Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

Continuamos a acreditar no CAN

Matias Adriano e António Sério - 31 de Agosto, 2011

Técnico sente-se bem com a anterior como com a nova direcção.

Fotografia: Domingos Cadência

Jornal dos Desportos - Acha ter assumido a Selecção na altura certa?
Lito Vidigal - Para os grandes desafios, não há alturas exactas. Nós, às vezes, programamos fazer isto e aquilo, mas depois, numa determinada altura, já surgem outras coisas pela frente. As coisas não funcionam dessa maneira. O convite surgiu, não interessa se numa boa ou má altura, mas é o que queria e estou aqui.

Pega na Selecção numa altura em que esta já ia, na corrida ao CAN’2012, com dois jogos, dos quais uma derrota e uma vitória, e que tinha sido dirigidos por dois treinadores diferentes. Não foi muito arriscado?
Deixam-me dizer que eu também sou homem de desafios. Por isso, se estou aqui, não o fiz de ânimo leve. Sei que é preciso sermos persistentes, sermos ponderados, sermos equilibrados, trabalhar muito e acreditarmos naquilo que estamos a fazer. Por isso, reconheço que estamos numa situação difícil, mas podemos encontrar o caminho certo e sair desta.

Entra para a Selecção em grande com o segundo lugar no CHAN’2011, mas depois perde o primeiro jogo nas qualificativas ao CAN. Como geriu a situação?
 Acho que isso no futebol é normal, mas também digo que com esta Selecção nós fizemos apenas dois treinos e já disputamos três jogos, só por aí dá para ver as dificuldades que isso acarreta. Mas temos que entender as situações e as circunstâncias e acreditar sempre no surgimento de melhorias.

Orientou dois jogos, tendo o resultado se saldado em uma derrota e uma vitória. Faltam mais dois. O que podemos esperar em termos de resultados?
São dois jogos em falta e bom seria vencer os dois. Perdemos um jogo com o Quénia fora e depois vencemos o jogo a seguir aqui em Luanda, um resultado que teve uma carga emocional muito grande, e vamos esperar, nós equipa técnica, que tenhamos a mesma prestação nos dois jogos que temos pela frente, porque estamos proibidos a fazer resultados fora de vitórias. Vamos ter de pensar jogo a jogo e continuar a acreditar que ainda é possível nos qualificarmos.

Estando as coisas como estão, alguma vez sentiu-se arrependido por ter aceite treinar a Selecção nacional?
Não. Normalmente quando tomo decisões importantes como esta, sou muito ponderado. Aliás, eu tive, há um tempo, a oportunidade de dizer que o meu principal objectivo era treinar a Selecção de Angola.

Sente-se satisfeito com as condições de trabalho que tem na Selecção?
Nós queremos sempre melhorias. Que haja cada vez mais condições de trabalho, cada vez mais qualidade no nosso trabalho, para podermos crescer também e, desse modo, estarmos em melhores condições de atingir os nossos objectivos competitivos.

Mas há da parte desta nova direcção uma maior envolvência, uma maior entrega na criação d emelhores condições de trabalho?
O que eu sei é que, cada vez que venho para o trabalho e volto para o local onde moro, tenho uma abordagem das pessoas e sinto um calor grande, um apoio grande e noto que as pessoas acreditam no trabalho que estamos a desenvolver. E em face disso, entendo que devemos redobrar esforços fazer mais e melhor.”

Internamente, a nível da direcção ou do Departamento das Selecções Nacionais que apoio recebe?
Tem havido apoio. Aliás, nós trabalhamos em equipa, pensamos em equipa, decidimos em equipa, esta é a nossa forma de trabalhar para conseguirmos com a soma de ideias várias criar as condições necessárias.

JD - O que está a ser feito a nível da Federação Angolana de Futebol de modo a superar as dificuldades existentes?
Esta pergunta deve ser feita à Federação. Agora, em relação a mim, o esforço tem sido e vai continuar a ser grande, enquanto estiver na pele de seleccionador nacional.

“Fiz contrato com a
federação e não com pessoas singulares”

Foi contratado pela anterior direcção. Sente que tem condições para continuar com a actual direcção?
Tenho contrato com a Federação, fiz contrato com uma instituição que era gerida por umas pessoas e agora por outras, mas o que eu penso é que tenho é de trabalhar, porque tenho contrato com a Federação e trabalho para Angola. Esta é a minha forma de pensar.

