Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

Custdio sai com o dever cumprido

Silva Cacuti - 17 de Novembro, 2016

Antigo boss da associao fala de alguma tristeza por ter falhado realizar todas as aces a que se props no seu mandato

Fotografia: Jornal dos Desportos

António Custódio "Mano" antigo praticante termina um ciclo da sua vida. Deixa hoje de responder pelos destinos da Associação Provincial de Andebol de Luanda (Apal), após quatro anos de mandato. Na hora do balanço, fala de alguma tristeza por não ter conseguido realizar todas as acções a que se propôs em virtude do momento económico que se vive no país. Mano lamenta também a extinção do andebol no Kabuscorp do Palanca.

No entanto, o que de positivo se fez tem mais peso na balança da avaliação. A valorização do espectáculo de andebol, através do pagamento dos ingressos por parte dos prosélitos é uma das acções inovadoras atribuídas ao seu elenco directivo. Mano aponta igualmente uma relação mais salutar com os seus filiados, a quem agradece a colaboração na hora do Adeus.

Quatro anos de exercício da presidência da Apal, António Custódio, que associação vai deixar?
António Custódio - "Vamos deixar uma associação organizada, porque conseguimos fazer alguma coisa com os poucos recursos que, por não termos um orçamento, conseguimos através da caridade dos membros da direcção. Acho que a nova direcção vai encontrar alguma coisa feita.

Podemos não ter feito tudo do nosso programa mas conseguimos fazer algo".
Refere-se a quê concretamente?

"há acções como a melhoria das competições da Apal, a aproximação da associação aos clubes... Podemos dizer que temos uma associação saudável e vamos deixar uma associação para o novo elenco com saúde, tirando a carência das instalações porque tínhamos duas,  e só conseguimos trabalhar numa, mas tenho certeza que em relação à questão organizativa , tanto no campo administrativo como técnico-desportivo, podemos dizer que o novo elenco vai encontrar uma associação em condições, saudável".

Foi você que, nas vestes de vice-presidente da Apal, recebeu da mão da ex-governadora provincial, Francisca do Espírito Santo, as chaves das instalações localizadas no estádio dos Coqueiros. Volvidos quatro anos dizes desconhecer a serventia daquele espaço, mas dizem que a Apal, no seu mandato chegou a receber algum arrendamento. Não é verdade? 
"Em relação a nós não é verdade. nós nunca vimos sequer um centavo. Eu era vice-presidente da Apal e posso dizer que durante os quatro anos o indivíduo que ocupava as instalações furtou-se de dar a chave ou fazer um contrato com a associação em que pudéssemos tirar algum benefício.

Tentou contactar?
"Várias vezes, tenho cartas que enviamos algumas vezes mas não tive sorte porque por ser um ex-praticante de andebol, achei que podia acreditar na boa fê das pessoas, boa fé esta que levou-nos a ficar este tempo todo a espera da devolução do espaço"

Então é mesmo um ex-praticante que está com as instalações da APAL?
"O nosso maior espanto foi notar que o indivíduo que nos criou estas dificuldades todas durante este tempo fazia parte de uma das listas que concorria para a presidência da APAL"

Que leitura faz deste facto. Alguém apropria-se do bem da associação e ainda assim pretende participar da gestão da Apal?
"Acabei por deduzir o seguinte: Como uma destas listas foi concorrente em 2012, com a nossa lista, desconfio que por não fazer parte do nosso programa esta pessoa tentou criar dificuldades para desacreditar o nosso elenco, então não nos entregou nem chaves, nem proventos, nunca tivemos benefícios de nada e se aquilo deu algum lucro só esta pessoa, que depois percebemos que iria fazer parte de uma das listas, pode dizer a quem é que fez pagamentos. Até agora só posso dizer que é ele próprio que se beneficiou".

Como aconselha o novo presidente da Associação Provincial de Andebol de Luanda a gerir este assunto?
" Honestamente acho que deve fazer o contacto e se não houver uma certa colaboração deve recorrer às autoridades competentes para evitar aqueles choques pessoais".

Já não sugere a boa fé?
"Foram quatro anos, vezes 365 dias; são muitos dias para acreditar na boa fé das pessoas e hoje a pessoa não ter tido a oportunidade de pelo menos sentar-se naquelas cadeiras.  Ao Simão Filho, novo presidente que toma posse dentro de poucos dias, aconselho a não acreditar muito na palavra das pessoas, porque se ele acreditar muito vai viver o mesmo problema que eu vivi, não terá as instalações e acho que estas instalações davam para separar alguns órgãos da associação ou arrendar e daria alguns valores para custear despesas administrativas porque tem que se pagar salário e comprar material de escritório porque nestes quatro anos teríamos dívidas, não fosse a boa vontade de alguns membros do nosso elenco".

