Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Calado pode processar 1 de Agosto

Armando Sapalo, no Dundo - 15 de Novembro, 2011

Calado pede mais respeito pelos que trabalham em prol do sucesso de qualquer clube.

Fotografia: Jornal dos Desportos

O técnico do Sagrada Esperança, Mário Calado, disse, domingo último, em entrevista ao Jornal dos Desportos, que vai recorrer aos órgãos judiciais para processar o Clube Desportivo 1º de Agosto, devido ao não pagamento do seu prémio pela conquista do título de campeão nacional em 1999.
Calado, que falava na sequência dos rumores que davam como certa a sua ida para o clube militar, em substituição do português Carlos Manuel, foi peremptório em dizer que, além de não querer sair (agora) do Sagrada Esperança, apenas estaria disposto a negociar com o Clube Central das Forças Armadas, caso os seus responsáveis saldassem a dívida que têm consigo. O técnico não confirmou nem desmentiu se chegou a ser contactado pelos responsáveis do grémio militar. Contudo, garantiu que tem mais um ano de contrato com o Sagrada Esperança e que se sente “bastante satisfeito” no clube diamantífero.

Faz tempo que o seu nome é apontado como substituto de Carlos Manuel no comando técnico do 1º de Agosto. Foi contactado pelos responsáveis do clube militar?
Em relação a essa questão, que tem a ver com a possibilidade de me transferir do Sagrada Esperança para o 1º de Agosto, sempre fui claro que a direcção desta equipa (1º de Agosto) tem uma dívida comigo há 12 anos, quando conquistámos o Campeonato Nacional, em 1999. O que os responsáveis do 1º Agosto devem fazer, em primeiro lugar, é procurarem pagar o que me devem para estarmos em condições de analisar a perspectiva que o clube tiver.

Quer dizer que a Direcção do 1º de Agosto o contactou para assumir a equipa técnica na próxima temporada?
O que devo dizer-vos, por enquanto, é que se os dirigentes do 1º de Agosto não honrarem com o seu compromisso, então, não há qualquer hipótese de conversação. Aliás, vou prorrogar por mais um pouco para que eles possam reunir condições para pagar a minha dívida, se não, o meu recurso vai ser o tribunal. Fui aconselhado pelo meu advogado a recorrer ao Conselho Nacional da Justiça, assim como à própria FIFA, para que seja encontrada a solução desse problema, que demonstra claramente o índice de desorganização que reina dentro daquele clube que, devido à responsabilidade social que tem, devia esforçar-se por ser uma referência para os demais clubes. Efectuei um trabalho de qualidade naquela equipa e que nos levou à conquista de um Campeonato Nacional. No entanto, fruto da ambição e falta de sensibilidade por parte de algumas pessoas, o meu esforço foi mal sucedido.

O tempo que passou, 12 anos, não torna o assunto extemporâneo para a sua resolução? Por que razão não levou antes o assunto ao tribunal?
Não. Por respeito à instituição (Clube 1º de Agosto), nunca recorri a um tribunal. Isso devia ser motivo de reflexão por parte dos dirigentes do clube, porque também nunca reclamei junto da FIFA. Tenho certeza absoluta que, se o fizesse até ao momento, obteria lucros astronómicos devido aos juros de mora. Mas, para mim, não é o mais importante, peço mesmo é que as pessoas tenham respeito e procurem conferir maior dignidade ao trabalho que os outros desenvolvem, porque seria honroso para o próprio Clube Desportivo 1º de Agosto.
 
Qual foi a resposta da direcção do 1º Agosto às reclamações que apresentou?
Nunca houve uma definição real do tratamento que esse problema deve ter, para que as coisas sejam resolvidas naturalmente. Por isso, o ponto de partida para a resolução do meu problema vai ser mesmo contactar o Chefe Estado-Maior General das Forças Armadas Angolanas, com vista a encontrarmos um meio-termo, caso não, o recurso vai ser o tribunal.

