Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Brulio de Brito deseja transparncia e justia no Andebol

Francisco Carvalho - 05 de Novembro, 2012

O candidato presidncia da FAAND quer transparncia e justia para que o andebol

Fotografia: Jornal dos Desportos

Pela primeira vez, o andebol apresenta mais de cem eleitores. Esse número representa o crescimento da família da modalidade?
A base do desporto é o fair play. A transparência e o espírito de que vença o melhor são preceitos fundamentais. Infelizmente, os Estatutos actuais estabelecem que é a direcção cessante da Federação Angolana de Andebol (FAAND) que propõe a população votante.Para nossa grande perplexidade, verificámos que indicou números grandes de equipas fantasmas e núcleos. Por definição da palavra, núcleo é embrião, não tem identidade jurídica. A nossa lei do Sistema Desportivo é clara: só votam as equipas e órgãos que tenham identidade jurídica bem definida e que tenham realizado as suas eleições até ao fim do ciclo olímpico. Não é o caso das equipas fantasma. Com todo o respeito por esses clubes, núcleos e associações, para o efeito de votação não podem votar. Os clubes fantasma e os núcleos, por falta de identidade jurídica, não podem votar. Não somos contra os núcleos, eles são os bastiões do desporto, mas só podem votar quando se transformarem em identidade jurídica, isto é, numa equipa. Vamos continuar a debater com a Comissão Eleitoral e a Direcção Nacional dos Desportos para se definir a população votante. As pessoas com fair play no desporto e a família do desporto sabem onde há andebol. Vamos ser transparentes, honestos e que vença o melhor, com ferramentas legais, nas urnas.

A vossa equipa de candidatura já apresentou à Comissão Eleitoral algum protesto para anulação dos clubes fantasma dos votantes?
Estamos a conversar com a Comissão Eleitoral. Estamos a duas semanas da votação e ainda não está definido quem pode votar. Isso pressupõe que a Comissão Eleitoral e a Direcção Nacional dos Desportos entendem que alguma coisa não está bem. Se estivesse bem, tinham indicado logo na primeira hora a população votante. Se esses órgãos têm reticências isso é um sinal de que não há clareza no processo. Vamos continuar a trabalhar e fazer valer a nossa posição de transparência e de honestidade. É assim que se deve jogar o desporto e o andebol. Vamos continuar a trabalhar para chegarmos à justiça e justeza.

A sua equipa fez um périplo pelo país antes da abertura do processo oficial de candidatura. O que constatou quanto à realidade do andebol nacional?
Efectuámos um périplo de auscultação e para medir a pulsação ao andebol. Verificámos que existem muitas dificuldades, há uma gritante falta de orientação e de apoio por parte da direcção cessante da FAAND. Todas as associações e todos os clubes indicaram que a direcção cessante nunca esteve presente nessas províncias, nunca prestou qualquer apoio. Estamos a falar de apoio monetário ou equipamentos, de apoio institucional, como acompanhar os campeonatos provinciais e providenciar orientação. Nunca fez isso. Constatámos que há províncias que não têm andebol. Isso não nos amedronta. O que devemos fazer é parar e, sem fantasmas, encarar o trabalho de frente. E onde não há andebol, corrigir os problemas. Não temos de escamotear a verdade. Vamos assumir essa verdade e pôr no nosso programa acções para que surja o andebol nessas províncias e dentro de quatro anos possam votar na legalidade.

Quais são as províncias que não têm andebol?
Prefiro não as mencionar. Basta ver os campeonatos nacionais, em momento algum tivemos 94 equipas. Se essas equipas existissem na realidade, não só dominaríamos o andebol feminino africano, mas também o andebol mundial. Está mais do que claro que a direcção cessante da FAAND está a querer vencer na ilegalidade e na falta de fair play. Nós, como bons desportistas, vamos continuar a pressionar para que essas práticas menos boas não voltem a acontecer.

