Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

"Chegar o mais longe o nosso objectivo"

14 de Outubro, 2009

Manuel da Costa

Fotografia: Jornal dos Desportos

A selecção olímpica foi chamada para substituir a selecção "AA" na Taça Cosafa. Como encara a responsabilidade de dirigir uma selecção, cujo nome consta da galeria de campeões?
É algo que já havíamos programado, porquanto a selecção "AA" está a fazer a sua preparação específica para a Taça Africana das Nações Orange-Angola’2010. A selecção Sub-23 foi chamada para a empreitada que se avizinha e recebemos a orientação com agrado. Temos jogadores emergentes, isso é, jogadores com idade para ingressar na selecção principal e há todo o interesse de os levar para esta competição; são atletas que se destacam nos seus clubes.

Qual é o vosso objectivo nessa competição?
Chegar o mais longe possível em todas as provas é o nosso objectivo primordial. Quando nos engajamos em qualquer competição é para fazermos o melhor, por isso, vamos procurar fazer um grupo forte para competir em circunstâncias iguais com qualquer selecção. O objectivo passa em fazer uma boa prova, quiçá, ganhá-la.

A competição também vai servir para sondagem de jogadores que possam fazer parte da selecção principal nos próximos tempos?
Sim. Há a necessidade de se renovar a selecção “AA” e vamos aproveitar a oportunidade para levar os atletas, potenciais candidatos à selecção “AA” num futuro muito próximo. Vamos procurar dotá-los de rodagem competitiva para que tenham arcaboiço necessário, e tão logo integrem a selecção "AA" possam representá-la condignamente.

Muitos aficionados do desporto nacional queixam-se da má formação dos futebolistas angolanos. Os atletas seleccionados garantem o alcance dos objectivos preconizados?
Creio que sim. Estamos a fazer uma miscelânea de atletas com idades compreendidas entre os 17 e 23 anos, principalmente, os que se enquadram no último ano de cada categoria. Queremos formar um grupo coeso que possa responder as necessidades de uma selecção olímpica, pois é a equipa nacional intermédia entre as citadas e a de honras. A Taça Cosafa vem na melhor altura para as nossas perspectivas e os seleccionados são capazes de ombrear com as selecções que farão parte do evento. A Zâmbia e as demais selecções, que (ainda) não se apuraram para a Taça Africana das Nações Orange-Angola’2010, vão aparecer no máximo das suas forças com os mesmos objectivos.

O tempo de preparação é ou não é muito curto para induzir aos atletas as estratégias dos jogos?
Penso que não, porque conhecemos os nossos atletas. Não começamos a preparação mais cedo, porque a maior parte está a competir nos seus clubes. Se começássemos mais cedo, de certeza que encontraríamos entraves, porque há equipas que não podem ceder jogadores por muito tempo, em função de o Girabola estar na recta final. Não obstante a isso, o tempo disponível é suficiente para cumprir com o primeiro micro-ciclo de preparação, em Luanda, e, posteriormente, procuraremos dar a velocidade necessária, dentro de sete dias de estágio no estrangeiro, que nos permita fazer uma boa competição.

A experiência diz-nos que o entrosamento entre sectores é um mecanismo que não se ganha em pouco tempo…
Temos um grupo de jogadores que conhece a metodologia de jogo; são atletas que trabalharam connosco na selecção de Sub-23 que participou nos jogos da Lusofonia e o modelo de jogo continua a ser o mesmo. A maior parte dos atletas, que vão estar na Taça Cosafa, conhece-o. Com as sessões de treino encontrar-se-á o entrosamento necessário para a equipa e torná-la coesa e forte para a competição.

Quais os adversários que mais lhe preocupam?
Todas as equipas me preocupam, porque Angola não participou na fase preliminar, em função de integrar o grupo das quatro melhores equipas classificadas no ranking da FIFA. É um privilégio estar nos quartos-de-final da Taça Cosafa. É uma fase de eliminatórias e todo o mundo quer ganhar para atingir a meta final. Estamos atentos a tudo isso.

Conhecem os vossos possíveis adversários para a primeira fase?
Não conhecemos todos. Temos um vídeo trazido pelo professor Zeca Amaral, que retrata um dos jogos recentes da selecção sul-africana e pensamos tirar dele o maior proveito. Quanto às outras selecções, nada conhecemos, mas estamos cientes de que vão aparecer na máxima força. Estamos preocupados em fazer uma boa preparação e na medida em que os jogos vão desenrolando, procuraremos ter os vídeos das outras equipas de forma a conceber uma noção dos seus jogos.

O estágio previsto para a África do Sul se mantém de pé?
Sim. Será na África do Sul, porque queremos adaptar-nos ao clima da região e também temos a intenção de fazer o nosso trabalho em privacidade para que os outros grupos não tenham acesso aos nossos estilos de jogos. Acreditamos que, naquela zona, podemos encontrar equipas fortes para dois ou três jogos que nos serão muito úteis; para observar e elevar o nível competitivo do grupo.

