Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

"Ciclismo angolano na linha dos melhores dos Pases africanos"

lvaro Alexandre - 22 de Setembro, 2018

Director de ciclismo do Petro de Luanda est regozijado com as performances dos atletas

Fotografia: Edies Novembro

Mais uma época terminou. Que balanço se lhe oferece fazer?
Em Angola, obtivemos cem por cento  positivo. Atingimos todos os objectivos preconizados. No exterior,  a nossa prestação foi de oitenta por cento. Não conseguimos participar do Tour da Costa de Marfim e do Burkina Faso.

Porquê falharam em África?

Não participámos da corrida da Costa de Marfim pela chegada tardia da informação. A organização do Tour deixou-nos sem espaço de manobra. Neste ano, tiveram muitas dificuldades para realizar a prova. À última hora, decidiram organizá-la. No Burkina Faso, o número de equipas seleccionadas foi incompatível com  o orçamento aprovado pelo Estado local. A princípio, tinham 22 equipas seleccionadas, mas o orçamento só permitia suportar 14. Fomos uma das oito equipas sacrificadas.

No cômputo geral, que avaliação faz da vossa presença nas provas internacionais?

Estou satisfeitos com os resultados. Tínhamos definido metas de objectivos e ultrapassámo-las, o que traduz o sinónimo de evolução dos próprios atletas. A nossa participação foi boa. Os resultados foram satisfatórios. Conseguimos alcançar os cem por cento dos objectivos nessas corridas. No Tour de Marrocos, fomos a melhor equipa africana. Tivemos o terceiro melhor lugar do Tour através do ciclista Bruno Araújo. O Dário António foi o Atleta Revelação e também a nossa equipa. Devido à nossa excelente prestação na competição internacional, fomos convidados para participar do Tour de Ruanda, considerado o Tour de França em África. Das sete camisolas disputadas do Tour, vestimos duas, nomeadamente, a do ciclista mais combativo do Tour e de sprints especiais: metas volantes, ambas com Bruno Araújo.

Como foi a vossa participação no Congo Democrático?

Tivemos uma participação com êxito no Tour RDC. O feito foi alcançado pela nossa equipa de Sub-23.  Das sete etapas do Tour, vencemos uma através de Gabriel Cole. Tivemos dois segundo lugares com Hélvio Mota, ciclista júnior de 17 anos no ano de estreia. O mesmo ciclista ocupou o quinto lugar da classificação geral do Tour. A prova do Congo abriu novos horizontes. A  proeza permitiu ao Petro de Luanda assinar um protocolo com a Escola de Ciclismo Almodôvar, em júnior, para participarmos, em conjunto, na Volta a Portugal 2018 com a denominação Escola de Ciclismo Almodôvar/Petro de Luanda. O nosso ciclista foi o melhor da equipa.

Qual foi a vossa última participação internacional?

Participámos do Grande Prémio Internacional de Ciclismo de Torres Vedras “Troféu Joaquim Agostinho”, em Portugal. O nosso objectivo naquela corrida era terminar com oitenta por cento da equipa, uma das exigências impostas pela organizadora. Felizmente, terminámos com cem por cento do grupo e recebemos o prémio de Equipa Revelação. Na sequência de premiação, conseguimos a inscrição para participarmos da prova rainha do ciclismo português em 2019, a Volta a Portugal.

PROGRAMA
“O nosso objectivo é passar ao escalão profissional”


Que equipas contrabalançaram com a vossa na época 2018?
Em Angola, temos um grupo de cinco equipas que estão com boa progressão, principalmente,  nas camadas jovens. O destaque vai para a província de Benguela. No estrangeiro, os países mais fortes do ciclismo em África são a África do Sul, Ruanda, Etiópia, Eritreia e Marrocos. Em alguns tours, conseguimos vencer parte desses países. Por exemplo, no Tour da Costa de Marfim, ficámos em segundo lugar por equipa à frente de Marrocos e do Ruanda. No Tour de Marrocos, ficámos à frente das equipas marroquinas. Podemos considerar que já estamos mais ou menos nessa linha de melhores países africanos.