Já conversou com a nova direcção acerca do futuro, independentemente de acontecer ou não o apuramento ao CAN’2012?
A nova direcção da Federação entrou há pouco em funções, mas já tivemos contacto. Até porque a minha forma de trabalhar é em grupo, nada faço sozinho e o que temos feito é conversar e arranjarmos formas de encontrar soluções.

O seu contrato restringe-se ao trabalho com a selecção de honras ou prevê também acompanhamento aos outros escalões?
 O contrato que tenho é para trabalhar com as honras e procurar também uma proximidade maior com os Sub-23. É claro que também tenho uma palavra a dizer quanto às outras selecções.

Como seleccionador nacional, acha que há uma filosofia de trabalho da base ao topo em termos de treinamento. O que se pretende, enfim?…
A Selecção Nacional é feita de clubes. Se não há filosofia aqui em Angola, também não há na Espanha, não há na Itália, não há na Inglaterra. O Barcelona tem uma filosofia de trabalho, o Real Madrid tem outra e os dois clubes têm jogadores da selecção espanhola.
 
Apesar da classificação de Angola no torneio qualificativo ao CAN’2012, nota-se, ainda assim, um certo optimismo da parte de quase todos os angolanos. É esse também o espírito que se vive no seio do grupo de trabalho?
Nem podia ser de outra forma. Nós temos de acreditar sempre até não haver mais possibilidade. O nosso objectivo é ganhar todos os jogos dentro das dificuldades que enfrentarmos e continuamos a acreditar que é possível ganhar ao Uganda e à Guiné-Bissau.

Alguns dizem que se não tivesse havido esta dança de técnicos na Selecção Nacional ou se o senhor tivesse pegado na equipa desde o princípio, a safra seria muito melhor. Quer comentar?
Não há certeza nunca no futebol. A classificação que temos constitui a nossa realidade actual e é nesta que temos de acreditar. O se, o talvez não contam. Por isso, não adianta estarmos a falar sobre o que teria sido ou não, etc, etc.

O talvez não existe, mas no seu íntimo, enquanto treinador, não andará este pensamento: “se tivesse pegado mais cedo na selecção, poderíamos estar melhor classificados”?
Eu não penso assim. Penso e sonho, independentemente de nos qualificarmos ou não ao CAN, é no que podemos fazer agora para, daqui a quatro, cinco anos, podermos estar melhor do que estamos. Porque nós temos de trabalhar para termos uma selecção mais competitiva a cada ano que passa.
Contratado para o CHAN

Quando foi contratado, apresentou algum projecto à Federação Angolana de Futebol?
Tomei a Selecção num momento um pouco difícil na vida da Federação, com mudanças de técnicos e não houve tempo para tal. É claro que numa situação dessas, quando se contrata um técnico, contrata-se para o momento. E na altura era para o CHAN que se estava a pensar, pois era a competição que estava mais próximo.

Além do CHAN, o que mais lhe foi exigido em termos de resultados?
Como já disse, entrei para a Selecção a meio do torneio qualificativo ao CAN, uma vez que dois técnicos que me antecederam já tinham feito dois jogos e também entrei numa fase transitória da outra direcção, por isso estou a trabalhar mais para o momento. Com o tempo, esta direcção, que está há praticamente um mês em actividade, poderá sentar comigo para conversarmos, trocar ideias e direccionarmos objectivos.

Sente alguma pressão do público e da imprensa?
Não, porque eu sou muito exigente comigo mesmo e não há quem seja mais exigente do que eu. Sou exigente de tal sorte que qualquer outra exigência não pode ser superior à minha. No mínimo, pode ser igual. Tudo o que vem de fora, é normal, porque o meu objectivo aqui é dar o máximo por Angola. Por isso é que estou aqui.

Média de idade
não é preocupante

Fala-se muito na necessidade de se renovar a Selecção. O que se lhe apraz comentar a propósito?
Digo sempre que renovar é diferente de criar condições, e nós, quando renovamos, também temos como intenção melhorar. Mas é preciso fazê-lo no momento certo e de forma muito ponderada e responsável, porque renovação não é uma revolução. É um processo de passagem paulatina de testemunho de uma geração a outra, que pode ter as suas implicâncias quando mal operada.

Podemos esperar por uma renovação da equipa pelo menos até às eliminatórias ao Campeonato do Mundo, uma vez haver jogadores já quase em fim de carreira?
Vocês têm certeza da existência destes jogadores em fim de carreira?

