Jornal dos Desportos

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Entrevistas

CAF pode falar português

Matias Adriano e Ant?nio de Brito - 20 de Março, 2017

RUI CAMPOS MEMBRO DO COMITÉ EXECUTIVO DA CAF

Fotografia: Francisco Bernardo

O fastidioso exercício que implica uma fase de campanha eleitoral com sucessivas deslocações do país e vários contactos exploratórios acaba por ser compensado, com a sua entrada para o Comité Executivo da Confederação Africana de Futebol. O que se lhe apraz comentar neste momento, que podemos considerar ainda de alguma euforia?
Deixam-me dizer que foi uma maratona difícil, mas facilitada em parte por alguma visão estratégica de minha parte. Tive a visão de tentar chegar ao Comité Executivo da CAF há seis anos. E há dois anos que tenho trabalhado detalhadamente no assunto, a tentar encontrar um caminho para lá chegar. Ao longo destes anos fui fazendo trabalho com pessoas que me ajudaram. Tenho uma assistente para esses assuntos nas instituições internacionais e isso permitiu acalentar esperança.

O primeiro resultado noticiado no país foi a derrota de Issan Hayatou na presidência da CAF. E isto levantou cá entre nós algum receio quanto à possibilidade da eleição do candidato angolano ao Comité Executivo, tendo a vitória sido uma positiva surpresa. Teve também este sentimento?

É legítimo que se tenha criado este ambiente, porque o congresso começa e a primeira eleição é presidencial. Logo, quando o senhor Issan Hayatou perde a eleição presidencial tudo mudou, porque as federações são tentadas a votar nos candidatos propostos por quem ganhou. Como eu tinha sido proposto por quem perdeu, posso afirmar que acabei por ter alguma sorte para chegar à eleição.

Qual foi a jogada estratégica engendrada para dar a volta por cima e acabar sempre eleito apesar da derrota de quem lhe tinha proposto?
Houve um atraso do congresso nos pontos iniciais, e o almoço que estava previsto para o fim teve de ser feito antes da eleição presidencial. E por outro, antes da eleição do Comité Executivo tivemos uma hora para alinhar estratégias. Foi isso que valeu. E aqui devo uma atenção especial ao senhor Victor Osório, presidente da Federação Cabo-verdiana de Futebol, que trabalhou comigo. Eu não conseguiria 28 votos. Este número expressa maioria absoluta, metade de 54+1 e esperávamos que houvesse um nível alto de abstinência para que a maioria não crescesse. Acabei por ter 25 votos. Portanto, aqui funcionou a diplomacia.

Podemos considerar a jogada diplomática como tendo sido determinante em todo exercício que conduziu à eleição?
Além da visão diplomática implicou também muita matemática. Houve países que votaram no senhor Ahmad Ahmad que votaram em mim. A RDC e Zâmbia, por exemplo, votaram contra mim. Quem nos trai mais depressa, às vezes, são mesmo as pessoas que estão próximas de nós. E digo mais: fui o único candidato proposto por Issan Hayatou que foi eleito. Todos os outros perderam."

Seja como for, já expressava antes da assembleia alguma confiança. Desde quando é que passou a acreditar que era possível ser eleito?
Comecei a acreditar na vitória em Libreville, durante o CAN'2017. Pude constatar que a possibilidade era muito grande, mas com a alteração do alinhamento tudo complicou-se. Foi muito difícil, mas sabe melhor e era natural que fosse assim. Depois da derrota de Issan Hayatou as pessoas ficaram receosas, mas tudo acabou bem.

Que descrição pode fazer àquilo que terá sido o contributo prestado pelos países da comunidade lusófona?
Os Palop tiveram ou jogaram um papel fundamental para a minha eleição. A FAF, através do presidente Artur de Almeida, prestou-me um valioso apoio. Fizemos todos um bom trabalho. Por isso, considero esta uma vitória do colectivo. Não só do Rui Campos, mas de todos que se associaram ao projecto, e que nele acreditaram.

METAS
“Farei do português língua de trabalho”


Quais são os ganhos para o futebol angolano em particular e lusófono em geral, com a sua eleição para o Comité Executivo da CAF?
Desde já a Confederação Africana de Futebol terá alguém que se expressa em português. Aliás, a primeira oportunidade será fazer com que o português passe a ser uma língua de trabalho. Há colegas que querem se comunicar em português, mas são obrigados a fazê-lo em inglês ou em francês, às vezes sem se fazer entender. E estar um lusófono dentro das estruturas da CAF é muito importante, porque é lá onde são decididos os problemas e o futuro do futebol africano. Por exemplo, as vagas para a comissão da Fifa são decididas em função da língua. Não pode ser assim. Vamos procurar mudar o quadro.

Portanto, são os anglófonos e os francófonos que têm o domínio da situação. É isto?
É resumidamente isto. Vejam que para as comissões da Fifa existem três vagas para os anglófonos, três para os francófonos e três outras que são disputadas pelos falantes de árabe, português e espanhol. Em síntese, existem dentro da própria Confederação Africana de Futebol muitas divisões linguísticas  que devem ser quebradas ou ultrapassadas.

