Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Calado sonha com o ttulo

Armando Sapalo, no Dundo - 25 de Abril, 2011

Mrio Calado regressou ao Dundo para dar alegrias direco e adeptos do Sagrada.

Fotografia: Jornal dos Desportos

Seis anos depois de ter conseguido o primeiro título à frente da equipa principal do Sagrada Esperança da Lunda-Norte, o técnico angolano, Mário de Sousa Calado, disse em entrevista exclusiva ao Jornal dos Desportos, na Cidade do Dundo, que embora não seja esse o pedido da direcção do clube diamantífero quando o contratou, o seu regresso ao comando técnico da equipa passa, uma vez mais, pela conquista do Girabola de 2011.

De acordo com o técnico, a sua presença à frente do Sagrada não vai confinar-se a uma mera participação, mas sim a lutar com os crónicos candidatos ao título. Além dos motivos que o levaram a deixar o Santos FC, Mário Calado falou do actual momento do futebol nacional, com realce para as eleições antecipadas na FAF, em relação às quais apresentou um discurso bastante radical, se comparado aos outros, quando o tema é o pleito eleitoral no órgão reitor de futebol do país.

 Jornal dos Desportos: O que o motivou a trocar o Santos FC pelo Sagrada Esperança?
Mário Calado: Eu tinha um vínculo contratual com o Santos FC de três anos e que terminou. Houve um número considerável de clubes do Girabola que solicitaram os meus préstimos. Depois de analisar e ponderar um conjunto de situações, acabei por optar pelo Sagrada Esperança pelo facto de ser um clube que conheço muito bem. Estar por dentro dos projectos dessa agremiação é merecedor de muito respeito. Além disso, senti que poderíamos reconstruir aquilo que, no passado, com muito sacrifício e abnegação, conseguimos. Portanto, estas foram as grandes razões que me levaram a vir para o Sagrada Esperança em detrimento de muitos clubes e do próprio Santos.

JD: referiu que houve um número considerável de clubes que o solicitaram. Quantos e quais exactamente?
MC: Um número considerável de clubes. Chegou-se mesmo a especular nomes…

JD: A direcção do Santos manifestou interesse em renovar o contrato?
MC: Pessoalmente, cheguei à conclusão que tinha de acabar um ciclo e dar oportunidade às outras pessoas, ao próprio clube, de trabalhar com alguém que podia dar um salto mais qualitativo em relação ao trabalho que a gente realizou durante o comando técnico da equipa. Tenho de agradecer todo o apoio que recebi da direcção do Santos FC. Sobretudo, do próprio presidente, que foi uma pessoa que esteve ao meu lado, independentemente de algumas contrariedades surgidas no decurso do nosso trabalho, o que considero normal a nível de qualquer actividade. Tivemos um feito inédito ao serviço dos Santos: conseguimos, com uma equipa bastante jovem, conquistar a Taça de Angola e, consequentemente, levámos a equipa às competições internacionais, conquistámos ainda uma Supertaça.

“Regressámos ao Sagrada
porque solicitámos condições”

JD: No concreto, o que lhe pediu a direcção do Sagrada Esperança para a presente temporada?
MC: Inicialmente, reorganizar todo o projecto do Clube. É um projecto curto comparativamente à primeira passagem que tive ao serviço desta equipa, ao longo de três anos. Na altura organizámos projectos em termos de uma equipa aguerrida, com maturidade, que nos podia levar até às Afrotaças. Acabámos por ser felizes, porque fomos campeões, ganhámos a Taça de Angola, e isso permitiu-nos ter uma participação internacional. Foi bom, porque conseguimos alcançar os objectivos pelos quais tínhamos sido contratados.
Esta nova passagem não foge à regra, embora não seja esse grande objectivo da direcção, que me apresentou um projecto muito mais curto, de dois anos, que passa pela reorganização do clube, visando uma participação nas Afrotaças.

JD: Tem um plantel que o satisfaça? Ou seja, o que exigiu ao clube para que possa efectivamente conseguir esses propósitos?
MC: Para termos êxito nesses objectivos traçados faremos um esforço muito grande. Primeiro, porque não conhecemos o grupo. Tivemos de os juntar numa situação que não é normal, devido ao processo de consumação da minha contratação.
Demorou um tempo considerável e não deu espaço suficiente para a selecção de jogadores que queríamos. Isso vai, com certeza criar-nos alguns transtornos durante o nosso percurso de trabalho no comando técnico do Sagrada Esperança. Exigimos ao clube que nos ponha à disposição melhores condições de trabalho para que juntos possamos conseguir aquilo que muitos esperam.

