Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Carlos Moreira

Hélder Jeremias - 17 de Outubro, 2017

Carlos Moreira foi um dos precursores do motocross

Fotografia: Jornal dos Desportos/ Edições Novembro

A uma prova do final da época 2017, tendo já o Team Dinamith se consagrado campeão provincial de Luanda por intermédio do piloto namibiano, Ruhan Gous. Que Balanço faz em torno de tudo quanto foi feito até a presente data?
“O balanço é muito positivo, o que, em si, já nos permite erguer a cabeça com o sentimento do dever cumprido, pois, vencer a categoria rainha do Provincial de Luanda é o objectivo de qualquer equipa que está inserida na competição, algo que poucos têm a oportunidade de alcançar. Quanto a nós, tem um significado mais especial porque, ao longo deste tempo que vimos a trabalhar, obtivemos três títulos consecutivos na classe dos 150, de moto que a obtenção desta proeza é “colocar a cereja no topo do bolo”.

Trazer o campeão namibiano para Angola numa altura em que a conjuntura económica é desfavorável não é algo fácil...
“Com certeza que não é algo fácil porque, acima de tudo são custos altos que envolvem a criação de condições para que isso possa acontecer, por este facto é que esta foi a primeira vez que um piloto estrangeiro participa em todas as provas de um campeonato. Alguém tinha que fazer algo para que isso se tornasse uma realidade e nós, imbuídos pelo desejo de dar um contributo significante em prol do desenvolvimento do desporto nacional, não medimos esforços, cientes de que os ganhos seriam não só para a nossa equipa, mas para o motocross angolano, de uma forma geral”.

Já consegue-se notar o feedback da presença dos pilotos estrangeiros por parte dos nacionais?
"Sem sombra de dúvidas! e esse era um dos principais motivos que nos levou a fazer esta aposta, uma vez que sabíamos que a interacção com jovens dotados de elevado nível técnico serviria para os nossos jovens ganharem mais experiência, ao observarem aquilo que se faz nas competições mais avançadas. Quanto a isto, podemos nos dar por felizes, pelo facto de hoje notarmos maior atitude e destreza no manuseamento de motorizada não só dos pilotos da categoria dos 250cc, como também o fazem nos 150cc, esta última classe que representa o futuro da modalidade. A conjuntura económica é difícil, mas não podemos ficar de braços cruzados a espera que ela passa para fazermos algo que possa ser benéfico para o colectivo”.

Ainda assim, surgiram rumores por parte de alguns pilotos que manifestavam-se descriminados por parte da associação em detrimento da presença dos namibianos…
“A maior parte dos pilotos sentiu-se feliz por partilhar os circuitos com pilotos vindos de outras latitudes, com quem poderiam fazer intercâmbio de experiência, assim como o Ruhan Gous e o Karl Hanz também manifestaram a sua alegria por viverem uma experiência ímpar. Todavia, é uma tarefa muito árdua “agradar a gregos e troianos”, de tal modo que alguém, inconformado com a impossibilidade de realizar os seus intentos, isto é, conquistar o maior número de troféus possíveis e se sagrar campeão, optou pelo jogo baixo ou arranjar “bode expiatório” para justificar o seu insucesso, tendo levantado o “falso problema” da suposta discriminação praticada pela associação. Gostaria de reiterar o que já tivera dito uma vez à vossa reportagem: a vinda dos pilotos namibianos é da minha inteira responsabilidade; eu custeio as passagens, ficam hospedados em minha residência e correm com motorizadas da nossa equipa. A Associação é o órgão reitor da modalidade na província, cuja tarefa principal é administrar a competição e dá o mesmo tratamento aos concorrentes. Não existe nenhum benefício para uns nem outros”.

Um pormenor notável, foi a ausência do Team Dinamith na categoria 450cc (moto 4), na qual, num passado recente, esteve representada ao mais alto nível, assim como nos 150cc. A que deve o afastamento?
“No que tange à classe de moto 4 (450), contávamos com dois pilotos, isto é, um de nacionalidade portuguesa que residia em Angola há vários anos, mas que, por razões profissionais, teve de regressar à sua terra natal, onde se encontra a funcionar na actualidade. Ao passo que o piloto angolano danificou a sua motorizada e não tivemos possibilidade de contornar tal situação em virtude dos altos custos que acarreta a compra de uma motorizada daquele tipo nesta fase de crise financeira. Ainda assim, estamos a envidar esforços para que, em breve, possamos adquirir uma ou duas motorizadas para que, em 2018, a equipa também se faça representar nesta categoria muito apreciada pelo público”.