Acha que a média de idade actual não é preocupante?
Vocês já apuraram a média de idade da Selecção Nacional? Eu, pessoalmente, penso que é uma média boa, que dá para ir até às eliminatórias.

Para jogar, se possível, no Mundial de 2014?
Insisto em dizer que a média de idade não é pesada. Agora, é evidente que também temos de trabalhar com jovens que têm 23, 24 anos neste momento, de modo a que possamos fazer um processo de renovação contínuo.

Havia, há um tempo, sobretudo na época do professor Carlos Alhinho, uma política de prospectar jogadores no estrangeiro sem que fossem necessariamente oriundos do futebol nacional. Essa política continua?
Se nós tivermos conhecimento de jogadores oriundos de Angola e que estejam a evoluir noutros países, que tenham qualidade e capazes de tornar a Selecção mais forte, de certeza  que vamos estar atentos a esses jogadores.

Mas o que tem sido feito até aqui, tem incidido mais em jogadores já com alguma idade e que não dão garantias de futuro à Selecção. Não seria mais útil virar essa prospecção para jogadores mais jovens?
O que acontece é que jogadores mais jovens, em idades de juniores, por exemplo, não são tão fáceis, porque eles ainda vislumbram alguma possibilidade de poderem representar as selecções dos países em que nasceram ou cresceram. Tu até não falas com eles, falas com os seus pais, em função da idade, e a resposta há-de ser essa.

“Grupo ao
Brasil’2014 não é tão acessível”

O torneio de qualificação ao próximo Campeonato do Mundo de futebol, a disputar-se em 2014, no Brasil, mereceu também a abordagem do seleccionador nacional. Lito Vidigal disse sentir-se satisfeito por Angola ter entrado directamente para a fase de grupos. Mas não deixou de reconhecer o prestígio dos parceiros do grupo

Além do CAN-2012, vêm aí também as eliminatórias ao Campeonato do Mundo de futebol de 2014. Como encara esse outro desafio?
Devo dizer-vos que fiquei muito contente com o facto de Angola ter ficado isenta da disputa das preliminares, entrando directamente para a fase de grupos. Se não estou enganado, Angola subiu alguns lugares no ranking da FIFA e isso permitiu-lhe entrar directamente para a fase de grupos, por isso, já me sinto, não digo aliviado, mas talvez em condições de desenvolver um trabalho melhor planificado em função dos jogos a disputar cujos adversários já são conhecidos.

Angola tem como parceiros o Uganda, Senegal e o vencedor da preliminar entre a Libéria e as Ilhas Maurícias. Na sua perspectiva, o grupo é difícil ou acessível?
É um grupo difícil porque devemos ter em conta os palmarés das outras selecções. Encontramos, por exemplo, o Senegal com alguma experiência em termos de participação em Campeonatos do Mundo. Estamos recordados da sua prestação na Coreia e Japão, em 2002, em que atingiu os quartos-de-final. Portanto, este é um dado a reter, ainda que a selecção de hoje seja já de uma outra geração, o país em si já tem tradição em mundiais, já tem as bases criadas e nós estamos ainda a dar os primeiros passos. Mas acredito que com um bom trabalho, com organização e honestidade podemos ter uma palavra a dizer.”

“Sonho acordado com o Mundial”

Que meta, do ponto de vista competitivo, pretende atingir antes de chegar ao fim do contrato?
Acho que para estabelecer metas temos de estar munidos de outras bases. Mas eu tenho um sonho que era participar num Campeonato do Mundo e ser o seleccionador de Angola.

É bom revelar a ambição de querer estar no próximo Campeonato do Mundo. Em termos de formação, o que é preciso fazer de imediato para que possamos ir ao próximo Mundial?
Eu disse sonho e não ambição, mas como dá no mesmo, deixem-me dizer que sonho acordado todos os dias com essa possibilidade. É, em função disso, aliás, que perspectivo o meu trabalho. Faltam sensivelmente três anos e penso que podemos fazer muitas coisas. Podemos começar agora para ganharmos tempo.
 
De momento, qual é o sector da equipa que mais o preocupa como seleccionador nacional?
Eu diria que nenhum, porque a equipa é um todo e acho que todos os jogadores, independentemente das posições em que actuam, dão o máximo de si, todos se entregam ao trabalho e em jogo também todos têm o mesmo desempenho, é assim que vejo as coisas.

