Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

Com esprito de misso

Gaudncio Hamelay, no Lubango - 05 de Abril, 2018

Jerson Emiliano vai participar este ms numa aco de refrescamento em Itlia

Fotografia: Edies Novembro

O  árbitro assistente internacional Jerson Emiliano dos Santos, 34 anos, um dos 63 escolhidos pela FIFA para estar presente no Mundial da Rússia, de 14 de Junho a 15 de Julho próximo, confessou, em entrevista ao Jornal dos Desportos, que o patamar atingido na sua carreira, deve orgulhar, não só a província, mas o país no geral. Para ele, fazer parte dos árbitros principais (36) e dos assistentes que vão desfilar na maior competição futebolística do Mundo, provenientes de 46 países, é um feito que o deixa orgulhoso.
Por isso, vai procurar dignificar o nome de Angola na maior festa do desporto-rei do mundo.  Licenciado em Matemática, pelo Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED), Huíla, o internacional angolano assegura que o país tem bons homens do apito e que os jovens que estão a surgir agora vão saber dignificar igualmente o trabalho iniciado há anos por outros compatriotas.

O Jerson Emiliano tem mais um desafio pela frente com a sua indicação pela FIFA para fazer parte dos árbitros que vão estar no Mundial da Rússia. Como reagiu ao receber a notícia da sua escolha para estar entre os árbitros que vão marcar presença na competição?

É mais um desafio, é mais uma missão, é mais uma responsabilidade que terei e que o povo angolano espera que eu continue a realizar com dedicação. E é isso que vou procurar fazer nessa actividade que terei de 14 de Junho a 15 de Julho deste ano. Recebi a comunicação via FAF, que recebeu um e-mail da FIFA, na passada quinta-feira à tarde. Senti-me muito feliz e emocionado. Comuniquei à minha esposa e fomos festejar, porque realmente é muito difícil para ela. Sentimos, os dois, como um sonho realizado.

Um sonho que muito almejava tendo em conta a brilhante carreira que vem desenvolvendo a nível da arbitragem nacional, africana e mundial?
Já esperava realmente por essa indicação, porque quem é arbitro internacional espera atingir este nível. Acredito que é um sonho realizado.

Que trabalho vai realizar daqui em diante?

Vou continuar a me preparar e seguir as instruções dos instrutores técnicos e físicos. Já recebemos o programa a nível da FIFA do treinamento físico. Temos um programa técnico para seguir. Agora vou ter que intensificar mais de modo a estar preparado e esperar que nada aconteça até ao dia do arranque da prova.

Que trabalho específico tem estado a realizar?

Localmente, estou a ser acompanhado pela Associação Provincial de Futebol, na pessoa do presidente da referida instituição, João Gonçalves, antigo árbitro internacional em conjunto com Manuel Maria, presidente do Conselho da Arbitragem. Estas duas pessoas têm acompanhado o meu trabalho. Neste momento, não temos um preparador físico a nível da associação provincial, porque o que tínhamos mudou-se para Luanda. Mas tenho o preparador nacional, o Soyamba e o Ndongala. Já tenho falado com eles para verem o programa de treino. O programa de treinos que a FIFA enviou para mim tem que ser acompanhado por um preparador físico nacional de modo a facilitar os treinos. Segunda-feira à tarde dei início ao programa específico.

E como tem decorrido esse trabalho específico?

Está a correr bem, graças a Deus. E aproveito já para agradecer as entidades que estão ligadas ao estádio da Nossa Senhora do Monte e do Ferroviário da Huíla, por permitirem o meu acesso aos dois recintos, o que tem facilitado os meus treinos. Os dois campos nos facilita agendar os trabalhos de preparação no período da manhã e tarde.

 O que vem expresso especificamente no seu programa de preparação oriundo da FIFA?

