Jornal dos Desportos

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Entrevistas

"Com Yamba Asha e um ponta vamos fazer muitos golos"

Augusto Panzo - 05 de Fevereiro, 2015

Tcnico do Domant faz estreia diante do Progresso da Lunda Sul onde pode contar j com a actuao do experiente Yamba Asha

Fotografia: Jornal dos Desportos

O Domant FC do Bengo estreia-se no Girabola, vai ter como adversário o Progresso da Lunda Sul, outra formação que regressa à grande festa futebolística, depois de 24 anos de ausência. Na perspectiva de uma boa participação, o conjunto do Bengo efectuou um estágio pré-competitivo de 19 dias na província de Benguela, no período compreendido entre 12 a 31 de Janeiro, sob as ordens do técnico principal que, entrevistado pelo Jornal dos Desportos,  faz hoje um balanço da preparação da pré-época e particularmente dos novos reforços e dispensas.

Com a contratação de jogadores como Yamba Asha, Santana Carlos e David o que o Domant promete para o Girabola de 2015?
Um Domant preparado para estar no Girabola de 2015, muito competitivo, que quando estiver em campo sabe o que fazer  para poder competir com todas as equipas que fizerem parte do Girabola. Quanto aos nomes que acabou de citar, são jogadores experientes, apesar de muitos falarem  da idade, no caso do Yamba Asha. Para mim é ainda dos melhores laterais que temos, porque é um jogador muito objectivo quando tem a bola nos pés. A sua intenção é pura e simplesmente procurar meter  a bola lá na zona de rigor, na grande área. E se tivermos um ponta-de-lança forte no jogo aéreo, teremos muitos golos saídos dos pés desse jogador.

Quanto ao David e ao Santana?
Pedi muito que tivéssemos um ponta de lança forte no jogo aéreo, que é o David e desde que chegou, já está com uma média de seis golos nos jogos treinos, quatro deles resultantes de cruzamentos de Yamba ASha. É uma dupla que se compreende muito bem. Vamos ter de processar muito este tipo de jogadas apesar de que nem sempre vamos jogar em função de cruzamentos de Yamba para David. Estamos a trabalhar com dois planos, com esquemas tácticos montados em função de cada um desses jogadores. Por isso, esses jogadores que mencionou são atletas que nos vão dar uma certa primazia porque são experientes e podem transmitir essa experiência em campo aos mais novos.  O Domant tem um plantel muito jovem, que se não estou enganado, o mais jovem mesmo desse Girabola, que precisa de uma certa experiência para se ter um grupo compacto, onde poderemos juntar o útil ao agradável.

Que considerações pode tecer à respeito dos jogadores que dispensou ?
Desejar-lhes boa sorte, para que encontrem um lugar bom, no sentido de poderem dar  continuidade às suas carreiras. Foram bons jogadores enquanto estiveram comigo no clube, mas pronto, temos de ter sempre em mente que na vida não somos insubstituíveis. Por isso é que houve um certo cuidado em abordar este tema.

OPORTUNIDADE
“Domant abriu-me as portas da carreira”

O que é que lhe  solicitou  a direcção do clube como meta a atingir no Girabola?
A pergunta vem mesmo a calhar. Nunca saí espiritualmente do Domant porque foi neste clube  que comecei e foi também praticamente este clube que abriu-me  as portas e me projectou. Houve uma paragem de um ano no Zonal de Apuramento e tive a sorte de ser contactado pelo Atlético do Namibe.

Foi uma possibilidade que não quis desperdiçar, certamente?
Não podia negar a oportunidade porque todo o treinador que está a começar a sua carreira almeja sempre chegar ao escalão principal. Fui para o Atlético do Namibe, mas muito ciente de que estava a sair do Domant por uma questão de tempo e tanto é que levei a maioria dos jogadores do Domant, mas com uma perspectiva que muitos não compreenderam.

