Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Bernardo Joo inova na So Silvestre

Gaudncio Hamelay - 05 de Dezembro, 2017

Bernardo Joo, presidente da Federao Angolana da modalidade

Fotografia: Dombele Bernardio | Edies Novembro

O ano está prestes a terminar e avizinha-se a 62ª edição da corrida de fim-de-ano, a São Silvestre de Luanda 2017. O que temos para a prova considerada a mais importante do calendário da Federação?
 \" Nós temos em carteira a São Silvestre, como é de praxe. A corrida sai todos os dias 31 de Dezembro de cada ano. Continuamos a preparar-nos. Temos as condições formadas e as comissões de trabalho fazem o que deve ser feito. De princípio, nós temos a São Silvestre como espelho do atletismo nacional. A corrida da São Silvestre é uma prova internacional e não é nacional. Está credenciada na IAAF e na Associação das Corridas de Maratonas e Corridas de Estradas a nível do mundo. É uma organização na qual a Federação paga uma quota, para estar dentro dessa organização. Nós temos um elemento que é um membro da IAAF, medidor de percursos que tem de vir de 2 em 2 anos medir o percurso da São Silvestre para ver se está actualizada, e elaborar o relatório para entregar na IAAF para validar a prova como internacional. Por acaso, no encontro que tivemos, sentimos de certa forma dos nossos parceiros  da zona V, a necessidade de estarem  dentro da corrida porque perceberam que é uma competição muito boa, está inscrita na Federação Internacional de Atletismo Amador (IAAF) e eles querem estar por dentro da prova.  Então, nós continuamos a ver junto do órgão central, qual é a possibilidade dos apoios já que são sempre provenientes do governo, para ver a possibilidade de apoiar a prova internacional. Porque se não tivermos, baixamos de ranking e fechamos. Então, agora não sei quais as multas que eventualmente poderemos pagar, o facto de sermos membros daquela Associação.

Que condições foram criadas a par desta esperança existente, por parte do principal patrocinador, a Sonangol?
\"O nosso trabalho está ser bem enquadrado. Estamos também nesta altura a criar uma outra vertente, bem dizer uma inovação\".

A que tipo de inovação se refere?
\"Queremos ter no dia 31 de Dezembro, a feira São Silvestre. Essa feira, vai acontecer na Marginal de Luanda. Temos uma empresa que monta feiras, que está connosco a trabalhar. E, vamos montar uma feira na qual os \"kits\" de competição da São Silvestre vão ser entregue mesmo na feira. E, todos os patrocinadores que nós temos, os parceiros actuais e os que podermos ter ainda porque está em aberto, vão evidenciar-se junto da feira, porque terão a possibilidade para o efeito\".
 
A feira em forja vai trazer o quê de concreto?
\"De princípio a feira vai apresentar a prova do São Silvestre, edição 2017. Teremos lá um treinador de bancada que com um projector e televisor para esclarecer todos os populares que  participarem na São Silvestre, como devem correr o percurso da corrida. A São Silvestre tem uma subida enorme que desgasta muito. Então, temos um treinador de bancada para ajudar os populares a prepararem-se melhor, e como poderem atacar a subida, assim como dominar mais facilmente a competição.

Já está confirmada de todo, a participação de fundistas estrangeiros?
\"Nós estamos a trabalhar para que a participação de corredores estrangeiros seja uma realidade, como mandam as regras. Teremos os fundistas da região V, onde pertencemos, países nossos amigos que querem participar na prova de fim -de -ano, São Silvestre de Luanda. Um deles com maior incidência, é a África do Sul. O presidente da federação sul-africana quer estar na São Silvestre\".

A Huíla albergou, recentemente, o festival nacional de fundo e meio fundo. O evento enquadrou-se na óptica daquilo que gostaria de ver para o futuro do atletismo?

 \"Foi bom ver a moldura humana. Percebemos que pelo facto de ser o primeiro festival, é natural que houvesse aquele número. Mas gostavamos que fosse mais. Quero também  realçar que devemos ter em consideração que a nível de escolas temos alunos, que estão enquadrados no atletismo. Mas também, temos alunos que podem estar aqui como participantes. Estarem nas bancadas para acompanharem os outros a competir, porque depois daí vem a intenção. Isso, proporciona a intenção. Então queremos trabalhar todos juntos no sentido de termos mais crianças aqui, porque é possível tê-las neste tipo de actividades.  
 
Este tipo de actividades, veio para ficar ou tem condicionantes?