JD: Espera reforçar a equipa na próxima fase de abertura de transferências de jogadores?
MC: Sim, estamos a torcer pela reabertura do mercado de transferências para conseguirmos reorganizar a nossa equipa e, a partir daí, voltarmos a estabelecer os grandes projectos que foram traçados para os dois anos que vamos estar aqui.

“Não gosto do plantel
que está ao nosso dispor”

JD: Que jogadores é que gostaria de ter na sua equipa?
MC: Estamos com um jogador já com uma certa idade. Refiro-me ao guarda-redes Senas. Teremos que investir nesse sector, de modo a que num espaço de quatro a cinco anos o clube não tenha necessidade de contratar mais um guarda-redes. Já temos um grupo de jogadores seleccionados e queremos que estes jogadores não vão reforçar apenas o Sagrada Esperança, mas também a própria selecção de Angola, pelas qualidades excepcionais que apresentam. Precisamos também de um central de marcação, de jogadores nas laterais. Portanto, devo dizer que o Sagrada precisa de mais jogadores para o seu plantel em todas as posições. Estaria a mentir se afirmasse que estou satisfeito com o grupo que tenho e que estamos fechados. Sempre disse que não gosto, na sua totalidade, do plantel que está ao nosso dispor. Os rapazes têm-se aplicado nas suas obrigações, trabalham com muito sacrifício no intuito de cumprirem na íntegra as obrigações do técnico. Porque nós temos um dever que é de competir e conseguir alguma coisa para o nosso clube. Perante esta realidade, não posso contentar-me com o grupo que tenho, preciso de ser muito mais ambicioso, muito mais exigente comigo mesmo, porque as responsabilidades que estão nas minhas costas são muito grandes e tenho de ter garra de conquistar, não somente várias batalhas, mas também várias guerras. É por isso que peço à direcção do clube que nos garanta todas as armas necessárias, no sentido de trazermos a alegria de volta a este maravilhoso público da Lunda-Norte que tanto merece.

 JD: O facto da equipa ter feito os primeiros jogos fora de casa teve reflexos na sua prestação até ao momento?
MC: O grande prejuízo que tivemos, até agora, tem a ver com facto de não termos estado no nosso próprio local de trabalho, mas no local onde nós fizemos os jogos, pelo facto de a região Leste ser uma zona com características próprias, onde nós sentimos o aconchego, o carinho e o amor necessário que precisaríamos. Seria injusto e falta de cortesia da nossa parte não reconhecermos todo o apoio que recebemos da província do Moxico. A única dificuldade que registámos no Moxico foi o facto de não termos vencido o Benfica de Luanda.  É uma partida para esquecer a todos níveis. A equipa dominou os 90 minutos completos do jogo, com oportunidades soberanas de marcar cinco ou seis golos, mas acabámos por perder o jogo.

JD: Mas, de regresso a casa, no primeiro jogo, a equipa foi derrotada pelo 1º de Agosto. Há explicações?
MC: A primeira coisa que temos de reconhecer é o facto de termos sido calorosamente recebidos pelos nossos adeptos. Foi de facto marcante para a carreira de todos nós, que neste momento fazemos parte da família do Sagrada  Esperança e de uma forma ingrata não conseguimos retribuir a grande alegria que reinava nos corações dos nossos adeptos, devido à derrota que nos foi imposta. Mas estamos num processo de preparação de uma equipa nova e resultados novos e positivos irão aparecer com certeza.

“Tenho fé em mais conquistas”
JD: Algo de errado se passou entre a direcção e a equipa técnica antes do vosso regresso a casa?
MC: Estamos a trabalhar com uma direcção e quando se trabalha com uma direcção, inicialmente as coisas não correm bem. Mas tenho fé que o futuro vai ser brioso e radiante para todos nós e que mais conquistas podemos conseguir aqui na Lunda-Norte ao serviço do Sagrada Esperança. Quanto à derrota no primeiro jogo em casa com 1º de Agosto, devo dizer que o sector que tem sido mais acutilante na equipa foi o que mais facilidades deu ao adversário e, consequentemente, quando isso acontece o resultado é a derrota. Foi um castigo merecido devido à nossa atitude e postura nesse jogo.

JD: Na época passada o Sagrada viveu uma grande convulsão com o despedimento do técnico Napoleão Brandão em duas ocasiões. Não tem receio que isso aconteça consigo, numa altura em as chicotadas psicológicas no Girabola estão na ordem do dia?
MC: Sou um Profissional. Sempre respeitei e fiquei de acordo com todas as decisões das direcções dos clubes. Pediram-me um trabalho de perspectiva e este é um trabalho a longo prazo. A gente procurou dividi-lo com planeamentos muito específicos e como estou habituado a trabalhar simplesmente para dois anos, tivemos de fazer tudo em consonância com aquilo que a direcção do clube pretende e estamos em crer que há poucas probabilidades da ocorrência de uma situação semelhante. Sabemos, no entanto, que o que é verdade hoje, amanhã é diferente. Repito que estou consciente de existirem poucas possibilidades de isso vir a acontecer porque estamos a trabalhar com pessoas ligadas ao desporto que também sabem que temos projectos e quando se labuta com projectos não podemos fazê-lo com imediatismos, porque trazem consequências devastadoras em termos de futuro.

