Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Bento Cangombe projecta futuro promissor

Paulo Caculo - 03 de Maio, 2011

Bento Cangombe Presidente Acadmica do Lobito

Fotografia: Jornal dos Desportos

A direcção da Académica Petróleos do Lobito aposta sério numa equipa forte e coesa, capaz de ombrear, no futuro, com as demais formações. Essa é a ideia deixada pelo seu presidente de direcção, José Bento Cangombe, em entrevista ao Jornal dos Desportos.
O “número um” dos lobitangas assegurou que a Académica sobrevive graças aos apoios que recebe da Sonangol e que o projecto de descoberta de novos talentos para a equipa principal de futebol só tem sido possível por esse facto. De resto, Bento Cangombe é peremptório nas suas afirmações e deixa claro que, mesmo não havendo saúde financeira, a permanência no Girabola éo objectivo da equipa na presente temporada. 
 
O que é que os adeptos podem esperar da Académica do Lobito nesse regresso ao Girabola?
Um dos grandes desafios que assumimos na direcção da Académica Petróleos do Lobito foi que, quando ascendéssemos, fóssemos capazes de dar estabilidade ao clube. Isso é, tirar o clube daquelas crises cíclicas que viveu nos últimos cinco anos.  

A que crise se refere?
As crises constantes de trocas de direcção, comissões de gestão, etc. Queríamos dar estabilidade ao clube. Isto passava por duas coisas. Primeiro, por um conhecimento real e profundo da situação do clube e, segundo, das razões que levavam o clube a enfrentar crises constantes, que afectavam o desenvolvimento normal da instituição.  

Que soluções imediatas trouxe a sua direcção para tirar o clube do marasmo em que se encontrava?
Gizamos um projecto e apresentamos aos sócios do clube para um ciclo olímpico, pois o mandato da direcção é de quatro anos. Foi com base nesse projecto que fomos eleitos e é esse projecto que temos estado a executar, numa reforma profunda da administração dos órgãos sociais da própria Académica, e numa visão mais realista da vida do clube, no sentido de termos de viver com as nossas posses e não fazer promessas irrealizáveis aos jogadores ou a outras entidades que connosco colaboram. Parte desta crise vivida pelo clube esteve na incapacidade das direcções que o antecederam de cumprir as promessas salariais e contratuais... Na análise que fizemos da Académica, chegámos à conclusão que até Julho podia-se pagar normalmente os salários, que eram irrealísticos, tendo em conta a situação do clube e que, depois daí, haveria uma crise até ao ano a seguir. Nós acabamos com essa situação toda. 

Que aspectos salariais e contratuais fazem parte do passado?
 A situação da Académica era extremamente grave. Uma equipa que recebe do patrocinador um milhão de dólares por ano não podia, de nenhuma forma, ter jogadores com contratos de dois e três mil dólares. Era irrealístico, porque somando, a Académica estava sempre em défice sucessivo. E são esses défices que causavam os problemas que o clube foi vivendo até ao momento em que entramos.  

Que modelo de gestão impõe a sua direcção para estancar os sucessivos défices?
Quando chegámos, dissemos de forma realística aos jogadores que só podíamos dar esse valor durante o tempo que durar o nosso contrato. Nós temos de contar com aquilo que possuímos. Não posso prometer mais do que consigo dar. Fomos muito bem entendidos tanto pelos dirigentes como pelos próprios jogadores e temos levado esse nosso projecto paulatinamente à estabilidade que se conhece nos dias de hoje. Neste momento, não temos dívidas com os jogadores, porque o mês de Março está todo pago e o de Abril vai ser pago ainda esta semana e não temos nenhum prémio de jogo em atraso.  

Tem motivos para acreditar que está a encabeçar um projecto cujos resultados recolocarão a Académica no caminho do sucesso?
 Tenho dito que gosto de desafios e dificuldades, porque são essas variáveis que nos estimulam para sabermos até onde podemos ir. Se tentar investigar, há-de ver que não sou um dirigente desportivo que jogou futebol federado e que, depois de acabar a carreira, ascendeu aos quadros directivos da Académica. A modalidade que sempre pratiquei foi o Karaté-dó. Fui sempre federado, mas estou no futebol porque gosto. 

