Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Caldas aborda prestao do Interclube em 2011

Paulo Caculo - 25 de Novembro, 2011

Tcnico do Interclube est feliz com o rendimento da equipa

Fotografia: Jos Soares

António Caldas segue hoje para umas merecidas férias em Portugal. O treinador do Interclube, que se estreou no Girabola’2011, assegura ter encerrado a época com o sentimento do dever cumprido. Aos 52 anos, o experiente técnico sublinha estar a viver uma experiência agradável ao serviço do clube da Polícia. Considera, em jeito de balanço, ter falhado a conquista do título do campeonato devido a algum “desgaste” da equipa e, também, uma “crise de empates” que perseguiu o conjunto durante cerca de 15 jornadas. Mas, de resto, o técnico diz-se feliz, por acreditar que esteve no comando de uma equipa heróica, que soube ultrapassar todas as vicissitudes em três competições diferentes, sobrevivendo “de pedra e cal” na Taça da CAF onde, acredita, o Interclube elevou bem alto o nome de Angola e passou uma excelente propaganda ao nível da qualidade do futebol angolano.


Está satisfeito com a posição alcançada pela equipa no Girabola?
Estou satisfeito pelo desempenho da equipa, pela forma como o plantel encarou todas as competições em que estava inserida. Foi uma época que se pode considerar fantástica, em que cimentámos o nome do Inter, elevámos o nome e o futebol de Angola e demos uma imagem do real valor do futebol angolano e, por isso, posso considerar que foi uma época muito positiva.

Mas concorda que uma equipa que vinha como campeã nacional em título tinha a obrigação de conseguir uma posição melhor?
Penso que, sem querer tirar o mérito aos meus colegas e às equipas que ficaram acima do Inter, nós podíamos ter conquistado o campeonato muito cedo. Houve uma fase em que surgiram muitos empates, não provocados por nós. Aproveitaram-se muito do nosso desgaste e de outras situações, que fizeram com que o campeão precisasse de mais atenção, de mais rigor e profissionalismo dentro do campo, a todos os níveis. Mas o facto é que o Inter tinha sido campeão muito cedo, não fossem essas situações. Chegámos a estar a 11 pontos do primeiro classificado e, em determinada altura, à frente do campeonato, ou em segundo lugar com os mesmos pontos do primeiro posicionado.  

Nem por isso foi possível evitar a quinta posição.
Muitas vezes de forma injusta tiraram-nos ou perdemos pontos, mas podíamos ter sido campeões muito cedo. Mesmo assim, tivemos capacidade de sofrimento e isso ajudou-nos a sermos fortes, a encarar também as competições africanas e a Taça de Angola com um pensamento forte de ultrapassarmos os adversários e todas as vicissitudes que nos surgiam. Isso deu-nos força e a alegria de sermos uma verdadeira equipa, com esse poder de sofrimento.

Quais foram as principais dificuldades que a equipa teve ao longo do campeonato?
Faltou-nos o golo. Quando cheguei, tínhamos um défice muito grande de golos, muitas dificuldades em concretizar as oportunidades, criávamos imensas, mas tínhamos dificuldades na finalização. Também sentimos que tínhamos uma força muito grande em termos defensivos e dificilmente alguém nos podia causar dissabores.

O sector defensivo representava, então, a ala mais forte do conjunto?
Não era fácil marcarem-nos um golo. Mas precisávamos, na realidade, de materializar todas as oportunidades que tínhamos no ataque, razão pela qual os resultados eram sempre de 1-0. Dificilmente alguém nos marcava dois golos, só muito dificilmente isso acontecia. Uma equipa que defende bem, que cria oportunidades e não marca, evidentemente que tem algumas dificuldades e foi isso que senti inicialmente, até conhecer um pouco mais os meus atletas e dar uma filosofia diferente.

Foi o seu primeiro ano como treinador no Girabola. Com que impressão é que ficou do campeonato?
Penso que foi um campeonato equilibrado. Muitas vezes, há equipas que se nota que são superiores e a própria desorganização de outras criam dificuldades a esta equipa com outra dimensão. Precisa de mais profissionalismo dos atletas, sabendo encarar todos os jogos da mesma forma. Por muito que se diga que isso é difícil, como também fui jogador de futebol, sabia que quando tinha um jogo grande, com uma equipa grande, a concentração e a atenção também era maior. Todo o meio onde vivia se falava desse jogo e quando jogávamos com equipas de patamar inferior, isso criava um relaxe, que acabava por tornar o jogo complicado.

