Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Candidato quer resgatar prestgio do tnis Nacional

Helder Jeremias - 25 de Maio, 2016

Antigo praticante lamenta situao crtica em que a modalidade ficou votada

Fotografia: Jornal dos Desportos


Que caracterização se lhe oferece fazer sobre o momento actual do ténis nacional?
Gostaria de dizer algo diferente, sempre que se levanta esta questão, porém, devo confessar que o quadro é bastante desolador. Não existe nada palpável para que, num horizonte temporal, começamos a colher os frutos do processo de massificação. Tanto é assim que assistimos à paulatina degradação de tudo quanto foi herdado das gerações passadas, ou seja, a qualidade de ténis que se praticava nos anos após a independência nacional perde-se perante o olhar impávido e sereno de quem deveria fazer o melhor. O órgão reitor da modalidade no país está desprovido de projectos exequíveis para que as grandes valias, em termos de talentos de que o país sempre foi fértil, possam atingir os níveis elevados para uma representação condigna da nossa amada nação nas competições internacionais. Angola está à altura de resgatar o prestígio que lhe é inerente no concerto das nações.

Está a dizer que nada tem sido feito em prol do sucesso pretendido?
Não é que nada tenha sido feito. Ao longo dos anos, assistimos à implementação de programas  que não se enquadravam com as reais necessidades da classe, facto que se traduziu no afastamento de um considerável número de praticantes de ténis quer em Luanda quer nas demais províncias com uma forte expressão.

Quer exemplificar?
No caso de Luanda e de Benguela. As coisas só não foram de mal a pior, porque nessas urbanidades existem pessoas que nutrem um amor incondicional pelo desporto. Aliado às infra-estruturas dos clubes e o trabalhos de ambas associações provinciais, apesar de forma tímida, o ténis sempre se desenvolveu. Outro exemplo vem da Lunda Norte, em que o Sagrada Esperança, apoiado pelo Projecto Catoca e algumas personalidades singulares, sempre apoiaram a associação local. São casos muito particulares, mas que não podem resultar em benefícios maiores, porque a escassez de quadras de jogos, o reduzido número de competições internas resultantes da fraca actuação das direcções, o conflito pós-eleitoral de 2008 que culminou com um processo jurídico no Tribunal Provincial de Luanda, só para citar estes exemplos, estão na base do quadro sombrio do ténis angolano.

Caso venha a ser eleito, que acções vai ter como prioridade?
Em primeiro lugar, não se pode conceber que uma modalidade sob a égide do Ministério da Juventude e Desportos não tenha uma sede, onde os corpos sociais possam trabalhar. Por outras palavras, não tem um espaço para gizar as estratégias a serem implementadas. Desta forma, vamos procurar, junto de quem de direito, procurar solucionar a situação. Temos  conhecimento que altos responsáveis da Federação Internacional de Ténis (ITF, na sigla inglesa) e da Confederação Africana de Ténis (CAT) pretendem efectuar visitas de constatação da realidade angolana. Seria uma vergonha, se se aperceberem que a Federação Angolana de Ténis não tem um gabinete para trabalhar.

É fácil para o Ministério da Juventude e Desportos solucionar a sede para a FAT?
Risos. O Estado angolano construiu muitas infra-estruturas desportivas nos últimos anos. Por isso, fomos capazes de albergar, com todo o mérito, eventos de grande dimensão internacional. Não podemos questionar essa hipótese, pois, tal como sabemos, as demais federações têm beneficiado de todo o apoio do Ministério da Juventude e Desportos, o que não seria diferente para o ténis. As soluções existem, mas é necessário que haja uma visão estratégica para levar a bom porto qualquer empreitada desta natureza. Acredito que a Federação Angolana de Ténis ainda não tem instalações próprias, porque faltou alguma coerência da direcção, depois de ficarem sem os escritórios que se localizavam nas áreas de serviço da Cidadela Desportiva. 

A FAT apresentou as contas na reunião magna realizada recentemente. Em algum lugar, a direcção reuniu para tratar do expediente...
Agora questiono: Como os ofícios são processados? Onde os responsáveis colocam todo o acervo e documentação? Não podemos pensar em regularizar as questões internacionais, quando ainda não resolvemos as questões mais elementares.

Quais são as questões elementares que se sobrepõem as internacionais?
Sempre acompanhei pela comunicação social tudo quanto tem se relacionado com o ténis, em particular, e o desporto, em geral. As dívidas devem ser pagas para que a situação não se agrave ainda mais, de forma que qualquer direcção que estivesse na liderança dos destinos da modalidade tinha a obrigação de fazê-lo. As dívidas herdadas das anteriores direcções não podem colocar em causa todo o trabalho dos subsequentes consulados, de forma que aplicamos os poucos recursos existentes nesta problemática e ficamos condicionados na resolução das restantes actividades. A ITF dá a possibilidade de negociar as dívidas, desde que se apresentem as pertinentes justificações. O pagamento por tranches possibilitaria a resolução de várias preocupações em torno da massificação da modalidade.

