Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Caxala sonha com CAN

Sack Santos - 28 de Janeiro, 2014

Caxala, melhor rbitro nas pocas 2009 e 2012.

Fotografia: Kindala Manuel

O árbitro internacional António Caxala disse há dias, em entrevista ao Jornal dos Desportos, que só atinge o auge da sua carreira, “quando um dia apitar num CAN ou num Mundial”. Considerado o melhor juiz nas épocas 2009 e 2012, Caxala é culto, sensato, actuante, experiente, tem pulso, é seguro, e disciplinarmente é um pedagogo. Não se expõe e realiza um trabalho acima da média. Licenciado em pedagogia pelo Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED), António Caxala, não assume a sua preferência clubista no país, referiu que quando “abraçou” a carreira não tinha a noção que era “um alvo a abater” e que trabalha para preservar o seu prestígio na arbitragem.   O entrevistado do JD é apologista de que os árbitros devem ser nomeados e não indicados e que para “grandes jogos, devem ser grandes árbitros”.

- Quando decidiu enveredar para a arbitragem tinha a noção que podia ser um “alvo a abater”?
- Não tinha bem essa noção. Sabia apenas que era um mundo muito complicado. É uma missão muito complicada.

- Certamente que teve momentos “amargos” e outros  positivos ao longo da sua carreira. Quais os que mais o marcaram?
- Pela positiva, devo referir que em 1999, fui promovido para a 2ª categoria nacional.
Pela negativa, um ano depois fui despromovido para o quadro de acesso, quando tudo apontava que ia subir para o Quadro Nacional. Era candidato certo, para a 1ª Categoria Nacional. Na véspera, um jogo correu-me mal, por causa de um fora-de-jogo mal assinalado, fui despromovido. Cair é fácil, mas levantar é difícil. Fiquei muito em baixo psicologicamente e pensei desistir. Foi graças ao árbitro Manuel Francisco, que me incentivou, moralizou-me e recuei na minha decisão.
Um ano depois fui promovido à 2ª categoria nacional.

- Quais são os objectivos na arbitragem?

- Neste momento, o meu objectivo é preservar o meu prestígio. Errar cada vez menos, apitar com a máxima isenção, imparcialidade, empenho, concentração e motivação. Obviamente, que não escondo o sonho de um dia apitar num CAN ou num Mundial.
Quando aí chegar, significa que atingí o auge da minha carreira como árbitro. É o patamar, que quero atingir, enquanto árbitro. É óbvio, que gostava de ter esta experiência. Mas, o importante, não é se o António Caxala está no CAN ou no Mundial, mas sim, a arbitragem angolana em si. Para mostrar, que os árbitros angolanos, também são competentes.  Estamos a trabalhar, para este dia chegar. Portanto, quero ocupar, um lugar de relevo nos quadros da FIFA.

-E quando terminar a sua carreira?
- Fruto de toda a minha experiência, ajudar o Conselho Central de Árbitros a melhorar a nossa arbitragem. Está no meu projecto.

AUDÁCIA
“Sou firme nas minhas decisões”


- O António Caxala fez a sua estreia no Girabola de 2009. Que recordação tem daquele momento? Lembra-se do primeiro jogo?
- Perfeitamente. Foi em 2009, entre o 1º de Agosto e o Benfica de Luanda. Por isso, guardo muito boas recordações desse jogo.

- E do primeiro dérbi?

- Igualmente. Foi em 2010. Petro de Luanda – 1º de Agosto

- Os árbitros sentem mais pressão dos dirigentes, clubes, treinadores, jogadores ou dos adeptos?
- Pressão? Eu atiro a pressão para eles. Nunca me senti pressionado. Não influenciam nas minhas decisões. Eles é que ganham os jogos. Nós fazemos o nosso trabalho. Estou preparado para os grandes jogos. Sou firme nas minhas decisões.

- Concorda com a forma como são avaliados pelos comissários de jogo?

- Alguns comissários avaliam de acordo com o que aconteceu, com o que viram, infelizmente os outros fazem o inverso.

- Como é feita a avaliação?

- A avaliação começa na cabine. O comissário começa a apreciar a apresentação do árbitro, passa pelas formalidades, o desempenho, as movimentações, enquadramento, as decisões que toma, se com firmeza ou hesitação, a aplicação da lei da vantagem, as acções disciplinares… e por fim toma uma decisão. Mas, meu amigo, as falhas existem sempre. (risos)

- Ganha mais como profissional ou como árbitro?

- Como profissional. Sou director pedagógico de um Colégio particular e também dou aulas.

AVALIAÇÃO
“Época passada
foi excepcional”

- Que análise faz da época 2013?
- A todos os níveis foi excepcional. Foi melhor do que 2012.