Acha que falta algum profissionalismo?
Acho ser necessário tornar cada vez mais os jogadores competitivos. E foi isso que criei na minha equipa, nos meus atletas, facto que levou a que se tornassem atletas extremamente competitivos e com uma vontade enorme de vencer. Os meus jogadores aborreciam-se, até, quando perdiam jogos nos treinos, pelo que, essa ambição foi criada. É importante criar esse tipo de profissionalismo e rigor no nosso campeonato, mas tem jogos fantásticos, lindos, com um público que gosta muito de futebol e para se criar bom espectáculo.

Era essa a impressão que sempre teve do campeonato angolano?
Sim. Acompanhei o Girabola e sempre foi um campeonato que me despertou interesse, porque as coisas acontecem numa baliza como na outra. São equipas que jogam com enorme vontade de vencer, muitas vezes até de uma forma inocente. Mas essa inocência dá beleza aos jogos, porque os desafios são vivos, bem disputados, embora muitas vezes falte uma maior qualidade de jogo.

Há mais aspectos positivos?
Existe uma grande agressividade, empenho dos jogadores, e é disso que gosto: um futebol trabalhado, pensado, com criatividade, imaginação e fantasia, que consiga divertir o público. Por isso é que gosto de ver uma massa associativa como a do Petro, Kabuscorp, que tornam os estádios cheios, onde as pessoas vibram com o jogo do primeiro ao último minuto. Somos artistas, gostamos de espectáculo e o espectáculo é bonito com muita gente, com ambiente à nossa volta. É disso que gosto no futebol.

Caldas quer criar equipa
com cultura de vitórias


No primeiro ano foi possível incutir a sua filosofia de jogo no seio da equipa?
Isso foi notório, porque senti a alegria dos meus atletas em praticarem um futebol sem medo de ter as bolas nos pés. Os jogadores que estão a jogar no Inter e no Girabola têm capacidade técnica, mas precisam de ter tranquilidade, não ter receio de ter a bola nos pés, perceber quando é que devem driblar, quando é que devem soltar a bola de primeira e quando devem guardar a bola. Essa é que é a importância do jogo. Saber entender o jogo e acreditar na estratégia que lhe é dada para ultrapassar o adversário que se tem pela frente.

Está num clube sem muitos adeptos, mas com tradição em termos de conquista de títulos. Gostava de ser também campeão no comando do Interclube?
Vamos procurar manter a nossa filosofia de trabalho, o nosso jogo, a nossa beleza de futebol, tentar jogo a jogo, procurar divertir as pessoas e divertirmo-nos dentro do campo. Vou esperar que a gente possa fazer tudo de uma forma mais alegre e que consigamos conquistar os pontos necessários.

O título do Girabola faz parte dos seus planos?
Espero fazer um bom campeonato e espero também que com a nossa filosofia de jogo consigamos criar o hábito de vitórias. Queremos vencer sempre.

Pensa manter, na próxima época, o grosso de jogadores que compõem o plantel?
- Estou muito satisfeito com o grupo de trabalho. Todos eles tiveram oportunidade, encararam o campeonato, as competições africanas e a Taça de Angola sempre de uma forma muito séria. Todos eles tiveram uma dedicação muito grande, estou-lhes muito grato e muito satisfeito, pois não há dúvidas de que me deram muito gozo, muita satisfação em ser o treinador deste grupo de trabalho.

“Só joga no Inter
quem tem qualidade”


Espera reforçar o plantel ou está satisfeito com a qualidade de jogadores que dispõe?
Quando se perspectiva uma época, há sempre retoques a fazer e muitas vezes não é pela qualidade que os atletas têm, mas pela forma de se encaixarem naquilo que é pretendido. É normal fazermos alguns reajustamentos ao plantel para procurarmos corrigir e melhorar a equipa de uma forma muito séria. Tudo isso foi avaliado, pensado, analisado e estou convencido que aqueles que eventualmente saírem são de grande nível e de uma capacidade enorme. Eles sabem que a vida é assim e que podem pensar que melhores dias virão.

Acha que a maioria justifica a permanência?
Tenho jogadores de grande nível, de uma capacidade de interpretação fantástica. Fiquei muito contente com a forma como eles abordavam e encaravam todos os adversários. Não há dúvidas que tinha nas mãos um grupo de homens com uma sensibilidade e um carácter fantásticos. Procuro interpretar cada atleta, porque cada um tem a sua forma de pensar.

Que equipa perspectiva para 2012?
Irei tentar fazer uma verdadeira equipa. Não gosto de individualidades. Não gosto de jogadores que estejam acima uns dos outros. Vejo que cada atleta é uma peça importante da equipa. Todos eles são importantes de uma forma colectiva e devem cultivar um sentimento de família.

