Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Carlos Teixeira Cagi acredita no xito de Angola no Mundial

Melo Clemente - 08 de Abril, 2019

Carlos Teixeira

Fotografia: DR

Carlos Teixeira " Cagi ", antigo presidente da Federação Angolana de Basquetebol (FAB), acredita numa boa campanha do "Cinco Nacional" na Copa do Mundo da modalidade, competição a decorrer de 31 de Agosto a 15 de Setembro do ano em curso, na República Popular da China.
"Cagi ", como é tratado a nível da "bola ao cesto ", conta com quatro Afrobasket´s conquistados, para além de várias participações em Campeonatos do Mundo e Jogos Olímpicos, considera anormal o facto do actual seleccionador nacional não residir em Angola. A viver actualmente na Austrália, desde Abril de 2017, no Estado de Queensland, cidade de Helensvale, o antigo homem forte da FAB tem acompanhado de forma esporádica o desenrolar da modalidade no país. Atente, pois, caro leitor, e entrevista que se segue:

Jornal dos Desportos - Sabemos que deixou o país há largos anos. Gostaria de saber se tem acompanhado o andamento da modalidade no país?

Carlos Teixeira "Cagi " - "Acompanho, dentro do possível, o andamento do desporto em Angola, e o basquetebol em particular, mas é muito difícil avaliar com rigor o que se passa no terreno. Leio os jornais tanto genéricos como os desportivos, porque os amigos me enviam notícias pelo Baptista Moscavide, do Mariano de Almeida, Arlindo Macedo, os manos Leitão, Arlindo e Manecas, amigos dos velhos tempos, de alguns antigos jogadores de basquetebol, com quem mantenho excelente relações pessoais de amizade,  casos de José Carlos Guimarães, Amaral Aleixo e por vezes o Necas, Victor Almeida, Honorato Trosso, Herlander Coimbra, Paulo Macedo e, esporadicamente, outros antigos jogadores das Selecções Nacionais".

JD - Que avaliação é que faz do actual estado da modalidade?

CT - "Não se pode comparar o estado actual do desporto com o que se passou há cerca de trinta anos, as diferenças de condições e reais são muito grandes no contexto desportivo, social e político. Houve mudanças profundas no país e no mundo. Naquele tempo havia muita entreajuda, éramos unidos e trabalhávamos em grupo. As dificuldades faziam união e a união fazia a força. Havia respeito pelas pessoas, pelo pouco que tinhamos e dávamos valor ao jogador, treinador, medico, etc. O “olho gordo” começou a aparecer, quando houve mais facilidades financeiras e alguns julgavam que o “ter o rei na barriga” , o apoio partidário ou o dinheiro conseguiam resolver sozinhos os problemas, inclusive destratando os seus antecessores, que andaram em “picadas com correntes” e não tinham estradas asfaltadas para fazer brilhar seus luxuosos carros. Quem esquece a historia não tem futuro".

JD - Está a querer dizer que hoje não se trabalha em grupo e que os verdadeiros protagonistas (jogadores, treinadores, médicos etc), não são respeitados?

CT - "Não tenho a mínima dúvida, que isso tem acontecido nos últimos tempos no nosso basquetebol ".

JD - Acredita que a crise económica, que afecta o país, terá contribuído para o actual estado que a modalidade atravessa?

CT - "As dificuldades financeiras me parecem uma boa desculpa, para fugir as responsabilidades. E cito apenas dois exemplos. O andebol joga-se exactamente nos mesmos recintos que o basquetebol e olhem para o nosso andebol em termos de dirigentes, o feminino sempre no topo e os masculinos melhoraram muito. O futebol onde se gastaram e continuam a gastar montes de dinheiro, não  sai da cepa torta. Medíocre e sem perspectivas. Tenho esperança que a família basquetebolista vai saber dar a volta ao resultado, tal como já o fez em outras crises que teve. Devemos ser modestos, ter uma dose de patriotismo e ser honestos. O resto vem por acréscimo ".

JD - Sente-se de alguma forma frustrado com o actual estado da modalidade, que tantas alegrias deu ao povo angolano?

CT - "Infelizmente, eu olho hoje o basquetebol angolano com muita tristeza. O basquetebol angolano, a par do andebol, foram sempre os cartões de visitas do nosso país ".

JD - Saudades do seu tempo......

