Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Crise no futebol benguelense reside na falta de patrocnios

Augusto Fernandes - 25 de Dezembro, 2011

Mrio Luvambo clama por mais e melhores apoios aos clubes de Benguela

Fotografia: Jornal dos Desportos

Concorda com o actual modelo de disputa do Girabola, tendo em mente que o primeiro, em 1979, foi disputado por séries, permitindo que todas as províncias tivessem representantes na prova nacional?
Acho que só as melhores equipas e mais fortes economicamente devem disputar o Girabola, independentemente de ser mais nacional ou não. Aliás, o acesso ao campeonato começa nos provinciais, que abrangem todo o território nacional. Além do mais, as equipas economicamente fracas têm muita dificuldade de aguentar um campeonato inteiro. Ao meio do caminho, ameaçam abandonar a prova, por dificuldades financeiras, conforme temos visto.

Com a descida do 1º de Maio e da Académica do Lobito, a província corre o risco de, mais uma vez, ficar sem equipa na I Divisão, em 2012. Qual é a reacção dos amantes do futebol local diante desta situação?
A reacção, como era de esperar, é de total tristeza. Para muitos citadinos, é inconcebível que tal aconteça. Não se concebe que uma província como a nossa esteja a passar por esta situação.

A última esperança é o Nacional de Benguela disputar a Liguilha, mas parece que as coisas se complicaram ainda mais com o recurso apresentado pelo Desportivo da Huila. Como encara este facto?
É verdade. Não sei como foi possível acontecer isto, se realmente há alguma verdade nisto. Mas quero acreditar que o Nacional tem maturidade suficiente para não incorrer nesse tipo de situações, e que seja possível esclarecer bem o que realmente se passou e vir a disputar a Liguilha.

O que se está a passar com o futebol benguelense? Qual é o verdadeiro motivo para este mau momento do futebol na vossa província?
O verdadeiro motivo desta situação é a falta de patrocínios. Não acontece só com Benguela. Pelos mesmos motivos, o Uíge não tem equipa na primeira divisão, a Huíla, idem e o Huambo só tem o Caála. Por exemplo, antigamente o Construtores do Uíge de Vicy e companhia era patrocinado pelo Ministério da Construção, o Nacional de Benguela pelo Ministério da Indústria, o 1º de Maio, com os Maluka, André, Fusso e companhia, pela África Têxtil de Benguela, o Ferroviário da Huíla pelos Caminhos de Ferro de Moçâmedes e assim por diante. Com este tipo de patrocínios, montavam-se grandes equipas, que podiam ombrear com o 1º de Agosto, Petro de Luanda, Interclube. O quadro mudou e, por isso, vemos o sobe e desce constante das equipas das províncias.

Porque é que estes patrocínios pararam?
Melhor do que os empresários ou responsáveis das empresas mencionadas, eu não posso dizer. Mas, por aquilo que a olho nu qualquer pessoa viu, o principal motivo é que muitas destas empresas foram à falência ou já não existem. Por exemplo, onde está a África Têxtil que ajudou o 1º Maio a ganhar dois campeonatos nacionais?

O que acha que pode ser feito para inverter este quadro?
Se tivermos em conta a importância de patrocínios de verdade, como acontece com o 1º de Agosto, patrocinado pelas FAA, Petro de Luanda, pela Sonangol, ASA, pela TAAG, e outras equipas que continuam no Girabola, veremos que não será fácil inverter este quadro, a menos que, por exemplo, as FAA criem outros primeiros de Agosto em algumas províncias, assim como acontece com a Sonangol que apoia também a Académica, Benfica da Huíla, embora de forma insignificante, e outras equipas.

Além destas grande firmas e instituições estatais, não há outras que podem ajudar as equipas?
Estou a falar hipoteticamente e, por isso, espero que seja bem compreendido. Outra esperança é que surjam mais empresários como os donos do Kabuscorp, do Libolo, do Caála, e outros anónimos que estejam dispostos a gastar dinheiro para o desenvolvimento do futebol angolano. Não podemos esperar que os governos provinciais tenham de carregar o fardo dos patrocínios de clubes, pois eles têm outras obrigações para com a sociedade.

Ao invés de Benguela ter logo, nesta fase difícil do seu futebol, três ou mais equipas a lutar para subir de divisão, não concorda que se devia formar uma espécie de Futebol Clube de Benguela, resultante da fusão dos melhores jogadores da província e poder contar com o apoio de todas as forças vivas da província?
Por uma questão de orgulho e carisma, dificilmente os dirigentes das três equipas mais fortes de Benguela - 1º Maio, o Nacional e a Académica do Lobito - aceitariam fazer essa fusão, a menos que o patrocinador assim o exigisse. Assim, poderia surgir o tal FCB, que de certeza teria muitos apoios.

O retrato escrito
do antigo craque


Mário Luvambo surgiu no mundo do futebol em 1966, nos juvenis do Portugal de Benguela (hoje Nacional de Benguela). Nos juniores, onde ganhou um campeonato provincial, jogou com Benchimol e outros. Na categoria de honras (seniores) jogou com Garcia, Lourenço, Antero, Dias, Carvalho I e II, Renato e companhia.

Com a paralisação do campeonato distrital, devido às convoluções políticas e militares após o 25 de Abril de 1974, foi jogando a nível de “trumunos” entre equipas de bairro, pelo 14 de Abril, que mais tarde viria a ser o Nacional de Benguela. O seu momento mais alto como futebolista foi a convocação para fazer parte da Selecção Militar, que hoje é o 1º de Agosto, sendo um dos co-fundadores do mesmo.

Com as cores do 1º de Agosto, Luvambo, também conhecido como “Pé Canhão”, por ser dono de um remate forte com o pé direito, foi campeão nacional em 1979 e fez vários jogos internacionais. Outro momento alto da vida futebolística de Luvambo foi ter feito parte da primeira Selecção Nacional de Angola, depois da independência, ao lado de Arlindo Leitão, Geovety, João Machado, Lourenço, Laurindo, Chiby e outros.

De regresso a Benguela, em 1982, continuou a jogar pelo Nacional de Benguela só até 1986, aos 32 anos de idade, por causa de uma lesão contraída em 1979, ao serviço do 1º de Agosto. Mário Luvambo diz ter ganho muitas e boas amizades no mundo do futebol e, além de jogador, foi treinador dos juniores do Nacional, treinador-jogador dos Dínamos, da Sital e Inter, todas de Benguela.

Ao longo da conversa, lembramos-lhes de um golo que marcou a Carnaval, na altura guarda-redes do Caála, em Junho de 1977.
Ele lembrou-se e comentou: “Foi de facto um golo soberbo. Foi um livre directo. O Carnaval mandou tirar a barreira. Então, a uns 45 metros da baliza, chutei com muita força. A bola entrou e ficou presa abaixo do ferro que suportava a rede traseira. O Carnaval foi procurar a bola fora da baliza, porque pensou que ela tivesse saído fora. Até hoje, quando nos cruzamos, ele se recorda daquele momento”.

Nome completo: Mário José Luvambo
Filiação: Armando Miguel Samba e de Adelaide da Conceição
Data de nascimento: 1 de Abril de 1954
Naturalidade: Benguela
Estado civil: casado
Filhos: 05
Hobby: ver jogos de futebol
Prato preferido: Churrasco
Bebida: vinho
Musica: Francó e música das Caraíbas
Cor: verde
Poligamia: É contra
Homossexualismo: idem
Acredita em Deus: Acredito por causa do que vê à volta. Na natureza, vê-se a mão de Deus em muitas coisas.
Clube do coração: Nacional de Benguela e 1º de Agosto.