Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

Atingi o estado de saturao

Melo Clemente - 31 de Maio, 2011

Crticas contundentes contra a FAB levaram o rgo reitor a rescindir o contracto com o treinador.

Fotografia: Jornal dos Desportos

Apesar ter perdido a 33ª edição do Campeonato Nacional de Basquetebol em seniores masculinos para o Petro de Luanda e a Taça de Angola para o Recreativo do Libolo, o técnico português Luís Magalhães, que terminou o seu vínculo laboral com a formação do 1º de Agosto no último sábado, afirmou em entrevista ao Jornal dos Desportos que deixa a equipa rubro-negra com o espírito de missão cumprida. Em três anos e meio de trabalho, Luís Magalhães conquistou nada mais, nada menos do que 15 títulos, entre campeonatos nacionais, taças de Angola, supertaças, campeonatos provinciais, ligas dos clubes campeões africanos, além da Supertaça Compal, prova destinadas aos campeões nacionais e vencedores da taças de Angola e Portugal.

Jornal dos Desportos: O quarto lugar alcançado pela equipa militar contribuiu para a sua saída?
Luís Magalhães - De maneira nenhuma. Quando fui contactado pelo vice-presidente para o basquetebol do 1º de Agosto, José Moniz, era para assinar um contracto de três anos. Cumprido este prazo, decidi regressar a Portugal, porque considero que atingi o estado de saturação.

JD - Nunca a direcção do 1º de Agosto lhe solicitou para renovar o contracto?
LM - Repare. No ano passado, já era para ter regressado, mas, atendendo às solicitações, acabei por ficar mais um ano. Mas, desde muito cedo, tínhamos chegado mais ou menos à conclusão de que era o fim de um ciclo. Isto é assim mesmo, a vida tem os seus ciclos naturais e parece-me a mim que este era um ciclo natural. Era muito complicado estar aqui mais tempo, apesar de me terem proporcionado excelentes condições de estadia, além do facto de ter sido muito respeitado e considerado. A família também conta e é preciso estarmos junto dela.

JD - Esta classificação (quarto lugar) acabou por surpreender a equipa técnica?
LM - Não surpreendeu porque, se estiver com atenção à calendarização desta época, foi muito complicada desde o início. A fase em que as equipas devem ter mais jogos do que treinos, são os períodos competitivos. Nos períodos competitivos, por exemplo na “Final Four”, que havia três jogos por semana, fizeram-se mais jogos do que treinos e na fase anterior isso não se verificou. Nós começamos a fazer mais jogos do que treinos porque é importante que os jogadores descansem minimamente e isso não aconteceu connosco porque começamos logo com o apuramento à Liga dos Clubes Campeões Africanos ao que se seguiu logo o Provincial.

JD - O Petro de Luanda acabou por conquistar o BAI Basket de forma meritória?
LM - É evidente que sim. As outras equipas também trabalharam e aproveitaram as nossas fraquezas para sobressaírem, mas, de qualquer forma, está a falar de um campeonato, mas é importante referir que esta época teve seis títulos em disputa e sei que vocês não gostam muito porque quando o 1º de Agosto perde é que é notícia, quando ganha, é natural, mas a verdade é que nós ganhamos três títulos, o Interclube ganhou um, Libolo também um e o Petro de Luanda ganhou igualmente um troféu.

JD - Parte para Portugal com o sentimento de dever cumprido?
LM - Naturalmente. Penso que conquistar 15 títulos em três anos é obra. É evidente que gostaria que fossem mais.

Técnico
reconhece falha nas opções

O ex-técnico do Clube Central das Forças Armadas Angolanas reconheceu que foi bastante injusto com alguns jovens jogadores que poderiam ter sido mais utilizados durante a época desportiva de 2011, a julgar pelas suas qualidades técnicas individuais, tendo ressaltado o nome de Hermenegildo Santos, base, de 19 anos de idade. “Destes jovens, aquele que penso que acabou por ser mais injustiçado pelas opções da equipa técnica, na qual eu era responsável, foi sem sombra de dúvidas o Hermenegildo Santos, que foi um atleta que ao longo da época se dedicou muito, sempre educado e sobretudo bastante trabalhador.