- Considera-se o melhor árbitro de 2013?
Não sou o melhor, nem de perto nem de longe. Fui o melhor, em 2009 e em 2012. Há uma concorrência salutar na classificação. Todos queremos vencer, porque estamos todos ao mesmo nível. Mas no cômputo geral, temos bons árbitros. A diferença, está talvez no rigor que cada um aplica as regras. Alguns são mais eficientes em termos disciplinares do que os outros. Quando iniciei a minha carreira, era muito rigoroso, disciplinador, rígido, mas desde os meus primeiros anos de Pedagogia, exerço mais o papel de professor, de pedagogo. Quando entrava em campo, os jogadores, os treinadores e os dirigentes das equipas, já sabiam, com o que podiam contar. Hoje já não sou tanto assim; hoje faço uma arbitragem preventiva, depois é que de acordo a infracção, aplico a sanção.

- E o que pode avançar em relação a época de 2014 que abre a 4 de Fevereiro?

- À semelhança de muitos clubes, já iniciamos a nossa pré-época desportiva. Eu e um grupo de colegas estamos a ser preparados fisicamente, com base num plano, que consiste em exercícios de força, reflexo, velocidade e resistência, realizado pelo professor José Saraiva. É um homem do atletismo, uma mais-valia para o nosso desporto. O árbitro tem de ser um atleta, com uma condição física extraordinária. Tem de estar ao nível, ou melhor do que um jogador de alta competição.

ARBITRAGEM
“Tecnologia tem ajudado”


- A tecnologia na arbitragem eleva a verdade desportiva?

- É uma mais-valia que ajuda muito. A margem do erro reduziu significativamente. Portanto, sou a favor de todo o investimento, que é feito na arbitragem, seja por meio da tecnologia, na formação e de especialistas, como médicos, fisioterapeutas, preparadores físicos e outros agentes.

- Quem é o teu ídolo na arbitragem nacional e na Mundial?

- Gostava da forma de apitar do Leopoldo Mavunza. A nível internacional o inglês Howard Webb. Apita num campeonato em que se deixa jogar à bola. Revejo-me nele. O meu modelo é inglês, onde, nem todo o contacto é falta. Não se deve apitar tudo. Sou criticado por não apitar certas faltas. No futebol o contacto é possível. Deixa-se fluir o jogo e as jogadas. A falta só é falta, quando a infracção é merecedora. Portanto, a minha forma de apitar é à inglesa e por vezes, não se compadece com a nossa forma de jogar.

- Nunca jogou futebol?
- Nunca joguei oficialmente. Dava sempre uma peladinha com os meus amigos de infância nos diversos campos do Dundo, na Lunda-Norte.

- Quantos jogos em média apitam por época?

Apito, por aí 12/13 jogos.

- Quantos jogos já apitaram?

Menos de 200.

“Todos os jogos são difíceis”
O central Kaly, do 1º de Agosto, é o jogador que mais situações provocou ao trabalho de António Caxala. De acordo com o árbitro internacional angolano, o capitão militar, principalmente após à sua chegada ao país, “reclamava por tudo e por  nada”, mas com o decorrer do tempo as coisas melhoraram.
António Caxala disse que tem preferências por jogos internacionais, pois considera ser mais fáceis de apitar, porque os jogadores têm outra postura.

- Durante o jogo, vibras após uma linda jogada, um drible, um lindo golo?

- Temos o controlo das emoções. Mas, através dos inter-comunicadores, comentamos e por vezes sai um sorriso, mas, disfarçado.

- Estuda os jogadores antes dos jogos?

- Faz parte da preparação. Serve para antecipar certos cenários. Fazemos um “Scooting”, sobre o comportamento de cada jogador.

- Quais são os jogos mais difíceis de apitar?

- Todos os jogos são difíceis, por isso, não tem como apontar que este jogo é mais difícil que o outro. Mas prefiro os jogos internacionais. São mais fáceis de apitar. Os jogadores têm uma postura diferente.

- Qual foi o jogador mais problemático que teve pela frente?
- Kaly, defesa do 1º de Agosto, sobretudo na altura em que acabava de regressar ao País. Reclamava por tudo e por nada. Era um jogador que não facilitava a relação com os árbitros. Agora está mais comedido, porque a idade também já lhe pesa.

- E sobre a linguagem que normalmente é utilizada no futebol?
- É um momento de alguma intensidade emocional. Os jogadores, treinadores e dirigentes, são livres de expressar as suas emoções, mas devem saber geri-las. Há palavrões, fruto de uma cultura e de uma educação. O Recreativo da Caala é um exemplo disso. Mas, eu consigo distinguir entre um desabafo e a frustração do jogo.

- À tempos um comentador disse que o árbitro estava perdido no campo. Quer comentar?

- O que é que ele queria dizer com isso? O árbitro nunca está perdido. Não concordo, porque, o árbitro tem autoridade para fazer cumprir as leis e as regras, por ter sempre o controlo do jogo.

- Existe algum impedimento para que os árbitros não falem após os jogos?
- Sim. A FIFA tem um código de ética, que não permite que o árbitro fale em público sobre as decisões do jogo.