“Campeonato
está muito competitivo”

 JD: Que equipas coloca como candidatas ao título?
MC: O campeonato está muito competitivo. Se a minha equipa puder aplicar-se entre 20 a 25 por cento daquilo que fez durante o estágio que efectuou no Brasil, diria que é a candidata número um a vencer o campeonato. Até agora ainda não consegui aplicar 10 por cento do que fizemos no estágio pré-competitivo. Estamos a trabalhar agora de forma muito específica em nossa casa, onde continuo a pedir aos jogadores para usarem tudo quanto fizeram durante o estágio. Inicialmente é muito prematuro prognosticar os fortes candidatos ao título, embora saibamos que o Petro, 1º de Agosto, Interclube, Kabuscorp do Palanca sejam equipas bastante organizadas. O Recreativo da Caála, que curiosamente é vice-campeão, também deve ser levado em conta, mas reitero que o Sagrada Esperança não está simplesmente para  assistir. Está para competir e tirar muita gente do nosso caminho.

JD: Estas primeiras jornadas do Girabola indiciam desde já que vamos ter uma prova competitiva?
MC: Já se pode deduzir que o campeonato mais uma vez será competitivo. As equipas lutam por reforçar a vários níveis os seus planteis, quer a nível humano, quer mesmo de mão-de-obra, com a contratação de técnicos expatriados, embora às vezes não sejam os profissionais que a gente deseja no sentido de contribuírem para o desenvolvimento do nosso futebol. Outras vezes vêm profissionais cujas prestações merecem de facto algumas considerações, portanto vamos ter um Girabola bem disputado. Muitas vezes, a falta de visão dos próprios dirigentes de futebol acaba por colocar os técnicos nacionais, mesmo com uma formação desportiva reconhecível, em segundo plano, optando por treinadores estrangeiros, campeonato pós campeonato.  Mas até agora o nosso futebol ganhou muito pouco com a vinda de muitos estrangeiros, porque quem pode arrumar bem a casa é o seu próprio dono. 

“Não estou disponível
para a selecção Nacional”

JD: Já foi seleccionador nacional. É verdade que foi contactado pelo elenco de Justino Fernandes para dirigir os Palancas Negras?
MC: As abordagens, num determinado meio, sempre foram feitas. Claro que nunca, de uma forma objectiva, chegamos a conclusões nesse sentido, mas temos de torcer para que os que estão à frente dos destinos da nossa selecção possam ter êxito para todos os angolanos, no sentido de se justificar todo o investimento feito ao mais alto nível pelo próprio Chefe de Estado para o bem do nosso futebol. Temos de ser justos para podermos aproveitar os grandes investimentos pessoais que o responsável da nação faz em prol do desenvolvimento da modalidade.

JD: Estaria disposto a regressar?
MC: Neste momento a minha energia toda está virada para o Sagrada Esperança e para conquistar, mais uma vez, um campeonato para este clube. Portanto, não tenho, neste momento, qualquer prazer em trabalhar na selecção de Angola. Quero trabalhar muito mais tempo com os clubes, quero ganhar mais campeonatos, tenho ambições de lutar para me tornar um dos treinadores com mais títulos a nível de Angola. Estou satisfeito com o que tenho, luto, pressiono a direcção do meu clube para que me apoie com condições financeiras pagando regularmente aos nossos jogadores, para que eles se sintam motivados e consigamos aquilo que pode trazer muita alegria para este povo. 

JD: Que opinião tem do actual estado do futebol angolano?
MC: Por falta de visão das pessoas que estão à frente nosso futebol não se conseguem fazer investimentos nas áreas certas, esquecendo o manancial daqueles que poderiam beneficiar dos projectos, que passa pelo relançamento da modalidade em todas as províncias. Esta falta de visão tem estado a trazer cada vez mais decréscimo ao nosso futebol. Prova disso é que vemos poucos jovens a nascerem para o futebol, retirando uma certa qualidade à prestação na nossa própria selecção. É necessário que o processo se torne mais sério, senão vamos continuar a ter resultados negativos no desenvolvimento da modalidade. Os investimentos estão a ser feitos, mas a sua aplicação é o elo mais fraco desse processo. Tem a ver com as pessoas que estão directamente ligados ao nosso futebol.