Na falta de entendimento sobre o número real de eleitores, que impacto pode ter a sua candidatura nas eleições?
Ao acontecer só vai demonstrar que não estamos a ser sérios nem pessoas responsáveis. Qualquer pessoa responsável que esteja no andebol para o servir, fazer crescer, torná-lo veículo para desenvolvimento da Nação, suporte de reconstrução nacional e para ajuda do crescimento da juventude, não pode jogar na falsidade. Portanto, ao acontecer, vai ter um impacto negativo nas eleições. Mesmo nós vencendo, o que é a nossa expectativa, vamos vencer sob uma áurea de inverdade, o que não queremos. Queremos que as equipas legalizadas e as associações que estejam activas sejam a população votante. Vamos identificar aquelas associações e clubes que não estejam em condições de votar, trabalhar com elas, potenciá-las e permitir que surjam as 94 equipas efectivamente reais, o que vai ser bom para o andebol e para todos nós e beneficia toda a Nação. Assim, teremos uma população votante maior e um andebol mais expandido e em crescimento em todo o país.

Que apoios concretos vai dar às associações provinciais?
Efectuámos contactos preliminares com as Embaixadas de Angola e algumas empresas. Faço parte da indústria petrolífera e algumas pessoas da nossa lista são responsáveis de algumas instituições públicas e privadas. Todos nós nos predispusemos a pôr as nossas valências para que os apoios necessários para o desenvolvimento do nosso programa sejam efectivados. É prematuro enumerar as empresas, mas assim que for concretizada a nossa eleição, vamos, com todo o rigor e transparência, apresentá-las. Vamos primar por comunicar em tempo real, para que as pessoas saibam o que estamos a fazer e como, sem escamotear seja o que for.

GESTÃO
“O andebol é uma
modalidade de equipa”


No seu programa defende uma gestão participativa para a revitalização do andebol. É a maneira de tornar o andebol mais nacional?
Exactamente. O andebol é uma modalidade de equipa na sua essência. Não há como gerir esse desporto tão belo com duas pessoas. Vamos criar uma maneira de estar diferente, mais abrangente. Na nossa lista, temos elementos que vivem fora de Luanda para criar essa expansão, essa abertura e espírito de equipa. Temos vários vogais residentes noutras províncias. Propomo-nos realizar assembleias-gerais em províncias diferentes. O nosso candidato a secretário-geral vai manter encontros regulares com secretários-gerais das associações provinciais. Propomo-nos efectuar visitas regulares a todas as associações provinciais e apoiá-las com equipamentos desportivos, bolas, pranchetas e outros meios. Isso demonstra que queremos trabalhar para a família, para o crescimento e desenvolvimento do andebol. Queremos que todos os aqueles que estão ligados ao andebol participem na gestão do dia-a-dia da modalidade. Vamos respeitar as diferenças, haverá desentendimento de ideologias, mas o mais importante é que, sendo um grupo, vamos conversar e chegar ao ponto comum e trabalhar para o bem do andebol. Isso não se vê hoje. A federação é gerida por duas pessoas, porque os outros membros não se revêem na forma de funcionamento. Bateram com a porta. O nosso grupo trabalha em conjunto há quatro meses e nos nossos debates há visões diferentes nas abordagens, mas chegamos sempre a um ponto de convergência.

Os especialistas afirmam que o piso de cimento é um dos causadores de lesões dos atletas. Como pensam equilibrar a formação de atletas em todo o país, se as províncias do litoral são as que têm melhores campos?
É um aspecto pertinente. Era irrazoável dizer que vamos construir ou trazer mais infra-estruturas. Não é certo nem vamos fazer esse tipo de observação. Reconhecemos que algumas províncias têm melhores instalações desportivas que outras, mas também reconhecemos que, ao longo dos últimos anos, o Executivo efectuou investimentos dignos de monta para que tenhamos hoje, espalhadas por quase todo o país, excelentes infra-estruturas. Não é o número que queremos, porque nós, os desportistas, queremos mais e melhor. Constatámos no périplo que fizemos que muitas infra-estruturas desportivas estão a ser erguidas nas províncias pelo Executivo, são instalações modernas e estamos a deixar o piso de cimento, dando aos praticantes um espaço mais digno. Vamos continuar a interagir com o Ministério da Juventude e Desportos, Ministério da Construção e Ministério da Educação para prestarmos, naquilo que nos for solicitado, a nossa contribuição. O papel da federação é o de facilitador e de interacção entre várias correntes à volta do desporto, no geral, e do andebol, em particular, para que possamos melhorar a modalidade.

