Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

Bento Cangombe no sairia rotulado de gatuno

Paulo Caculo - 11 de Abril, 2012

Antigo presidente da Acadmica lamenta destino do clube

Fotografia: Jornal dos Desportos

O presidente cessante da Académica Petróleos do Lobito, José Bento Cangombe, afirmou, em entrevista ao Jornal dos Desportos, que o modelo de gestão implementado durante os 23 meses que esteve à frente da direcção do clube lobitanga não agradou às pessoas que estavam habituadas a prejudicar a saúde financeira do clube.Cangombe repudiou as várias manobras que eram feitas para se tirar dinheiro do clube, em benefício de pessoas singulares. Nesse particular, lamentou a alteração das folhas de salários dos jogadores, cujo ordenado não correspondia ao valor real que figurava no contrato. Bento Cangombe disse que pôs fim a todas essas práticas ilícitas que havia na direcção da Académica Petróleos do Lobito e, como consequência, passou a ter inimigos no clube.

De resto, o presidente cessante dos lobitangas aborda com muita mágoa a forma pouco democrática como decorreu o processo eleitoral dos lobitangas, condena as irregularidades verificadas no acto, ao mesmo tempo que promete fazer uma exposição à Direcção Nacional dos Desportos, para que se reponha a verdade desportiva.
 
Consegue encontrar explicações para o seu afastamento forçado da direcção da Académica do Lobito, depois de ter ajudado o clube a resolver uma crise de gestão que já durava oito anos?
Só podemos entender bem todo este processo se recuarmos um pouco e situarmos as coisas no tempo. Fomos eleitos em Maio de 2010 e o clube estava a sair de crises cíclicas, ou seja, os presidentes não ficavam muito tempo à frente das direcções, porque havia sempre um grupo de indivíduos que jogaram futebol, cresceram no futebol, mas que também não fizeram outra coisa na vida, que não seja jogar futebol. E a Académica tinha a especificidade de ter apenas duas fontes de rendimento: o patrocínio que a Esso dava, de cerca de um milhão de dólares, e os rendimentos que provinham de duas bombas de combustível situadas em Benguela, mas que, por má gestão, a Sonangol acabou por retirar uma delas e ficou apenas uma, porque não havia forma de as bombas de gasolina serem rentáveis para o clube.

Quer dizer que não havia um controlo sobre a gestão das mesmas?
E havia ainda a particularidade dessas pessoas, se quisessem, chegarem às bombas, entregarem as fichas e receberem o dinheiro equivalente, facto que contribuía para que as bombas sempre funcionassem em défice. Nunca havia dinheiro para que as bombas pudessem funcionar e gerar receitas, que ajudassem a suprir as necessidades do clube.

Perante tal situação, teve de fazer várias mudanças na forma de gestão do clube.
Sim. Quando tomámos posse encontrámos essa situação, que era muito complicada. Tivemos de fazer algumas reformas, porque, quando chegámos, a única coisa que nos foi entregue foi uma dívida de1,5 milhões de dólares. A Académica não tinha crédito sobre ninguém e nada escrito em seu próprio nome.

De que forma pôde gerir um clube sem dinheiro e endividado em mais de um milhão de dólares?
Toda essa situação levou a que reestruturássemos o clube, tendo em vista o futuro. Tornar o clube uma instituição sustentável, com regras claras de gestão e como uma instituição que pudesse viver com o trabalho que está a ser feito nas camadas de formação.Quando analisámos as dívidas que existiam internamente com os jogadores e técnicos, notámos que o clube tinha uma dívida com os atletas de 158 mil dólares. E mais: quando cruzamos os contratos dos atletas com as folhas de salário, notámos que havia uma aberração.

PARA AJUDAR NAS RECEITAS
Rendimento das quotas é irrisório


Consta que a Académica Petróleos do Lobito tem um vasto universo de sócios. As quotas pagas por essas pessoas não ajudavam nas receitas do clube?
Os rendimentos das quotas dos sócios eram sempre irrisórios, porque, em 2011, por exemplo, as quotas dos sócios da Académica do Lobito cifrava-se em 2.700.00 dólares. E com este valor não se faz nada. Não chega para pagar três refeições da equipa. Começámos a organizar a nossa vida financeira e de gestão a partir da nossa tomada de posse, com o défice de 1,5 milhões de dólares.

