Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

Campeonato ser muito competitivo

Valdia Kambata - 02 de Novembro, 2010

Alberto Babo aposta nos jovens para resgatar ttulo perdido

Fotografia: Jos Cola

O campeonato nacional está às portas. Como avalia a equipa actual?
Nesta altura da época, decorridos dois meses de trabalho, digo que temos uma equipa ambiciosa, sem grandes referências. Os jogadores querem ter o seu próprio espaço na senda do basquetebol nacional, ou seja, temos um plantel de jogadores jovens com qualidade e vontade de aprender muito em termos técnicos e tácticos para jogarem em circunstâncias iguais com qualquer equipa.

Qual é objectivo ou a obrigação para a presente época basquetebolística?
Temos objectivos concretos. Primeiro: Reconhecemos que a equipa é nova e vai aprender com os erros. Portanto, o objectivo é enfrentar os adversários “olho nos olhos”, vencer cada jogo e termos a certeza de que não somos uma equipa de grande estrelas, como o Recreativo do Libolo, 1º de Agosto ou Interclube; é apenas uma equipa que quer ganhar todos os jogos. E se não os ganhar, não será um drama, porque o objectivo do Petro de Luanda é preparar uma equipa ganhadora a curto e longo prazo.

O Petro de Luanda não ganha o campeonato nacional há mais de dois anos. A presente época é mais uma que se junta aos anos de jejum?
Cada equipa tem o seu objectivo. O objectivo traçado pela direcção do Petro de Luanda é a renovação da equipa sénior e torná-la num colectivo humilde, ambicioso e lutador. Os sócios e os amigos do Petro de Luanda devem saber que as grandes equipas não se fazem num só dia. Para quem está a construir uma equipa (nova) precisa de tempo. Fácil é comprar jogadores com experiência e depois saber lidar com as estrelas. Difícil é reunir jovens que nunca vestiram a camisola do Petro de Luanda e estejam a crescer para se firmar na modalidade. 

Está a dizer que o título está descartado no Petro de Luanda na época que se avizinha?
Será que o Petro de Luanda tem responsabilidades? Claro que as tem. O Petro de Luanda é um clube histórico, habituado a ganhar, mas quando há uma meta bem definida pela sua direcção, onde o seu treinador sabe o que quer e onde quer ir com estes jogadores, tudo se torna mais fácil. Agora, é verdade que a reacção dos medias sobre as derrotas do Petro de Luanda serão manchetes, mas é preciso ter em conta que não é fácil para um grupo de jovens sem as experiências de Kikas, Carlos Almeida, entre outros. Essa é uma transformação definida pela direcção que vai consumir tempo. Para a presente época, o nosso rumo é esse e os jovens devem ter a consciência deste projecto.

A pressão dos adeptos não lhe afecta?
Não estou preocupado com essa cobrança. A única coisa que me preocupa é fazer o que a direcção me orientou. A direcção criou plano, tem um rumo e esse é o melhor caminho para que tenhamos uma grande equipa nos próximos dois anos. É claro que queremos ganhar. Alguém está aqui para perder? A pressão de ganhar não nos afecta. Esse é o sentimento do treinador Alberto Babo, criado no FC Porto, onde esteve habituado a ganhar como jogador. Como treinador, passei apenas por dois clubes: FC Porto e Queluz, onde fui campeão, e, actualmente, estou no Petro de Luanda, uma agremiação que sofre uma verdadeira sangria dos seus activos nos últimos anos. Acredito que se não fosse essa situação, estaríamos a ganhar títulos da mesma maneira que muitos estão a ganhar. Devo dizer que vou seguir à risca o programa da direcção e vamos também lutar para ganhar jogos. Deixe-me lembrar que já ganhámos um troféu este ano. Fomos os vencedores da Taça Wladimiro Hernandes Romero, um torneio que os medias não deram relevo. Isso não é bom, pois os jovens merecem estímulos.

