Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Cooperao com campees

Antnio Ferreira/ em Lisboa - 16 de Maio, 2014

A parceria entre angolanos e espanhis no captulo desportivo vai abarcar reas como o desporto para as mulheres e deficientes

Fotografia: MINJUD

Angola e Espanha rubricaram um acordo de cooperação internacional. Um protocolo que, na visão do ministro da Juventude e Desportos, Gonçalves Muandumba, traz grandes vantagens para o desporto angolano. A Espanha detém a hegemonia mundial em diversas modalidadades, tais como o futebol e o andebol, daí o interesse desta cooperação, além de outras áreas. Na entrevista, o titular da pasta fala da visita e das expectativas.

Jornal dos Desportos - Senhor ministro, como surge esta visita?

Gonçalves Muandumba -
A visita a Espanha, além de responder ao convite do secretário de Estado dos Desportos daquele país e ao mesmo tempo presidente do Conselho Superior dos Desportos, que é o órgão do Governo que gere o desporto, foi feita com bastante interesse e agrado.
 Devo dizer que esta visita enquadra-se nas relações bilaterais existentes entre Angola e Espanha. Assim, é no quadro desta cooperação que se insere a nossa visita que teve como ponto alto a assinatura de um Protocolo de Cooperação.

JD - A Espanha é um bom parceiro...

GM - Claro que sim. Nós sabemos dos resultados e da dimensão e o impacto mundial dos sucessos obtidos por este país no capítulo organizativo, na qualidade e número de eventos, organização, na generalização das modalidades, no desporto de alta competição, federado, escolar, de pessoas portadoras de deficiências. Enfim, não há dúvidas que nos últimos 20 anos a Espanha tem sido um modelo que vale a pena analisar, acompanhar, seguir, estudar e trocar o máximo de experiências.

JD - Foi uma delegação grande nesta sua visita.

GM - Exacto. Levámos uma importantíssima delegação desportiva, convidando a integrar na mesma os agentes e actores desportivos, tanto as federações como as associações, como principais beneficiários da aplicação e execução do Protocolo. Por isso é que fizemos questão de levar alguns presidentes das federações mais representativas, entre modalidades colectivas, individuais e do Comité Olímpico Angolano, para conhecerem a boa experiência da Espanha.

JD - É uma grande experiência?

GM - Uma experiência que não fica por Espanha. Vamos fazê-la com outros países, inclusive, com os do nosso continente, a nível do atletismo, futebol, boxe, natação, judo, enfim, países que têm alguma experiência que vale a pena conhecer tendo em conta a proximidade com a nossa realidade. Por isso é que não integrámos mais dirigentes federativos. Deixe-me referir que valeu a pena a visita a Espanha. Superou todas as nossas expectativas. Não que tivéssemos alguma dúvida, visto que ela visou também melhorar as nossas relações. Como sabemos, o desporto é um dos grandes embaixadores que Angola tem e que dada a sua visibilidade, também tem levado o país ao mundo, a conhecer Angola e em Espanha conhecem-nos pelo facto de em 1992, por ocasião dos Jogos Olímpicos de Barcelona, Angola ter ganho à Espanha por 20 pontos no torneio de basquetebol masculino. Eles sabem que somos um país de desporto e, felizmente, nós levámos na delegação um membro que fez parte dessa selecção, o presidente do Comité Olímpico Angolano, Gustavo Conceição. Portanto, esse elemento também pesou no equilíbrio, simpatia e consideração que eles têm para com o nosso país. O nosso campeão paralímpico, José Sayovo, também é uma referência em Espanha. É muito respeitado e considerado neste país.

JD - Após a aprovação da Lei do Desporto esta visita pode considerar-se dentro do momento ideal dada a experiência espanhola em termos de legislação a todos os níveis?



GM - A visita realiza-se num momento particularmente feliz para o nosso desporto. Há coincidência porque aprovámos a nova Lei do Desporto.
Fizemo-la numa conjuntura em que queremos criar, mudar uma página no fazer desporto em Angola, na sua gestão e organização, que tem como substrato principal a aprovação da Lei Nacional do Desporto e o Regime Jurídico das Associações Desportivas, dois instrumentos fundamentais para a organização e gestão das políticas desportivas no nosso país e também, agora em fase de conclusão e que brevemente submetemos à consideração do Governo para análise e aprovação, a Estratégia de Desenvolvimento do Desporto, com base nas orientações constantes no Plano Nacional de Desenvolvimento de Angola 2013/2017, seguindo orientações de Sua Excelência o Presidente da República, José Eduardo dos Santos, no domínio do desporto, algumas das quais foram mais uma vez referidas pelo Presidente da República aquando da sua comunicação sobre o estado da Nação no Parlamento, no ano passado.

JD - Há sintonia entre actores e todas as forças que concorrem para o êxito da aplicação deste acordo?



GM
- Estamos em sintonia e coordenação a todos os níveis. Há a orientação do Plano Nacional de Desenvolvimento Angola 2013/2017, há as orientações do Presidente da República, muito objectivas e muito concretas no sentido de transformar Angola numa potência desportiva. Esses instrumentos criados vão orientar o desporto, sobretudo a estratégia, com metas, com objectivos, com números e é muito importante estarmos a cumprir as orientações do Governo nesse sentido. Mais importante ainda é que todos os agentes desportivos, desde clubes, associações, atletas, jornalistas desportivos, ex-dirigentes, enfim, têm sido auscultados e convidados para participarem nesse debate. Quero recordar aqui que no último Conselho Superior do Desporto, que analisou as ideias constantes da Estratégia de Desenvolvimento do Desporto tentámos fazer uma mobilização o mais alargada possível de todos os agentes interessados e que concorrem para um novo paradigma do desporto sustentado.

