Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Boxe vive melhor momento

Silvia Cacuti - 26 de Setembro, 2017

Carlos Luís, presidente da Federação admite a perda, mas valoriza o potencial dos pugilistas angolanos.

Fotografia: Jornal dos Desportos

Vai no segundo mandato consecuivo à frente da Federação. Como caracteriza o boxe angolano?
O nosso boxe nunca esteve tão bem como o de hoje. Se olharmos para a história desta nossa modalidade, chegamos facilmente à conclusão de que nunca esteve tão bem.

Fundamente...
Os registos e a estatística do boxe mostram-nos que o boxe nunca esteve tão bem como o hoje. Não obstante o facto de nos anos 80 existiram clubes com capacidade financeira e organizativa, capazes de estar presentes e cobrir encargos nas actividades da Federação, até se pedia a taxa de participação e todos pagavam, os resultados atingidos naquela altura não se podem comparar aos de hoje. Devo ainda sublinhar que se falou tanto ou continua a falar-se dos pugilistas da geração de 80, mas uma questão se levanta: que resultados obtiveram?

Pode descrevê-los?

Ia-se aos Jogos Panafricamos  e a outros torneios internacionais... Por que  é que naquela altura não participavam em Campeonatos Africanos? Só o facto de que o primeiro Campeonato Africano disputado por Angola foi em 2014, quer dizer que houve uma melhoria; o facto de nesta primeira vez termos trazido uma medalha de prata, demonstra também a melhoria de que falo. Naquela altura, houve uma maior quantidade e qualidade de treinadores, mas os resultados não apareciam. Hoje, temos poucos treinadores categorizados, a maior parte dos clubes são treinados por ex-atletas que não têm a preparação adequada, mas o acompanhamento que a Federação faz do leque de atletas seleccionáveis, permite que, ao chegarem à selecção, dêem cartas e tenham resultados positivos.

Hoje, qual é o quadro de participação nas competições da Faboxe?

A Federação suporta a participação de quase todos os agentes nos campeonatos. E, mesmo naqueles que vêm a seu custo, estou a referir-me ao Interclube e a Electro do Lobito, há momentos em que a Federação tem de dar uma mão. Na verdade, devemos também aqui dizer, que esses clubes, às vezes, também dão uma mão à Federação. Há uma boa relação entre a Federação e os clubes.

Temos uma Federação que arca com quase tudo, isso significa que há saúde no boxe. Não era desejável que os clubes criassem as condições de subsidiar a Federação?
Isto parece contraditório, mas estamos aqui a defender a lógica. Este grande problema, de haver ou não capacidades dos clubes e das Associações, costuma ser um tema que levantamos em vários fóruns nas nossas discussões mantidas com o Ministério da Juventude e Desportos. Num encontro com uma comissão especializada da Assembleia Nacional, tivemos a coragem de dizer isso. Para nós, é um problema de Estado e de estratégia de governação. A Federação não pode resolvê-lo e não é do nosso domínio.

Como assim?
A maior parte de clubes de futebol são suportados pelo Estado. Há modalidades, cujo salário mínimo é um milhão de kwanzas. Não podemos perceber que uma Federação Nacional, como o boxe, com responsabilidade de tamanho superior, tenha um orçamento anual comparado a três salários de uma jogadora de andebol. Também não percebemos, que os clubes financiados pelos orçamentos provenientes de descontos das Forças Armadas Angolanas, Polícia Nacional e de Cofres de outras instituições públicas não abarcam o boxe com a justificação de que o seu orçamento não  permite ter mais uma modalidade. Infelizmente, fazem contratos acima de 100 mil dólares norte-americanos para pagar um só indivíduo.

A realidade de clubes sem condições que tem a ver com o facto do boxe não estar a chegar aos grandes clubes do nosso desporto. O que se passa?
Como vai entrar, se toda a tentativa é rejeitada no princípio. Não é a falta de diligências nem é a falta de dinâmica.

A Federação teve alguma iniciativa junto de clubes como Libolo, Petro de Luanda e 1º de Agosto para inserirem o boxe no leque de modalidades que movimentam?
Pessoalmente, nunca estive com o Libolo. Primeiro é que não é um clube que recebe do OGE. Isso é o que a gente sabe. Sabemos que os clubes privados, normalmente, têm as modalidades por opção. Não dispersamos o tempo com diligências para contactar essas agremiações, salvo se houver um indicador.  Sei que as direcções antecedentes à minha contactaram o Kabuscorp do Palanca. O 1º de Agosto e o Petro de Luanda são sempre portas a bater. Às vezes, sentimos que os processos estão a evoluir e de repente, tudo fica sem se esclarecer.

