Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Cansao condiciona exibies de Figo

Betumeleano Ferro - 22 de Novembro, 2013

Atleta acusou o cansao como o principal adversrio na sua estreia no campeonato mas promete melhorar no Girabola 2014

Fotografia: Jornal dos Desportos

A estreia de Figo no embate frente ao Recreativo da Caála deixou alguns adeptos do 1º de Agosto expectantes. O atleta reconheceu ontem, num exclusivo ao Jornal dos Desportos, que prometeu muito, mas faltou-lhe capacidade física para corresponder às expectativas.

O atleta admitiu que o jogo não lhe correu de feição, devido à época desgastante a que foi submetido na sua equipa de origem, mas aos poucos a sua carga desportiva foi melhor doseada e conseguiu mostrar o seu real valor.

“Comecei muito bem o jogo, mas depois baixei de rendimento porque acusei algum cansaço devido a época desgastante a que fui submetido. Antes de vir ao 1º de Agosto estava no Oriental e lá não descansava, porque fazia muitos jogos a titular”, justificou.

O jogador rubro-negro assegurou ter feito tudo ao seu alcance para reverter a situação mas “o corpo negou-se a colaborar”. Ele admitiu que as lesões contraídas foram determinantes para o intermitente rendimento.

“Infelizmente acabei por sofrer um choque grave na coxa, que me impediu de jogar em pleno. Tentei esforçar-se, mas é complicado e torna-se muito difícil quando você quer fazer uma coisa e o corpo não obedece”, lamentou.

Sem a forma física ideal, Figo teve de passar pela experiência inédita de marcar apenas 3 golos com a camisola rubro-negra. “É o pior que me aconteceu em toda a minha carreira. Em momento algum passei por algo parecido em toda a minha vida. É verdade que cheguei à equipa na segunda volta, mas isto não pode servir de desculpas para quem estava habituado a marcar muitos golos”, sublinhou.

A “seca” deixou espicaçado o atleta de 27 anos de idade, mas promete o máximo empenho na próxima época para se reconciliar com os golos e provar o seu real valor. “Ainda faltam muitos dias para a época 2014, mas não posso deixar de admitir que o meu único objectivo é trabalhar para fazer muito mais golos, 3 não me satisfazem”, enfatizou.

O nº 17 do 1º de Agosto rejeita ser considerado avançado e garante que é médio, mas não descarta a hipótese de jogar no ataque se for intenção do técnico. “Sou médio direito”, afirmou. Garantiu que antes de vir a Angola tinha intimidade com os golos e era o segundo melhor marcador do Oriental. “Os colegas me conheciam bem e jogavam para mim, isto também ajudava a facilitar as coisas”, afirmou.

A finalizar, o atleta, de nacionalidade cabo-verdiana, lamentou os falatórios que associavam a sua oscilação de rendimento ao famoso treino invisível. Aproveitou a presença do JD no seu apartamento para falar dos poucos “amigos” que tem no prédio.

“Quando não estou fechado em casa, desço para falar um pouco com os miúdos que lavam carros e realizam outros serviços humildes. Não bebo, não fumo, não gosto da noite, mesmo em Portugal não tenho namorada, tal como aqui”, concluiu.


CONFISSÃO
“Gosto de ter
a bola nos pés”


A postura de Figo quando tem a posse de bola encanta os seus admiradores e dá azo a várias conjecturas. O atleta revelou ontem ao JD, que dá nas vistas quando tem o esférico nos pés devido a sua confiança e a facilidade no tratamento da bola. “O meu estilo é de alguém com muita confiança naquilo que faz, é por isto que ergo a cabeça e encho o peito de ar com muita confiança”, explicou.

Apesar de escutar alguns comentários das bancadas, assegurou não ter motivos para adoptar uma outra forma de conduzir a bola, “desde miúdo que sou assim. Em Cabo Verde os colegas diziam que eu era vaidoso, mas esta é a única forma como sei jogar”, sublinhou.

A confiança do atleta quando tem a bola, nem sempre se traduz na rapidez de execução e admitiu ser um pouco lento em servir os colegas. “Gosto de ter a bola nos pés, às vezes não solto quando devia, esta é a única crítica que me podem fazer, mas nem sempre faço as coisas de propósito, gosto de dar tempo para ver quem está melhor posicionado”, argumentou.