 Infelizmente, o Hermenegildo Santos nos mementos em que lhe foram dadas as oportunidades, nunca as agarrou, mas, eventualmente, merecia mais oportunidades. Portanto, não me incomoda reconhecer essa realidade”. Luís Magalhães apelou aos jovens jogadores a trabalharem cada vez mais para conquistarem um lugar na equipa. “Em todas as profissões do mundo, os mais novos são aqueles que têm de trabalhar mais para suprirem a decalage que têm em termos de experiência em relação aos mais velhos. O que acontece é que esta malta nova não percebeu isso, e tanto faziam duas, três semanas seguidas de excelentes treinos, como a seguir ficavam uma semana sem aparecer sem qualquer justificação e nós como treinadores temos de dar educação e formá-los como atletas”. MC

Magalhães
acredita em Yanick

O técnico luso enalteceu a direcção do 1º de Agosto, liderada por Raul Hendrick, pelo facto de ter aprovado este ano o projecto de envio de jovens atletas para os Estados Unidos da América. “Já que falou de jovens atletas, gostaria de dar os meus parabéns à direcção do clube pelo facto de terem aprovado o projecto de envio de atletas para os Estados Unidos da América. Eu e o director Sílvio Lemos concebemos esse projecto. O atleta Yanick Moreira já está numa das universidades dos Estados Unidos da América e penso que será um dos melhores jogadores de Angola a actuar na posição cinco (poste). E muito provavelmente poderá actuar na NBA, porque ele tem talento e se continuar a trabalhar da mesma maneira acredito que chegará lá”, vaticinou Luís Magalhães, que sábado a noite deixou a capital do país, rumo a Portugal. MC

Magalhães
desvenda mistério

 Se o casamento com a formação do 1º de Agosto terminou de forma amigável, o mesmo não se pode dizer da sua ligação à Federação Angolana de Basquetebol, que na segunda quinzena de Abril último rescindiu de forma unilateral o contracto com o técnico português Luís Magalhães.

JD - O que esteve na base da rescisão do seu contracto por parte da direcção da federação?
LM - O que esteve na base da rescisão, não há dúvidas que foi a falta de capacidade para reconhecer os erros. As pessoas não são organizadas e não admitem críticas construtivas. Costumo dizer aos meus amigos e colaboradores que organização não é SIDA. Infelizmente, para algumas pessoas, parece que a organização é SIDA, fogem da organização como fogem de uma doença que pode matar as pessoas. Portanto, foi muita desorganização, muita confusão, muita falta de cumprimento dos deveres mínimos de uma instituição que o presidente me disse era de honra e de palavra, quando ficaram a dever dinheiros sempre a toda hora e momento.

JD - A direcção da federação ainda lhe deve?
LM - “Graças a Deus, tenho as minhas situações resolvidas, devo aqui dizer, de forma honesta. Mas, a verdade é que há treinadores adjuntos que ainda não receberam os seus dinheiros e há jogadores que me disseram que também ainda não receberam. Parece ser um hábito, parece que é uma forma de estar, mas uma forma de estar errada, as pessoas devem assumir os seus compromissos a tempo de horas e isso a federação não consegue fazer.

JD - Foi uma rescisão que lhe surpreendeu?
LM - Completamente. Achei muito estranho, porque ao longo do ano recebia mensagens de encorajamento, tenho email’s do presidente da federação a dar os parabéns pelo título da Liga dos Clubes Campeões que nós ganhamos, solicitei uma reunião no início de Janeiro para, a tempo e horas, tratar aquilo que tinha de tratar, para vermos o que estava errado e havia vários incumprimentos, vários documentos que diziam que iam pagar até uma determinada data e, mais uma vez, não cumpriram e nunca foi respondida. A única resposta que tive foi que estava muito ocupado e ficava para o fim do mês, só que este fim do mês nunca chegava. Nunca tiveram coragem de falar comigo e acho muito estranho e penso que não é digno de pessoas que estão à frente de instituições com prestígio em Angola”.