A actual gestão não tem ponto de convergência com a do vosso tempo?
Na época em que estava no activo, não dispúnhamos de meios de comunicação iguais aos de dias de hoje em que tornam tudo mais facilitado. Porém, tínhamos uma calendarização que funcionava à preceito, que nos permitia manter um ritmo de preparação regular com repercussões na subida dos índices de nível técnico de cada atleta. Isso fazia com que a qualidade de ténis praticada por nós, atraía o maior número de pessoas para assistir aos jogos no Clube de Ténis de Luanda. Quando fôssemos representar o país no exterior, fazíamo-lo com toda a dignidade.

Considerou a escassez de quadras de jogo como um dos entraves do sucesso dos atletas...
Sem sombra de dúvidas. As quadras de jogo que temos no país foram feitas, na sua maioria, na época colonial, para um determinado número de praticantes. Hoje, pelo resultado dos dados do censo demográfico, vemos que as cidades cresceram vertiginosamente, o que se traduz na multiplicação de pessoas em busca de um espaço para 'bater a bola'. Dito de outro modo, o atleta eleva os níveis técnicos em função do tempo dedicado nos treinos, coisa que poucas pessoas têm o privilégio de o fazer. Em Luanda, temos o Clube de Ténis de Luanda, o IMN Marista e o Imel, mas a cidade está a expandir-se cada vez mais. Existem alguns espaços, onde podem ser construídas novas quadras de jogo. Em Benguela, surgiram novas instalações do Clube Bananeira do Cavaco, o que é de louvar a iniciativa privada. Continuamos a defender a necessidade de novas quadras em todo o país para permitir mais horas de treino aos nossos atletas.

Tem conhecimento de outras listas candidatas?

Ouvi dizer que existem pessoas que pretendem candidatar-se. É um sinal que não somos os únicos interessados a tirar o ténis desta triste situação. Espero que, caso exista a lista, seja formada por pessoas do ténis que conhecem e vivem a modalidade. Auguramos que o ténis não volte a ter aventureiros à frente dos seus destinos. É de salientar que estamos abertos para trabalhar com todos aqueles, cujos objectivos não sejam outros a não ser colocar as coisas no devido lugar. Estamos abertos para formar uma lista de consenso na medida em que a união vale mais do que os diferendos. Queremos ver, a breve trecho, a vitalidade de outrora no seio da família do ténis.

PERFIL
Eliseu recebe convite
do Benfica de Portugal


Eliseu Maria é uma personalidade com pergaminhos na modalidade das raquetes, cujos feitos lhe atribuem o epíteto de um dos melhores atletas da história do ténis nacional, no período pós-independência nacional. Aos 13 anos de idade, em 1977, começou a dar os primeiros toques nas quadras do Clube de Ténis de Luanda, localizado nas imediações do Estádio dos Coqueiros, influenciado pelo professor Augusto Pinto "Ganino", ao lado dos contemporâneos Hélio José "Dedé", Manuel Mucanha, Ana Balbina Ceita, Garcia Vadisse, Carlos Alberto, Yana Beatriz Ceita, Armando Marta (falecido), entre outras figuras da então nata de tenistas nacionais.

As conquistas do Campeonato Nacional em 1983 e o Grande Prémio Sonangol foram as duas maiores proezas de Eliseu Santos, seis anos depois de ter iniciado a carreira desportiva. Em 1984, conquistou a medalha de ouro na categoria de pares dos Jogos dos PALOP em Portugal. Em pleno apogeu da carreira, Eliseu Maria revela-se um tenista de elevado prestígio internacional com a conquista do troféu dos Jogos da África Central, em 1985, com palco em Brazzaville capital da República do Congo.

Inspirado no estilo do franco-camaronês Yanick Noir, o seu ídolo, Eliseu Maria esteve a um passo para representar as cores do Sport Lisboa e Benfica a convite do então vice-presidente da equipa portuguesa, José Santos. A pretensão não pode ser concretizada, apesar da proposta aliciante. Na época, os atletas nacionais estavam interditados a transferirem-se para clubes estrangeiros em virtude da situação política.

Com nostalgia, Eliseu Maria disse: "Lembro-me dos elogios que recebi de várias entidades que me viram a jogar, o que se seguiu de um encontro durante o qual me foi formulado o convite para jogar na Escola do Benfica de Portugal".

Nome: Eliseu Maria
Naturalidade: Uíge
Signo: Gémeos
Estado civil: Casado
Filhos: três (dois rapazes e menina)
Hobby: Desporto e leitura
Música: Kizomba
Bebidas: Sumos e água
Roupa: a rigor durante a semana (variado aos sábados, domingos e feriados)
Cor: Azul
Livros: Carácter jurídico
Religião: Metodista
Cidade: Nova Iorque
Sonho: ver Angola cada vez melhor.