Não deixa dívidas?

"Não deixamos dívidas com ninguém, encerramos as competições com troféus, excepto a última de juvenis e juniores. Comprometemo-nos com a nova direcção que logo que recebamos os troféus os faremos chegar à direcção para que arranje uma forma de os fazer chegar aos clubes".

DESISTÊNCIA
Extinção do Kabuscorp do Palanca entristece


O teu mandato foi marcado pela extinção do Kabuscorp, por um lado, mas também pela entrada de duas novas equipas no andebol luandino. Que impacto teve para si ver o fechar das portas de uma equipa que conquistou, inclusive, campeonatos?
" Como andebolista e homem ligado à modalidade, prefiro sempre ver a aumentar do que desaparecer. Fiquei feliz pelo surgimento destas equipas, mas ao mesmo tempo triste pelo desaparecimento do Kabuscorp.  Eu olho para o Kabuscorp e tenho em atenção a posição geográfica deste clube. Está ali, no bairro do Palanca e, sabe-se que muitos bons atletas vêm da periferia. Os outros clubes como a Marinha e o Exército acabam por beneficiar muito do clube principal das Forças Armadas Angolanas, de onde recebem atletas que o clube principal dispensa. No caso do Kabuscorp, como associação tentamos falar, mas tivemos que respeitar a decisão do clube. Ficámos felizes pelo surgimento de mais duas equipas, mas nos confortava mais manter aquelas equipas que têm escalão de formação, invés de receberem já atletas feitas, trabalham com crianças.

Houve também crescimento no número de núcleos da modalidade em Luanda...
"Sim. Um núcleo não é um clube e, em função disto, era nosso objectivo fazer parcerias mas dada a crise financeira não conseguimos. A nossa esperança com estar parcerias era de que todo atleta formado num núcleo ao ir para um clube então o núcleo beneficiaria com material desportivos, bolsas de formação académica e até na área de logística".

COMPETIÇÃO
Luanda recebe o africano de mãos abertas


Luanda volta a mostrar-se aos nos holofotes do andebol continental. Está a terminar o mandato, mas sabemos que está inserido na organização. Quer comentar?
"Fomos convidados para uma das comissões, estamos entregues ao trabalho para dizer que Luanda acolhe este campeonato de mãos dadas, que vamos jogar, viver esta festa, tanto atletas, dirigentes e cidadãos da cidade que são convidados não só a apoiar a nossa selecção mas a mostrarem a sua hospitalidade. Mostrar que Luanda também tem convívios e mostrar todos os aspectos positivos da nossa cidade".

As equipas filiadas da Apal estão sensibilizadas para a eventualidade de serem chamadas a responder a um jogo amistoso por parte de uma das selecções que vem para o africano?
"Não quero citar nomes de clubes, mas pela disponibilidade que demonstraram durante o nosso mandato, cedendo para a associação, a custo zero suas instalações e não só, mesmo sem existir acordos para cedência de suas instalações ou convites para jogar, já sabemos que tão logo haja necessidade as equipas de Luanda nunca dirão não. porque estão sempre disponíveis a dar o seu contributo para o bem da modalidade. Até quero aproveitar para agradecer a disponibilidade e prontidão, mesmo sabendo que podíamos criar transtornos à sua actividade diária".

António Custódio, figura do andebol e um homem de cultura. Soubemos que o grupo carnavalesco União Mundo da Ilha foi convidado a participar da cerimónia de abertura e de encerramento do 22º campeonato africano. Sem inconfidências, pode fazer umas pinceladas sobre o que podem ser estas cerimónias?
"Vimos a necessidade de mostrar um pouco daquilo que é típico nossa cultura. Vamos ter do que Luanda faz no aspecto cultural para mostrar que a nossa cidade também convive e faz um pouco de tudo. Vamos ter dança tradicional, de salão. O facto de eu ser também líder de um grupo cultural ajudou também a organização a minimizar os custos, porque o lema é "ser angolano e estar solidário com as dificuldades que o país vive", todo angolano deve sentir-se voluntário. Dentro deste espírito vamos participar, dar o nosso máximo, mostrando a nossa cultura mas nunca olhar o lado financeiro".

