Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Continuamos a produzir talentos

Matias Adriano - 29 de Janeiro, 2014

Norberto de Castro um empreendedor incansvel apesar de algumas a dificuldades

Fotografia: Jornal dos Desportos

Nos confins do município de Viana, mais precisamente no novel bairro Kapalanca, ergue-se imponente a escola Norberto de Castro. No estabelecimento estão em formação centenas de jovens que têm o legítimo direito de sonhar, aspiram abraçar amanhã a carreira futebolística como atletas. Fundada em Janeiro de 2001, a escola já lançou no mercado algum produto aceitável da sua lavoura, como o Geraldo, actualmente no Curitiba, a unidade de maior expressão.É fácil esta arte de formar?Financeiramente é muito ou pouco onerosa? Já dá lucros conforme a realidade desportiva ou é um “affaire” de risco?É tudo isto e mais alguma coisa, que procuramos tratar com Norberto de Castro, presidente da escola com o mesmo nome, na entrevista que deu ao Jornal dos Desportos. Na íntegra, a súmula da conversa:

Como é possível manter funcional esta estrutura, se olharmos para a amplitude e para o facto gerido com capital privado?
Para dizer a verdade não é fácil, mas temos sabido tornar o difícil, fácil, para podermos manter as portas do complexo aberto. Como sabem, é uma infra-estrutura muito grande e nós trabalhamos com mais de duzentos atletas, divididos por escalões de seniores, juniores, juvenis e iniciados. Tem sido por isso, uma batalha muito grande, pois como devem ter conhecimento os nossos rendimentos vinham do mercado Roque Santeiro e com a sua extinção a nossa condição financeira já não é a mesma. Sofreu um forte abalo.
 
De concreto que investimento tinha a escola no mercado Roque Santeiro?
 Nós tínhamos no mercado  um armazém e um parque de estacionamento. O parque continua, não foi demolido, mas seja como for não tem hoje o rendimento que tinha no passado. Com o armazém tinha aí um rendimento de cerca de 50 mil dólares/mês, e o rendimento é que sustentava o nosso complexo. Hoje temos muitas dificuldades, a começar a pela falta de água, embora este problema seja antigo.

Problema antigo, como assim?
 Nós tivemos cerca de seis ou sete anos sem água, mas depois houve uma intervenção da Presidência da República, que meteu água aqui. Porém, só durou sete meses, porque com a construção do hospital do Kapalanca, aqui próximo, penso que meteu-se uma manilha e hoje a água já não sobe para o nosso complexo. Mas ainda a falar de rendimentos, é importante dizer que temos um colégio que minimamente dá alguma coisa, embora não o suficiente. Temos um restaurante, mas desde que se fechou a via de acesso para aqui na sequência da construção da linha férrea, que já não tem a frequência de outro tempo. Hoje é uma ou outra pessoa que cá vem. Portanto, não tem sido fácil gerir isto.

Há aqui no complexo atletas em regime de internato?
O complexo tem atletas que se encontram em regime de internato, que são cerca de 30, que vivem a custo zero, são na maioria miúdos provenientes das províncias e temos necessidade e a obrigação de velar pelo sustento deles. Eles fazem a vida aqui. Somos nós que cuidamos do seu alojamento, da alimentação, das roupas de cama e até da sua assistência médica.
Também assumimos os custos de formação dos mesmos.
Por exemplo o ano passado foram quatro, que terminaram no nosso complexo o ensino médio e que este ano vão para a Faculdade. Quem paga as propinas somos nós.
 
Portanto, a escola empenha-se a ponto de dar ao mercado não só atletas, mas também homens realizados. É esta a política?

 Certo, porque, reparem, tem sido assim em todas as partes do mundo. É muito importante que um atleta tenha estudos académicos, porque não assimila o que os treinadores estiverem a ministrar no seu dia-a-dia, porque um atleta analfabeto tem muitas dificuldades. E nós não permitimos que os atletas não estudem, só joguem futebol. Acho que deve ser assim para que tenhamos homens no futuro, já que a carreira futebolística em si, como sabemos, é curta.

FUNDOS
Desprovidos de apoios mas determinados


O encerramento do mercado Roque Santeiro causou constrangimentos, levou a bater algumas portas no sentido de captar apoios. O resultado foi bom?
 
Quase que não gosto de falar disso, porque fizemos contactos a nível de todas as empresas com nome no nosso país e mesmo cá a nível do município de Viana e não foi aceite nenhum. Penso que, talvez se a equipa estivesse na primeira divisão aparecesse um ou outro patrocinador. Mas eu acho que é muito mais importante apoiar as crianças porque a formação é que mais interessa e é assim em qualquer parte do mundo.

A Lei do Mecenato era uma saída?