Que políticas pensa traçar para os outros países da comunidade lusófona durante a vigência do seu mandato? 
Em primeiro lugar devo dizer que a candidatura para o Comité Executivo da CAF é um projecto de minha própria iniciativa, embora tenha sido proposto pela minha federação, no caso a Federação Angolana de Futebol. Tenho as ideias próprias e iniciativas. O presidente de cada federação terá de expor as suas ideias e eu tratarei de defendê-las. Penso fazer um bom trabalho lá em cima.

Em regra, consumado o objectivo e olhando para trás vem o reconhecimento àqueles que ajudaram. Que apoio teve das autoridades desportivas do país?
Tive muito apoio neste processo. Nunca notei dificuldades das autoridades. Posso assegurar que fiz o meu percurso sem quaisquer obstáculos. Tenho desde já de agradecer o apoio da Embaixada de Angola na Etiópia.

Quais foram as reacções à sua vitória dentro da própria confederação?
Depois da divulgação dos resultados choveram abraços por parte dos dirigentes de países participantes. Foi um momento inesquecível. Como sabem, no fim de um processo eleitoral todos aparecem como se tivessem depositado o seu voto em nós que saímos vencedores. E foi este ambiente que envolveu o fim dos trabalhos da assembleia geral.

Teve outras felicitações à parte?
Isto é, de elementos alheios à CAF.Recebi uma carta de felicitações do presidente da Confederação Asiática de Futebol sobre a minha eleição. Agradeci e ficamos para estar juntos na reunião da Fifa no Baren. Estamos a fazer o nosso trabalho

O que pensa que poderá mudar na CAF com a saída de Issan Hayatou e entrada de Ahmad Ahmad?
A CAF vai mudar dentro dos próximos dois anos. Li o programa do senhor Ahmad Ahmad em Libreville em Janeiro deste ano. À margem do Campeonato Africano das Nações tivemos um encontro de aproximadamente duas horas, e disse-lhe que concordava com o seu programa de acção, embora não na totalidade.

Em especial o que promete o seu programa para o futebol angolano nos próximos tempos?
No encontro que tivemos, Ahmad Ahmad não detalhou uma atenção especial para o futebol angolano, mas para todos os países. Jogou alma para toda a gente, prometendo dinheiro às federações nacionais. Ele tem um programa muito especial para o desenvolvimento do futebol africano. Vamos esperar.

Há um intervalo entre o acto eleitoral e a tomada de posse ou os eleitos já entraram em funções?

Em regra, a investidura dos novos membros eleitos é logo a seguir. Mas desta vez não ocorreu assim por decisão do próprio Ahmad Ahmad, que achou por bem que tendo em conta o longo tempo que Issan Hayatou ficou à frente da instituição pudesse continuar em funções até a tomada de posse da nova direcção, o que deve acontecer entre finais de Abril e princípios de Maio.

A quem dedica este sucesso?

Em primeiro lugar à minha família, porque esteve sempre comigo e me ajudou bastante, em particular a vocês e a mais alguma imprensa, porque tenho alguns amigos da Comunicação Social.

FIFA
“Comissão Executiva é a próxima etapa”


Qual será o próximo passo depois da entrada no Comité Executivo da CAF? Chegar a vice-presidência?
-A nossa prioridade agora passa por integrar a Comissão Executiva da Fifa, onde já estamos na Comissão de Governance. Na CAF não é propriamente o meu objectivo, tenho outras atribuições profissionais. O passo seguinte será mesmo a Comissão Executiva da Fifa. Há seis anos já tinha avançado esta possibilidade.

E para esta meta já há movimento em curso?

Pensamos fazer um trabalho de diplomacia.Ttenho recebido mensagens de vários países que pretendem trabalhar comigo, sobretudo Marrocos e Tunísia. Pensam que juntos podemos levar o futebol africano a bom porto.

O compromisso que acaba de assumir implica a renuncia à presidência do Recreativo do Libolo ou nem por isso?
Penso que não haverá nenhuma incompatibilidade que nos force a isso. Na CAF tenho colegas que são presidentes de clubes que fazem o seu trabalho sem nenhuma dificuldade. Ainda que me visse condicionado, no Libolo tem pessoas capazes para dar continuidade ao meu projecto. Mas não é o caso.

Não quisemos terminar a conversa sem dar uma pincelada àquilo que é o nosso futebol, e a pergunta veio a calhar. O que falta ao futebol angolano para melhorar o seu desempenho?

Devemos é não cair na tentação de resultados imediatos amanhã. Nós temos de pôr rapidamente um trabalho de formação, colocando em Luanda, Lubango ou Benguela. Não temos de gastar muito dinheiro. Estes valores é que nos vão dar sustentabilidade amanhã. Ganhando quase sempre as pessoas estarão satisfeitas. Quem está entre as melhores cinco economias de África não pode estar 25º lugar do ranking africano. Vamos produzir valores que passam a ser exportados, jogando nos principais campeonatos do mundo. A Costa do Marfim tem 23 atletas que jogam na Europa, Asia e outros continentes. Temos de formá-lo de outras maneiras.