Qual era a origem de tal défice?
Constituía o passivo do clube. Tinha de negociar com a Sonangol a legalização de todo o património afecto à Académica, mas que não estava escrito em nome do clube, e ainda resolver o passivo de 500 mil dólares.

De que forma conseguiu superar essas contrariedades?
Tudo isso fez com que injectássemos o subsídio de 2010 para cobrir as despesas desse ano. Com isso, os jogadores, técnicos e trabalhadores administrativos e de base, tinham sempre seis meses de salários de atraso, porque o fundo vindo da Esso terminava em Setembro e, até Março ou Abril do ano a seguir, altura que cai a primeira tranche do fundo que recebemos, não havia salários para ninguém. Mas acabámos com isso.
 
Encontrou soluções para todos esses problemas?
Connosco, o grupo começou a ter os salários todos regulares, embora encontrássemos uma vasta gama de processos judiciais contra a Académica do Lobito, nomeadamente do treinador Arnaldo Chaves, no valor de 100 mil dólares, do Comandala, avaliado em 123 mil dólares, e do Ratinho, no valor de 59 mil dólares.

NÃO ACONTECIA DESDE 1981
“Fomos os únicos a prestar contas”


Depois de muita polémica à volta da sua gestão e das acusações de desvio de valores do clube, o facto é que conseguiu provar, durante uma Assembleia de prestação de contas, de que tudo não passava de calúnias?

Desde 1981, altura em que a Académica da Chirimba se junta à Sonangol para formar a actual Académica Petróleos do Lobito, não existia um relatório de contas. Todas as direcções que nos antecederam, até tomarmos posse, nunca fizeram prestação de contas sobre a gestão da Académica. O primeiro relatório de contas que existe na Académica é de 2010, feito pela direcção do senhor José Bento Cangombe. 

O segundo relatório de contas também é de vossa autoria?

Foi este que esteve em discussão, o de 2011, apresentado em Assembleia Geral. Os orçamentos de 2010 e 2011 foram aprovados em assembleia de sócios, coisa que não era prática no clube. Estávamos a empreender uma modificação na própria instituição, no sentido da transparência e da defesa dos interesses do clube, mas fomos interrompidos.

Sente-se decepcionado?

Infelizmente, as boas acções não agradam a todo mundo. Queriam que chegasse à direcção da Académica, ficasse como uma marioneta e assumisse todas as responsabilidades no descalabro financeiro do clube. Aquilo que disse na minha tomada de posse, no dia 6 de Maio de 2010, no campo do Buraco, e repito, é que estava na direcção da Académica para dignificar o nome dos presidentes que passaram pelo clube.



NA DIRECÇÃO DO CLUBE
“Rejeitei assumir o rótulo de gatuno”


Sente que o seu afastamento do clube foi propositado porque acabou com certas práticas que beneficiavam pessoas singulares e prejudicavam as contas do clube?
Claro. A partir dessa altura, começámos a ver que não interessava na Académica do Lobito alguém que fosse para lá com hábitos e rigor de gestão. Era quase tradição no clube a presença na direcção de alguém que assumisse as responsabilidades de ser gatuno. Mas tinha feito um compromisso comigo mesmo, que não sairia da Académica com o rótulo de gatuno.

Que mudanças mais foram implementadas na Académica que beneficiaram a principal equipa de futebol?
Estabelecemos orçamentos rigorosos, no sentido de que na equipa sénior de futebol tinha de ter seis jogadores de dupla categoria, porque, se temos uma escola de formação e estávamos a investir, esses jogadores é que deviam ter acesso à equipa sénior.

Esse modelo também não imperava no clube?
 Não. E essa  prática visava também acabar com uma tradição que vinha das direcções anteriores. Desde que o decano dos treinadores angolanos, João Machado, passou pela Académica, todos os que vieram a seguir traziam a sua equipa de futebol. As despesas do clube estavam agravadas, pois, além dos salários, havia as despesas com o arrendamento e a alimentação diária. O clube tinha despesas a dobrar. Mas, se nós tivéssemos os jogadores oriundos das nossas escolas e alguns da província, podíamos reduzir as despesas nesse sentido.
 