NOVIDADE
Modalidade já vende


Houve ao longo do vosso mandato muitas realizações de eventos. Além dos campeonatos nacionais Luanda acolheu torneios como o "Angola 40 anos", o "pré-olímpico" e agora vocês ainda participam, junto da federação na organização do 22º campeonato africano. Quais são os ganhos disto tudo para a associação?
" Realmente tivemos envolvidos na realização de muitos eventos ao longo do nosso mandato. Queria por isso agradecer à federação pela confiança em nós depositada. O principal ganho que tivemos de tudo isso é a experiência organizativa. fez com que fossemos melhorando época após época como devíamos encerrar as nossas épocas desportivas".

Ganharam experiência, mas sabemos que houve também inovações...   
"Há uma experiência que fizemos e ficamos felizes porque mais tarde a federação também abraçou. Numa das nossas reuniões perguntamo-nos o porquê que o andebol era um espectáculo a custo zero se temos encargos organizativos como qualquer outra modalidade?. Então partimos para o contacto com uma operadora de televisão no sentido de fazer um contrato pata o nosso campeonato em que tentamos ir buscar alguma contrapartida, mas a operadora não quis avançar. Alegou que nunca tinham feito este tipo de trabalho com o andebol e que precisava de, na primeira fase ficar a título experimental, em jeito de estudo, a custo zero mesmo.

Então foi daí a ideia de começar a cobrar ingressos?
" Sim tentamos fazer um teste que consistia na cobrança dos ingressos a partir de certo escalão etário, com valores módicos".
E resultou?

"Esta experiência, dadas as dificuldades que a Apal teve ao longo dos quatro anos, ajudou a cobrir muitos encargos. Embora a direcção do Complexo da Cidadela tenha sempre manifestado uma grande sensibilidade para com a Apal, e por isso, cobrou-nos sempre valores simbólicos, esta cobrança nos permitiu sempre pagar a força de trabalho, o pavilhão e a aquisição dos troféus.  Quando decidimos fazer finais concentradas, por exemplo, os clubes que custeavam a arbitragem ficaram isentos disso. Os árbitros nas fases finais dos provinciais eram sempre da responsabilidade da associação e as cobranças permitiram isso"

Aí vocês descobriram que afinal tinham em mãos um produto vendível. Os amantes da modalidade estão sensibilizados para pagar o mínimo que seja para assistir ao espectáculo?
"É verdade. Esta inovação mostrou que o andebol é vendível, tem uma certa imagem para vender. Porque havia um certo receio, depois desta experiência a federação no campeonato seguinte disputado em Luanda, também adoptou este sistema e teve receitas. Sei disso porque fiz parte da comissão encarregue dos ingressos e ajudou a pagar alguns encargos".

O andebol acabou por sair beneficiado desta vossa iniciativa...
"Em época de crise se consigo, com os ingressos, pagar o pavilhão, os troféus e os árbitros, eu digo que já tenho meio caminho andado.  Outra vantagem é que com a realização de fases finais concentradas conseguimos juntar atletas de várias equipas, que uns assistem aos jogos de outros e permitir que o espectáculo tenha mais grandeza. Espero que o elenco que nos sucede continue com esta táctica que é muito benéfica para o nosso andebol".



FACTO
Apal vai ser reabilitada

A reabilitação da sede da Associação Provincial de Andebol de Luanda (Apal) vai ser uma das primeiras acções do novo elenco associativo, dirigido por Simão Filho que vai ser empossado hoje, às 17H00, na sala de conferências do Comité Paralímpico Angolano.Segundo Simão Filho, o objectivo é criar um melhor ambiente de trabalho nas instalações.

"Já começamos a desenvolver o nosso cronograma de acções, mesmo antes da nossa tomada de posse. Uma das acções prioritárias que definimos é a visita aos nossos associados e verificar em que condições trabalham. Outra acção que vamos dar atenção é a reabilitação da sede da Apal, como forma de criar um novo ambiente de trabalho e de instalação do pessoal", assegurou.O novo presidente da Apal venceu na corrida eleitoral Adérito Cavala.

Antigo praticante que actuou pelo ASA, Interclube, 1º de Agosto, Progresso do Sambizanga e Sporting de Luanda; Simão Filho apresentou-se junto dos associados  com um programa centrado numa Missão, Visão e valores. A missão é de garantir que a prática do andebol em Luanda decorra dentro de processos de gestão, planeamento e tomada de decisões  em todos os níveis e por intermédio de soluções de qualidade.

A Visão que Simão Filho apresentou aos associados é fazer a Apal tornar-se referência em soluções de excelência relacionadas ao desporto no contexto da modalidade.A ética e responsabilidade profissional são os valores que lideram o programa de acção de Simão Filho. O dirigente prometeu criar um portal da Apal.Simão filho vai ter as vice-presidências de Vicente Francisco e Alcino Leitão Ribeiro. Eva Gonçalves é proposta a secretária-geral.