E ao nível da categoria de formação (150cc)?
“Esta categoria é muito importante para nós, porque sempre primamos pela formação. Todos os nossos pilotos começaram a dar os passos iniciais das respectivas carreiras nos 150cc. Fomos muito bem-sucedidos com todos eles, tendo vencido três títulos consecutivos através do piloto Yane oliveira “Busha”. Todos eles ascenderam para os 250c, tendo deixado um vazio na classe inferior. Estou certo que novos valores hão-de emergir nos próximos tempos para serem moldados para alta competição e defenderem as cores da equipa ao mais alto nível, quer em Angola que fora do país.

“ANGOLANOS NO EXTERIOR”

Já existem probabilidades de os pilotos nacionais competirem em provas no exterior?

“Essa questão nunca foi colocada de parte, porque todos sabemos que os angolanos são talentosos e que só precisam de mais oportunidades para alavancarem as suas potencialidades. É nesta senda que defendemos o intercâmbio com atletas mais experimentados. Por outro lado, não podemos nos esquecer que já temos alguns pilotos que fizeram algumas participações em competições na África do Sul e na Namíbia, muito embora os resultados tenham deixado muito a desejar. É necessário trabalhar com mais afinco nas camadas jovens para chegarmos a excelência, algo que vai exigir de todos nós a sua contribuição.

Um dos grandes acontecimentos mais recentes foi o encerramento do circuito do Zango, no qual foram realizadas provas do Provincial da capital, entre outros eventos que movimentavam o município de Viana. Para quando se perspectiva a construção do novo circuito?
“Na verdade, o circuito Nelson Mandela tinha características muito peculiares, por estar adaptado ao sistema norte-americano. As provas que lá era levadas a cabo paravam, literalmente, a localidade em que se encontra situado, em função da grande adesão por parte da juventude, mas o grande senão prendia-se ao facto de estar localizado no interior de uma zona residencial, o que motivava algum incómodo por parte dos moradores devido a poeira e o ruído de pessoas. Desta forma, tivemos que encerrá-lo, mas já nos foi atribuído um terreno na zona do Calumbo, na qual será construída a nova pista e instalações da Escola de motocross de Viana. A nossa pretensão era de arrancar com a construção no início do ano em curso, mas tivemos de adiar a empreitada devido à escassez de recursos para o efeito. A pressão é muito grande por parte do público e pilotos ao nível do município, daí que estamos a bater algumas portas à procura de patrocínios para o efeito”.

HÁ PESSOAS PARA LEVAR O PROJECTO A BOM PORTO
“Vou passar o testemunho à nova geração”


Disse há dias que pretende se afastar da presidência do Clube Dinamith e Escola de Viana. Como será possível dar seguimento aos projectos?
“Aproveito para reafirmar que acho que é chegada a altura de passar o testemunho para a nova geração, depois de cumprir com as principais metas que tracei no lançamento do então Núcleo de Mototocross de Viana. Hoje, ascendemos para a categoria de escola e temos pessoas capazes de levar o projecto a bom porto. Tenho um filho (Pituca) que sempre acompanhou o trabalho de perto e está disponível para dirigir a instituição. É certo que o meu afastamento não significa o completo abandono do motocross; sempre estarei disponível para apoiar os jovens com moral e materialmente, mas é altura de me ocupar com outras actividades, já que o motocross sempre foi uma actividade de lazer pelo amor que tenho por este desporto”.

Sendo o motocross uma modalidade que congrega multidões, tem contado com algum suporte das autoridades para a realização de eventos em alusão as grandes efemérides?
“Seria uma grande valia se tivéssemos apoios, mas tal não tem sucedido por razões óbvias. Tudo que recebemos são incentivos morais para continuarmos a trabalhar com a mesma determinação. Estamos cientes de que as autoridades do município estimam o nosso trabalho e, quando as condições permitirem, poderão nos ajudar a levar em avante alguns dos nossos projectos. Enquanto tal não acontece, temos que fazer as nossas engenharias para que o motocross não morra no nosso município”.