- E em relação às outras críticas?

- As outras críticas, e aos outros comentadores, não damos importância. 

CONFISSÃO
“Quando erro fico agitado”


- Quando te apercebes que erraste, caso o erro acabe por influenciar no resultado final, como são as noites e o dia seguinte?
Terrível. Uma frustração tremenda. Quando os erros do árbitro têm influência no resultado, quem mais sofre é o árbitro. Isso posso garantir-lhe.
Nenhuma pessoa de boa fé, de princípios, pode ficar contente com uma prestação negativa. Feliz ou infelizmente não desabafo com a minha família e ela apercebe-se imediatamente, através do meu comportamento e atitudes. Isolo-me. Este é o meu grande defeito. Prefiro ficar só. Penalizo-me muito, acreditem. Fico agitado. Sinto algo misterioso.

- Com base nisso, os árbitros deviam pedir desculpas pelos seus erros?

- Pedir desculpas não serve para nada. Errar é humano.

- Já foi agredido alguma vez?
- Fui alvo de uma tentativa de agressão, por uma jogadora do Mártires de Kifangondo, numa partida referente ao Campeonato Provincial de Futebol Feminino, em 1998.

- Caso mandasse na arbitragem nacional o que mudava?
 - Nada é estática, por isso, mudava no capítulo da formação. Há que rever o processo de recrutamento dos futuros árbitros. Os métodos aplicados, não são os mais adequados, por isso muitos desistem. Porquê? Tem de haver um estudo. Tem de se aprofundar as causas, porque elas são bem visíveis. Por outro lado, há falta de material, e sobretudo falta de acompanhamento por parte dos monitores, após à conclusão do curso de árbitros. Os estagiários devem ser acompanhados pelos monitores. Uma grande maioria está entregue à sua sorte.
Por isso, perdemos muitos quadros na arbitragem. No fim de cada jogo, os monitores deviam trabalhar com todos os estagiários, em vários aspectos, para o seu melhoramento. Depois observamos aquele desnivelamento, uns sobem de categoria e os outros… portanto, escuso-me falar da auto-preparação do árbitro.

TRABALHO
“Somos observados pelo CCA”


- Os árbitros são criticados pelos membros do Conselho Central, concorda?
- É o pão-nosso de cada dia. Em todos os jogos somos observados.

- Que opinião tem acerca dos comentadores e analistas da arbitragem ?
- Somente, dou importância às pessoas que merecem. Os árbitros têm acções de formação e de capacitação, com o objectivo de reduzir a margem de erros.
Errar é humano.
Os erros vão sempre existir.  Os comentadores não passam por essa formação, julgam que já sabem tudo. Eles deviam acompanhar-nos nestas acções. Há situações que comentam um determinado lance, algo que nada tem a ver com a realidade.
O facto de terem sido árbitros, não implica que já não devem aprender mais. Por vezes, atribuem-nos notas desleais, sobre o nosso desempenho. Penalizam-nos.
Não conseguem destrinçar, por exemplo, o António Caxala árbitro e o António Caxala homem. Este comentador fomenta o ódio, faz que o público crie um certo rancor contra o árbitro.
Muitos comentadores são culpados destas situações hostis.

- Os árbitros dificilmente assumem o seu clube. Podemos saber qual é o seu?
Sou adepto do Barcelona, Chelsea, Benfica e do AC Milan.

- E em Angola?
 - (risos). Não sou adepto de nenhum clube em Angola, por uma questão pessoal.

- Qual o estádio mais difícil para arbitrar?
- Estádio do Tafe, em Cabinda. Não oferece segurança.

- Viagem mais espectacular ao serviço do futebol?

- Foi num jogo RCA-Argélia, em Bangui. Havia um conflito militar na cidade. O estádio estava superlotado. Quando a equipa da casa marcava, os militares armados entravam em campo e festejavam. Fomos inclusive alvo de represálias no nosso regresso.

PERFIL
Nome: António Caxala Muachihuissa
Filiação: Agostinho Muachihuissa e de Clementina Caxala
Naturalidade: Maludi (Cambulo)
Município: Cambulo
Província: Lunda-Norte
Estado Civil: Solteiro
Profissão: Professor
Filhos: 4 (três rapazes e uma menina)
Altura: 1,72
Peso: 60 Kgs
Calçado: 40
Bebida: Água e sumos naturais.
Prato preferido: Funge (xima) de carne seca de caça.
Músico: Sassa Tchokwe.
Cor preferida: Verde.
Signo: Escorpião.
Religião: IURD.
Viagem de sonho: Ir à lua.
O que mais detesta: Falsidade.
Defeito dos jogadores: Reclamar a decisão do juiz, após uma infracção.
Defeito dos dirigentes: Falar mal dos árbitros e das arbitragens.
Defeito dos treinadores: Alguns são como os seus dirigentes.
Defeitos dos árbitros: A maioria preocupa-se com a sua condição física.