Não estava, então, de acordo com aqueles treinadores que traziam uma equipa completa para a Académica e deixavam de fora os atletas formados no clube?
Não podia estar de acordo. Esta questão dos treinadores trazerem as suas equipas para a Académica originava outros problemas suplementares. Os técnicos tornavam-nos as unidades mais importantes da equipa e podiam condicionar as decisões da direcção, porque incitavam os jogadores a fazerem greve ou a não treinarem, para exigir aquilo que os próprios treinadores quisessem.
 
Que decisão tomou para reverter tal situação?
Nós queríamos estabelecer uma política clara na gestão das coisas. Dirigente é dirigente, treinador é contratado para treinar a equipa do clube e não a sua, e que o treinador tenha a opção de indicar cinco jogadores para reforços. E essas situações todas de organização permitiram que determinados vícios de manipulação fossem acabando. Era necessário deixar as coisas claras e impor novas regras de gestão. Foi nesse âmbito que estabelecemos regras concretas de segurança financeira para o clube, tendo em conta o orçamento que recebíamos da Esso e outros rendimentos que tínhamos da bomba de combustíveis.

BENTO CANGOMBE É CATEGÓRICO 
Não aceitei liderar o clube para pactuar com falcatruas”


A nova direcção da Académica foi eleita com apenas 44 por cento dos votos, num universo de mais de 800 sócios. Para muitos, o acto não teve representatividade e caso tivesse sido regulado por uma Comissão Eleitoral seria considerado inválido. Continua a acreditar que foi vítima de uma cabala?
As eleições foram feitas com o objectivo de me afastar da direcção. Ou seja, como um dia uma certa pessoa me disse: ‘tu fechaste as torneiras todas e em função disso, as comadres reuniram-se e conjugaram esforços para te afastarem do clube’, porque estava a ser muito rigoroso com a gestão das contas do clube.

Dadas as inúmeras perturbações que teve, sente-se arrependido por ter aceite o convite para dirigir a Académica Petróleos do Lobito?
Não. Lamento apenas a ignorância de muita gente. Fui parar à direcção da Académica a convite de pessoas que me queriam ver na direcção. Fui eleito e, na altura, já estava na direcção dos Flamingos, um clube do Girabairro, e quando decidi assumir o cargo de presidente da Académica não foi para pactuar com falcatruas.

Qual era o grande objectivo quando chegou ao clube?
Convidaram-me para ajudar o clube a reerguer-se, ter credibilidade e ganhar sustentabilidade. Portanto, não aceitava pactuar com determinadas coisas que foram ocorrendo na Académica do Lobito. A título de exemplo, há um funcionário do clube que foi expulso da Académica, no âmbito de um processo disciplinar, porque sempre que houvesse um jogo da equipa na província, ele, em vez de vender os bilhetes dados pelo clube, falsificava outros e vendia.
 
Nunca havia receitas dos bilhetes comercializados pelo clube?
Não víamos dinheiro algum, porque não entrava nos cofres do clube. E esse indivíduo era o braço direito do director-geral da Académica. Curiosamente, depois destas eleições que, para mim, são a todos os títulos nulas, o mesmo jovem já foi readmitido para trabalhar no clube. Só por aí podemos entender a filosofia de funcionamento de determinados sectores da Académica, o que prejudica os interesses do clube.

ACUSAÇÕES DE DESVIOS
Dei mais dinheiro ao clube que todos os sócios juntos”

Por que razão o dinheiro esteve sempre no centro dos problemas do clube?
As pessoas buscavam sempre oportunidades para satisfazerem os seus intentos. Quando terminou o dinheiro de patrocínio da Esso este ano, nós e aquela instituição estivemos a fazer uma série de diligências, enquanto a maior parte do pessoal desapareceu da Académica, inclusive o actual presidente do clube, que antes exercia o cargo de vice-presidente para a Administração e Finanças.
 