Como surgiu a ideia de apostar na direcção da Académica do Lobito?
Apareço na Académica porque liderei um projecto comunitário no bairro da Caponte, na cidade do Lobito, cuja delinquência juvenil, em 2007, estava em alta. Os comentários eram: mas o administrador cresceu na Caponte e não faz nada? O primeiro secretário do Partido vive na Caponte e não faz nada? O Dr. José Bento Cangombe tem escritório de advogados na Caponte e não faz nada. E nós, através da análise desses comentários, dissemos que tinhamos de investir porque tinhamos uma responsabilidade a assumir.  

Em resumo, a sua indicação para presidente da Académica resultou em grande parte dos feitos desportivos ao nível do município do Lobito?
Isso influenciou muito. Tendo em conta um antigo clube que tinha a sede na Caponte, então criamos a Associação Recreativa dos Clubes de Angola e começamos a participar no Girabairro. Fomos campeões provinciais, e em 2009 fomos os vice-campeões. No ano 2010, voltámos a vencer o troféu. Em 2011, vencemos novamente e participámos no troneio interprovincial da Taça do Presidente, porque jogamos com a nossa congénere do Uíje. Foi dessa visão da comunidade, de sermos capazes de dar uma estrutura organizativa profunda a uma equipa do Girabairro, que fomos convidados a dirigir os destinos da Académica, para ver se dávamos o nosso máximo ao clube. A cidade precisava de ter uma equipa na primeira divisão. Foi nessa base que apareci a dirigir os destinos da Académica.

Apoio da Sonangol é
vital para permanência no Girabola

Dadas as limitações financeiras da Académica, de que forma encaram os objectivos de permanência no Girabola?

O nosso objectivo é permanecer no Girabola. E repare que tenho dito que nem sempre o dinheiro é a peça fundamental. Há aqui também a força de vontade e a determinação relativamente aos objectivos que preconizamos. Temos de olhar para a Académica e para o contexto geral do país, sem esquecer a crise financeira mundial e outras dificuldades. Portanto, temos de ser muito ponderados e comedidos naquilo que são as nossas ambições. Temos de ter os pés bem assentes no chão. 

Quais as posições defendidas pelos principais patrocinadores em relação aos objectivos do clube?
O nosso principal “sponsor” impõe-nos uma aposta na formação. E repare que fomos os vice-campeões de futebol de juniores e 60 por cento da nossa equipa de seniores é composta pelos jogadores oriundos das nossas escolas de formação. Temos procurado ser realistas com as pessoas, dizendo a verdade para que entendam a verdadeira situação do clube. 
 
Os apoios que recebe da ESSO, por intermédio da Sonangol, não permitem sonhar muito alto?
Temos um passivo no clube, acumulado durante os últimos cinco anos, de 1,5 milhões de dólares. Nós consolidamos esse passivo e desde o momento em que tomamos posse na direcção da Académica, não ampliamos esse valor, porque estamos a ser realistas relativamente a todas as situações que temos de acudir no dia-a-dia. É com base nisso que temos gizado estratégias, no sentido de nos mantermos na primeira divisão, a bem do futebol nacional e do município do Lobito. 

Qual o orçamento da Académica para a presente época futebolística?
O orçamento que apresentamos é de 3,8 milhões de dólares, que nos permitiria arcar com todas as despesas com os nossos credores e com o sustento da nossa escola de formação. Temos vivido com aquilo que temos e é com base nisso que temos tentado fazer uma gestão parcimoniosa, para não prometermos o céu, sem podermos dar a terra. Queríamos agradecer muito à Sonangol, pela atenção que tem dado à nossa instituição, porque quem nos dá os apoios é a ESSO, mas esta só faz por orientação explícita da Sonangol.