JD - No seu entender, houve má fé por parte da FAB?
LM - Claramente. Eles nunca tiveram coragem de me chamar e dizer: olha, por ter dito aquilo, não queremos continuar a trabalhar consigo’. Pelo contrário, eles tinham informações de pessoas que estavam dentro da federação, que sabiam que eu não queria continuar devido à desorganização. Outro aspecto que gostaria de dizer é que foi uma falta de respeito, não só para comigo, mas também para com os treinadores angolanos, porque toda a gente sabia que tinham feito um compromisso com o treinador francês e surpreendentemente o presidente da federação veio dizer que não havia nada e até poderia ser um angolano e, naturalmente, quando se fala em angolanos, dos técnicos que estão no topo, que é o professor Raul Duarte e provavelmente José Carlos Guimarães, e depois, no momento da definição do treinador, ainda vem gente da federação dizer que os angolanos não têm competência.

Ao serviço da Selecção Nacional, Luís Magalhães conquistou um Campeonato Africano, isto em 2009, na Líbia, tendo colocado o cinco nacional em décimo quinto lugar no mundial da Turquia, em 2010.

Treinador critica
modelo do BAI Basket

Luís Magalhães criticou o actual modelo de disputa do Campeonato Nacional de Basquetebol em seniores masculinos.
“O sistema de disputa do Campeonato Nacional é completamente retrógado e não tem interesse nenhum. Várias vezes discutimos com a federação sobre o actual modelo, dissemos que este modelo não se enquadra e que a melhor forma seria no sistema de play-offs, mas infelizmente as opiniões dos treinadores não valem, porque eles entendem que sabem tudo. É uma democracia muito esquisita e até a federação é presidida por membro da Assembleia, ou se quisermos, por um deputado, o que me parece ainda mais estranho. Mas, a verdade é que não há quadros competitivos de formação, não há quadros de formação de treinadores, não há quadro de formação dos árbitros e a força do basquetebol angolano tem sido o trabalho dos clubes e não da federação”. MC 

Regresso
a Angola pode acontecer

O técnico luso não descartou a possibilidade de um dia voltar a Angola. Luís Magalhães tratou de dizer que um regresso só se fosse por via do 1º de Agosto. Questionado sobre um provável regresso à Selecção Nacional, Luís Magalhães foi categórico em afirmar que “com as pessoas que estão na federação, nem pensar.” “Saio de Angola e com uma porta aberta para eventualmente um dia regressar. Quando naturalmente estiver apto para abraçar outro desafio com espírito de missão obviamente regressarei com todo o prazer. Em relação à Selecção Nacional, com as pessoas que lá estão, nem pensar nisso”.

Luís Magalhães revelou ainda que recebeu convite de uma selecção africana que vai competir no Afrobasket de Madagáscar, mas, por respeito aos jogadores angolanos, ao povo de Angola, mas não pela federação, recusou o convite. “Queria ficar parado durante dois meses. O primeiro convite que surgiu foi de uma selecção africana, que vai competir em Antananarivo. Claro que isso foi logo recusado, não pelas pessoas que estão à frente da federação, mas pelo respeito aos jogadores, em primeiro lugar, e em relação às pessoas do basquetebol, ao adeptos e sobretudo ao povo angolano”, disse. MC 

Liga dos Campeões
de 2008 foi marcante

Dos 15 títulos conquistados ao serviço do Clube Central das Forças Armadas Angolanas, o troféu da Liga dos Clubes Campeões Africanos de 2008, na Tunísia, foi o mais marcante na carreira do português Luís Magalhães. “Dos títulos que conquistei ao serviço do 1º de Agosto, o título da Liga dos Clubes Campeões Africanos de 2008 foi o mais marcante, não só por ser o meu primeiro troféu a nível de clubes.

Não é uma coisa que me orgulhe pessoalmente, mas orgulho-me profissionalmente porque em determinada altura estamos numa competição no estrangeiro e ter falecido a minha mãe e eu ter falado com a minha irmã, e ela me ter dado força para concluir a competição que estávamos a realizar e que felizmente conseguimos ganhar por dois pontos. Foi uma competição bastante difícil e isso privou-me de estar no funeral da minha mãe. Pessoalmente, não me orgulho disso, acho que as pessoas não devem ser assim, mas, profissionalmente, sinto algum orgulho”.