Como está o vínculo da escola de Viana com o Team Katoca da Lunda Sul?
"Tínhamos um projecto muito ambicioso que poderia fazer com que o motocross atingisse níveis de massificação naquela província, tendo, de início, garantido a presença de dois pilotos no Provincial de Luanda suportados tecnicamente por nós, mas o vínculo terminou porque não foram cumpridos os pressupostos por parte da empresa (Katoca) que se predispôs a arcar com as despesas. Tive que suportar os gastos inerentes ao projecto durante um tempo considerável até que já não era possível continuar. Não se pode “fazer ovos sem omeletes”, por isso nos deparamos com a triste realidade do declínio da modalidade naquelas paragens. Esperamos que surjam outras iniciativas ao nível das províncias, com quem a futura direcção poderá colaborar no âmbito da massificação.

Pilotos como Yane Oliveira e Branquinho Pina eram apontados entre as grandes promessas do motocross nacional…
“O Branquinho Pina continua a ser um piloto bem referenciado, não obstante já não fazer parte da nossa equipa. É dotado de habilidades que lhe permitem estar sempre entre os pilotos mais produtivos. Conta com três terceiros lugares ao pódio, na última prova ficou em segundo o que é bom para qualquer equipa que aspira por uma classificação condigna. Por seu lado, o Yane Oliveira “Busha” regrediu de forma acentuada porque não cumpre com os preceitos de um desportista. Tentamos dar todas as condições necessárias, mas não foi possível melhorar a sua forma desportiva. O motocross exige muito rigor em termos físicos, além das habilidades, de forma que não se pode mandar para a pista alguém que evidencia falta de capacidade para suportar a força da motorizada aos seus comandos, sob pena de contrair graves lesões ou colocar a sua vida em perigo. Por se tratar de alguém que tem talento, vamos esperar que supere esta fase menos boa ou apostar noutros atletas que garantam melhores resultados”.

ASSOCIAÇÃO PROVINCIAL
“Actual elenco directivo
merece nota positiva”


Como avalia o trabalho que está a ser desenvolvido pela Associação Provincial de motocross de Luanda?
"O actual elenco directivo da Associação Provincial merece nota positiva por estar a fazer um trabalho que de se “tirar o chapéu”. Eu acredito que se trata da melhor direcção que aquela instituição já teve. O Carlos Soweto é um jovem com uma dinâmica muito grande e que se está a reflectir na melhoria do funcionamento de todo o sistema, sem desprimor para o apoio que tem recebido de pessoas mais experimentadas com quem trabalha".
Numa altura que parte dos pilotos que actuam nos 250cc, que apreciação faz sobre o desempenho na classe dos 150cc.
“Para ser franco, esta é uma preocupação que deve ser tida em conta, já que há toda uma necessidade de preencher o vazio que as gerações mais velhas vão deixando. Nota-se que, em relação aos anos anteriores, a categoria de formação esteve alguns furos abaixo, talvez por falta de apoios. É preciso que as pessoas tenham mais sensibilidade para o desporto e ajudem com pequenos gestos os pilotos desprovidos de condições para darem seguimento as suas carreiras desportivas. A Associação Provincial e os seus parceiros têm cumprido com a sua parte, porém não é suficiente para cobrir com todas as necessidades”.

Além da conquista antecipada do título Provincial por intermédio de Ruhan Gous, qual foi outro ponto mais alto que já atingiu?
“Sem qualquer sombra de dúvida foram as conquistas de três títulos consecutivos nos 150cc, sendo que o primeiro foi arrebatado pelo Bruno Moreira “Russinho” e os dois seguinte pelo Yane Oliveira Busha. Contudo foram vários momentos altos e baixos que fazem parte da história do motocross vianense".

“FORMALIDADE”

Por que razão o Team Dinamith não se inscreveu na primeira edição do Campeonato Angolano de Motocross (CAM Speed) sobe égide da Federação Angolana de Desportos motorizados?
“Na verdade, a prova mais competitiva é o Provincial de Luanda, de maneira que falar de campeonato angolano é mera questão de formalidade, o que seria desgastante para nós trazermos pilotos de fora para esta prova além campeonato provincial. Não temos nada contra essa iniciativa, mas não seria estratégico estarmos inseridos nesta competição”.
 
Que recado quer deixar para as autoridades nacionais, ao Ministério da Juventude e Desportos, em partícular?
“Sempre apelamos para uma política que se traduzisse na eliminação ou redução de taxas aduaneiras para motorizadas e equipamentos desportivos, pois isto permitiria que se conseguisse o material sem grandes custos, assim como o surgimento de novas lojas em que os interessados comprariam sem ter que se deslocar ao exterior. Também é necessário que se dê apoios para a organização interna das equipas, prémios aliciantes para os concorrentes nas provas do calendário oficial. Em suma, uma aposta melhor do que se tem feito até agora.