Quais são os jogadores que podem deixar a equipa?
Em tempo oportuno divulgaremos a lista de dispensas e reforços da equipa. Mas vamos manter o mesmo número de atletas no plantel, porque continuamos a estar em três competições.

Já traçou um perfil para os reforços?
Todos os jogadores que vierem para o Inter têm de ter qualidade, de estar disponíveis e preparados para competir. Quero que conquistem a sua posição e consigam fazer uma equipa para jogar domingo a domingo e durante a semana. Foi isso que demonstrámos este ano e todos eles participaram de uma forma muito justa. Foram eles que trabalharam e sabiam que era desta forma que conquistavam o seu espaço na equipa. Havia atletas que jogavam ao domingo e no jogo seguinte nem convocados eram. Foi esse trabalho e essa forma de gestão que adoptámos e os jogadores encararam tudo isso de forma sempre muito positiva, porque estavam imbuídos do espírito de grupo.

Se tivesse de apontar um sector em que há necessidade de maiores reajustamentos, qual séria?
Penso que todos os sectores são importantes e foram analisados. Há uns retoques que foram feitos e todos eles estão sujeitos a umas mexidas, mas sempre de uma forma positiva, com o pensamento na correcção para uma forma mais equilibrada. E acho que temos um plantel equilibrado e que nos dá garantias de continuidade do grande trabalho realizado este ano.

Existem alguns jogadores influentes que estão em fim de contrato, como Capuco e Zé Augusto. Já propôs à direcção a renovação de contrato com esses atletas?
Já foi tudo feito de forma a conservar as ideias que temos do clube, para conseguirmos ultrapassar as competições e produzirmos um futebol que seja a nossa marca, a nossa identidade. Esse foi um dos assuntos solucionados na reestruturação do nosso plantel.

Técnico dos polícias
quer plantel equilibrado


A equipa vai estar de novo envolvida em três competições na próxima época. Já está estudada a estratégia, de forma a evitar que seja “espremida” como nesta temporada?
Não há outra forma. Por isso é que disse que quero um plantel equilibrado, para termos a possibilidade de toda a equipa estar disponível para jogar em todas as frentes.

Quer dizer que só fica na equipa quem realmente tiver lugar para jogar?
Não quero um número de jogadores para treinar e um outro para treinar aqueles que vão jogar. Pretendo um todo para poder jogar. O atleta que cá estiver e vir que não tem capacidade para estar na equipa não fica no plantel. Quero atletas ambiciosos, que saibam ultrapassar momentos menos bons e viver os momentos positivos.

Qual vai ser o destino daqueles que estão no plantel e que revelem fraca ambição na conquista do lugar?
Quem não for ambicioso não vale a pena estar aqui no Inter. Quem pensar que já ganhou tudo e que pode chegar ao Inter para descansar não tem lugar. É uma grande responsabilidade chegar ao Inter, porque se exige uma capacidade de sofrimento e de luta muito grande.

“Não quero reforçar equipa
com jogadores estrangeiros”


Quais são as preferências do treinador em termos de reforços? Vai contratar jogadores no mercado angolano ou pensa recorrer ao exterior do país?
Vou dar preferência ao jogador angolano, aos atletas que já evoluem no Girabola. Quero evitar os jogadores estrangeiros e também os angolanos que estejam a jogar fora do país. Não quer dizer que isso não venha a acontecer, que não venha um ou outro atleta, mas tenho preferência por jogadores angolanos.

Espera promover mais jovens talentos da formação do clube para a equipa principal?
Evidentemente que quero criar uma maior juventude no nosso plantel. Estamos atentos ao trabalho dos nossos escalões de formação. Vamos dar um seguimento muito maior à nossa formação, ao estilo do nosso atleta. Mas precisamos de saber qual o tipo de jogador que pretendemos para o Inter e tudo isso está a ser trabalhado, de forma a começarmos a integrar essa filosofia na nossa formação.

De que forma encara o escalão de formação?
Queremos que os nossos escalões de juniores sejam mais competitivos. Pretendemos dar maior aproximação e profissionalismo a esse escalão, para que possam aproximar-se rapidamente da equipa principal. Para tal, temos de criar condições e a direcção está preparada para dar um maior apoio à nossa formação. Também queremos dar competitividade aos jovens atletas, isto é, pegar em jogadores mais jovens e pô-los a jogar nos escalões superiores, para termos mais tempo de formação e mais capacidade de interpretação e de poder físico.