“Estou satisfeito no Sagrada”

Caso o clube militar pague o prémio que lhe deve deixaria o Sagrada Esperança para regressar ao 1º de Agosto?
De modo algum eu deixaria neste momento o Sagrada Esperança. Uma coisa não tem nada a ver com outra, porque se trata aqui de uma questão que devia, escrupulosamente, ser tratada pela direcção do 1º de Agosto. O Sagrada Esperança não tem nada a ver com isso, na medida em que estou vinculado ao clube por um contrato de dois anos renováveis, em que o primeiro foi cumprido com o fim da última época desportiva. Portanto, devo assegurar que do Sagrada, por enquanto, não saio. Estou muito satisfeito no Sagrada pelo tratamento que recebo da direcção e de toda a massa associativa. Não tenho motivos para rescindir o meu contrato, salvo por força maior, ou seja, se assim a direcção entender.
 
Diz-se que o desporto é um dos elementos que contribui para a consolidação e desenvolvimento do processo democrático em Angola, mas verifica-se que existe algum preconceito em divulgar-se os custos de transferência de um atleta ou mesmo treinador. Partindo desse pressuposto, o professor Mário Calado pode revelar-nos quanto é que a direcção do 1º de Agosto lhe deve?
Concordo plenamente com essa afirmação. Julgo que isso resulta do facto de a nossa democracia estar ainda a dar os seus passos, porque para a nossa realidade, se você revelar o custo de transferência, salário ou prémio de atleta, treinador ou qualquer pessoa ligada ao futebol, terá problemas. Não é o meu caso, tanto que as pessoas são livres de dizer isso. Para responder à sua pergunta, devo dizer-lhe que quando conquistei o título de campeão nacional, a direcção do clube prometeu-me uma viatura de marca Nissan Patrol e uma residência. É isso que a direcção do 1º de Agosto me deve.

“Objectivos da direcção
foram todos cumpridos”

Que avaliação faz da época recém-terminada?
Os objectivos para os quais fui contratado pela direcção do Sagrada Esperança foram cumpridos. Em primeira instância, fui abordado pelos responsáveis do clube para formar uma equipa estável, que pudesse estar à altura de lutar para a sua manutenção no Girabola e, do ponto de vista competitivo, lutar de igual para igual com os adversários do nosso campeonato. Esses objectivos foram todos alcançados. Agora, pessoalmente, por ser um profissional e com grandes ambições, tinha um outro objectivo que passava por colocar a equipa entre os três primeiros classificados.
 
Porque razão esse objectivo não foi cumprido?
Porque não tínhamos ainda um conhecimento na generalidade do plantel com o qual iríamos trabalhar. O período pré-competitivo permitiu conhecer o tipo de atletas, mas já não seria possível renovar em função da complexidade do próprio mercado, que já era escasso. Uma das grandes dificuldades com que me deparei no início do meu trabalho à frente da equipa técnica do Sagrada Esperança foi a fraca assimilação dos processos de treinamento, porque a maior parte dos jogadores que encontrei não me conhecia, embora alguns tivessem noção da metodologia do meu trabalho, devido à convivência salutar que tivemos no passado.

Quais foram essas dificuldades?
A aplicação dos sistemas tácticos, as questões ofensivas e defensivas que procurava incutir não estavam a ser bem absorvidos, talvez como resultado do trabalho nos clubes de proveniência, mas o tempo de convivência conseguiu proporcionar-nos uma boa harmonia no balneário, que permitiu à equipa alcançar, em condições difíceis, o sétimo lugar do campeonato.

O atraso no pagamento dos salários dos atletas e equipa técnica, que se registou durante a época que terminou, não influenciaram na obtenção de alguns resultados?
Vou aproveitar a ocasião para felicitar a direcção do nosso clube, porque, em momento algum, ela ficou distante dos atletas. Os nossos responsáveis estiveram sempre presentes e esmeraram-se na resolução de alguns problemas que apoquentavam a equipa e que nos podiam criar sérias dificuldades. Houve, de facto, algum período de dissabores, mas a capacidade e maturidade dos dirigentes conseguiu sanar tudo. Os atrasos salariais foram apenas meros acidentes de percurso, porque são situações que ultrapassam os próprios dirigentes do clube, a julgar pelas dificuldades que os próprios patrocinadores estavam a enfrentar. A estabilidade competitiva que alcançámos foi graças aos esforços dos nossos dirigentes.