CT - " Olha não me sinto frustrado pelo que fiz enquanto dirigente desportivo, tanto na federação como no Comité Olímpico Angolano, de modo nenhum. Fui presidente da FAB entre 1988 e 1996, deixei depois dos Jogos Olímpicos de Atlanta, Estados Unidos da América. Angola foi Campeã Africana em 1989, 1991, 1993 e 1995. Quatro vezes seguidas. Participamos, com muito boa referência, nos Mundiais de 1990, Argentina e 1994, no Canada. Participamos, com óptimas referências, nos Jogos  Olímpicos de 1992, em Barcelona, Espanha e 1996 em Atlanta. Representei Angola em Conferências Mundiais do Ambiente, em 1999, no Rio de Janeiro, e outras menos sonantes em outros países .Modéstia a parte, sinto orgulho no que fiz e voltaria a fazer o mesmo se o tempo recuasse ".

JD - Sente-se parte integrante desta família que, infelizmente, anda desavinda?

CT - "Nunca poderei esquecer, que alguns momentos mais felizes e importantes da minha vida estão ligados ao basquetebol. A chegada da nossa delegação em 1993, depois de ganhar, pela terceira vez consecutiva, o Campeonato Africano foi uma jornada gloriosa, intensa e mística. O avião aterrou no Aeroporto 4 de Fevereiro cerca das cinco da tarde, foi feita uma recepção desde o Aeroporto por toda a cidade, incluindo zonas suburbanas, onde o povo, sim o povo, nos recebia com vivas, alguns quitutes, bebidas e tivemos de parar centenas de vezes a cantar e dançar na rua, para atender os milhares de populares que nos saudavam ao longo das vias. Fomos até Viana sempre rodeados de carinho, respeito e admiração generalizada. Sei que cheguei a casa apenas as cinco da manhã.  De notar que, a partir de Novembro de 1992, o país voltou a guerra civil, o que causava muitos problemas de circulação e financeiros no dia a dia. Antes de iniciar essa passeata, a delegação foi recebida com honras e circunstancia pelo Presidente da República, membros do Governo, deputados e muito público no Estádio da Cidadela Desportiva".

JD - O que mais lhe marcou durante o seu consolado?

CT - "Foram vários acontecimentos que marcaram o meu consolado, mas, devo aqui destacar, o ano de 1992, depois da celebre vitória sobre a Espanha por expressivos 20 pontos, nos Jogos Olímpicos de Barcelona, fui entrevistado por uma cadeia televisiva americana e quando me perguntaram qual eram as ambições da Selecção de Angola, eu disse e repito ainda hoje que, se a nossa Selecção tivesse dois postes com mais de 2,10 centímetros e 130 quilos de peso, discutíamos os três primeiros lugares nos Mundiais e Jogos Olímpicos. Não sou treinador, sei um pouco de basquetebol, mas penso que o meu raciocínio estava certo e mantenho o que disse. O Professor  Vitorino Cunha, que é todo rigoroso e profissional, não gostou de ouvir, mas estava dito\".

JD - O desenvolvimento do basquetebol passa por naturalizar atletas estrangeiros?

CT- "Longe disso. Daí que eu não esteja de acordo, que se contratem ou nacionalizem jogadores na posição de base ou extremo, para resolver posições pontuais nos clubes ou na selecção. Devemos, sim, apostar na “importação” e posterior nacionalização de jovens , talvez dos países do leste, com aquela altura e peso e idade entre os 17 e 20 anos ".

JD - Acha que os clubes hoje trabalham como antigamente?

CT - "Julgo que os clubes têm feito esforço e trabalho de base aceitável, particularmente alguns, poucos na verdade, mas dentro do possível. Não esquecer que a NBA (National Basketebol Association) vai apoiar  um torneio semelhante em África e foram seleccionadas oito equipas, duas das quais são angolanas. Num universo de mais de 40 países , um quarto das equipas pertence ao nosso país. Parabéns ao Clube Desportivo 1º de Agosto e ao Atlético Petróleos de Luanda. Sinto orgulho por isso".

"Temos de assumir o nosso comodismo "

O basquetebol angolano atingiu o actual estado, porque as pessoas acomodaram-se nos resultados do passado e permitiram que as outras nações trabalhassem mais do que nós. Com o actual quadro, urge a necessidade de sermos humildes, assumir o adormecimento, unir forças e reiniciar a subida das escadas degrau a degrau, defendeu Carlos Teixeira "Cagi ", um dos presidentes mais titulados da Federação Angolana de Basquetebol (FAB), a par de António Pires Ferreira.
"O que deve ser feito para sair desta situação, me parece ter a ver primeiro com uma boa dose de humildade, assumir o nosso adormecimento comodista, unir forças e reiniciar a subida das escadas degrau a degrau. Não saltar de patamar para patamar, correndo o risco de partir uma perna. A nossa família do basquetebol tem capacidade e pode conseguir. Vamos a isso".

