Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Defesa intransponível

23 de Setembro, 2017

Fotografia: Eduardo Pedro| Edições Nouvembro

Gaby é um nome que muitos jovens desconhecem nas lides do futebol. Se o juntarmos ao de Garrincha ou Man Garras, que anima a Rádio Cinco no programa a Voz dos Kotas, vem à lembrança e recordações os trumunus de outros tempos. De outras glórias. O médio defensivo destacou-se nos confrontos de bairros que envolveram as equipas Paranã, Pernambuco, Juvenil e Sport de Rangel no limiar dos anos 60 e 70 do século XX.
Tinha 12 anos de idade, quando em 1958 no bairro Pernambuco, actual Rangel, Gaby começou a jogar com seriedade. Ao seu lado havia craques como Manuel João, Matreira, João Pequeno, Garrincha e outros. Os trumunus levaram-no a defrontar equipas do Cazenga, no campo da Areia, e noutros próximos do Rangel.
Gaby ganha notoriedade no Ara da Gabela e no Futebol Clube do Uíge, sempre ao lado de grandes nomes do futebol angolano. É de salientar os de Arménio, Chimalanga, Eduardo André, Pedro Neto, Garrincha, Artur da Cunha, Vai a Lua e tantos outros.
Em 1973, Gaby integrou, pela primeira vez, na selecção de futebol do Uíge, que defrontou o Futebol Clube do Porto de Portugal, formado por Pavão, Flávio, Malagueta, Rui e companhia. Em todas as equipas, a sua capacidade de resistência e de disciplina táctica faziam a diferença. Os olheiros registaram a performance e rapidamente foi convidado a integrar o Oriental do Anduri. Na nova equipa, recorda a boa amizade com Antoninho, um guarda-redes com bons reflexos, Man Pedro e outros.
O brilho do médio defensivo era tanto que a sua permanência no Oriental de Anduri durou pouco tempo. \"Fui convidado a representar o Belenenses de Gangazuzi, uma equipa presidida por Matateu, um bom cota, onde perfilavam, Caricungu, Chimbica, Sidraque, Batata e outros\", recorda com saudades.
Gaby conciliava a bola com os estudos na Escola Missionária São Domingos Savio, coordenada pelos padres Apolinário, Agostinho e Fulgêncio. A sua habilidade levou-o a integrar a equipa Nuno Alvares, que disputou os campeonatos escolares nos anos de 1968 - 1970.
\"Naquele tempo, o interessante era que a maior parte dos jogadores, quer nos campeonatos escolares quer nos de bairros, fossem talentosos. Isso fazia com que um jogo simples reunisse grande assistência. Também servia de motivação aos atletas. Os padres eram amantes de futebol e empenhavam-se para que os campeonatos escolares não falhassem\", relembra.

PARTICIPAÇÃO
Torneio Cuca foi o trampolim

Em 1970, Gaby foi convencido pelo cunhado Domingos Palma e pelo irmão Pascoal Domingos a integrar a equipa do Sporting Nzau e Benfica. Encontrou Zé Mulato, Zé Cumbi, Pascoalito, Júlio, Chara, Bonito, \"um grande guarda-redes\", Charuto e outros. O objectivo era reforçar a equipa para disputar o torneio Cuca, que tinha a promoção de Justino Fernandes, que veio a ser presidente da Federação Angolana de Futebol.
\"O torneio Popular Cuca serviu de trampolim a muitos jogadores para o campeonato interno e para a Europa. Era a montra de grandes vedetas daquela época em Luanda, Benguela, Moçâmedes, Nova Lisboa (Huambo), Sá da Bandeira (Lubango), Luso (Luena) e Novo Redondo (Cuanza-Sul)\", revela com satisfação.
Com as cores do Sporting Nzau e Benfica, Gaby defrontou a Escola do Zangado em que perfilavam Zé Domingos, Lourenço Bento, Firmino Dias, Quim Machado, Antoninho Parte Cornos e outros. Na equipa do Cazenga despontavam Zé Pedro (o Zaragateiro que se transferiu para uma equipa de Portugal); nos Perdidos tinham nomes sonantes como Kinito, Gaby dos Santos, Jacinto João; No São Paulo, o destaque era o Viana, um dos melhores goleadores da época, e o guarda -redes Benge.
\"Viana era temido pelos guarda-redes. Foi o primeiro jogador angolano a ver a porta aberta para jogar no Brasil. Infelizmente, não sei as razões que o levaram a não se deslocar para as terras do Samba. Era uma fera em campo\", afirmou Gaby.
Outros adversários do torneio Cuca foram a Académica do Ambrizete, Ases do Ambrizete (propriedade do pai de Domingos Inguila), Sport do Mucerra e Barreirense da Barra do Dande.
No final da Taça Cuca, o Sporting Nzau e Benfica quedou-se na quinta posição. Para Gaby \"foi gratificante\", dado  o valor competitivo das equipas participantes.

EQUILÍBRIO
Perdidos e Zangados
era a mãe do clássico


Com os olhos e a mente no passado, Gaby recorda: \"Naquele tempo, o jogo que envolvia Perdidos contra a Escola do Zangado era equivalente ao do Petro de Luanda - 1º de Agosto nos tempos modernos. As duas equipas estavam recheadas de grandes vedetas. O torneio Cuca era disputado pelas melhores equipas das cidades distritais citadas\".
Benguela era considerada, \"o viveiro do futebol\" angolano por dispor de boas equipas como Portugal de Benguela, que foi seis vezes campeã de Angola. O sucesso da equipa da acácias rubras era protagonizada por Januário Candengandenga, Valongo, Neto, Miau, Gé Jordão e outros, que serviram de inspiração a Pedro Garcia, Luvambo, Lourenço, Silva, Samuel, Chiby e outros, na época mais recente.

CONFRONTO
Independente
deixa tonto
Ara da Gabela


Gabriel Soares da Costa revela com humildade, que teve de \"contar e recontar\" o número de jogadores do Independente de Porto Alexandre (actual Sonangol do Namibe) que estavam em campo, num confronto no Namibe. A equipa local \"massacrou\" o Ara da Gabela. Era um grupo recheado de vedetas em que despontavam os manos Ganchos, bem acompanhados por  Gavino e Estrela.
\"Fomos totalmente massacrados e tive a impressão de que havia jogadores a mais no Independente do Porto Alexandre. Ao intervalo, a nossa equipa estava exausta e tonta; não nos apercebíamos o que treinador falava. Fazia perguntas e não as respondíamos\", revelou.
Gaby recorda, que tudo começou com golo marcado na baliza do Independente do Porto Alexandre.
 \"A nossa ousadia foi como se tivéssemos insultado uma fera com vara curta\", disse com sorrisos nos lábios.