Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Deixei de treinar por opo

Paulo Caculo - 08 de Novembro, 2013

O Sagrada Esperana foi a ltima equipa treinada por Mrio Calado no Girabola.

Fotografia: Jornal dos Desportos

O Sagrada Esperança foi a última equipa treinada por Mário Calado no Girabola. O antigo treinador do Santos FC, campeão com o 1º de Agosto (1996) e Sagrada Esperança (2005) justificou o "desemprego" por uma questão de opção própria.

“Achei por bem este ano não assumir qualquer compromisso a nível do Girabola, nem em qualquer outro escalão ao nível do futebol. Estou a atravessar um período de reflexão da minha carreira, para tentar saber se vale a pena continuar no futebol, porque afinal existe muita incongruência, falsidade e falta de respeito. E quem prima por determinados princípios e trabalho não se coaduna com esta maneira de estar no futebol”, afirmou o professor, acrescentando estar a analisar futuros desafios para a carreira.

“Estou a amadurecer as minhas ideias e a fazer análises muito profundas e objectivas, para ver se encontro no percurso da minha vida projectos que me garantam maior segurança, para poder trabalhar com muito profissionalismo e perspectiva segura.”

O que mais anima o treinador angolano é a possibilidade de abraçar projectos concretos e seguros e "não a simples ideia de trabalhar na base de resultados taxativos e imediatos", como por exemplo, diz Mário Calado, “a liberdade de dizer que hoje quero ser campeão e obrigatoriamente temos de ser campeão nacional, quando se sabe, antecipadamente, que não vamos ser campeões”.

Mário Calado é crítico quanto ao esbanjamento de meios financeiros: “Investe-se milhões e milhões de dólares quando se sabe, de certeza absoluta, que nunca conseguimos absolutamente nada. É esta hipocrisia que existe às vezes no futebol e que não faz bem o meu jeito.”

O treinador assegura ter sido abordado por alguns clubes, mas que por uma questão de princípio tem declinado os convites para voltar ao Girabola. Concorda ter estado muito próximo de treinar o Caála esta época, mas foi só uma tentativa.

“Quase estive para treinar o Recreativo da Caála, mas devo dizer que foi a segunda tentativa falhada, apesar de termos uma relação muito boa com o presidente do clube, Horácio Mosquito. Estou em crer que à terceira vai ser de vez e, nessa altura, vamos dar o nosso contributo para modificarmos o quadro do clube”, admitiu Mário Calado.


FUTURO
“Clube tem projectos
extraordinários”


O antigo treinador dos santistas acredita que, apesar do cenário espelhar um futuro algo sombrio para o clube do Morro Bento, os projectos extraordinários que diz ter o Santos FC permitem sonhar por melhores tempos.

Mário Calado reafirma ter a certeza absoluta de que os maiores projectos que já viu a nível do futebol pertencem ao clube santista. Assegura que em Angola não conhece projecto nenhum com a dimensão daquele concebido pela direcção de Ismael Diogo.

“É um grande clube que tem um projecto bem definido, bem montado e que merecia todo o respaldo das pessoas que conhecem o futebol, mas que por qualquer motivo não foi implementado. Lamentamos profundamente, mas encorajamos o dono do clube, no sentido de procurar levar avante este projecto”, disse.

“Espero que a imagem do Santos volte a ser o orgulho de todos quanto torcem por ele e de milhares e milhares de adeptos da Samba e Morro Bento, para que a mística do Santos seja recuperada. Não podemos deixar cair sem brilho nem dignidade todo um projecto que foi lindamente criado. Estamos muito magoados com esta situação”, desabafou Mário Calado.


NO SANTOS FC
“Atletas deixaram
de trabalhar felizes”


Mário Calado considera que outra das razões que influenciaram a má época do Santos FC foi a inversão do ambiente constatada no balneário e treinos da equipa. Segundo o antigo técnico dos santistas, devia-se fazer um esforço para que os atletas pudessem trabalhar felizes.

“Chegou uma altura em que os jogadores do Santos deixaram de treinar felizes e as pessoas nunca intervieram ou aconselharam o proprietário do clube de uma forma frontal sobre a realidade do clube. Quando se tenta escamotear a verdade as consequências são sempre negativas”, admitiu Mário Calado.

“Os jogadores não estavam felizes e quando não se está feliz, de certeza que não há resultados desportivos. Para muitos pode ser surpresa, mas quem conhece o Santos e o seu percurso de há quatro anos atrás, já adivinhava uma situação muito critica”.

O experiente treinador acredita ter sido um erro tremendo a atribuição da responsabilidade de comandar tecnicamente a equipa a "um conjunto de profissionais que não têm muita experiência", para um clube que já é “praticamente tradicional”, e com um histórico a nível do futebol angolano e africano digno de registo.

“A CAF e vários clubes africanos recorreram a estudos para saberem quem é o Santos FC e o que fez, por que razão este clube nunca foi falado antes a nível do futebol continental e aparece a fazer história", recordou o obreiro de uma das melhores façanhas protagonizadas pelo Santos FC no seu historial de participações nas competições africanas de clubes.