 Essa é uma inovação que nós Federação achamos por bem ter. E, é algo novo que veio para ficar, porque naturalmente nesta altura o desporto é feito nas escolas. O nível do nosso atletismo, hoje em dia,  aparece nos Jogos Olímpicos, em campeonatos do Mundo, são atletas que se despontam a partir dos 19 até aos 27 anos. Os atletas praticamente aos 30 anos, já estão de fim de carreira. Então, temos de trabalhar mais cedo. Essa é a vertente da promoção  dos festivais.


BALANÇO DO MANDATO
“Estamos a ligar
ou montar pontas”

Que avaliação faz do atletismo nacional durante este período em que está a frente da Federação?
Posso dizer que nós estamos a montar ou a ligar as pontas. Já conseguimos dentro da nossa gestão, tínhamos um calendário competitivo em que cumprimos com o nosso programa. Já demos formação, tivemos no trabalho kit atlético.  Já conseguimos evidenciar o kit atlético,  um programa da IAAF que envolve crianças dos 5 aos 16 anos. E, é uma loucura de se ver. O kit atlético é muito importante para o desenvolvimento não só do atletismo, mas de todos os desportos porque engloba vários jogos, sobretudo correr, saltar e lançar. Então, percebemos que para a modalidade de andebol, praticamente arremessam-se as bolas. É um processo de lançamento. Para o basquetebol é saltar e tem obstáculos, porque eles também saltam. E, tem a velocidade, porque correm. São coisas muito pequenas, mas de grande vulto. Já conseguimos ter o primeiro envolvimento no kit atlético, onde envolvemos cerca mais de 100 crianças. No segundo envolvimento tivemos uma pareceria com a Total e conseguimos enquadrar 360 crianças. E, quando nós realizamos essa acção, as crianças questionam-nos sempre: oh, tio quando é que vai haver outros jogos desses (…). Então, estamos a perceber que isto, é um processo que deve ser nacional. Nós trabalhamos com a IAAF no sentido de nos proporcionar mais kits, para agente desenvolver o kit ao longo do país, mas com seriedade, porque saem resultados do atletismo.


CRIAÇÃO DE PISTAS
“Não podemos
ficar pela intenção”


 Em relação à ideia de pistas, há receptividade por parte do executivo em criar melhores condições de infra-estruturas (colocação e construção de pistas) para prática do atletismo?
\" Intenção há, mas nós não podemos ficar pela intenção, porque estamos a perder tempo. A adormecer. Angola conforme nós todos sabemos, pertence à Região V da África. E, essa região a nível do atletismo, é muito forte. Temos aqui a República vizinha da Namíbia, a África do Sul e o Botswana. Sobre a África do Sul, o campeão do mundo dos 400 metros masculino, é um sul-africano. O Botswana tem uma estafeta, 4x100 metros, que ganhou a estafeta da Jamaica com Usain Bolton na competição. E, essa é a nossa região. Então, nós temos de trabalhar forte, porque há uma organização muito forte por parte deles, também têm condições de trabalho. A Federação está a criar parecerias no sentido dos nossos atletas estejam lá para fazer estágios competitivos, para  levantarem o nível do nosso atletismo\".

Alguma vez reuniram para aflorar a intenção de Angola, junto das federações desses países?
\"Já reunimos. Estive no congresso africano de atletismo. E, temos uma amizade muito forte”.


Projecto feminino está em andamento
Que projectos existem para inverter o triste quadro no sector feminino, que regista um défice em praticantes?
\"Estamos a trabalhar no projecto do atletismo feminino. Queremos que o atletismo feminino atinja os patamares, onde estão os masculinos e com a mesma envergadura, em termos de apresentação de marcas\". 

Aquando da sua passagem pela Huíla, por altura da  campanha eleitoral, prometeu aos seus filiados colocar uma pista sintética no Estádio Nacional da Tundavala. Para quando o cumprimento da promessa feita?

\"Não lhe posso dizer para quando. Mas estamos a trabalhar. Chegamos à Federação e percebemos que não tínhamos atletismo. Estamos a organizar a Federação, e paulatinamente vamos atacar as dificuldades que encontramos. Porque, até é uma vertente muito salutar ter uma pista no Estádio Nacional da Tundavala, por ser uma infra-estrutura desportiva fora de série. É um Estádio que dentro do processo, que é o atletismo, dá a ideia de que o Estádio é pequeno. Então, dá uma motivação grande ao atleta para estar aqui a treinar. É nossa preocupação e teremos aqui a pista. Nós temos uma pressão por parte dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), porque há um centro regional que está no Senegal. E, o centro regional era para ser entregue aos PALOP, mas ficou instalado num país de expressão francesa. Os países de expressão portuguesa, estão na luta dentre os quais Angola também está, para trazer esse Centro Regional para região portuguesa. Mas os países de expressão Portuguesa, querem que esse centro esteja em Angola. 