Notámos que trabalha com rigor o sector atacante. Existe alguma razão específica?
Há pormenores que, por vezes, nos falham, por isso, estamos a fazer um trabalho harmonioso entre os sectores, designadamente, a defesa, o meio-campo e o ataque. Apesar de as falhas do ataque constituírem, nos dias de hoje, um dilema na boca dos angolanos, a minha explicação é a seguinte: caso uma equipa funcione harmoniosamente no seu todo, o ataque também funciona. Alguns problemas do ataque surgem, às vezes, porque o meio campo não cria. No entanto, estamos a trabalhar o entrosamento entre os sectores, com maior incidência no ataque. Em suma, todos os sectores nos preocupam.

"Existe um défice
nas infra-estruturas"

O futuro do futebol jovem está tremido por falta de espaços condignos de treino desportivo. O seleccionador está esperançado que nos próximos tempos haverá uma lufada de ar fresco para a sua revitalização com a qualidade que se exige.

Quais os reforços com que a Selecção Olímpica conta para esta competição?
Contaremos com o José Vunguidica que joga na equipa do Colónia da Alemanha e o Jussane que joga no Guimarães de Portugal. São os dois possíveis reforços do grupo. Estamos a fazer tudo para contar com os seus préstimos, porque são mais-valia para o nosso sector da frente. O Jussane é ponta-de-lança e o José é meio-campo.

Qual é o horizonte temporal de os ter no grupo?
De momento, estão a jogar nos seus clubes e, provavelmente, aguardamo-los no estágio da África do Sul a partir do dia 15 próximo.

FUTEBOL JOVEM

Que caracterização se lhe oferece fazer sobre as competições internas?
Começaria pelo escalão de formação. Existe um défice muito grande nas infra-estruturas, elemento que tira a qualidade do futebol jovem. Os poucos campos não estão em boas condições; os atletas são obrigados a jogar em campos pelados ou em relvas completamente deterioradas, o que causa embaraço na transição do atleta dos escalões de formação para os seniores, com a probabilidade de aparecerem com muitas debilidades. Quanto à Segundona, as equipas mais organizadas estão a sair-se melhor, ou seja, as equipas com alguma experiência do Girabola, no qual foram afastados, concretamente, o Sagrada Esperança da Lunda-Norte e o Futebol Clube de Cabinda estão a trabalhar bem; têm melhor condições que as outras. Acredito que caso as outras tivessem apoio semelhante, teríamos uma Segundona mais equilibrada.

Quanto ao Girabola, o que se lhe oferece dizer?
Está definido o campeão. Considero-o especial em função da Taça Africana das Nações Orange-Angola’2010. Infelizmente, houve muitas paragens devido à preparação da Selecção Nacional, mas temos de aceitar as razões. O país vai albergar um evento de grande nível, cujos investimentos são altos. Desportivamente, devemos apresentar-nos da melhor forma, de maneira que possamos fazer um grande campeonato Africano.

Na sua qualidade de agente desportivo e um dos principais actores do movimento futebolístico nacional, alguma vez fez sentir a sua voz relativamente à falta de infra-estrutura desportiva em Angola para a formação de atletas?
Todos os nossos colegas, nas suas entrevistas, falam constantemente sobre a qualidade que o futebol está a perder por falta de espaços adequados para treinos. Continuamos a trabalhar em campos pelados e, às vezes, jogamos na relva, uma questão que considero uma disparidade muito grande, com a agravante de encontrar relva em péssimas condições, a título de exemplo, a do campo de São Paulo e a do Catetão, palco dos escalões de formação do Petro de Luanda. Temos muitas equipas sem campos relvados, com excepção do Norberto de Castro, que também carece de alguma manutenção.

Mesmo com os vossos gritos não se notam sinais de mudança?
As pessoas de direito ouvem comentários da imprensa e creio que tinham intenções de fazer mudanças no ano corrente, mas a crise financeira mundial afectou-nos e os países pobres, que têm as suas competições em curso, estão a lutar, sobretudo, pela sobrevivência. Estou esperançado que no final da época, vão reprogramar o trabalho que ficou em carteira de maneira a colmatar as dificuldades atrás enumeradas.

ANGOLA NO CAN

Que apreciação tem sobre a Taça Africana das Nações Orange-Angola’2010?
Como angolano, penso que será uma mais-valia para o país na vertente desportiva (e não só), uma vez que a realização desse evento vai trazer muitos ganhos. Assim sendo, apelo a todos os angolanos no sentido de se unirem em prol do mesmo a fim de fazermos um “CAN exemplar”. Acredito no sucesso do nosso país.

Até ao momento, Manuel José técnico da selecção principal, ainda não tem uma equipa definida para o mundial do próximo ano. Que comentários faz sobre o assunto?
O técnico está a fazer uma sondagem global dos jogadores que militam no país e no estrangeiro; já tem a noção dos jogadores que vão fazer parte da Selecção Nacional e com um trabalho contínuo até à altura da competição teremos uma equipa forte e coesa. As competições internas estão prestes a terminar e as disponibilidades dos jogadores serão ainda maiores. Desse modo, vai permitir que o técnico faça o seu trabalho mais à vontade. Acredito na capacidade do professor Manuel José, tenho acompanhado o seu trabalho e noto uma boa mudança de atitude dos nossos jogadores. Quando fizer a clivagem dos jogadores, estaremos no caminho certo para uma boa participação de Angola, o que todos almejamos.