Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Deixo a APF da Hula com misso cumprida

Benigno Narciso, no Lubango - 20 de Fevereiro, 2012

Moutinho lamenta ausncias de equipas huilanas na Primeira Diviso

Fotografia: Jornal dos Desportos

Fernando Baptista Moutinho é um nome que dispensa apresentações no dirigismo desportivo nacional, em particular na província da Huíla, onde nos últimos 16 anos esteve na direcção da associação provincial de futebol local (APFH). A um mês para deixar o “cadeirão” máximo do órgão que rege a modalidade nas terras altas da Chela, Moutinho assegurou ontem, em entrevista ao Jornal dos Desportos, que se sente com o espírito de missão cumprida e que a escolha da região para uma das sedes do CAN 2010, foi o ponto mais alto da sua gestão. A realização dos campeonatos provinciais nos escalões de formação e de seniores no seu mandato, a reestruturação da sede social da APF e a aposta em jovens para dirigir o futebol na região são outros ganhos apontados pelo nosso entrevistado. Contudo, Fernando Moutinho lamenta o facto de deixar a gestão da modalidade sem qualquer equipa na Primeira Divisão Nacional.

Está há 16 anos, ou seja, quatro mandatos na presidência da Associação Provincial de Futebol da Huíla (APFH). A um mês para deixar o cargo, que balanço se lhe oferece fazer da longa liderança no cadeirão máximo do órgão que rege o desporto-rei na província?
Estive de facto em quatro mandatos. Dois como vice-presidente e dois como presidente. O balanço que posso fazer é, digamos positivo, uma vez que durante todo esse tempo desenvolvemos várias actividades ligadas ao futebol, conseguimos recuperar a sede da associação provincial, realizámos em todos os anos os campeonatos nos escalões de formação e em seniores, tivemos equipas na Primeira Divisão, na Segunda Divisão, por isso, o balanço é deveras positivo.

Sente-se em função disso com o espírito de missão cumprida?
Acho que sim. Todos nós no futebol na Huíla somos unânimes de que durante todo esse tempo demos o nosso melhor que podemos e sentimo-nos com o espírito de missão e dever cumprido.

Acha que deveria fazer mais do que fez durante o seu consulado como presidente da APFH?
Gostaria imenso de preservar as nossas equipas na Primeira Divisão. Gostaria de no último ano do mandato que pudéssemos ter, nomínimo, uma equipa no principal Campeonato Nacional. Tudo fizemos para que isso fosse possível, mas infelizmente não conseguimos. Ainda na secretaria tentámos tudo para que pudéssemos deixar pelo menos o Clube Desportivo da Huíla na Primeira Divisão, porémnão conseguimos. Mas em todo o caso, sentimo-nos com o dever de missão cumprida todas as nossas responsabilidades.

Como caracteriza o futebol huilano depois de 16 anos que esteve na presidência da APF da Huíla?
O futebol na província da Huíla enfrenta imensas dificuldades. Sabemos que o futebol é uma modalidade que inflama paixões, arrasta multidões e também arrasta milhões. Por isso é preciso que haja sempre dinheiro para que os clubes consigam se manter como tal. Há também uma débil organização, as próprias direcções dos clubes não se empenham na sua profundidade, levam a actividade muito ao de leve e isso preocupa-nos. Era por isso, necessário que houvesse de facto maior empenho por parte dos próprios clubes e que houvesse da parte do próprio empresariado e do Estado, maiores apoios.

O que é a APFH fez durante este tempo para inverter o quadro actual?

Demos dignidade à associação provincial e ao próprio futebol. Colocámos, pelo menos, teoricamente, a associação nos maiores patamares ao nível da Federação Angolana de Futebol (FAF), por isso, hoje a APF da Huíla é uma associação com dignidade e respeitada. Nos impusemos, cumprimos com as nossas tarefas, mas também exigíamos tudo aquilo que FAF devia a associação. Mas o futebol é mesmo assim, por isso estamos empenhados agora em formar uma nova geração de jovens dirigentes desportivos, este é o motivo que faz com que eu me retiro da direcção, mas vou para a Assembleia-Geral, para dar todo o meu apoio, para que o futebol não morra e consigamos assim preservar as vitórias conseguidas durante os 16 anos de mandato.

Qual é o legado que deixa para o futebol huilano?

Deixo a associação com uma estrutura condigna. Depois da realização do CAN de 2010, e que fui director executivo na Huíla, ficam infra-estruturas de grande nível, o Estádio Nacional Tundavala, construído para o efeito; o estádio do Clube Ferroviário da Huíla, completamente reestruturado, o estádio do Benfica Petróleos do Lubango, também completamente reestruturado, e o estádio da Nossa Senhora do Monte. Faltou apenas a implantação das pistas de tartan para o atletismo. Mais são outros quinhentos que serão completados pelo Ministério da Juventude e Desportos. Tivemos o cuidado de deixar uma nova geração de dirigentes para o futebol com grande nível. Por isso, ao transitar para a Assembleia-Geral, vamos de coração tranquilo e completamente relaxados, porque sabemos que deixámos uma nova direcção de dirigentes do futebol, capazes de continuarem o trabalho que iniciamos.

O que se pode esperar, na realidade, dessa nova geração de jovens dirigentes a que se refere?  
Sabe que agora é necessário potenciar a juventude, é necessário atribuir cargos de responsabilidade aos mais novos. Nós que pertencemos a uma geração que transitou da era colonial, achamos que é nosso dever colocarmos os jovens já neste momento a dirigir, mas nunca os abandonando, continuando a apoiá-los na assessoria e na Assembleia-Geral.