 Porquê essa intenção almejada pelos PALOP?
\"Porque é mais salutar, que esteja aqui no nosso país. Nós temos também uma aproximação com o antigo atleta namibiano, Frank Fredericks, também está a apostar no sentido de Angola ter o centro aqui. Mas para termos esse centro, temos de ter a pista colocada no Estádio nacional da Tundavala. O Ministério da Juventude e Desportos sabe disso. Agora, vamos procurar aprofundar. Como estamos próximos dos sul-africanos, vamos ver qual é a dinâmica, nem que for para termos aqui no Lubango, uma pista de segundo plano. Porque é necessário fazer-se atletismo numa pista, não há outra saída\".


SALTOS E LANÇAMENTOS
Gritante falta de material
emperra o desenvolvimento


Os saltos e os lançamentos são relegados a planos inferiores. Para quando pensa implementar mais dinamismo noutras vertentes do atletismo?
\"As competições de velocidade, do meio fundo e fundo, sabem que são provas que não abarcam outros pressupostos,  como o material. Já temos para o salto em altura e salto a vara. Mas mesmo assim, para o salto em altura precisamos de colchões, no salto a vara precisamos de colchões e fasquias e a vara. Nos lançamentos, precisamos de dardo, disco, martelo e peso. Para o martelo e o disco, estamos a entender que precisamos de uma gaiola. Esses são os materiais que nós, de certa forma, temos muito reduzidos. Mas faz-se o lançamento de dardo, de peso. Aliás, não se faz só e unicamente o lançamento de martelo, em função das condições. Mas as outras especialidades são feitas. Agora, também sabemos que o número de atletas que entram para essas competições é reduzido, em função do material à priori para o treino. Nós temo pouco material para o treinos. Então, com o material que dispomos, há uma tendência de salvaguardar para as competições. E, entendemos que a dinâmica, não é essa. Um atleta tem de ter seis a 10 dardos, por exemplo, a nível dessa especialidade. Ele tem de fazer a nível de um treino regular entre 60 a 80 lançamentos dia, para ganhar a dinâmica, elasticidade e aperfeiçoar técnica, tanto no lançamento de dardo e em outras especialidades por serem disciplinas técnicas. E, tem de trabalhar a técnica todos os dias, independentemente do ginásio.

Sente-se feliz com a quantidade e a qualidade de técnicos que trabalham nesta altura na modalidade de atletismo?
\"Ainda não. Eu estive no congresso e tivemos a ver a situação da formação dos técnicos. Ficou acordado que a qualquer momento, podemos ter dois oficiais, um oficial e outro para treinar os treinadores pelo menos de nível 1, vamos ter na possibilidade de cada oficial ter 25 elementos para formar tanto oficiais que nós consideramos juízes e cronometristas, assim como os treinadores. Estamos a prever que podemos numa primeira formação ter 50 elementos. E, conforme percebemos, a formação do primeiro nível, é a base. E, nós precisamos de mais, e a formação teve ter sequência. Também já alinhavamos isso. Que os elementos que tiverem a possibilidade de passar para o primeiro nível, vão ter a formação do segundo nível, os que passarem para o segundo nível, têm a do terceiro nível e assim em diante. Passam a ser credenciados pela Federação Internacional de Atletismo Amador (IAAF), e naturalmente podemos ter a partir daí uma qualidade de treino e responsabilidade dos treinadores mais sérios\".


PAÍSES DA ZONA V
“Vamos aproveitar
a boleia e mandar
os jovens para lá\"


A programação da Federação adequa-se aquilo que são a pretensões de elevar cada vez mais a modalidade no país, ou enquadrar-se na Zona V?
\" Neste momento sim. Mas também tenho de dizer o seguinte: A zona V pelo facto de ter uma aderência grande por Angola, eles são amigos de Angola, têm competições regionais. A zona cinco tem competições regionais, no qual Angola se tiver de fazer competições regionais, vai ter grandes dificuldades por falta de pistas. Então, entenderam que os nossos atletas dos 15, 16 e 17 anos têm de ir a África do Sul e ao Botswana nas competições com três a quatro semanas, antes para ver se conseguem dentro deste período fazer pelo menos no mínimo duas competições. Independentemente das competições, terem a possibilidade do treinos com as pessoas mais evoluídas, e crianças que já têm uma dinâmica diferente porque o trabalho deles é muito sério. Nós vamos aproveitar a boleia, para aprimorar tecnicamente os nossos praticantes desses escalões.