"Então, devia-se ter um pouco mais de respeito por esta instituição, no sentido de se preservar toda a sua imagem e história, para que o bom-nome do clube continuasse sempre a vincar no futebol nacional”, defendeu.


Antigo treinador inconformado
com a despromoção do Santos

Técnico ficou muito surpreendido
com baixo nível da equipa no Girabola


A despromoção do Santos FC para a segunda divisão nacional é consequência da aposta errada de jogadores e de alguma inexperiência da direcção técnica. Quem o diz é Mário Calado, antigo treinador principal da equipa do Morro Bento.

Em entrevista ao Jornal dos Desportos, em reacção à descida de divisão da equipa que, em 2009, eliminando o “gigante” Al Ahly do Egipto nas preliminares, ajudou a escrever com "letras de ouro" a sua primeira grande experiência nas eliminatórias de acesso à fase de grupos da Taça da Confederação, Mário Calado disse ter quase plena certeza de que existe um culpado deste descalabro da equipa.

“Não sei se este afastamento do Santos resultou de uma decisão estratégica da direcção ou se é simplesmente devido ao baixo nível competitivo da equipa. Tenho as minhas reticências, porque do ponto de vista competitivo, há muito se notou que a equipa tinha um défice visível, não só na qualidade dos jogadores como na própria direcção técnica”, constatou o ex-timoneiro do clube do Morro Bento
.
“Penso que devia reforçar-se a equipa técnica, pois as pessoas que estavam no comando precisavam de mais experiência e mais conhecimento da realidade desportiva do país. Com a ajuda de outras pessoas, talvez os treinadores pudessem crescer de forma mais uniforme, mas isso não aconteceu”, acrescentou o professor Calado.

O antigo técnico dos santistas sublinhou que o declínio da equipa há muito era visível, razão pela qual desconhece os motivos de a equipa permanecer sem reforço. Mas as responsabilidades no recrutamento de reforços, tinha de ser "única e exclusivamente do treinador e não de pessoas que nada tinham a ver com a área técnica", opinou Mário Calado.

Mário Calado diz ter sentido essa influência "extratécnicos" nos tempos em que esteve no comando da equipa, porque "era muito visível no Santos FC", até que deu um 'murro na mesa'.


“A essência do clube foi quebrada”

A quebra da construção do projecto futebolístico do Santos FC, disse o seu antigo treinador, enfraqueceu o clube na sua totalidade. Mário Calado assegura que deixou de se manter a essência e os princípios defendidos com a criação do clube do Morro Bento e como resultado todo o trabalho foi descaracterizado.

“A aposta na formação era a essência do Santos, mas tudo isso foi quebrado e deu-se mais ênfase à contratação de jogadores estrangeiros que jogavam em Portugal em equipas sem expressão e nas competições amadoras. Trouxeram também muitos angolanos que estavam fora do país e que descaracterizaram a equipa, o resultado é este”, lamentou o treinador.

“Quando se desvirtuam os projectos de forma radical, a consequência é esta.

Lamentamos a situação porque é fruto que nós preparámos e gostávamos que fosse visto e saboreado por muito mais pessoas”, acrescentou.

Mário Calado concorda que é a outros que cabe dizer quem é o responsável dos problemas actuais, mas garante que “quem está dentro do Santos FC sabe quem é o causador do mal-estar que o clube atravessa”.


EQUIPA TÉCNICA

“Quem escolhe jogadores
deve treinar a equipa”


O antigo treinador do Santos FC lamenta o facto de haver no seio do clube santista algumas pessoas que fazem o trabalho do treinador. Sem citar nomes, Mário Calado deplora a imposição de jogadores ao treinador, por elementos estranhos à equipa técnica.

“Quando as pessoas querem escolher jogadores, devem ter a responsabilidade de treinar a equipa e nunca escolher para os outros treinarem. E quando nos são impostos jogadores, a responsabilidade passa a ser de quem escolheu. E quem escolheu os jogadores, quando a equipa desce de divisão, por uma questão de carácter, devia pegar na equipa e colocá-la novamente na primeira divisão”, defendeu o ex-técnico santista.

“Se fosse eu o responsável pela despromoção, trabalhava até de graça e fazia tudo para devolver a equipa à primeira divisão, porque fiz coisas negativas e tinha de rever a situação de forma a deixar tudo na normalidade.”

O técnico confessa estar “triste e surpreendido” com o percurso do Santos FC no Girabola 2013, por conhecer o clube na sua totalidade. "Vivemos um período de glória com esta equipa, trabalhando arduamente para materializar um projecto único em Angola."

“Nenhum clube tradicional tem um projecto idêntico ao do Santos e desconheço a razão pela qual até ao momento ele não foi implementado. Fizemos um esforço e ajudámos a trazer profissionais para aplicar nessa grande infra-estrutura, que estava para ser erguida para o desenvolvimento do futebol, não apenas do clube, mas para o país”.