Que motivos levaram o vice-presidente a afastar-se?
A falta de dinheiro. Desde o jogo que realizámos com a Académica do Soyo que não punha os pés no clube, tendo mandado um recado a pedir ao presidente para se virar como podia, porque estavam todos convencidos que não conseguiria resolver as situações que a Académica do Lobito tinha, nem pagar os salários.

De que forma resolveu essa situação?
Felizmente, temos até à data em que se realizaram as eleições, todos os salários pagos e todos os compromissos honrados. As contas estão claras e o presidente cessante não tem nem um tostão da Académica. Aproveito para realçar que o principal patrocinador do clube é a Esso e se nós formos ver nos relatórios de contas, o segundo patrocinador é o senhor Bento Cangombe, porque sou a pessoa que, depois da Esso, deu 45 mil dólares para o clube sem retorno, além do dinheiro que emprestava. E mais ninguém fez isso. Eu, sozinho, dei mais dinheiro do que as contribuições de todos os sócios da Académica.

Não têm fundamento as acusações de desvio de fundos pela sua direcção?
Não tinha necessidade de descaminho de dinheiro do clube, porque sou a única pessoa com responsabilidade de responder pela instituição. Quando o director-geral vai buscar dinheiro ao clube e às bombas de combustíveis do clube sem o conhecimento do presidente, nós estamos perante o quê? Depois, quem respondia pelas coisas era o presidente do clube. Então, eu tinha de criar segurança financeira relativamente aos compromissos que tínhamos.

Acha que foi tudo uma estratégia para desacreditar o presidente?
Com certeza e há coisas que ainda têm de se esclarecer, porque há documentos em cima da mesa.
Os créditos que foram solicitados, tanto ao Fundo Soba como ao BPC, depois tinham de ser devolvidos. E tinham destino definido, que era pagar os salários dos jogadores. Todo esse dinheiro está na conta da Académica. Se olharmos hoje para as contas do clube, chegamos à conclusão de que o único que falta repor dez mil dólares que recebeu da Académica é o antigo vice-presidente, actual presidente do clube.

INCITAVAM À GREVE
Antigos detractores estão na direcção


Que futuro prevê para a Académica do Lobito? Acha que a actual direcção consegue dar sequência positiva ao projecto?
É necessário repensarmos o futuro da Académica, porque, enquanto estivemos, durante o ano de 2011, a fazer todos os esforços para que o clube se mantivesse na primeira divisão, no terceiro jogo do Girabola já víamos no campo do Buraco muitas manifestações contra o treinador, Daniel Quinhentos. Hoje, as mesmas pessoas que estavam à frente dessas manifestações estão na direcção da Académica. E nessa altura até recebemos um relatório da Polícia que nos impedia de voltar a fazer os nossos jogos no campo do Buraco, devido a determinados grupos de pessoas que incitavam os adeptos a insurgirem-se contra a própria Polícia.

Pode-se afirmar que o clube é hoje liderado por um grupo de amigos?
Se olharmos para o panorama da actual direcção da Académica, vamos encontrá-los todos lá. Isso significa que esta mudança brusca do elenco directivo do clube já tinha sido preparada desde que descobriram que com o senhor Bento Cangombe não havia a possibilidade de se fazerem as falcatruas que se faziam antigamente.

Nem mesmo o universo de sócios a seu favor pôde evitar o seu afastamento.
Não, porque enquanto nos preocupávamos com o engajamento da equipa no Girabola, foi-se preparando toda esta cabala que descambou com estas eleições confusas. Temos consciência que os mandatos são de quatro anos e, se os órgãos sociais do clube foram eleitos, tinham de cumprir o mandato.
 
Qual foi o argumento apresentado para se interromper o mandato?
As pessoas justificavam que havia uma directiva da direcção dos Desportos que autorizava todos os clubes a realizarem eleições, mas respondi que o documento chamava a atenção para a necessidade dos elencos terem os mandatos válidos. E o nosso era válido. Mas aproveitou-se esse argumento para conjugar a insatisfação que estes sectores sentiam devido ao rigor e transparência financeira, para serem eles a aproveitarem-se dos parcos recursos que a Académica tinha.