Ou seja, quando nós dizemos que queremos virar uma nova página no desporto, o modelo desportivo, a gestão do desporto do nosso país, temos que nos munir de algumas ferramentas. Uma delas é a legislação desportiva, moderna, actualizada e obviamente tendo em conta a realidade do nosso país. A outra é a organização em si do sistema desportivo geral. Portanto, queremos passar daquela fase de resultados imediatos, em que queremos cobrar resultados às selecções para uma fase de desporto mais sustentada, assente em pilares sólidos e seguros e isso exige conhecimentos, experiência. E nós fomos exactamente a Espanha buscar mais conhecimento. Nós dissemos que a visita a Espanha foi positiva e que superou todas as expectativa porque, de facto, foram criadas todas as condições pelas autoridades espanholas. Ou seja, a Espanha abriu as portas todas para que pudéssemos tomar conhecimento da sua experiência positiva, daquilo que é o seu modelo espanhol de desenvolvimento desportivo e que na prática dá bons resultados e sucesso. Esse conhecimento fomos buscar a Espanha a todos os níveis, a toda a cadeia desportiva, infra-estruturas, a sua qualidade, gestão, a formação de dirigentes desportivos, de técnicos, a formação de base dos atletas, as academias e escolas de formação, a organização de competições e a existência de escalões de formação a todos os níveis.

JD - Da Espanha tem naturalmente outras vivências...


GM - Um aspecto muito importante que nos marcou na organização desportiva em Espanha foi o desporto na base, nas autarquias, nas municipalidades, nas escolas. Outra experiência positiva e marcante é a organização do desporto escolar. Por exemplo, a experiência do Plano Nacional de Infra-Estruturas desportivas escolares para todas as modalidades e a optimização dessas mesmas infra-estruturas nas comunidades, ou seja, servem as escolas e as comunidades.

JD - O desporto escolar, como uma forte componente para o desenvolvimento desportivo do país, também foi aflorado nesta sua visita?


GM - Colhemos a experiência dos clubes escolares. A formação nas escolas e esses clubes depois transformam-se em verdadeiros clubes, caso do Estudiantes, que participa na Liga principal de basquetebol. Quer dizer que o modelo de organização desportiva em Espanha pode servir de referência para a aplicação da estratégia de desenvolvimento desportivo do país, tendo em conta a nossa realidade. Mas ficou bem expressa a vontade da Espanha em nos apoiar e em receber nos seus centros de treino atletas angolanos para formação e preparação, quer em modalidades colectivas como individuais, bem como receber selecções para estágios, dirigentes para formação, atletas paralímpicos.

JD - Como vê o financiamento do desporto angolano após essa visita?


GM - O financiamento do desporto é uma das questões que se colocam no nosso desporto, como é feito.
 Outro aspecto é a saúde dos desportistas, dos agentes, o cuidado com eles e o desenvolvimento do Centro de Medicina Desportiva. Todos os agentes devem estar inscritos no Centro Nacional de Medicina com a obrigatoriedade de exames regulares. Todos os atletas devem ser acompanhados e submetidos a um acompanhamento regular por essa entidade.

JD - Como fica a questão dos privados no desenvolvimento do desporto?

GM - O envolvimento das grandes empresas públicas e privadas no financiamento do desporto, da Comunicação Social e outros agentes, é a prestação regular de contas de todos os fundos e outros que provêm de patrocínios, de empresas, organizações internacionais. A qualidade da gestão das associações desportivas e a obtenção de resultados que influenciam no acesso aos fundos públicos também é preocupação.

JD - A saúde e o lazer têm também a prioridade devida, ou não é assim?

GM - O Governo tem políticas definidas. Mas registamos a sua experiência no que toca ao Plano Nacional de Desenvolvimento do Desporto na perspectiva da Saúde, lazer da população, que é desenvolvido em sintonia com outros departamentos do Governo, como o Ministério da Saúde, do Trabalho. Estamos aqui a falar de um desporto que vai dos três aos 90 anos de idade, ou seja, do neto ao avô. Nesse particular estamos a dar alguns passos, embora tímidos, que são só centros de desenvolvimento comunitários.

JD - Senhor ministro, o doping neste momento é um problema do Mundo. Algo foi tratado  nesse sentido no protocolo agora assinado?


GM - Eles têm uma Agência Nacional Anti-Doping muito bem estruturada e desenvolvida e que tem a ver com a verdade desportiva, que tem muito a ver com a educação dos atletas e de todos os agentes no tocante ao uso de substâncias proibidas, com um maior número de informação aos atletas, a sua formação e uma educação sã e salutar. É muito importante para os resultados. Isso nos remete a que comecemos a implementar alguns institutos que constem da Lei Nacional do Desporto, por exemplo, a criação de uma entidade nacional reguladora anti-doping. Nós já somos membros da WADA e da RADO, por isso temos que começar a criar esses instrumentos no nosso país. Se queremos um desporto salutar temos que criar esses instrumentos no nosso país.

JD - Pelo que sabemos Angola ainda tem algumas carências no que concerne à justiça desportiva. Algo foi feito nesse sentido?

GM - Colhemos da visita que os órgãos de justiça desportiva são importantes para que o desporto tenha o seu curso normal e que a gestão desportiva seja verdadeira. Por isso, fomos aconselhados a criar os órgãos de justiça previstos na Lei Nacional do Desporto. Isso para que todos os conflitos que surjam no desporto sejam resolvidos no âmbito da justiça desportiva.

JD - Algo mais que queira acrescentar?

GM - Bom, em  concreto, as federações vão agora estabelecer acções com as suas congéneres para concretizar o que foi estabelecido. Os itens que concorrem para o desenvolvimento desportivo são detalhadamente visitados e acompanhados.