O Interclube é um dos grandes clubes que abraçou o boxe e está a ter o domínio, quase incontestável. Não receia que a falta de competitividade possa refrear a vontade de manter a modalidade?
Não. Devo dizer que estamos em vias de receber mais treinadores cubanos. É verdade que uns vão trabalhar com o Interclube, mas vai ser no Inter da Huíla. Queremos aproveitar para agradecer não só ao Interclube, mas ao Comando Geral da Polícia Nacional, Ministério do Interior, Instituto de Ciências Policiais e várias delegações provinciais ou comandos provinciais. Um dos segredos do nosso sucesso é o apoio das infra-estruturas do Ministério do Interior em todo o território nacional. Aqui, também se associa as Forças Armadas Angolanas nos seus distintos ramos, mormente, a Força Aérea Nacional, Exército, Marinha de Guerra e mesmo o Estado Maior General, que nos têm valido em grande medida. Se tivermos de contabilizar aquilo que recebemos do OGE e o que recebemos de graça dessas estruturas, notaríamos a diferença. Seria impossível trabalhar nem tampouco preparar as nossas selecções nacionais. Já referimos, que os resultados alcançados por outras modalidades são graças ao volume de injecção financeira do Estado.

Concretamente a questão!

Não temos este receio. O grande segredo não está nas condições que o Interclube dá aos seus atletas, mas o trabalho que o Interclube faz que os outros não fazem.

A modalidade está a ser descartada
O lugar do boxe no mosaico desportivo nacional mereceu a apreciação de Carlos Luís. O presidente da Faboxe aborda as diferenças de tratamento a que está votada perante as entidades competentes. Diante da inércia de outros sectores, a Faboxe procura alavancar a modalidade com apoios de uma equipa directiva coesa. Fruto do dinamismo aplicado, uma equipa da AIBA vem nos próximos dias a Angola para constatar a realidade do país, segundo Carlos Luís.

Sente que o boxe está a ser injustiçado nas alocações de verba do Estado?
O boxe está a ser descartado como modalidade desportiva no nosso país. A título de exemplo, cito: desde os últimos meses do ano passado até hoje, a Federação não recebe nenhum kwanza do OGE. Felizmente, conseguimos apoiar a realização de um torneio provincial em Luanda, em Cabinda e no Lubango. Fizemos um torneio de observação de atletas para a selecção, organizámos o Campeonato Africano da Zona, preparámos a selecção nacional para a Zona e para o Campeonato Africano, realizámos o Campeonato Nacional, fomos ao Campeonato Africano e apurámos atletas para o Campeonato Mundial sem qualquer kwanza do OGE. Por isso, não preciso de responder à pergunta que me faz.

O Boxe está a crescer pelo país em termos de número de praticantes. Qual é o \"feed-back\" que tem junto das Associações provinciais?
É muito triste falar das províncias. Até parece que as pessoas deixaram de considerar o princípio das responsabilidades. Todo o mundo quer imputar as responsabilidades à Federação por causa da falta de apoios e de ter agremiações que possam acolher a modalidade. Todo o mundo está à espera da Federação que dê luvas, dinheiro ou apoios para realizar os campeonatos provinciais. Esperam que a Federação consiga arranjar veículos para a vinda, participação e regresso de pugilistas. É verdade que quando identificámos uma província que tem a dinâmica, iniciativa, tudo fazemos para que tenha as condições. Mas seria bom que se pensasse o contrário; que nas províncias também surgissem pessoas capazes de fazer o que temos feito.  

Tem passado esta mensagem aos agentes de boxe?
Conversamos, passamos esta mensagem e sensibilizamos. Quero dizer o seguinte: há uma estratégia que vem do Ministério da Juventude e Desportos, de que todas as Federações são participantes. Essa estratégia está à espera de sustentabilidade. Ou seja, depois da aprovação, o país ficou mergulhado numa crise. Essa estratégia está à espera de novo ânimo da economia para ser suportada. Enquanto isso, também recomendo que o desporto não pode parar. Os actores têm de fazer.

O boxe está estático nestas províncias?

Há crescimento. Saí da Federação em 2004 e voltei em 2012. Durante este período, nunca apareceu algum atleta de Cabinda nas actividades. Hoje, já temos atletas de Cabinda a dar cartas. Aparecemos e a Lunda- Norte tinha ameaçado o Lobito, pois ficou com o terceiro lugar. Há vontades. O número está a aumentar. Não obstante isso, notamos que temos pouco espaço na comunicação social. Hoje, o número de órgãos da comunicação social aumentou, mas também reduziram os espaços ou matérias sobre o boxe nas suas grelhas. Também reduziu o patrocínio.

Antes, disse que o boxe está bem. É sinal de que essas situações todas (enumeradas) não se repercutem no desempenho das nossas selecções?

