Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Avelino Dumbo quer correr em grandes pistas

Leonel Librio - 27 de Agosto, 2011

Avelino Dumbo uma das principais referncias do atletismo angolano

Fotografia: Jornal dos Desportos

Qual a sua opinião sobre o estágio actual do atletismo nacional, em termos organizativos e competitivos, quer a nível interno quer externo?
Penso que gerir uma federação em Angola é bastante difícil. Na generalidade, as pessoas que estão à frente dessas instituições, encontram muitos entraves para executarem o seu trabalho, principalmente por dificuldades técnicas e financeiras. Essas dificuldades que ocorrem não só no atletismo, mas na maioria das federações, provocam consequências negativas nos atletas que muitas vezes se vêm impossibilitados de atingir performances mais elevadas.

No caso do atletismo, tenho a certeza que se houvesse condições, que no mínimo se aproximassem das dos outros países, poderíamos ter atletas a evoluir em palcos de grandes competições, quer particulares como organizadas pela Associação Internacional de Atletismo Amador (IAAF).


E no contexto das nações de África?
A nível de África ainda estamos distantes de atingirmos marcas que nos permitam estar entre os melhores. Para nos aproximarmos dos etíopes, ugandeses, quenianos e ruandeses, é necessário que as estruturas afins criem condições infra – estruturais e técnicas adequadas a nível interno. É necessário, também, que se criem as condições para que comece a haver, com maior frequência, atletas angolanos em meetings e competições internacionais. Como não pode e nem deve ser o Governo a suportar todas as despesas, é imperioso que os empresários se capacitem da importância em concederem patrocínios para que os atletas possam representar Angola em competições de elevada dimensão internacional. Assim, para além de ganharem o atletismo e o desporto, de forma geral, é o país que sai vitorioso.    
                                                         
A província da Huíla foi e possui indicadores para continuar a ser o principal pólo de desenvolvimento do atletismo nacional, fundamentalmente das disciplinas de fundo e de meio fundo?. Porquê?
Isso acontece desde as gerações anteriores às recentes onde se enquadra o João NTyamba, natural da Huíla, que nas últimas décadas se constituiu na principal referência do atletismo nacional, em particular do fundo. A Huíla é o principal pólo de desenvolvimento do fundo e do meio fundo, seguida das províncias do Huambo e Kwanza - Sul. A Huíla atingiu o estágio que se conhece, porque as pessoas para além de gostarem da modalidade, seguem os exemplos dos mais velhos, como João N’ Tyamba e outros. Agora, somos nós, as referências para os mais novos. Como a responsabilidade é grande, tudo fazemos para não os decepcionar.

Penso que o fundo e o meio fundo se sobrepõem as velocidades, aos saltos e lançamentos, também por causa do clima frio que se faz sentir na província durante um largo período do ano. As outras disciplinas adquirem resultados relevantes quando as competições são realizadas debaixo de temperaturas médias. Na Huíla, por exemplo, se os treinos e competições das disciplinas de velocidade, saltos e lançamentos, forem realizadas entre as 11 e às 15 horas, podem oferecer resultados positivos. Mesmo nós, os fundistas, habituados a temperaturas baixas, muitas vezes nos deparamos com dificuldades respiratórias. Mesmo assim, a província da Huíla já teve velocistas que se destacaram a nível nacional, com realce para o Frederico.

A nível das camadas jovens, o que tem sido feito para que a província mantenha a hegemonia?
Devemos realçar a pessoa do treinador Augusto Seko, que se tem destacado na coordenação do trabalho de pesquisa, que incide na descoberta de jovens com valor para substituir a geração da qual faço parte. O regresso de João N’Tyamba, à província da Huíla, tem servido de mola impulsionadora para que algumas jovens, adolescentes e crianças optem pela prática da modalidade. Os frutos vão surgir a seu tempo.

O que é necessário para que, pelo menos algumas províncias atinjam ou, no mínimo se aproximem do nível competitivo e organizativo que a Huíla já alcançou?
 Penso que nas províncias do Huambo e do Kwanza – Sul, a modalidade já deveria ter conhecido um nível de desenvolvimento mais elevado. Possuem condições climatéricas e de alimentação que concorrem para que tal seja realidade. É preciso que também exista um pouco de força de vontade e de querer. Por vezes é preciso saber contornar alguns obstáculos. Não obstante as dificuldades que se fazem sentir, é preciso que se comece agora a delinear horizontes temporais, para que os resultados sejam atingidos.

“Centro de Alto Rendimento
deveria testar em fase avançada”


Em que fase se encontra a implementação, na província da Huíla, do Centro de Alto Rendimento, que numa primeira fase iria desenvolver a modalidade na região sul de Angola e depois seria extensiva aos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial  Portuguesa), numa iniciativa do Comité Olímpico Internacional (COI)?
Trata-se de uma iniciativa louvável que visa o aproveitamento das condições climatéricas, humanas e alimentícias que a província oferece. Penso que quando se tem em mente o desenvolvimento de iniciativas do género não se deve ter em mente apenas a questão financeira.

O que pretende dizer com isso?
O dinheiro é importante mas não é tudo. Penso que desde que surgiu, há cerca de dois ou três anos, esse centro já deveria estar numa fase avançada de funcionamento. Vamos aguardar por mais uns anos. Talvez sirva os atletas das próximas gerações.

Atleta quer estar
num Mundial

Quais são as suas perspectivas pessoais para o futuro?
Tenho como perspectiva correr em grandes cimeiras do atletismo mundial ao lado de grandes nomes. Estou empenhado em conseguir patrocínios de entidades do Governo ou privadas, para que tal sonho se torne realidade. Penso que devemos dar continuidade ao projecto que ganhou forma com João N’Tyamba, em projectar cada vez mais além fronteiras, o nome de Angola. Tenho condições porque conheço o meu valor e as minhas capacidades, para estar presente numa edição dos Jogos Olímpicos e do Campeonato do Mundo.

O que se pode esperar da selecção nacional, em que está integrado, nos Jogos Pan–Africanos, de Maputo?
Essa é uma competição muito dura. A organização determina a obtenção de um mínimo. Consegui 1H07 minutos, nos 10.000 (dez mil) metros, que se enquadra nos mínimos que a organização pediu. É por mérito próprio que vou marcar presença nos Jogos de Maputo. Vou fazer os possíveis para inscrever o nome de Angola na lista da IAAF.

Quais os principais opositores que pensa encontrar em Maputo, quer a nível particular, quer da selecção nacional?
Os etíopes, ugandeses, quenianos e os ruandeses. Quanto a outras possibilidades, pelo facto de não conhecer todos os integrantes da selecção nacional, penso que no meio fundo, Manuel António, o melhor angolano na especialidade, reúne condições para subir ao pódium.                                                                         

Marcas
do atleta

Avelino Dumbo possui como melhores marcas, 14 minutos e 33 segundos, nos 5 mil metros e 29 minutos e 57 segundos, nos 10 mil metros. Na meia maratona, que segundo o atleta, as distâncias variam, conseguiu 1H07 minutos, acontecendo o mesmo no corta – mato, onde obteve o tempo de 38 minutos e 6 segundos. Tem como ídolos, João N’ Tyamba (angolano), com quem conseguiu correr na selecção nacional, concretizando um sonho que alimentou desde criança e Kenelise Bekelle (etíope), que lhe serve de mola inspiradora.