria ao campo e considerou apto o campo.

Recentemente houve treinos das selecções jovens no Estádio! 
"Há uma orientação ao Progresso para não jogar aqui, mas estamos a receber um pedido para as selecções treinarem,  sub16 e outras. Recentemente, houve testes para os árbitros e usaram sem problemas. Continuamos a receber solicitações da FAF, e continuamos a aceitar, porque não podemos colocar dificuldades. Temos pena é que por via de um comentário, alguém da FAF espantou o Progresso, e o clube saiu. Já fizemos apelo de que o Estádio está em condições de ser utilizado".
 
Sabe de alguma medida que esteja a ser engendrada da parte do Ministério da Juventude e Desportos para solucionar a situação do Estádio que é, também, histórico?
-"Não. Não posso dizer nada sobre isso, desconheço. Sei que houve um primeiro estudo, recentemente recebemos uma equipa de engenharia que fez um levantamento, por coincidência o engenheiro que esteve pela segunda vez já tinha dirigido o primeiro estudo, este levantamento depois de apurado faz-se um relatório, que é submetido às instâncias competentes que tomam a decisão. Neste momento, suponho que o relatório  deste último ainda não foi submetido às instâncias competentes, só depois disso, as instâncias se pronunciarão".


É PRECISO NOVA TUBAGEM
“Acabou a infiltração de água”


O pavilhão principal que é a "sala nobre" do CDC, como está hoje tecnicamente, após à intervenção a que foi submetida em vésperas do mundial de hóquei em patins? 
"Está funcional, apresenta algumas situações, por exemplo neste momento, embora esteja a acolher os "nacionais" de andebol, registamos uma ruptura que priva os balneários de água. Tivemos de fechar, porque senão ia meter água no piso.
Felizmente temos capacidade de resolução desta questão, só que a tubagem em causa passa à tangente da quadra de madeira, o que nos obrigaria a recorrer ao Ministério da Juventude e Desportos para a remoção do piso, porque envolve muitos valores. E, sabemos que o Ministério também não está muito bem.

O que vão fazer?
"Vamos eliminar a tubagem que é colonial e colocar outra".

Os placards estão bem?
" Os placards estão funcionais, e há dias perguntei a razão dos nomes das equipas não estarem a aparecer no placard, tem a ver com os operadores de mesa".

Vocês não têm um técnico que manuseia a mesa, enquanto há competições?
"Não. Nós preferimos colocar tudo à disposição dos usuários, porque gerir a mesa de cronometragem é melindroso. Qualquer falha do nosso operador pode prejudicar o jogo, e depois seremos responsabilizados. Então, esta parte é da Federação ou do clube que está a utilizar o recinto".

Acabou o problema da infiltração de água?  
"Ficou definitivamente debelado . O que pode acontecer é o que se passou no pré-olímpico, muita ventania enquanto chovia, e que arrastou a humidade para dentro do recinto. O que se diz do pavilhão principal diz-se também dos anexos. Nos anexos estamos a substituir as lâmpadas, e para isso, tivemos que contratar equipas de alpinistas.

Como é mantida a segurança do CDC, porque ouve-se não poucas vezes, relatos de roubos dentro do complexo. Vocês têm encargos com a segurança?
"Nós temos uma equipa de vigilantes, que não têm nenhum elemento de defesa, mas dentro do CDC temos empresas com guarda, tanto os nossos como os guardas que labutam aqui, acabamos por concluir que não prestam bom serviço.

O que o leva à esta conclusão?
" Esta questão é muito grave, com a qual nos debatemos há já bastante tempo. Esta situação para acabar, depende do apoio que recebermos das forças policiais. Se não houver uma intervenção profunda da polícia, esta situação vai continuar. Digo isto, porque os nossos vigilantes não os conseguem tirar, porque são homens desarmados".

Então os causadores desta instabilidade estão localizados?
"Estão localizados. Inclusive, já fizemos um levantamento, identificamos os locais onde ficam, notificámos a Esquadra Policial que está aqui perto, e a polícia já os recolheu, mas voltaram. Inclusive, fomos obrigados a colocar grades em todas as rampas do Estádio porque eles vivem nas bancadas, e faziam delas casas de banho. Tínhamos casos de pessoas que vinham para cá e assaltam transeuntes, vinham fazer tudo aqui, enfim, colaboramos com a polícia, só que eles são tirados daqui e voltam".

Há também serviços de lavagens de viaturas...

"Tínhamos sugerido, e demos liberdade aos serviços de fiscalização de actuar aqui dentro. Há realmente indivíduos que vêm para cá , e fazem disto  estação de serviço. Se a fiscalização prender e remover as viaturas que são lavadas aqui, as pessoas vão ficar desencorajadas. Então, o apelo que faço à fiscalização é no sentido de que não precisam de esperar a notificação do CDC para virem aqui actuar".


UM PROBLEMA ANTIGO
"Quando chove ainda há inundação no Estádio"

Qual é a ideia que paira em torno da situação do Estádio?
"A ideia é a recuperação, isto aqui tem história, todos nós gostaríamos que o Estádio da Cidadela fosse recuperado. A forma desta recuperação,  os técnicos hão de aconselhar , se a retirada do segundo anel ou não, vamos aguardar que haja uma decisão em torno disso.

Vocês debelaram aqueles problemas de inundação do Estádio quando chove?
"Não. O problema mantém-se"

Como têm feito para evitar que o Estádio se transforme em banheira gigante nos dias de chuva?
"Temos feito um esforço sobrenatural, e quando há aquelas chuvas prologadas, não esperamos que cessem para lançarmosas nossas mangueiras e pôr as moto-bombas para tirar a água para fora. Trabalhamos com chuva. Eu e meus colegas ficámos debaixo da chuva, para evitar que haja aquele acumulado de água na relva, e quando acontece a relva fica submersa, mas já não durante três a quatro dias como ocorria antes".


Perfil

Nascido em Camatundo, Chitato, na província da Lunda Norte, Joaquim Cafuxi Muachimica é o homem que tem a seu cargo a gestão do Complexo Desportivo da Cidadela (CDC), o maior complexo desportivo do país.

Entrou para o quadro do Ministério da Juventude e Desportos impulsionado por Rui Falcão Pinto de Andrade, então chefe de departamento da direcção nacional de cultura Física e Educação, da antiga Secretaria de Estado de Educação Física e Desportos.

Formado em gestão e administração pública, com passagem pelo INEF, Joaquim Cafuxi foi praticante de andebol e alinhou em equipas como o Ferroviário de Angola, 1º de Agosto e Petro de Luanda. Chegou a ser técnico - adjunto de Pina de Almeida, na equipa feminina de andebol do 1º de Agosto.