 É um plano um pouco difícil. Só para se ter uma noção, na segunda-feira tenho que realizar um treino básico e simples que tem que ser feito no ginásio. Tenho que fazer trabalho de força, baseado no levantamento de peso simples para manter as articulações. Terça-feira é o dia específico de intensidade.
Do esforço máximo terei que ter aproximadamente uma hora e 20 minutos de treino com vários exercícios diferenciados. Na quarta-feira, é um treino mais leve que se baseia na velocidade e endurance. Terei que superar as marcas ou números em termos de distância que constam no nosso programa de treino.
Na quinta-feira terei uma espécie de treino que a gente realiza para aperfeiçoar o nosso movimento lateral durante o jogo. Caso tiver jogos durante o fim-de-semana, como é o que vai acontecer na Costa do Marfim, por exemplo, na sexta-feira (amanhã) tenho preparação do jogo no palco da competição e no sábado ou domingo realizo o jogo.


MUNDIAL DE SENIORES
Angolano almeja apitar uma final


Que metas o Jerson Emiliano traçou para a sua primeira presença num Mundial de seniores? 
Realizar bons jogos. Essa é a minha meta. Aliás, sempre comecei assim. Aproveitar a oportunidade que me será concedida no primeiro jogo. Ter um bom desempenho para ajudar a minha equipa, ou seja,  o árbitro que apita comigo e os meus colegas para  realizarmos um bom jogo. Depois continuar com o mesmo nível de jogos. Não sei quantos jogos vou apitar nesta prova porque tudo vai depender do primeiro, segundo, terceiro ou do quarto. Também é minha ambição apitar uma final de uma Copa do Mundo ou o terceiro lugar. Este é um sonho e uma marca por ser um momento histórico. Penso nisso e espero que este sonho aconteça. Não posso dizer que vou para o Mundial e vou apitar uma partida da final. Não é assim que as coisas funcionam. Tem árbitros também melhores do que eu. Devo reconhecer isso e aceitar. Tem assistentes melhores do que eu. Mas há muitos critérios que determinam a indicação de um árbitro para apitar um jogo da final. Os primeiros jogos que fizermos vai ser determinantes. E caso aconteça, será um sonho realizado.

Quem é o árbitro que não quer apitar uma final do campeonato do Mundo?

Quem é o árbitro que não quer apitar uma meia-final ou um terceiro lugar? Todo mundo espera isso, ir para competição apitar um bom número de jogos e terminar com uma final.

O facto de ter estado na final do Mundial de clubes não é uma vantagem para si?

Eu nunca esperei apitar uma final do Mundial de clubes. E quando cheguei na competição só tinha perspectivas de apitar um bom jogo, pois era o primeiro da minha carreira no campeonato. E assim aconteceu. Isso determinou com que fossemos indicados para apitar o jogo da final. Então, acredito que é possível.
O importante é estar na competição. O importante é ser indicado e depois durante a competição o meu desempenho pode determinar que assim ou não. E, se não apitar, continuarei a trabalhar e a me preparar para os próximos eventos. Penso que ainda tenho um futuro adiante a nível da arbitragem.
Já pensei até no meu limite na arbitragem, mas antes vou procurar toda concentração para o que está a acontecer agora. Se não, aguardo para o próximo tempo. Se sim, será mais um feito, uma história e uma marca que é o principal da minha carreira. Deixar sempre uma marca que vai nos orgulhar todos para uma vida, para uma geração e para sempre.


Pela FIFA
Jerson orgulhoso pela escolha 
 

Que significado tem para a sua carreira o facto de ser o segundo angolano a representar o país num Mundial de futebol em seniores?

Um sentimento de orgulho. A oportunidade foi concedida, por isso devemos nos sentir orgulhosos disso. Os angolanos têm de se orgulhar mais uma vez por este feito, não só por essa minha indicação mas de todos aqueles desportistas que levantam o nome do país a nível do desporto.
Temos muitos atletas e quero desde já felicitar todos aqueles que têm feito esforços para obterem bons resultados nas competições. Muitos nomes agora me fogem, pois claro são muitos. Há um rapaz que evolui na África do Sul nas artes de lutas chamado Demarte Pena. O Bastos que está a fazer bom campeonato na Itália, Gerson Dala, meu chará que desponta em Portugal, entre outros. Quero deixar aqui os meus parabéns por tudo que têm feito pelo desporto. É importante que nós, os jovens, saibamos aproveitar as oportunidades quando nos são concedidas, não só para o bem do país, mas para o bem de todos aqueles que possam vir depois de nós.