Mas diz-se que a Selecção está em falta de um homem-golo, falta(m) matador(es) …
 Não sei se isso corresponde à verdade. Se em dois jogos marcamos três golos, é porque há marcador. O mais importante é nós continuarmos a procurar o nosso caminho. Sabemos que isso leva tempo, dá muito trabalho, mas se nos engajarmos todos, podemos consegui-lo.

Tem reunido normalmente com treinadores de clubes do Girabola?
Tenho reunido com diferentes treinadores que trabalham no Campeonato Nacional e devo, desde já, agradecer a disponibilidade que têm tido para o efeito. São contactos importantes, porque aproveitamos para aflorar em conjunto uma série de aspectos ligados ao futebol nacional. É lógico que esses contactos não têm sido regulares, porque cada um tem os seus afazeres e há que respeitar os compromissos dos outros.

Esses contactos têm permitido, de algum modo, melhorar no seu trabalho?
Claro que sim. Porque sou daqueles que não me julgo superior aos demais. Aliás, na vida nós aprendemos todos os dias, e só aprendemos quando respeitamos os outros ou reconhecemos nos outros maturidade e experiência que nos possa ser útil.

No quadro do seu acompanhamento à evolução do futebol nacional para uma melhor prospecção de valores tem se deslocado também às províncias?
Na verdade, tenho andado um pouco pelo país, e tenho inclusive me deslocado por estrada para aproveitar conhecer melhor o país, porque é importante fazer esta incursão ou estabelecer contacto com a realidade futebolística de outras províncias fora de Luanda. Também tenho acompanhado alguns jogos de juniores, sobretudo aqui em Luanda, para poder me inteirar melhor da forma como se está a trabalhar no futebol juvenil.

“Já tive vários
convites de equipas do Girabola”

Como treinador de profissão, mas que vem de um outro mercado, aceitaria, depois de deixar a Selecção, treinar uma equipa do Girabola, se lhe fosse apresentada uma proposta para o efeito?
 Quem é treinador, deve estar preparado para treinar em qualquer latitude. Se não tiver essa disponibilidade, raramente terá êxito, porque o mundo está cada vez mais ligado e daí a razão de estarmos preparados para tudo e para todos os lugares.

Antes de ser contacto pela FAF, já teve contacto com alguma equipa nacional?
Que eu me lembre, directamente não. Mas já me chegaram, por intermédio de terceiros, vários convites de equipas do Girabola.

E já depois de estar a treinar a Selecção voltou a ser solicitado por algum clube nacional ou mesmo estrangeiro?
Vários. Mas nesta altura tenho um compromisso e nele está concentrada toda a minha atenção e toda a minha experiência profissional.

Que avaliação faz do nível do Campeonato Nacional?
O que eu tenho a dizer é que está mais competitivo. Não estou a dizer que está melhor ou que está pior. Mas, o que é notório, é que as chamadas equipas pequenas já trabalham melhor, e conseguem tirar pontos às equipas grandes. Isso é positivo, isso é que faz crescer.

Acha que esta competitividade e a forma como se trabalha, digamos assim, nas equipas mais modestas é reflexo da vinda para o futebol nacional de técnicos estrangeiros?
Digo sempre que, entre nós, o que devemos contratar é a qualidade, não devemos olhar para as nacionalidades. Se vamos buscar um técnico fora que nos traga mais valia, bem-vindo a Angola.

Geraldo é
dedicado e trabalhador

Comentou-se muito a questão do Geraldo. Foi dito que não foi chamado nas duas convocatórias anteriores a esta por razões que nada têm a ver com opções técnicas, mas por ter havido um desaguisado no balneário por ter vindo e não ter sido alinhado. Quer comentar?
Acho que vocês deviam ligar para o Geraldo e perguntar. O Geraldo é um bom rapaz, muito dedicado e entregue ao trabalho. Por isso, tudo que foi dito a propósito da sua não convocatória nas duas ocasiões anteriores não passa de mera especulação. Para mim, não existiu nada entre a equipa técnica e o jogador.

Como reagiu o jogador a esta convocatória?
Como angolano, fê-lo positivamente. É um jogador que interessa à Selecção Nacional, foi convocado e temos garantias de que vai dar o seu contributo no jogo do próximo dia 4 de Setembro com o Uganda.