JD - Considera normal a queda de Angola a nível do ranking mundial?

"Não considero normal, que Angola tenha descido tanto e em tão pouco tempo. Podemos dar a volta por cima. Temos potencial e em condições mais adversas já o conseguimos. Principalmente em África, devemos apostar no inicio da recuperação do nosso ranking.

JD - Tem acompanhado a campanha de Angola para a Copa do Mundo?

CT - "Tenho acompanhado ao de leve a campanha da Selecção e embora os resultados tenham atingido os objectivos, que será o de estarmos presentes na Copa do Mundo, penso que poderíamos ter feito melhor, mas o objectivo principal foi atingido e isso foi positivo. Nestas paragens, é difícil os meios de informação televisivos transmitirem os jogos da nossa Selecção, só quando tem como adversários as equipas locais. Vou acompanhar no site oficial FIBA Daily, que tenho há dois meses".

JD - Acredita numa boa campanha de Angola na Copa do Mundo da China?

CT - "Sou sempre optimista e penso que iremos ter uma boa prestação na Copa do Mundo. Precisamos de conseguir a participação de todos os jogadores angolanos espalhados pelo Mundo, principalmente os mais altos e que joguem em equipas de primeira linha nos campeonatos locais e internacionais".

JD - Hoje a Selecção Nacional é conduzida por um técnico norte-americano...

CT - "Sempre assumi, que a Selecção Nacional deve ser orientada por um técnico nacional e rejeito desculpas elaboradas, a tentarem explicar que o nível da nossa Selecção justifica um técnico de renome, para contratar um estrangeiro. O basquetebol de Angola não significa apenas ter bons jogadores , de bom nível, mas também bons dirigentes, bons treinadores, bons médicos, bons árbitros, bons massagistas, bons fisioterapeutas, bons estatísticos . Devem constituir uma equipa e sentir o nosso sentido de patriotismo na nossa prestação . Angola deve estar sempre no coração\".

JD - E o caricato é que o seleccionador nacional não reside em Angola.....

CT - "Lamentavelmente. Portanto, ter um técnico da escola Norte Americana pode ser uma escolha alternativa, porque o basquetebol na América é o mais desenvolvido, mas, sinceramente, não residir em Angola, colher dados com informadores, ver os jogadores actuar pela televisão, fazer a escolha dos jogadores pela internet e ir ter com a equipa um mês ou duas semanas antes para preparar a equipa, me parece “sui generis” e uma fantasia. Não tem pés nem cabeça . Uma aberração. Parece um filme de ficção cientifica".

JD - Angola já teve uma má experiência, quando contratou o técnico francês?

CT - "Também não posso deixar despercebido, quando escolheram um treinador francês para orientar a nossa Selecção. O basquetebol angolano, na minha visão, é diferente do estilo do Senegal ou Costa do Marfim. Francamente não brinquem com coisas sérias. Valorizem e responsabilizem os nossos e dêem oportunidade para melhorar e cumprir ".

JD - Quer comentar sobre a crise que se instalou na Federação Angolana de Basquetebol?

CT - "Sobre a actual situação do que se está a passar na direcção e na assembleia-geral da FAB não tenho comentários para fazer, porque se torna difícil opinar de tão longe, sem dados concretos e apenas com algumas informações sobre os acontecimentos, informações que podem ser manipuladas ao gosto do informador ".

"Precisamos de acordar rapidamente"

ANGOLA, ocupa actualmente a posição 39 no ranking da FIBA-Mundo, com 262,5 pontos, de acordo com a última actualização feita pelo organismo que tutela a modalidade no mundo, em Fevereiro do ano em curso, num universo de 165 países. Estados Unidos, Espanha e França ocupam os três primeiros lugares do ranking, com 793,7, 703,4 e 650, 2 pontos, respectivamente.
Para o antigo homem forte da Federação Angolana de Basquetebol, a actual posição do  "Cinco Nacional " é bastante desolador, por isso, espera que esta classificação seja melhorada o mais rapidamente possível.
"Se bem me lembro, Angola chegou a estar na 14ª posição no ranking Mundial. Hoje parece que esta na posição 39. Há um ditado que diz   "o camarão que dorme a onda leva ". Precisamos de acordar rapidamente, ter a mesma humildade que tivemos, quando levávamos surras da Costa do Marfim, Senegal, etc, e arregaçar as mangas para dar a volta ao resultado. Portanto, gostaria de apelar a família do basquetebol para se unir e fazer força. Iremos conseguir melhorar tenho a certeza absoluta ".