O Petro de Luanda não é candidato ao título nesta época?
O Petro de Luanda é candidato a ganhar jogos que vai disputar e, no final, vamos ver se ganhamos ou perdemos, o que fizemos bem ou mal, corrigir os erros e evoluir.

Quais os sectores que mais o preocupa?
Estou bem servido. Se calhar, a posição 5 precisa de mais um jogador. Onde realmente necessitávamos, já está ocupado por Rodnilly, um lançador da posição 4. Agora, há um jogador que queria para uma posição específica, mas reservo o direito de não dizer quem é.

"Interclube apostou forte"

Qual será o papel do Petro de Luanda nesse cenário, que parece, extremamente, equilibrado com a reentrada do Interclube na luta pelo título?
Realmente vai ser equilibrado. Desta vez, o Interclube apostou forte e em grandes jogadores com muita experiência como é o caso de Shanon, José Nascimento e Eduardo Mingas. Sei que as outras equipas estão a procurar jogadores de grande qualidade, africanos e não só, e algumas até apostaram em técnicos não naturais de Angola. Previsivelmente, será um campeonato muito competitivo. Antes, apenas o 1º de Agosto e o Petro de Luanda decidiam os títulos, hoje, estão acrescidas mais duas, o Interclube e o Recreativo do Libolo, perfazendo quatro. Como já disse, vamos entrar para ganhar jogos e depois logo se vê.

O Petro de Luanda abdicou das competições africanas…
Este ano, optamos por não ir. É a nossa opção. Temos uma equipa de jovens e interessa-nos mais gastar o dinheiro num estágio, onde os jogadores conseguem evoluir, ganhando rodagem competitiva do que a taça africana. Gostamos de jogar com os melhores e não tem muita graça ir às competições africanas e depois jogar a final com o 1º de Agosto.

"Existem muitos jogadores
com potencial em Angola"

Como vê o futuro do basquetebol em Angola?
Temos nove ou 10 jogadores com grande qualidade e uns 20 que têm potencialidades para serem grandes jogadores. Existem bons jogadores em Angola. Agora, é necessário metê-los a participar nos grandes torneios para adquirirem qualidades. Angola vive o drama da falta de campeonatos infantis. É necessário dar jogos aos jovens através de realizações de pequenos torneios nas pausas escolares, com vista a dotá-los de qualidade. É triste o que se assistiu no ano passado. Não houve o campeonato nacional de iniciados e de cadetes. Isso desmotiva os jovens. Com isso, estou a dizer que o futuro depende apenas de todos: treinadores, clubes e federação. 

De que forma Alberto Babo pode contribuir para o desenvolvimento do basquetebol angolano?
O papel do Alberto Babo poderá ser importante na introdução, mais nos jovens do que nos seniores, pois o segundo grupo já possui a cultura desportiva e alguma cultura táctica. Julgo que as minhas concepções de jogo poderão beneficiar os atletas jovens, se esses se mostrarem disponíveis para as adquirirem.

O que procura ensinar e que conhecimentos pretende transmitir nos treinos dos escalões de iniciados, onde também dá o seu contributo?
Espero que aprendam a jogar, a trabalhar e a viver com os outros de uma forma saudável. Acredito que o desporto pode ser uma importante ferramenta social na educação da juventude dos nossos dias. É essa a minha responsabilidade e a minha motivação também.

É notável a sua preocupação em acompanhar o basquetebol do escalão de iniciados...
Não pretendo estar só ligado à equipa principal e profissional, mas estar atento à juventude e olhar desde o mini-básquete até aos juniores; acompanhar de perto os futuros craques da modalidade. De que forma? Coordenando as diferentes áreas de intervenção. Será um trabalho extremamente aliciante e a desenvolver, esperando que resulte em bons frutos a médio ou longo prazo. A minha experiência nesse sector também poderá ser muito positiva nesse projecto. Recordo que durante anos, estive ligado à formação do FC Porto, tendo alcançado diversos títulos nacionais portugueses.