Esteve no CHAN recentemente onde fez boa prestação. Isso contribuiu para  sua indicação?
Acredito que sim. Recentemente estive no CHAN, onde tive uma excelente participação, o que mereceu a minha indicação para apitar a final. Mas desde já, quero aqui dizer que nem sempre o árbitro que apita um jogo da final é o melhor. Não. É um dos melhores porque tem outros critérios que levam a indicar o árbitro. Como as Nações estão a jogar, não pode ser o árbitro do mesmo país a apitar. Temos outros critérios, como por exemplo se a sua Selecção já esteve nas meias-finais, também é levado em consideração. Mas se for um dos melhores a estar aí e teve estas vantagens todas, pode ter a certeza de que vais ser indicado para apitar a final de qualquer torneio.
E isso, também culminou, penso eu, com a minha indicação  para a Supertaça, que marcou a  abertura da época desportiva a nível da Confederação Africana de Futebol, CAF, entre  o melhor da Liga dos Campeões e o da Taça da Confederação do ano anterior.
Acredito que isso também ajudou-me porque se não tivesse bom desempenho no CHAN, nos jogos que tenho realizado este ano e nos anteriores, creio que a FIFA não teria confiança de olhar para mim. Digo isso porque até à última formação, ainda eliminaram árbitros, assistentes. Então a qualidade é importante. Acredito que cada jogo que vou realizando de agora em diante ou que realizei no passado, ajudou perfeitamente para ser indicado pela FIFA para fazer parte da lista dos escolhidos para a fase final.


PALMARES   
Brilhante trajectória


A trajectória de Jerson Emiliano dos Santos na arbitragem nacional começou em 2004, na segunda divisão provincial. Um ano depois, isto em 2005, ascendeu à primeira categoria provincial e teve a oportunidade de apitar o seu primeiro Campeonato Nacional, que decorreu na Huíla, tendo sido consagrado como melhor assistente do torneio.
\"Acho que a partir daí, começou a linhagem para atingir os meus grandes níveis.
Em 2007, tive outra oportunidade para subir à primeira divisão nacional, como assistente do árbitro internacional Romualdo Baltazar, com quem trabalho até os dias de hoje\", disse.
O apogeu na carreira de Jerson Emiliano aconteceu em 2009, quando chegou a árbitro assistente internacional, embora, muito antes, já havia apitado muitos jogos de \"primeira água\", inclusive o seu primeiro dérbi que envolveu as formações do Petro de Luanda e do 1º de Agosto, em 2008, com o árbitro Fernando Mação, da província do Huambo, e que correu bem.
\"Em 2009, depois de atingir a carreira internacional, fui logo no ano seguinte, isto é, em 2010, solicitado pela COSAFA para participar no torneio onde participam anualmente as equipas da África Austral. Nesse torneio, tive a oportunidade de apitar a final.
E assim, comecei a ver que havia mesmo a possibilidade de atingir os grandes níveis à nível da Confederação Africana de Futebol (CAF) e da Federação Internacional de Futebol (FIFA). Em 2011, participei na minha primeira formação CAF - Young Talent (jovens talentosos), em Junho, e em Setembro tive a oportunidade de participar nos Jogos Olímpicos da Juventude em África, realizado em Moçambique, onde consegui apitar o 3º lugar\", disse.
Outro reconhecimento aconteceu em 2012. Jerson Emiliano foi seleccionado pela CAF para participar no primeiro curso de árbitro de elite. \"Na altura era jovem eu e um outro colega de Moçambique, Arsénio Mwahangula. Inclusive certos colegas, diziam ao presidente dos árbitros da CAF, que era o senhor Kareky, por que é que estava a buscar essas crianças no mundo do futebol.
Diziam que nós crianças na altura não iríamos conseguir ajuizar. Mesmo assim, o senhor Kareky acreditou em nós e convidou-nos para estar presente no Campeonato Africano das Nações da África do Sul, realizado em 2013.
Foi o meu primeiro CAN e quando cheguei, os colegas sempre diziam que era uma experiência nova de ir apitar um jogo e regressar ao país. Mas não foi isso que aconteceu.
Apitamos três jogos, inclusive participei em três jogos e fiquei até à final da competição. Então, fui aproveitando essas oportunidades.
A primeira presença de Jerson Emiliano num CHAN foi em  2014 e apitou o 3º lugar. Esteve igualmente nos Jogos Olímpicos da Juventude na China, isso permitiu com que fosse convidado para estar em 2015 no Campeonato do Mundo de Sub-17 no Chile.
Em 2016 esteve no Mundial de Clube no Japão, onde também apitou a final, e em 2017 esteve no Mundial de Sub-20, e no CAN, em Janeiro, onde teve igualmente a oportunidade de apitar a final. No principio deste ano, esteve no CHAN de Marrocos, onde apitou também o jogo da final.