O que estamos a passar aos clubes e às Associações é o que estamos a fazer. Estamos a trabalhar. O boxe africano e o boxe mundial estão a ter problemas de lidar com os nossos atletas. O boxe angolano está muito forte. Por causa disso, deixa-me anunciar que vêm para cá, e já está na fase de tratamento do processo de vistos, o Secretário Executivo da AIBA, o Director de Competições e o Director para a África. A AIBA concluiu que Angola vai ser a próxima potência do boxe africano. Só não qualificámos os sete pugilistas, que levamos ao Campeonato Africano, porque os árbitros pararam os nossos combates. Eles sabem disso.

CONCLUSÃO
A fuga de atletas em Hamburgo “foi golpe ao investimento”

Carlos Luis revela que parte do seu sustento foi aplicado na preparação da selecção em detrimento dos seus filhos, familiares e amigos. O \"manager\" manifestou agradecimentos pelo apoio do Estado, durante a preparação da selecção nacional, para as diferentes competições.As suspeitas da fuga dos atletas constavam do mapeamento da direcção e da equipa técnica. Diante do apuramento dos atletas, em Brazzaville, a Faboxe viu-se apertada e sem argumentos para impedir a presença de \"notres frères\" em Hamburgo.

Há um processo que começou com a definição de atletas, preparação, campeonato africano, apuramento e tristemente os qualificados acabaram por abandonar a delegação...

Devo dizer que os pugilistas que abandonaram a nossa selecção, na Alemanha, são os que se qualificaram e não os melhores do país. Devo dizer também que foi um golpe muito grande ao nosso investimento pessoal, e também do Estado, pois algum dinheiro nos foi dado nesta trajectória toda. Utilizámos as instalações do Ministério do Interior, das Forças Armadas Angolanas, do sector energético, tudo isso é Estado, é Governo. Utilizámos em benefício dessa estratégia que culminou com a qualificação dos atletas.

Foi mais o  apoio institucional?
Tenho a lamentar profundamente as opiniões de pessoas que são comentaristas desportivos e que falam sem ter a mínima prova ou noção da coisa.Ficámos muito ofendidos não só por terem apontado o meu nome de forma caluniosa, mas também beliscaram o boxe, em particular, e o desporto nacional, no geral.

Como é que vão dizer que a selecção nacional foi com dinheiro do Estado, se não recebi nenhum dinheiro?
Essa pessoa mentiu ao país não só com as conclusões que tinham de fazer, mas não tinha o conhecimento das coisas.

Como foi possível levar a selecção e garantir a presença no palco do Mundial?

Ele não sabe quanto gastei nisso. Deixei de dar aos meus filhos, à minha família e aos meus amigos para preparar essa selecção nacional, comprar os bilhetes e garantir a participação. Tive de pedir aos meus amigos e aos colegas para contribuírem para isso. Fizemos esse sacrifício e aparece um comentarista a fazer um ponto de vista, emque nos chama todos os nomes possíveis, acusa-nos de gastar o dinheiro do Estado, de que é contribuinte. Isso é duro. Ainda não respondemos a isso. Temos um processo que está a ser formado.

Qual foi o impacto da fuga dos três atletas junto dos demais integrantes da selecção nacional?
Falo como investigador e identificador de talentos. Neste momento, não é qualquer país no mundo que tem atletas pesados como o Tumba Silva e Carlos Masia. Mas o que lhes falta não conhecem. Já tínhamos formado uma equipa. Vamos precisar de dois anos para formar atletas com as qualidades deles. Primeiro, devemos encontrá-los, depois prepará-los. Não vai ser fácil.

Diante da fuga, como ficou o seleccionador que trabalhou com os atletas?

Ficou muito abalado na altura. Tive medo. Sentiu também com alguma culpa, na medida em que estávamos a acautelar e a ponderar a participação desses atletas. Motivou-me muito, porque estava confiante de que os atletas não iam cometer a fuga.

Vocês chegaram a equacionar a possibilidade de fuga dos atletas?

Estava convencido desse acontecimento dessa fuga. Estava a acautelar muito, tanto mais que reuni a Direcção, chamei os treinadores e os membros do Conselho Técnico, que já tinha descartado a possibilidade do Tumba Silva participar. Inclusive, tinha enviado um e-mail à AIBA a notificar que estávamos a ponderar a participação do Tumba Silva.

Tumba Silva manifestava a intenção, havia alguma indicação?
Todos eles. Mas havia outro assunto associado: já tinha deliberado a não ida do Tumba Silva. Quanto à integração do Menayame, por se tratar de uma repescagem, não mereceu também o meu voto. Os membros de direcção votaram favoravelmente e aceitei pela consciência de que devem habituar-se  a  essas competições, se queremos atingir o objectivo.

A não participação no Campeonato Mundial não acarreta consequências para o boxe angolano?
Não há consequências, na medida em que cumprimos a norma, não negligenciámos nada do que a AIBA nos podia solicitar. Os princípios todos foram observados. Enquanto Federação, nada podíamos fazer.