 Claro. A Lei do Mecenato podia ser muito útil neste caso, porque dava apoio às pessoas que estão a formar jovens no nosso país. Mas pronto, vamos continuar a trabalhar, quem sabe um dia as coisas mudem. Seja como for não vamos cruzar os braços para que possamos ajudar o país a crescer, dar formação a estes meninos para que amanhã sejam homens. Isto é o mais importante.
 
Em certo momento aventou a possibilidade de encerrar a escola. Hoje continua a pensar da mesma forma?
 Em 2012 encerramos o nosso complexo, razão por que o ano passado toda a nossa equipa de formação teve de ir para a segunda divisão provincial, que inventaram, porque isto não existe nos estatutos, não existe segunda divisão a nível da província de Luanda, mas nós não nos preocupamos.
Tanto mais que tivemos bons resultados com as nossas equipas em juvenis e juniores que foram campeãs. Também quero dizer que houve muita pressão a nível nacional e internacional, por isso é que reabrimos as nossas instalações. Continuamos com as mesmas dificuldades, mas o que nos anima é prosseguirmos para dar formação aos atletas. Quem sabe, um dia um ou dois reconheçam o trabalho que fazemos ao longo destes anos todos.

 Em quanto avalia a despesa mensal do complexo, com a manutenção e pagamento de salários aos trabalhadores, e que exercício faz para não falhar?

 É uma grande ginástica que se faz para manter a escola em dia. Em resumo, devo dizer-vos que os dinheiros não saem daqui, porque se não nós já tínhamos fechado as nossas portas há muito tempo. Há outras coisas que nós fazemos, que a minha esposa também faz em termos de negócios, e tiramos de fora para vir aplicar aqui dentro das nossas instalações.
Portanto, calculadamente nós gastamos acima de um milhão de dólares por ano.

RECLAMAÇÃO
Há clubes que
aliciam atletas


Fala-se de casos de aliciamento por parte de certos clubes em relação a atletas das escolas de formação. A Norberto de Castro vive também esta situação?
 Há vários casos de clubes que aliciam os atletas que acabam por sair à revelia, sem qualquer consentimento da direcção da escola, o que é mau. Não se respeitam as pessoas que estão a trabalhar com a formação. Nós já não temos um subsídio do Estado e no nosso caso tem sido de outras escolas, as quais não lhes são dadas oportunidades. E acho que esta prática deve ter um fim e partirmos para a via mais sensata que era negociar com a direcção da escola, quando se pretendesse um determinado atleta e não passar por trás, contactar o atleta e este sair à revelia, porque isto não existe em qualquer parte do mundo.

Como corrigir esta conduta na sua perspectiva, enquanto homem ligado à formação?

Primeiro acho que devia pôr-se cobro a isso, depois começar por disciplinar tais empresários de futebol, que andam por aí, que para mim não são empresários coisa nenhuma, já que um empresário deve acompanhar o atleta desde pequeno e apoiá-lo na sua progressão e não depois de estar feito aparecer como seu tutor, quando os outros é que fazem o trabalho.
 
A culpa tem a ver com a falta de políticas claramente definidas neste campo?

Concordo, porque o que eu vejo é culpa do próprio governo. É claro que o governo faz muito para o nosso desporto, porque se não fosse isso, se calhar, nem campeonato nacional tinhamos. Mas falha num aspecto, que  na verdade, precisa de  ser acautelado.
 
Onde é que falha o Governo?
Acho que falha no processo de distribuição dos apoios, porque não se justifica que uns tenham patrocínios de 15/20 milhões de dólares e outros não recebam nada. Por isso, é que existem disparidades no nosso futebol, e o que é mais grave, o Estado esquece-se da formação. Quando o sensato era dar àqueles que estão na alta competição, sem esquecer os que se ocupam da formação. Para mim devia haver tectos, para quem está na primeira divisão, para quem está na segunda divisão e para quem está na formação, mas neste último capítulo com critérios bem definidos. Pois também era preciso avaliar as condições das escolas de formação. Quem tem condições, quem tem infra-estruturas, quem tem equipamento por aí além. Mas apesar de tudo estamos a trabalhar e prometemos para os próximos tempos outros “Geraldo” para os nossos clubes e para a nossa selecção.

COMPETIÇÃO 
Girabola nunca foi a nossa meta



A Norberto de Castro tenta há duas edições ascender à primeira divisão. O passo de entrar na alta competição estava previsto na criação da escola ou naquilo que é o seu objecto social?
A nossa participação no torneio de apuramento à primeira divisão está inserida no quadro do que é a política formativa do nosso centro.  Precisamos conferir aos nossos formandos alguma experiência competitiva. Esta é a razão da nossa participação nesta prova. Não o fizemos com intenção de ascender ao Girabola.

