Jornal dos Desportos

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Entrevistas

"Deixei o Benfica de Luanda por falta de condies de trabalho"

Leonel Librio - 12 de Novembro, 2012

Humberto Chaves est agora ao servio dos militares do Rio Seco

Fotografia: Jornal dos Desportos

Jorge Humberto Chaves, que treinou o Benfica de Luanda até à10ª jornada do Girabola, fala sobre o que o motivou a deixar as “águias”. O agora técnico ligado ao futebol de formação do 1º de Agosto diz que o título do Girabola está bem entregue ao Recreativo do Libolo, ao mesmo tempo que refere que o projecto de futebol jovem dos “militares” se vai transformar no viveiro da equipa sénior. O treinador considera equilibrado o grupo de Angola, na fase final do CAN-2013, na África do Sul, do qual fazem parte as selecções do país anfitrião, do Marrocos e de Cabo Verde. “O desempenho no primeiro jogo é preponderante para as nossas aspirações.”

Jornal dos Desportos  - O senhor foi contratado no início da época de 2012 para dirigir o Benfica de Luanda. O que esteve na base da rescisão contratual, na 10ª jornada do Girabola?

Jorge Humberto Chaves  – Fui convidado para fazer parte da estrutura do Benfica de Luanda, na época de 2012. Quando aconteceu a apresentação, fiz uma série de exigências, entre as quais, uma que estava ligada à disposição de um campo, onde pudéssemos realizar as sessões de treino.Infelizmente isso não aconteceu. No Brasil, na pré - época, desenvolvemos de forma salutar o nosso trabalho e prova disso é que quando regressámos, estivemos à frente do campeonato durante algumas jornadas. Por causa da falta de condições adequadas para efectuarmos o trabalho, os objectivos começaram a ir por água abaixo. Muitas vezes fomos obrigados a realizar o trabalho na ilha de Luanda. Houve vezes que quando devíamos efectuar duas unidades de treino, realizámos apenas uma. Dentro do nosso programa, tínhamos de Janeiro a Março programado 100 unidades de treino, das quais apenas conseguimos efectuar 62, a maioria das quais no Brasil.

JD – Qual foi a posição da direcção do clube em relação a essa questão?
JHC
– Houve promessas que nunca foram cumpridas, de que haviam de arranjar o campo. Sabemos que esse tipo de problemas tem reflexo no balneário. Por exemplo, quando tínhamos que utilizar os campos do ASA ou do 1º de Agosto, éramos obrigados a esperar até às 12h00, altura em que os juniores desses clubes acabavam de treinar. Algumas vezes os atletas eram obrigados a equiparem-se junto à relva e isso não é bom para o balneário. Devo enaltecer o espírito de profissionalismo evidenciado pelos atletas por tudo aquilo que fizeram. Toda a gente sabe que depois de eu ter saído, a equipa também viveu o problema relacionado com o atraso no pagamento de salários, o que motivou algumas greves. Mesmo quando eu ainda estava no clube, já se faziam sentir esse tipo de dificuldades. Houve uma altura em que estivemos três meses sem salários e sem prémios de jogo. Foram situações negativas e numa dessas vezes tentei manter um encontro com a presidente do clube, para debatermos essa e outras questões, o que não foi possível. A partir daí, afastei-me do clube.

JD – O que a direcção do clube lhe pediu, em termos de objectivos, no início da época?
JHC –
O que ficou acordado entre mim e a direcção do clube foi alcançar uma posição superior ao 13º lugar, alcançado no campeonato anterior, por sinal a mesma desta época. Penso que dei tudo o que estava ao meu alcance. Aproveito para enaltecer as pessoas que continuaram o projecto e souberam ultrapassar os momentos difíceis que fizeram com que a equipa não descesse de divisão.  

JD – O que se lhe oferece dizer em relação ao trabalho efectuado pelo técnico Abílio Amaral, então seu adjunto?
JHC –
Fez o que esteve ao seu alcance. Nas condições em que o clube vive, é extremamente difícil fazer melhor. Sem mágoas com alguém, aconselho os meus colegas a não aceitarem trabalhar com equipas que não disponham de campo próprio, como forma de se evitar problemas que se reflectem no rendimento do conjunto.