REVITALIZAÇÃO
“Vamos trabalhar na formação


Além de Luanda, a promoção do desporto nas outras províncias é feita por carolas, pessoas sem formação especializada em desporto. Como pensam profissionalizar as diferentes áreas, nas quais os carolas são as peças fundamentais?
O pilar estratégico do nosso programa é a formação dos homens que fazem o andebol. Estamos a falar dos árbitros, treinadores e dirigentes. E, por arrastamento, estamos também a formar bons atletas. Vamos dedicar-nos à formação dos árbitros em todas as suas componentes. Não é justo que Angola domine em seniores femininos em África (clubes e selecções) e não tenhamos um único árbitro nessas delegações. Já houve explicações para a ausência de árbitros angolanos. Apresentaram-nos desculpas inaceitáveis e a direcção cessante não corrigiu os erros que criou durante os últimos quatro anos. Portanto, mal tomemos posse na direcção da federação, vamos alterar esse quadro para que os árbitros angolanos façam parte dos quadros da arbitragem continental e sejam submetidos a acções de formação. Portanto, que saiam também da acção de formação convencional. Há outras formas de formação. Podemos integrar mais treinadores nas equipas técnicas das selecções nacionais que viajam pelo mundo e colocar treinadores de outras províncias nas cidades em que o andebol seja mais avançado. Além disso, em função dos contactos com as embaixadas, podemos mandá-los para o exterior em formação. Há uma panóplia de acções dirigidas para a formação que constam no nosso programa.

Também defende a profissionalização dos árbitros?

O candidato da lista A diz que vai profissionalizar a arbitragem nacional. Isso é uma aberração de todo o tamanho. Nas principais ligas de futebol da Europa que geram milhões de dólares e euros, não vemos isso. São ligas de países com níveis de desenvolvimento económico superior a Angola e não têm capacidade para profissionalizar os árbitros. Portanto, essa promessa é uma mentira. Alertamos a população votante que são propostas irrealizáveis. Profissionalizar os árbitros pressupõe que sejam inscritos no Ministério da Administração Pública e Emprego Social, que sejam inseridos no Instituto de Segurança Social, que tenham abono de família e que vivam do andebol. Ora, a direcção cessante veio a terreiro muitas vezes justificar que não se realizaram viagens das selecções nacionais por falta de dinheiro. As associações provinciais não tiveram apoios por falta de dinheiro. Como podem profissionalizar os árbitros? Isso é ridículo, não tem sentido de Estado, de desporto, nem administrativo. As pessoas que fazem esse tipo de afirmações demonstram que não têm responsabilidade. Portanto, não faz sentido passar este tipo de afirmações.

No seu programa de acção, está definido que entre as principais acções do Conselho de Arbitragem é assegurar uma competição interna forte com arbitragem isenta e níveis de organização profissionalizados. O que está a sugerir com a isenção dos árbitros?
Quando falamos em instituir níveis de organização profissionalizada estamos a falar de estruturas administrativas, onde vamos ter todo o tipo de equipamentos de apoio ao desempenho da actividade de arbitragem a funcionar em pleno. Teremos as pessoas de foro administrativo em tempo integral, para fazer funcionar a arbitragem de forma adequada. Não estamos a falar de profissionalizar a arbitragem. E para que o desporto se desenvolva é necessário que todos os processos e mecanismos de apoio sejam fortes. A arbitragem é um deles. Falamos em potenciar o sector administrativo da federação, potenciar os árbitros e torná-los capazes de gerir os jogos de forma isenta, imparcial, em que seja a própria Comissão de Arbitragem a ditar os destinos da classe em Angola, sob supervisão da direcção da federação.