Quer com isso dizer que os problemas foram todos resolvidos?
Sim. Posso assegurar-vos que todos os problemas que vivemos foram resolvidos. Os prémios de jogo, salários e contratos estão devidamente salvaguardados. A direcção deve apenas o prémio referente ao último jogo do campeonato.

Santana nos
planos dos diamantíferos

Confirma a contratação de Santana, Chinho e Zé Calanga?
O Santana Carlos é daqueles jogadores que sempre quis para a nossa equipa. Trata-se de um garoto que pode trazer outra qualidade ao Sagrada Esperança. Se a equipa do Petro de Luanda estiver disponível a soltá-lo, então, o Sagrada Esperança seria um forte candidato a comprá-lo. Quanto aos outros dois, são também bons jogadores, mas nada ainda está avançado. Mas há outros atletas que durante os três últimos meses estiveram a ser observados e que podem também integrar o nosso plantel, porque as suas qualidades estão aprovadas. O Jornal dos Desportos, inclusive fez questão adiantar ao público leitor, acerca dos potenciais candidatos a integrar a nossa equipa.

O que se lhe oferece dizer quanto à conquista do título pelo Libolo?
Temos de felicitar a direcção, equipa técnica e atletas do Recreativo do Libolo, porque conseguiram levar o título para fora de Luanda. O Libolo mereceu, porque a sua direcção investiu a todos os níveis, portanto, a maneira como entraram decididos fez com o próprio campeonato fosse muito mais disputado. O nosso campeonato está a crescer cada vez mais em termos competitivos, ao contrário do que se registava no passado, em que eram apenas o Petro de Luanda e 1º de Agosto a lutar pelo título. Mas temos de procurar, todos, debelar a questão dos árbitros. A nossa arbitragem é o elo mais fraco do futebol angolano. Nesse sentido, a FAF precisa de trabalhar imenso.

Calado pretende formar
uma equipa vencedora

Quais são as metas do Sagrada Esperança para a próxima época futebolística?
O Sagrada Esperança vai ter de fazer uma análise muito objectiva em relação aos seus patrocinadores, porque o campeonato, ano após ano, tem vindo a tornar-se muito mais competitivo, por isso, os clubes devem organizar-se convenientemente, tendo em conta os custos das próprias aquisições. Isso pressupõe que os nossos patrocinadores estejam atentos a essa crescente movimentação, sob pena de os seus objectivos não serem alcançados. Sabemos que as grandes equipas estão na frente em termos financeiros, então, nós também que sonhamos com bons resultados, temos toda a obrigação de fazer uma revisão profunda da organização administrativa e financeira. Se houver um grande equilíbrio nesse aspecto, creio que o Sagrada Esperança pode, no próximo ano, lutar pelo topo do futebol angolano.

Significa que, directa ou indirectamente, vai opinar sobre o orçamento para suportar as necessidades da equipa em 2012?
A nossa obrigação é fazer com que as condições estejam criadas para podermos ter à disposição o que queremos para melhorar a posição da equipa no campeonato. Agora, o resto é da responsabilidade da direcção, que deverá elaborar o orçamento para a próxima época.

Quais são os sectores que pretende ver reforçados na próxima época?
Nós pretendemos reforçar todos os sectores porque notámos debilidades em quase toda a equipa. Por isso é que vamos dispensar 15 atletas e envidar esforços para comprar o mesmo número, para termos alternativas.

Quando é que a lista de dispensados será divulgada?
Dentro de 15 dias. Não seria ético da nossa parte divulgar agora a lista porque os nossos jogadores estão a sair e férias. Por outro lado, também queremos aproveitar esse tempo para sabermos quais os atletas vão fazer parte do plantel para o próximo ano.

O local para estágio já está definido?
Nós já apresentamos a proposta à direcção do clube, porque realizámos um estágio pré-competitivo extraordinário no princípio deste ano, onde efectuámos 13 jogos. Pedimos que se mantivesse o local onde realizámos o nosso estágio. Os contactos preliminares já foram feitos, agora os responsáveis da equipa vão fazer a análise, tendo em conta as capacidades financeiras, para que a nossa preparação aconteça novamente no Brasil, na cidade de Belo Horizonte.