E se acontece o caso do Norberto de Castro terminar à frente de uma das séries do torneio qualificativo?
Ai nós temos um mês para procurar patrocinador e terminado este período sem êxito, cedemos o lugar ao segundo classificado. Agora competição para podermos enfrentar até ao fim é a Taça de Angola, uma prova que se disputa em moldes diferentes e por conseguinte menos onerosa em relação ao campeonato nacional de primeira divisão.
 
A vossa equipa é constituída por atletas formados na Norberto de Castro ou também recorrem ao mercado para potenciar o plantel?
 Todos atletas da equipa sénior são produto da nossa escola, são todos formados aqui. Tivemos na edição passada uma excepção, que é um jovem irmão do Love Kabungula, que veio a pedido deste. Fora dele todos os outros são jogadores formados aqui mesmo.

REACÇÃO
Certos atletas foram ingratos com a própria escola


Há nos últimos tempos algumas incompreensões de certos jovens atletas da escola, alguns dos quais já se foram embora. O que se passa de concreto?
Nós nunca tivemos problemas, só estamos a ter este ano porque, e não vou citar nomes, criou-se um complô por parte dois atletas que saíram daqui, mobilizaram alguns colegas e foram infelizes ao dar uma entrevista a um repórter do vosso jornal o que não é verdade. Pois, um dos atletas já foi vendido o seu passe, o outro assinou à revelia por um outro clube e quando o chamei a atenção ele criou um grupo para tentar desestabilizar a escola.

 Não corresponde à verdade as alegações que apresentaram?
É tudo invenções. Felizmente tudo o que eles disseram não me afectou, nem nunca vai afectar-me. Eles foram ingratos pura e simplesmente, pois vieram para cá pequenos e tenho a certeza que se não estivessem aqui comigo não sei o que eram hoje, onde a vida os havia de levar. Muitos amigos de infância hoje são falecidos, porque meteram-se em más práticas e tiveram o destino que tiveram. Reitero, foram muito maus, porque uma pessoa como eu que lhes deu guarida, alimentação e formação deviam ter mais consideração.

Sentiu-se apunhalado pelas costas?

Claro. Veja que um dos atletas envolvidos nesta novela, que também cresceu aqui, dei-lhe toda a formação, inclusive depois de terminar a formação média, inscrevi-o na Faculdade e eu pagava as propinas. E quando pensávamos que estava a estudar estava a fazer outra coisa e dava outro destino ao dinheiro que recebia para as propinas. Condicionamos o prosseguimento de pagamento de propinas com a apresentação do recibo comprovativo da Faculdade, o que não conseguiu. Chamou-se a atenção ao mesmo e começaram os problemas. Mas não estou preocupado com isso, acho que são pessoas que estão a ser aliciadas para fazer o que estão a fazer. Mas o importante é que a sociedade reconhece o nosso trabalho e não são três pessoas que nos vão criar desestabilização.
 
Perde o sono por causa destes problemas?

Não. Estou muito tranquilo e escreva no jornal o que vou dizer: Jesus Cristo quando andou na terra também teve sofrimento, foi crucificado por tudo o que Ele fazia de bem. No entanto, se hoje estão a fazer ao Norberto de Castro não estou preocupado com isso, porque não me retira o que eu tenho feito ao longo desses anos. Vou continuar a fazer o meu trabalho, porque tenho a certeza que são milhares e milhares que acompanham o trabalho que esta escola tem feito.
 
Como fica a situação dos atletas que ainda estão vinculados à escola?
Quero deixar claro, que pela sua ingratidão estes atletas não vão sair daqui a custo zero. Já não os queremos cá, mas eles têm de saber que a formação tem custos e nós estamos dispostos a cedê-los a quem quer que seja. Eles são livres, podem ir para onde quiserem. É uma questão dos clubes virem negociar connosco e nós vamos cedê-los. Terminaram o ensino médio aqui nas nossas instalações, a uns pagamos a faculdade, e isso tem de ter retorno.

ORÇAMENTO ANUAL
“Um milhão e meio
de dólares seria ideal”


Vamos supor que a Norberto de Castro é uma unidade orçamentada. Quanto era preciso por ano para um exercício administrativo sem apertos? Penso que um milhão e meio de dólares já davam para fazer uma gestão sem recursos a muita ginástica. Porque para além das formações que fazemos aqui, temos a equipa que participa na segunda divisão a nível nacional, o que é uma envolvência com muitos custos.

Geraldo é o caso mais conhecido de atletas de referência com o ABC do futebol na Norberto de Castro. Há outros com bons indicadores que não conheçamos?
Continuamos a levar atletas para fora. Ainda há bem pouco tempo levei um atleta para um dos grandes clubes do Brasil e a direcção deste clube ficou encantada com o futebol apresentado por esse atleta, e queria inclusive que os pais deste atleta fossem viver no Brasil. Portanto, isto leva-me a crer que daqui a mais dois ou três anos vamos ter outros “Geraldo” a aparecer na arena nacional e internacional, porque estamos a trabalhar neste sentido