Embora admita ser lento em algumas ocasiões, Figo recusa aceitar que a sua postura prejudica o rendimento ofensivo da equipa. “Há jogos em que não podemos falhar, mas continuo a ser dos mais certeiros em campo, até mesmo na hora de marcar golos. As pessoas podem falar do meu estilo, mas não podem acusar-me de falhar muitas oportunidades, aliás não estou preocupado com o que dizem de mim, porque não desperdiço muitos golos”, defendeu.

Afirmou que a sua posição em campo nada tem a ver com a aparente lentidão como executa os lances. “Nunca prejudiquei ninguém com o meu estilo, o mais importante para mim é que consigo jogar bem em qualquer equipa”.


MUNDIAL 2014
Médio lamenta “azar” dos Tubarões Azuis


A desqualificação de Cabo Verde na corrida ao mundial 2014 apanhou o médio Figo de surpresa. O atleta confessou ontem que, num primeiro momento, julgou tratar-se de uma brincadeira de mau gosto, mas depois rendeu-se as evidências dos factos.

“Muito sinceramente, não acreditei quando se começou a falar no assunto. Até cheguei a pensar que era um boato para desestabilizar a nossa selecção, mas afinal era verdade. Até hoje ainda estou muito triste”, lamentou.

Os Tubarões Azuis tinham dois jogos decisivos para chegar ao Brasil, mas a aparente má interpretação dos regulamentos privou os pupilos de Lúcio Antunes de continuar a competir. “Todos os cabo-verdianos estavam à espera que as coisas tivessem acontecido de maneira diferente. A selecção estava a obter bons resultados e isto deu-nos muitas esperanças de apuramento”, assegurou.

O médio mostrou-se convicto de que Cabo Verde vai conseguir reagir de maneira positiva ao duro golpe que sofreu e promete trabalhar para ajudar o seu país a trilhar outra vez o sucesso por África afora. “O meu sonho é chegar à selecção nacional, infelizmente ainda não fui convocado mas quero acreditar que o meu dia vai chegar, porque também quero contribuir para o sucesso da minha selecção”, afirmou.

Embora confie nas suas qualidades, o atleta do 1º de Agosto admitiu que está tapado pela concorrência, a principal razão por que Lúcio Antunes nunca lhe deu uma chance.

“Eu acho que até agora é tudo uma questão de opção técnica, a selecção tem outros valores, mas quero acreditar que se me esforçar um pouco mais é possível que dentro de muito pouco tempo também comecem a olhar para mim com outros olhos e consigo finalmente a oportunidade de representar a selecção de Cabo Verde”, augurou.


HUMILDADE
Atleta admira qualidades de Paty


O centro-campista Paty “encheu” os olhos de Figo no recém-terminado Girabola. O atleta rubro-negro confessou ser um admirador das qualidades do médio do Interclube de Angola. “Gosto muito da maneira como ele se entrega, quando está em campo. Acredito que não sou o único que repara este pormenor”, assegurou. Modéstia à parte, se dependesse de si, o cabo-verdiano de 27 anos de idade disse que daria tudo para ter o jogador, de que é fã, a alinhar no 1º de Agosto. “É um atleta que admiro bastante e que gostava de ter do meu lado, se isto fosse possível”, enfatizou.

Quando os militares e polícias se reencontraram na segunda volta do campeonato nacional, o médio fez questão de abrir-se com Paty. “Falei com ele e disse que tenho uma certa admiração pelas suas qualidades, mas antes já tinha confessado ao Guilherme Afonso. Felizmente, quando ele encontrou o Paty na selecção fez o favor de transmitir-lhe o que eu sentia por ele”, assegurou.

Embora coloque o médio do Interclube no patamar mais elevado, Figo afirmou que ficou algo surpreendido com a qualidade individual e colectiva que encontrou no campeonato angolano.

“Antes de cá chegar, o João Barbosa, técnico-adjunto do Oriental, meu anterior clube, esteve em Luanda e preparou-me para este novo desafio, mas ao chegar pude aprender melhor através da realidade”, esclareceu.

Figo passou grande parte da sua carreira em clubes cabo-verdianos, mas assegurou que nenhum deles se compara aos angolanos. “Aqui as equipas são mais competitivas fisicamente, é isto que torna o vosso campeonato diferente do nosso. Em Cabo Verde, o futebol é mais técnico do que o angolano, mas infelizmente não é todo ele profissionalizado. Como aqui em Angola, na minha terra as coisas ainda são semi-profissional”, comparou.