E não tem sido a comissão de arbitragem?
Os seminários de actualização dos árbitros devem ser dados por pessoas especializadas em arbitragem. No mandato cessante, vimos o presidente da direcção da federação a ser o formador do curso de arbitragem. Essa é outra aberração. Não faz sentido algum. Estamos a falar de isenção. Dar a César o que é de César. Os árbitros internacionais e os formadores de arbitragem formam os árbitros, os dirigentes administrativos da federação tratam dos processos administrativos e os treinadores tratam da Comissão Técnica e da preparação das selecções nacionais. Toda a cadeia de responsabilidade deve ser claramente definida e a responsabilidade deve ser assumida pelas pessoas de direito. Não aceitamos a mescla de que uma ou duas pessoas fazem tudo, conforme vimos no último mandato da direcção cessante da federação.

Na abertura da campanha disse que as competições internas não podem ser manifestações de entusiasmo efémero ou produto de acontecimentos esporádicos. O que queria dizer com isso?
Nos meses que antecederam o início da campanha eleitoral surgiram actividades que nunca estiveram programadas. O nosso estilo de trabalho, a nossa acção, vai ser planear e programar no início de cada época todas as actividades. Pode surgir uma derrapagem aqui e ali. Em linha geral, todos os agentes, mormente árbitros, treinadores, atletas e dirigentes vão saber a programação geral da vida do andebol durante o ano.Constatámos neste último mandato que a Taça de Angola surgiu de repente, apanhando todos de surpresa. Houve jogos em que seniores jogaram com juvenis. Uma mescla de actividades muito mal realizadas, porque não foram planeadas, foram organizadas à última hora, para as pessoas tentarem tirar vantagens eleitoralistas. Isso não é correcto. As provas devem ser organizadas e planeadas em tempo útil. Portanto, vamos contribuir para uma gestão transparente que reflicta disciplina e um modo de funcionamento adequado para o desenvolvimento de qualquer modalidade desportiva.

INSTITUIÇÕES INTERNACIONAIS
“Precisamos ser mais humildes”


Angola perdeu a presidência da zona VI para a África do Sul, um país sem expressão no andebol continental. Quer comentar?
A perda da presidência da Zona VI é um revés que não deve ser tratado como o fim do mundo. Há muitas acusações na imprensa. O que se deve fazer é parar, reagruparmo-nos e analisar com profundidade o que fizemos mal ou bem. Precisamos ser mais humildes, trabalhar com a nova direcção da Zona VI, assentar a nossa posição e trabalhar de forma estratégica, planeada, para que possamos novamente assumir a direcção da zona 6 daqui a alguns anos. Precisamos de ter uma participação mais activa na Confederação Africana. A zona 6 e o Comité Executivo da CAHB não se casam. Devemos analisar as coisas e ver o melhor caminho para Angola. Onde é que Angola, como Nação, vai ter mais benefícios? Onde vai servir de valor acrescentado para todos nós? Onde já estamos presentes, como no Comité de Organização de Competições, devemos reforçar a nossa presença. As pessoas que representam Angola nas instituições internacionais devem prestar contas, pois o país precisa de saber o que fazem, como fazem e quando fazem. As acções a desenvolver beneficiam Angola, o andebol e o desporto nacional? Aqui há também um elemento inexistente: a prestação de contas.Assim que entrarmos em função, vamos trabalhar para que se corrija isso e tenhamos uma forma de trabalhar mais eficiente, clara e dinâmica.

Uma palavra

É importante alertar a família do andebol e a imprensa. Disse-se que Angola se classificou pela primeira vez para o campeonato do mundo de juniores. Essa afirmação é errada. A certa é que Angola vai pela segunda vez a um campeonato do mundo de juniores. A primeira vez ocorreu quando o presidente cessante da federação era vice-presidente da direcção liderada pelo Dr Archer Mangueira. A pessoa que chefiou a delegação angolana é hoje candidata à presidência da Mesa da Asembleia-geral da lista B. Existem evidências mais que suficientes para fazermos o desmentido. Além disso, a actual selecção nacional apurou-se por mérito de treinadores e dos atletas, por si só. Pessoalmente, fui testemunha de algumas sessões de treino em que os atletas não tinham água, transporte de casa para o local de treino e vice-versa, nem o carinho dos dirigentes da federação nessas sessões. Portanto, o mérito vai para os atletas e treinadores. Se à federação se deve dar algum mérito é por ter facilitado a compra de bilhetes de passagem e a deslocação dos atletas. O mérito desportivo é dado a César quando é de César.