Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Da pedreira a campeo mundial

Sardinha Teixeira - 06 de Agosto, 2011

O que eu passei nos bastidores do boxe no brincadeira

Fotografia: Domingos Cadncia

Tony Kikanga, 39 anos, reside em Portugal desde 1990 e representou vários clubes locais, desde o Algés ao Boavista e o FC Porto. Até à data presente já disputou pela terceira vez o título de campeão mundial da versão da UBC. Actualmente, representa o Health Clube de Lisboa. Ainda jovem, começou a treinar boxe nos Dínamos de Angola. Mas foi em Portugal onde se tornou profissional. Hoje, ele conta-nos sobre os seus primeiros passos no boxe, relembra momentos emocionantes na sua carreira e analisa o desporto actualmente.

Quando teve o primeiro contacto com o boxe?
Comecei no boxe na década de 80, quando entrei para o clube dos Dínamos de Angola. Comecei a treinar, porque uma vez vi uma demonstração, durante uma festividade. Ouvi o barulho da claque, gostei e resolvi treinar boxe. Na época, eu treinava sem as mínimas condições.

Já tentaram convencê-lo a parar com as lutas?
As pessoas falavam para os meus pais: “não deixa o miúdo lutar porque o boxe provoca problemas cerebrais”. Mas eu gostava de treinar. Hoje, sou profissional, mas não sou um grosseiro.

Como foi a caminhada até se tornar um pugilista profissional?
Comecei como iniciado. Depois, passei a competir nos campeonatos de boxe amador, onde venci várias taças e torneios, organizados pela Federação Portuguesa da modalidade.

Foi quando se tornou profissional?
Sim. Depois disso, passei a profissional, porque estava difícil lutar no amadorismo, eram sempre os mesmos campeonatos e os mesmos lutadores. Por isso, passei a profissional e permaneço invicto. A disputa pela terceira vez do título de campeão mundial da versão da UBC é sem dúvida o maior título que tive no boxe.

Na época, dedicava-se somente ao boxe?
Não. Eu trabalhava na pedreira em Portugal. Trabalhei lá por cinco ou seis anos.Se eu faltasse, descontavam no meu salário. Isso acontece com todos os atletas que estão hoje por aí. O que eu passei nos bastidores do boxe não é brincadeira.

O que faz quando não está a lutar?
Eu compro sempre livros e revistas. Fiz cursos de actualização desportiva.

Qual o título mais especial para si?
Foi o título de campeão mundial da versão da UBC. Foi uma luta muito importante para mim.

O que falta ao boxe angolano?
É preciso um maior investimento e dedicação dos agentes do boxe, para a massificação e desenvolvimento da modalidade em todo o território nacional. Nos últimos anos tem havido redução do número de praticantes e de outras componentes fundamentais. É um facto evidente que hoje verificamos a fraca participação das poucas equipas existentes no país, aliado a uma ausência constante de actividades, que podiam manter os atletas e técnicos em permanente rodagem competitiva.

Considera-se uma referência para os atletas mais jovens do desporto?
Toda essa experiência serve de exemplo para as futuras carreiras de jovens pugilistas que prometem representar o nosso país. Costumo dizer para os meninos que eu me sinto um exemplo vivo.

Nome: Tony Kikanga
Natural: Terra Nova (Rangel)
Nacionalidade: Angolana
Peso: 79 Kg
Altura: 1,80 m
Clube: Health Clube de Lisboa
Fuma: Não
Bebida: Água
Filmes: Acção
Música: Soul música
Droga: Contra
Melhor país: Angola
Melhor cidade: Porto
Casa própria: Sim (em Portugal)
Carro: Sim (em Portugal)
Esplanada ou discoteca: Esplanada
Campo/Praia: Campo
Cor: Azul
Religião: Católica
Dirigente que mais admira: Ninguém
Treinador favorito: Pinto Lopes e Abílio Magalhães
Ídolo: Muhammad Ali
Calçado: 43
Outros desportos: Futebol
Tempos livres: Leituras e ver televisão
Melhor momento da vida: Quando conheci a minha actual mulher
Pior momento: Quando a minha ex-mulher me abandonou com uma filha
Comida favorita: Calulu
Sonho de miúdo: Ser campeão mundial dos pesos pesados. É um sonho que alimento a cada dia um pouco mais.
Maior sonho: Ter casa em Luanda

Palmarés

1995 – Finalista do mundial hispano
1996 – Medalha de bronze nos Jogos Africanos do Zimbabwe
1999 – Medalha de ouro nos Jogos Africanos em Luanda
12 - Títulos da versão da Associação Mundial de Boxe da Transcontinental (TWBA)
Combates como amador – 77, dos quais 45 vitórias por KO
Combates como profissional - 40, com realce para 20 vitórias por KO 
2002 – Eleito atleta do ano em Angola; terceiro atleta do ano em África e está entre os melhores
pugilistas do mundo.