Qual foi ou é essa perspectiva?
Era a de dar um certo traquejo competitivo aos mesmos, porque tinha a certeza de que, depois voltaríamos para o clube já com muito mais experiência, tanto para eles  jogadores como para mim treinador.

Começou a sua carreira no Domant FC e passou pelo Atlético do Namibe, 1º de Maio de Benguela e regressou à casa que o projectou. Como é que caracteriza o dinamismo das direcções desses clubes?
Para ser sincero tive muita sorte na minha carreira que começou no Domant, onde encontrei um presidente jovem, que gosta do desporto e uma pessoa muito realista e lutadora. No Atlético do Namibe voltou a acontecer o mesmo, porque encontrei o senhor João Pedro Paxe, outra pessoa muito organizada, realista e dinâmica à semelhança do presidente do Domant, protege as cores do clube como ninguém. Portanto, no Atlético acabei por amadurecer muito mais ainda.

Como considera a sua passagem pelo Atlético do Namibe?
A minha passagem pelo Namibe foi positiva.


Mesmo descendo de divisão?
Sim, porque mesmo com as mil e uma dificuldades que o clube estava a atravessar, aguentei o Girabola até ao seu fim. Defrontei as equipas de maior quilate do campeonato com toda a normalidade. Equipas treinadas por técnicos muito cotados no mercado de futebol, como o professor Pedroto, António Caldas, Vaz Pinto, Henrique Calisto, Romeu Filemon e José Diniz, cujas equipas sentiram dificuldades em jogar com o Atlético do Namibe. Isso é que leva a afirmar que tive uma passagem positiva naquele clube.
AP

“Estamos preparados
para o campeonato”

É comum dizer-se que quando se começa a época, todas as equipas nunca estão a 100 por cento, começam a ganhar traquejo semana após semana ou jogo após jogo. A pré-época serve apenas para dar condição física, o aumento dos níveis do ritmo de jogo, mas à medida que o tempo passa, semana após outra. O Domant trabalha e neste momento está preparado para começar com força no Girabola.

O professor disse que precisava de oito jogos amistosos durante o estágio, mas acabou por realizar apenas quatro. O Domant FC vai para o Bengo onde não existe competitividade. Isso não complica o programa?
Em certa medida complica porque de facto oito jogos era o ideal, mas temos um programa de trabalho mesmo visando a colmatação do nosso regresso ao Bengo onde não há competitividade. Disputamos em Benguela jogos amistosos com equipas de alto nível e vamos chegar ao Bengo onde não há competitividade. Isso complica de facto.

Como pensa contornar isso?
O nosso programa já prevê a maneira de colmatar de antemão essas carências competitivas que vamos encontrar no Bengo. Isso tem muito a ver com o nosso programa específico de treinos.

Em que consiste esse programa específico?
Vamos procurar criar dentro do grupo uma série de jogos regrados entre nós, aumentando o volume de trabalho, continuar com o processo bi-diário, em que os jogadores vão para o local de trabalho de manhã e só regressam a casa no fim do dia.

Isso não requer condição logística bem regularizada?
Acredito que a direcção do clube vai fazer isso, confio nas pessoas que se encontram à frente. A capacidade para tal não vai faltar apesar das dificuldades financeiras globais do próprio país, conforme o Executivo tem vindo a anunciar.

Porquê manter os jogadores nesse regime?
Luanda é uma cidade muito agitada. Se nós libertarmos os jogadores não haverá tempo suficiente de chegarem às suas casas no período que se segue para o treino matinal, para depois regressarem ao trabalho no período vespertino, pois a acontecer estaríamos a queimar aquilo que fizemos no micro ciclo.
AP

ESCLARECIMENTO
“Dispensa não significa
desvalorização do atleta”

Houve falta de qualidade do lado deles?