Considera a Sonangol uma parceira vital para os desafios da Académica?
Nesse âmbito, temos de primeiro agradecer ao Conselho de Administração da Sonangol, na pessoa do engenheiro Manuel Vicente, pela atenção que tem dado ao clube e por todos os apoios directos e indirectos e, depois, à ESSO e aos associados do Bloco 15, por tudo o que têm feito a nosso favor. 

Acredita que só com o apoio da Sonangol pode consolidar a estabilidade financeira que pretendem?
É certo que não. Mas nós temos colocado as nossas preocupações e paulatinamente encontrado soluções para aquilo que é o objecto social da Académica Petróleos do Lobito, que é o desenvolvimento do futebol e de outras modalidades no município do Lobito. Temos dito que somos o braço social da Sonangol no município do Lobito e se há hoje futebol de alta competição é graças à Sonangol e ao apoio que tem dado ao clube.

“Apostamos
sério na formação”

Esse regresso da Académica ao Girabola foi motivo de júbilo pelos cidadãos do Lobito. Que factores contribuíram para este ressurgimento em grande da equipa?
Em finais de 2009, a Académica desceu de divisão e não havia possibilidade da equipa disputar a “Liguilha”, devido aos problemas financeiros que enfrentava. Corria o risco de ser penalizada pela FAF durante dois anos e não participar em nenhuma competição. Foi então que algumas pessoas do clube vieram ter comigo para saber se era possível dar uma ajuda à Académica. Essa foi uma das fases mais complicadas do clube. Com certeza que sim. E como munícipe do Lobito e amante do futebol, decidi emprestar ao clube os 150 mil dólares que necessitava para participar na “Leguilha”. Não conseguiu o apuramento, mas permitiu salvar a equipa de ser sancionada pela federação. Foi nessa fase de turbulência que aparecemos a emprestar o nosso calor, em defesa da cidade.
 
O fraco investimento em termos de plantel é reflexo das limitações que o clube enfrenta em termos financeiros?
Nós não investimos muito, porque também queremos mudar um pouco o paradigma. Notamos que a Académica começou a ter muitos problemas quando começou a menosprezar todos os jogadores oriundos das suas próprias escolas. Os miúdos começavam de iniciados, juvenis e juniores, mas quando atingiam a idade de seniores não tinham lugar na equipa principal. Estamos a inverter esse quadro. 

Acha que a aposta na formação pode ser fundamental para revitalizar o clube?
Se temos uma escola de formação, achamos que o clube vai dar maiores alegrias porque o nosso projecto é de quatro anos, temos paciência para trabalhar e darmos estabilidade ao clube e estamos a apostar. Ou os juniores, quando atingem a idade sénior, vão para a equipa principal, ou não adianta ter uma escola de formação. Temos, por exemplo, o nosso jovem médio Viety, que foi o melhor jogador do campeonato de juniores e, se calhar, sem qualquer desprimor para os restantes jogadores, é uma grande esperança do nosso clube.  

Considera que a aposta na formação tem dado frutos?
É nesse caminho que vamos seguir. Queremos apostar nos escalões de formação, acompanhar o trabalho nos jovens e como somos uma equipa académica, todos os nossos jovens têm de estar a estudar. Quem não estiver a estudar, não terá lugar nas nossas escolas de formação. Os nossos jogadores são obrigados a levar a carreira desportiva em paralelo com a formação técnico-profissional ou académica. É nesse patamar que temos trabalhado e gizado a nossa política de médio e longo prazo. Não queremos resultados imediatos.

“Orçamento
não permite sonhar alto”

Qual é a grande ambição para o futuro da Académica do Lobito?
Este ano estamos a lutar para permanecer no Girabola. No próximo ano, já teremos outras ambições e, assim sucessivamente, até termos aquela equipa de sonho que ainda achamos que vamos conseguir formar na Académica, aquela equipa de sonho, que deu muitas alegrias ao povo do Lobito. É nessa senda que queremos caminhar. É difícil, tem muitos percalços, muitas dificuldades, mas confiamos plenamente no apoio dos nossos sponsors, de toda a massa associativa do clube e das empresas aqui sediadas.  