Como avalia em termos qualitativos os atletas angolanos?
Pergunta difícil. Angola está a sair-se de forma razoável, tendo em conta a dimensão do país, mas há muito trabalho a fazer para se atingir o nível dos outros. Os miúdos mais novos precisam de desenvolver um instinto mais natural pelo jogo, de uma forma parecida ao instinto que têm naturalmente pelo futebol. Isso aumentaria o nível do jogo em Angola

O que se poderia fazer para dar maior consistência ao crescimento do mini-básquete?
Acima de tudo é muito importante que as pessoas trabalhem para um bem comum, no caso, o basquetebol, em sintonia e sempre na expectativa de fazer melhor; fazer o suficiente não chega. Temos de mudar a mentalidade de que o mini-básquete não é tão importante. O trabalho em equipa é fundamental.

Eduardo Minga cria dificuldade

A saída de Eduardo Mingas complicou a situação da equipa?
O Eduardo Minga era uma das principais referências da equipa numa posição específica. Com a saída, criou-nos dificuldade e tivemos de arranjar estratégia. Como temos um grupo de jovens, escolheremos alguns para cobrir o vazio deixado pelo Mingas, um bom atleta que sabe jogar dentro da área restritiva.

Quais foram as exigências do atleta?
O Mingas quis abandonar o Petro de Luanda por iniciativa própria. Não foi o clube que o dispensou; tomou a decisão e partiu para o  Interclube.

Ficou magoado com saída do atleta?
Sou frontal. Tinha grandes expectativas quanto ao atleta. A direcção muito fez para manter o Mingas no clube, mas o atleta decidiu partir. Que fazer!

Para colmatar a saída de alguns jogadores recorreram ao mercado estrangeiro?
O Petro de Luanda sempre teve dois jogadores americanos; não mais do que isso. Este ano, fomos buscar dois jogadores que gostam de jogar e viver em Luanda; vêm para acrescentar e dar qualidade à equipa. A outra verdade é que os americanos, normalmente, são mais-valia para qualquer equipa. E os que estão no Petro de Luanda são mesmo mais-valia.

Por que o Petro de Luanda está a apostar numa equipa mais jovem?
Fomos buscar três jogadores a Cabinda, um na Huíla e dois regressaram após o empréstimo ao CDUA. São jogadores que precisam de muito trabalho. Quando decidimos fazer aposta nos jovens é no sentido de trabalhar para colmatar o que não conseguiram ou não lhes foram ensinados. É o nosso objectivo para essa época; é por essa razão que apostamos nos jovens. Estamos a criar uma equipa que nos próximos dois anos se tornará grande.

Há perspectiva de integração de mais jogadores?
Existe essa possibilidade. Há duas vagas em aberto e vamos estudar a situação no âmbito do enquadramento. Veremos quais as posições menos fortes para serem colmatadas. Não é uma situação com carácter de urgência. Vamos ultrapassar algum tempo de treino para decidir, mas o plantel continua aberto.

>> Quem é quem …

Nome: Alberto Sousa Babo
Naturalidade:
Meinedo, Lousada, Porto
Nacionalidade: Portuguesa
Palmarés como atleta: Jogou no FC Porto de 1960 a 1981; venceu dois campeonatos nacionais da 1ª divisão portuguesa e uma Taça de Portugal, em 1981.
Como treinador: Venceu um Campeonato Nacional sénior da 1ª e 2ª divisão, três Campeonatos Nacionais de juniores, um campeonato nacional de juvenis e dois Campeonatos Nacionais de esperanças. Foi o primeiro vencedor do Torneio Internacional de V.F.Xira (Xirabasket) juniores e vencedor do Torneio Internacional da Amadora em juniores. Foi treinador do FC Porto, conquistou um Campeonato Nacional de FPB em 1981/82, venceu dois da Liga Profissional 1995/96 a 1996/97, arrebatou uma Taça de Portugal, em 1995, e também uma Super Taça. Também foi treinador do Queluz Portugal.