REALIDADE
“Os treinadores
vivem dos resultados”

JD – No Girabola de 2012, foram despedidos oito treinadores. Como técnico, que opinião tem sobre as “chicotadas psicológicas”?
JHC –
São coisas más. Os treinadores vivem dos resultados. Muitas vezes, os despedimentos dos treinadores surgem em função do facto de direcções dos clubes não cumprirem a criação de condições para o trabalho dos técnicos e atletas. É necessário que haja mais seriedade dos dirigentes na criação de condições de trabalho. Alguns dirigentes deviam ter a cultura de colocar os seus lugares à disposição, quando um determinado projecto não vingue por falhas suas.

JD – Neste aspecto, qual seria o papel a ser desenvolvido pela Associação Nacional de Treinadores de Futebol (ANTF)?
JHC
– É um órgão que faz imensa falta, pois muitas vezes as coisas se encaminham para o conflito laboral e o treinador não tem onde se dirigir em busca de aconselhamento. É preciso que também seja efectuada o mais breve possível a requalificação dos treinadores para que se saiba a que nível pertencem e em que escalões estão habilitados a treinar. L.L.

SUGESTÃO
“Dirigentes que não cumprem
devem todos ser demitidos”

JD – Que apreciação faz sobre o Girabola de 2012, que mesmo tendo chegado ao fim, ainda falta ser homologado pela Federação Angolana de Futebol?
JHC
– Ano após ano, o Girabola melhora de nível. Penso que estamos no bom caminho. Para que melhore mais, é necessário que as direcções dos clubes ofereçam as condições ideais para que nós, treinadores, continuemos a formarmo-nos da melhor maneira e que os atletas possam evidenciar mais, o que melhor sabem fazer, para que o futebol de Angola possa atingir patamares mais elevados a nível do continente africano.

JD
– Os nove pontos que separaram o campeão do vice - campeão e o facto de o Recreativo do Libolo ter alcançado o título de forma antecipada, não retira um pouco o nível competitivo da prova?

JHC
– Nem por isso. Embora pudesse haver um pouco mais de aproximação em termos pontuais entre os primeiros classificados. Isso não retira a qualidade de nível acima da média, evidenciado pela maioria das equipas. Devemos torcer para que apareçam mais equipas das províncias, como no tempo colonial em que também havia equipas muito fortes no interior de Angola. Penso que o caminho será esse. O futebol no interior de Angola será mais forte, em função da melhoria das condições de vida que se observa. Vamos torcer para que apareçam mais “libolos” e mais “caálas”, para que o futebol de Angola seja mais forte e competitivo.

JD – Em termos organizativos, o Girabola de 2012 superou os anteriores?
JHC –
Fiquei extremamente satisfeito. Houve muitos problemas de âmbito conjuntural, como o que aconteceu com o ASA, que é extremamente negativo, assim como os que ocorreram com o Benfica de Luanda, Sporting de Cabinda, Académica do Soyo e Nacional de Benguela. Quando surgem faltas de comparência, a verdade desportiva fica tremida.
trega do troféu de campeão

INVESTIMENTO
“1º de Agosto desenvolve
uma pirâmide desportiva”

JD – Como quadro técnico, o senhor participa no projecto de desenvolvimento do futebol jovem que o 1º de Agosto desenvolve de há um tempo a esta parte. Pode falar um pouco sobre o que pretendem atingir com esse projecto?

JHC – Trata-se de um projecto eminentemente técnico, no qual participam mais de 400 crianças com idades compreendidas entre os seis e os 19 anos, que visa desenvolver o futebol a nível interno do 1º de Agosto. O mesmo versa a formação integral do homem e a vertente competitiva, para que possamos todos os anos lançar jovens para o escalão sénior, embora ao longo destes anos todos nunca tivéssemos deixado de lançar jovens para os seniores. Pretendemos que seja uma coisa mais estruturada com as condições que estão a ser criadas, de forma que o clube tenha sempre o seu viveiro para alimentar a equipa principal.

JD – Para que as pessoas tenham uma ideia mais profunda, pode-nos dizer como esse projecto é desenvolvido?
JHC
– Actualmente, estamos na fase da construção das infra-estruturas. Neste momento, dispomos de duas quadras em que efectuamos os treinos.Estão em fase de desenvolvimento a criação das estruturas de apoio direccionadas para o desenvolvimento do futebol no clube. Com este projecto, vamos com certeza dar prioridade aos jogadores formados por nós, e outros nacionais, reduzindo assim a contratação de estrangeiros, muitas vezes sem a qualidade desejável.
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