Não foi por falta de qualidade, pelo contrário, é  fruto de um certo estudo prolongado, até aprecio as qualidades de todos eles, só que em função das qualidades do que queríamos ter, procurei dar prioridade a alguns que chegaram para essas posições, para podermos ter um plantel renovado.
Se reparar bem, saíram o Joãozinho, o Gil Martins, o Edú e o Beu, todos eles bons jogadores, acima de tudo jovens com qualidades humanas muito apreciáveis, mas a dinâmica da vida é mesmo assim, as pessoas passam mas os clubes permanecem. É próprio da vida e gostei porque  eles compreenderam. Inclusive fiquei feliz por saber que eles foram enquadrados no nosso clube em função do que sempre foi uma preocupação do nosso presidente, o aproveitamento humano ou enquadramento social do homem, uma das grandes qualidades que sempre admiro no presidente do clube, que é a preocupação social para com o próximo.

Se um dia um dos jogadores que estiveram à experiência no Domant forem dispensados e defrontarem a sua equipa e marcar golos que assegurem a vitória para o adversário como se sentirá?
É um pouco complicado, mas isso acontece em qualquer parte do mundo, porque no futebol é assim. Quando não der aqui temos de tentar noutro lado. Agora, o facto dele ter estado num clube e não ficar, pode ir para o outro e conseguir vaga, não significa que a equipa técnica não valorizou as suas capacidades. O Diego Costa que hoje está no Chelsea passou no Braga de Portugal, mas foi dispensado, porque na altura acharam que não tinha qualidade. Hoje o Diego Costa é um dos pontas-de-lança mais caros que existe no mundo. Portanto, são situações que acontecem na vida. Em resposta à sua pergunta digo que haveria de digerir o facto com a devida normalidade. Dispensa não significa desvalorização do atleta”

Abre uma hipótese para este tipo de situação?
Isso é relativo. Primeiro temos de esperar que isso aconteça. E se isso acontecer não terei nenhum problema em vacilar. Vou dar-lhe  um exemplo do Tomboca, um jogador que foi dispensado pelo treinador Ekrem Asma, da Académica do Lobito. O jogador estava a treinar connosco, mas de repente o treinador recuou na sua decisão e o jovem teve de regressar à Académica do Lobito.
AP

TÍTULO E ADEPTOS
“Estou habituado
à grande pressão”


Ainda não respondeu à pergunta sobre o que lhe pediu a direcção do Domant FC do Bengo...
O projecto Domant é de longo prazo. Aconteça o que acontecer no Girabola, o projecto vai manter-se  de pé, porque nós somos uma equipa pioneira nesta competição. O Bengo nunca esteve no Girabola, mas hoje superamos o mito.

Isso significa o quê?
Que temos de caminhar devagar, a começar por engatinhar, depois tentar andar, crescer e amadurecer. Tudo isso faz-se com o tempo. Não estou obcecado por coisas imediatas porque hoje as pessoas pensam muito no imediatismo. Vamos caminhar dentro do que é a nossa filosofia. O essencial será conseguir o inédito, que é a manutenção no Girabola, o que seria um grande passo na história do clube e da própria província.

O presidente do Domant FC não é imediatista?
Não me refiro ao presidente. Quando falo em imediatismo, refiro-me ao que se passa na mente dos amantes do futebol.  A primeira coisa pensam nas vitórias, esquecem-se que no desporto há três resultados possíveis. Quem anda dentro do futebol sabe que um dos grandes males que enferma o nosso futebol é o imediatismo doentio, porque as pessoas pensam que todo o clube de que é adepto tem de ganhar sempre.

Está preparado para aguentar a pressão da população do Bengo?
Estou, porque já vivi essa situação no 1º de Maio de Benguela. Quem passa por este clube sabe que não é fácil, querendo ou não aprende a lidar com a pressão. Por isso, reafirmo aqui que estou preparado para aguentar a pressão. Preparado para enfrentar a batalha que é o Girabola, uma maratona muito difícil, onde o essencial não é como começar, mas como terminar.
AUGUSTO PANZO