ARBITRAGEM AFRICANA
“Conseguimos recuperar as nossas vagas”


Como avalia a qualidade da arbitragem angolana em particular e da África no geral?
 Há um tempo que a arbitragem africana já não é muito acompanhada e nem era bem vista. Certo que tivemos bons árbitros, pois nos campeonatos do Mundo tem sempre árbitros africanos a apitar, existe um marroquino que apitou a final de um dos mundiais da FIFA. Se a memória não me atraiçoa, creio que foi no Mundial de 2006. Se mereceu a confiança da FIFA é porque o árbitro marroquino é bom e teve a competência para estar ali. No Mundial passado, tivemos o árbitro da Argélia que apitou o jogo do terceiro classificado, entre a Holanda e o Brasil, e também teve um bom desempenho nesse jogo e durante a competição. Então, isto mostra que os árbitros africanos hoje estão a evoluir mais. Estão a realizar melhores jogos e já estão a apitar melhor. E isso é muito bom para que nós, os mais novos a nível de África, tivéssemos também essa oportunidade de sermos indicados para estar na Copa do Mundo. Uma questão que devo realçar, por exemplo, é que no Mundial de 2014, no Brasil, só tivemos a presença de três árbitros africanos principais. Isso deu um total de seis assistentes. Os outros elementos, foram como reservas e praticamente não foram utilizados. E a evolução desses árbitros durante a competição, tanto o árbitro da Argélia, como o  da Costa do Marfim e o da Gâmbia (Papa Gassama), este que vai pela sua segunda vez, tiveram um bom desempenho. E isso, deu-nos mais bónus, porque este ano teremos a presença de cinco árbitros , o que é positivo, pois conseguimos recuperar as vagas que é de direito da CAF.

E o facto do Jerson Emiliano estar igualmente entre os eleitos para o Rússia 2018, o que isso significa?

O facto de eu estar igualmente presente no Mundial da Rússia, mostra que em Angola, também temos bons árbitros. A arbitragem angolana está a evoluir mas é preciso paciência e que se dê o tempo necessário para podermos nos aperfeiçoar. Sei que as condições de treinamento não são muito favoráveis relativamente a outros países. Mas também em Angola já tivemos historial de muitos árbitros que representaram o país em outras competições. O caso do Inácio Cândido, que o considero a minha mascote, porque me inspiro muito nele desde que comecei a minha carreira. Por isso, quero agradecer profundamente tudo o que ele fez em termos de orientação para mim no iniciou da carreira.

Mas o \"boom\" da nossa arbitragem não é só Inácio Cândido...
Sim. realço também o Hélder Martins, que tenho acompanhado muito o seu trabalho, assim como muitos outros.
Lembro-me mais os da minha época, porque estive com eles, especialmente o Romualdo Baltazar, que trabalhou comigo a maior parte do tempo.
Desde que comecei a carreira na arbitragem, os jogos quase apitei com Romualdo Baltazar. Começámos juntos na fase nacional e entrámos na etapa internacional. Foi determinante para este meu progresso.
O caso do Chagas Rangel e do José de Sousa, o próprio João Gonçalves, Manuel Maria, Muluta Prata, aqui na província da Huíla.
A nível do país, tivemos outros árbitros nomeadamente Eugénio Colembi, Fernando Mação, Katchiguengui, Leopoldo Mavunza, entre outros. Então, parece que não, mas deixaram a sua marca a nível da África e de Angola.