A aposta nos escalões de formação implica certo investimento em termos de quadros técnicos. Como está a Académica nesse aspecto?
O actual técnico principal da Académica esteve como coordenador nos últimos quatro anos. Terminou o ciclo olímpico e achamos que devia passar automaticamente a técnico principal, porque achamos que toda a equipa de juniores que foi campeã deve ascender automaticamente aos seniores da Académica.  

Está a querer dizer também que o rejuvenescimento do plantel é uma aposta imediata?
Estamos a introduzir paulatinamente os jogadores jovens, misturando-os com alguns que já têm a tarimba do Girabola, para emprestar-lhes a sua experiência. Mas voltando à questão dos quadros técnicos... Basta ver que o actual coordenador das escolas de formação e treinador da equipa de juniores é o mister Chibi, pessoa reconhecia como técnico competente a nível do desporto angolano. Como coordenador das equipas de juvenis temos o técnico Toloyo, que tem curso de treinador e, sob a orientação do mister Chibi, vai acompanhando toda a formação que temos nos escalões de formação. 

Existe, então, essa aposta muito forte na formação?
Temos estado paulatinamente a investir na nossa escola para que ela seja, de facto, o sustentáculo da equipa principal da Académica do Lobito. Esse é o investimento no quadro das conversações que temos tido com a ESSO, porque também notamos que é a política que ela mais acarinha e em que mais aposta. 
 
Que resultados a direcção busca com a aposta nos escalões mais jovens?

Sabemos que devemos apostar nas escolas de formação, porque isso nos possibilita, no futuro, em termos de curto, médio e longo prazo, baixar os custos inerentes à equipa de seniores de futebol. Se forrmos ao mercado internacional em busca de futebolistas completos, os custos serão inconfortáveis para aquilo que é o orçamento do clube.

Futuro depende
dos jovens talentos

Quantos jogadores o clube movimenta nas suas escolas de futebol?

Movimentávamos aproximadamente 400 atletas nas suas escolas de formação, distribuídos nos escalões de iniciados, juvenis e juniores. 

Consta que esse número sofreu uma redução. Porquê?
Por uma questão de acompanhamento, tanto académico como de formação desportiva, este ano reduzimos para 150 atletas nas nossas escolas de formação. Essa redução vai permitir-nos ter também melhor inter-relação com os próprios pais, porque entendemos que tem de haver aqui uma sinergia entre as famílias e o próprio clube, no sentido de termos uma formação integral e multifacética dos nossos formandos, que se encontram nas nossas escolas.

Quantos jogadores a equipa principal recebeu dos escalões de formação?
Na equipa principal, temos muitos jogadores jovens provenientes dos escalões de formação. E como exemplos podemos citar o Nilton, Viety, Dodó e um rol de jogadores que estão na equipa a fazer dupla categoria, como são os casos do Valdez e do Henrique. 

Que garantias têm esses atletas para que não fujam para outros clubes com melhores condições contratuais?
Temos uma política de contrato de formação com todos os nossos jogadores em dupla categoria que é de três anos. Não permitimos que depois de terminarem essa etapa, os nossos jogadores júniores não saibam para onde ir. Eles têm de sentir que a Académica é a sua equipa e que são acarinhados. Os nossos jovens jogadores têm de saber que são os elementos com que a nossa equipa de seniores conta para manter a Académica no Girabola por muitos anos. 

Que destino é dado aos jogadores que terminam a carreira, caso recente de César Caná?
Neste momento, o César Caná e o Cotel terminaram as respectivas carreiras. O Cotel é o preparador físico das escolas de formação e o César Caná está a trabalhar directamente com o professor José Rocha, que é preparador físico da equipa de seniores, para aprender e beber da sua experiência, para que no futuro seja o preparador físico da Académica Petróleos do Lobito.