Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Cumprimos com os pressupostos legais

Pedro Futa - 25 de Junho, 2018

Simo Muanda trabalha em obedincia Lei do Desporto

Fotografia: Domingos Candncia | Edies Novembro

Como caracteriza o actual momento do boxe em Angola?
O boxe está a decair. As potenciais províncias, que antes apostavam na modalidade, já não o fazem. São os de Luanda, Cabinda, Benguela, Huíla, Namibe, Uíge, Lunda-Norte, Moxico, Cunene e Zaire.

Quais são os motivos que afastam os promotores do desporto?
A falta de organização da entidade que rege a modalidade, não se criam politicas de incentivos para o desporto olímpico (amador) e não existe uma Associação em Luanda.

O que é necessário fazer para inverter a situação?

A Federação Angolana de Boxe não deve organizar eventos profissionais. As entidades autónomas, por meio de promotores, devem criar as políticas para o desporto.

Que diferença existe com o passado recente?

Regredimos. Há poucas actividades de boxe olímpico, o trampolim para o profissional. Não basta apenas falar de resultados internacionais, temos de apostar na base.

Que comentários se lhe oferece fazer sobre a Faboxe?
Sendo o órgão que rege a modalidade devia traçar as melhores políticas. Não é normal que Luanda não tenha uma Associação que rege o boxe amador. Entre 2012 e 2016, havia uma no mandato do Franklim Gomes, que também não teve actividades na sua vigência. Não há união entre os fazedores de boxe devido às intrigas no seio da Federação.

Com a criação da Associação, qual é o vosso primeiro passo?

É resolver a suposta ilegalidade da Associação que o presidente da Federação de Boxe passa para a opinião pública. Vamos licenciar os promotores, managers e atletas. O boxe tem duas vertentes: amador e profissional. Cada uma delas tem estatuto diferenciado.

O processo de constituição teve respaldo na legislação vigente no país? Sente que tem apoio da estrutura governativa que responde pelo Desporto?
Cumprimos com  os pressupostos legais. A própria  Constituição da República permite que se crie Associações, o que não era permitido na antiga República. Para o boxe profissional, criou-se um mecanismo dentro da Federação, que é a comissão que zela pelo profissionalismo. Esse órgão continuou  até aos dias de  hoje, o que  é ilegal. A Legislação do Desporto, a Lei nº 05/2014 de 20 de Maio, já permite um organismo autónomo para o boxe profissional. Quem a legitima são os fazedores.

Tem apoio da Faboxe?

Não. Quando criámos a Associação, enviámos convite para o presidente da Federação Angolana de Boxe e não compareceu na tomada de posse.

Com que meios pensa desenvolver as actividades?
A Associação é um meio regulador. Estamos numa fase embrionária. São os promotores que vão realizar os eventos em cumprimento dos pressupostos legais. Temos o apoio de muitas entidades e dos próprios fazedores de boxe.

A Faboxe é um parceiro da Associação?

Somos parceiros, mas a Federação apenas está inserida na Associação Internacional de boxe Amador e na Confederação Africana. Nas outras associações, quem deve responder é um organismo autónomo, neste caso, a Associação. Devemos a obediência à Federação.

Quantas associações regem o boxe profissional?
A Associação Mundial de Boxe (WBA), Organização Internacional do Boxe (IBO), Organização Mundial de Boxe (WBO), Federação Internacional do Boxe (IBF) e o Conselho Mundial de Boxe (WBC).

Que outros entes vão interagir, por exemplo, na realização de campeonatos e galas profissionais?
Vamos filiar-nos nas Associações Mundiais. A primeira vai ser na Namíbia. Estão muito avançados em relação à Angola.

Como foi recebida a Associação entre os fazedores de boxe?

Fomos recebidos satisfatoriamente. Muitos atletas já pensavam em desistir, mas com a criação da Associação Profissional têm esperança de dias melhores e vão puder fazer a carreira e viver da modalidade.

Já se regista adesão de promotores, managers e atletas à Associação. Tem estatísticas?
A Associação tomou posse agora. Estamos a trabalhar na criação de base de dados e o processo está num bom caminho.

Que boxe profissional temos no país?
Neste momento não existe boxe profissional. Existe apenas a realização de algumas galas organizadas pela Federação, o que é ilegal.

Como pretendem alterar a realidade?

Vamos mudar com conversa, sentar com os membros da Federação e mostrar que a razão está do nosso lado, desde que não haja impasse.

O boxe olímpico é um factor para o desenvolvimento do profissional. Temos condições neste seguimento para municiar o profissionalismo?

Temos. Com uma boa organização, faz-se muito bem. O boxe profissional chega a ser mais económico que o olímpico. Por exemplo, no profissional não se faz a selecção de atletas como no olímpico, onde é preciso reunir 10 categorias de peso. Com apenas um atleta, o seu treinador e o manager faz-se o profissionalismo. Não é nossa preocupação incluir a Associação no dinheiro do Orçamento Geral do Estado para a realização de eventos. Os custos são reduzidos.

A idade de nossos pugilistas preocupa-lhe? Como pensa agir para baixar a idade dos atletas?
Preocupa. Nesse momento, faz-se boxe no país com atletas adultos, com idade avançada. Vamos trabalhar com as escolas de boxe. Os pugilistas vão sair do boxe amador e os escolhidos devem começar mais jovens.


PERFIL
Campeão da SADC

Simão Muanda nasceu em Cabinda, há 43 anos. Foi tricampeão de boxe na categoria de 91 kg da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC) nos anos 2001, 2003 e 2005. Contempla uma presença no Mundial da China. É licenciado em Economia na República de Cuba. Além da carreira desportiva, acumula experiência como dirigente desportivo. Notabilizou-se como Secretário Geral do Team Elite, clube que dominou o boxe angolano por uma década, foi vogal de direcção na Federação Angolana de Boxe (2008-2012). Hoje está nas vestes de empresário e presidente da Associação do Boxe Profissional de Angola.