Enquanto coordenador de ciclismo do BAI/Petro, quais são as prioridades para o futuro?

O nosso grande objectivo é passar a nossa equipa ao escalão profissional da União Ciclística Internacional, a UCI-Continental; está muito próximo de ser alcançado. Só assim, vamos ter acesso directo às grandes competições do ciclismo do mundo. Pretendemos fazer do Petro de Luanda um viveiro para a recolha de garotos de rua e colocá-los no ciclismo. Assim, vamos apostar no futuro da modalidade. Para a sua efectivação, precisamos de investimento de meios, mormente, bicicletas e equipamentos para o feito.

O BAI/Petro já é uma equipa profissional?
Actualmente, somos uma formação não amadora: equipa-clube. Estamos a trabalhar com a Federação Angolana de Ciclismo e já cumprimos com todos os requisitos exigidos pela UCI, incluindo o pagamento da licença, para passarmos ao profissionalismo em 2019.

O Ciclismo profissional exige competências desportivas como resistência e velocidade, que os atletas nacionais não têm nos eventos internacionais. O que está a ser feito para que os seus atletas atinjam elevados níveis competitivos?
Trabalhamos em Angola as intensidades e programamos  a participação dos nossos atletas nas competições de alto rendimento em África e na Europa. Constatámos que os atletas têm tido evolução. Prova disto é o grande equilíbrio que hoje o nosso ciclismo tem em relação os países mais competitivo em África. Vivemos uma situação em que \'ora ganhamos e ora ganham eles\'. Já não há aquele domínio das grandes potências do ciclismo em África que   havia antes da corrida

Os custos de participações em eventos internacionais são altos. Quais são os principais patrocinadores da equipa?
Os principais patrocinadores da equipa são o Banco BAI e a Sicasal. Agora, no grupo vai contar com o patrocínio da Mediapalanca. Mas este parceiro entra em cena em 2019. Os apoios desses patrocinadores servem para manter o grupo e alcançar os objectivos nas provas nacionais e internacionais sem esquecer os investimentos de material para o ciclismo.

Qual é o orçamento anual da equipa?

Questões relacionadas com as finanças, investimentos e contratações estão fora da minha alçada. São assuntos de direitos reservados à direcção do Petro de Luanda. Estou limitado a dar resposta cabal ao programa de treinamento e de competição.

RECONHECIMENTO
“Meu suporte é a Tia Filó”


Por trás de um grande homem, existe uma grande mulher. Esta máxima é verdadeira?
Sim. Os meus grandes feitos alcançados ao longo dos últimos 20 anos, para além do apoio dado por todos que estão ligados a mim e aos projectos no ciclismo, devem-se a uma grande pessoa que está detrás: estou a falar da senhora Filomena Esteves Correia \'Tia Filo\' ou \'Mãe Grande\', vencedora do Prémio do Melhor Dirigente do ciclismo de 2017, em Luanda. Ela é o meu suporte. Repito: sem ela não teríamos alcançado os êxitos somados e os que virão.

Mais de vinte anos está ligado ao ciclismo. Quais são as maiores influências ao longo da sua carreira quer como ciclista quer como dirigente?

Entrei para o ciclismo por influência do meu primo José Rodrigues. Foi o primeiro campeão nacional de Angola em 1982. Também fui influenciado e apoiado pelo meu irmão Justiniano Araújo e os meus falecidos pais. Tive um grande apoio e incentivo de toda a minha família. Em 1982, fui vice-campeão nacional de contra-relógio individual com apenas 15 anos. Passei para o dirigismo desportivo através do empurrão do professor José Teigas. Foi um grande pedagogo. Em resumo, o professor dos professores foi o meu pai: Leonel António de Araújo “Nelito”.