Jornal dos Desportos

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Entrevistas

"Cheguei a desmaiar na casa de banho"

Silva Cacuti - 28 de Junho, 2014

 Porque não jogou a final do campeonato africano na África do Sul?
 Penso que talvez esteja relacionado com o clima. No primeiro dia que chegamos, combati e venci um marroquino. No segundo dia, de repente, começou a fazer uma ventania, com muito frio, que até me provocou tosse. Comecei a sentir-me mal, mas ainda assim, consegui vencer o pugilista senegalês e apurar-me para a final, que era diante de um sul-africano com quem perdi no torneio zonal. No dia seguinte, senti-me muito mal e tive de ir para o hospital.

Quando começou a sentir-se mal, no segundo dia, não foi assistido por nunhum médico?
Não. Fui acompanhado pelo treinador a um médico da delegação do Lesotho, que me examinou, mediu a temperatura, os batimentos cardíacos e disse que não tinha nada. Mas eu sentia-me mal, inclusive, cheguei a desmaiar na casa de banho e embati com a cabeça. Quando despertei, já tinha a cabeça dorida pela pancada que tive na casa de banho. Fui ao hospital, onde me deram uma receita e fomos procurar a medicação. Era o dia da pesagem. Esperei pela hora do combate da final, se me sentisse melhor, mas não deu para combater.

 Tiveram de ir a um médico do Lesotho, não havia médico angolano?
 Na nossa delegação não havia médico.

"PRECISO DE UMA
PALAVRA QUE ME
MOTIVE"

 Acabou por ficar com a medalha de prata, quando teve a possibilidade de jogar pelo ouro. Essa medalha aumenta-lhe as responsabilidades. Como está a sentir-se depois de ser vice-campeão africano?
O peso é muito grande, mas estou a encarar com muita tristeza. Acho que podia ser mais divulgada, mais reconhecida a conquista da medalha. Antes de chegar à África do Sul, via a conquista de uma medalha continental como uma realização muito grande, mas depois de a ter, estou a ficar desiludido com a forma como o país está a viver o feito, embora só tenhamos chegados a menos de uma semana. Isso, desanima-me para os próximos compromissos com a selecção nacional.

Quer abandonar a carreira desportiva?
Aqui no clube as coisas vão bem, mas na selecção nacional se calhar deixamos o nosso lugar. Não sei. Ainda não tenho ideias formadas acerca do que me está a acontecer. Para ir à selecção nacional é uma luta muito grande e sinto-me muito orgulhoso, mas começo a ver-me no escuro, preciso de algo que me motive, algum reconhecimento, palavras de algum dirigente angolano. Enfim, espero que assim seja, porque fazemos isso por Angola.


EFEITO
Medalha influencia atletas


Essa medalha de prata pode influenciar a prática do boxe no país?
Acredito que sim. O meu pensamento é de que se fui e cheguei até à final, então os meus colegas do Interclube e de outros clubes também vão ter forças para trabalhar para ver se chegam até onde cheguei.

O boxe angolano tem condições para continuar no caminho das medalhas?
 O boxe tem material humano. Há muitos jovens a apresentarem-se para treinar; só falta o apoio. Passamos por muitas dificuldades. Nós que estamos no Interclube, no Electro, temos algum estímulo, mas noutros clubes, como os dos bairros Palanca ou Hoji ya Henda, a grande verdade é que os atletas fazem o boxe por amor à camisola. Os atletas tiram dinheiro dos seus bolsos para comprar  material e ir a campeonatos. Sem o apoio do Ministério da Juventude e Desportos e da Federação Angolana de Boxe não era possível conquistar medalhas nos eventos internacionais. No passado éramos derrotados com facilidade por falta de apoios. Hoje, já podemos sonhar com medalhas graças ao esforço das duas entidades. A verdade é que as coisas mudaram e tudo passa pelos apoios.