Clubes sempre exigiam
a minha recandidatura”


Quando em 2008 colocou o cargo à disposição, não surgiram candidatos à sua sucessão. O que se lhe oferece dizer sobre o assunto?
Foi com alguma tristeza que comecei a verificar que os jovens não queriam assumir. Achavam a função de grande responsabilidade, então, começaram a fazer um recuo estratégico. Fomos sensibilizando, falando com todos os dirigentes, com a nova geração de dirigentes, falando que era necessário que uma nova geração tomasse as rédeas do futebol da província, contando sempre com o nosso apoio, por isso, ultimamente, vemos que de facto já há maior aceitação para o exercício dessa função.

Acha que a falta de candidatos terá se verificado por falta de capacidade ou desinteresse?

Não. Sabe que sempre que pensava em não me recandidatar, os dirigentes dos clubes e amantes do futebol exigiam que me recandidatasse e que permanecesse mais algum tempo à frente da presidência da APFH. Não podemos permanecer nos lugares durante toda a vida, por isso, houve a necessidade premente de sair e deixar os jovens no meu lugar. Ainda hoje nota-se uma certa reticência, ainda querem que eu continue, mais acho que não. Depois de 16 anos, em quatro mandatos, é altura de passar as pastas a uma nova geração para que o futebol não morra na província da Huíla, antes pelo contrário, que se fortaleça.

“Realização do CAN’ 2010
foi o ponto alto da gestão”


A província da Huíla foi uma das sedes da 27ª edição do CAN que Angola acolheu em 2010. A realização dessa competição pode ser considerada a “mascote” da sua gestão nos 16 anos que esteve na APF, uma vez que o senhor foi o director executivo da Comissão Executiva local?
Sem sombra de dúvidas. O ponto mais alto de todo esse período (16 anos na gestão da APF) foi a escolha da Huíla para a realização de uma das séries do CAN 2010, e consequentemente a minha nomeação para director executivo da Comissão Executiva local.

E o inverso? Ou seja, podemos falar em pontos baixos durante a sua gestão?
È lógico. Embora não goste de falar disso, o ponto baixo da nossa gestão foi o facto de ter lutado contra tudo e todos, exercido e colocado todas as nossas capacidades e o nosso poder e não termos conseguido recolocar o Clube Desportivo da Huíla (CDH) na Primeira Divisão. Foi de facto frustrante, quando até os regulamentos previam que o CDH seria o vencedor da Série B na disputa do Campeonato Nacional da Segunda Divisão, para que estivesse este ano no Girabola. Essa foi a parte mais frustrante para mim.

Ainda assim, existem ganhos de que se pode gabar por ter introduzido e ajudado a “revolucionar” o futebol huilano?
Uma nova mentalidade no dirigismo desportivo e o facto de a nível das Assembleias-Gerais termos ganho o respeito da direcção da Federação Angolana de Futebol. Hoje a FAF vê a província da Huíla com outros olhos, respeita, sabe que os nossos posicionamentos têm sido bastante válidos. Uma das coisas que mais nos impressionou durante este mandato foi também o facto de ter sido a APF da Huíla, numa das assembleias, ter exigido que o Girabola e a Segunda Divisão fossem apenas disputados em campos relvados. Disso podemos nos gabar, porque foi de facto uma proposta nossa, válida e que com alguma imposição conseguimos fazer com que o Girabola e o Campeonato da Segunda Divisão fossem apenas disputados em campos relvados.

Defende também que a província da Huíla é a segunda praça futebolística do país?
É sem dúvidas. A Huíla é a segunda maior praça do futebol nacional, é a província que realiza todos os anos os campeonatos provinciais, desde os infantis aos seniores, passando pelos femininos e velha guarda. Somos, em fim, o segundo maior pólo do futebol do país. Somos a única província que até hoje consegue realizar campeonatos inter-municipais a nível de selecções e que tem equipas dos municípios a disputar os campeonatos provinciais. O ano passado tivemos duas equipas da Matala, uma da Cacula e outra da Chibia a disputar o Campeonato Provincial em seniores. Somos pioneiros nisso e temos orgulho e vamos continuar a nos orgulhar disso.

Moutinho reconhece
que houve dificuldades


Senhor presidente cessante. Foi difícil gerir os destinos do futebol huilano durante esse tempo todo?
Sabe que apanhamos três direcções da Federação Angolana de Futebol (FAF). Todas trabalharam ao máximo, mas com as dificuldades que todos conhecemos, não foi possível ter realizado os nossos sonhos e ter levado para patamares mais elevados o nosso futebol.Quer com isso dizer que os apoios nem sempre existiram para que pudesse elevar ainda mais os feitos que diz ter alcançado à frente

da presidência da APF da Huíla?
A nível local, tivemos o apoio necessário, por isso estivemos bem. Acho que não existem pacotes ou orçamentos para determinadas modalidades. O trabalho caminha para este sentido e acho que o Governo central, a partir de agora, irá atribuir verbas para a alta competição, para o apoio das associações, em fim, acho que ao nosso nível estivemos muito bem.

Em que patamar pretende ver o futebol huilano no futuro?
Gostaria imenso de ver equipas da província a disputarem o Girabola, sem termos o complexo de subirmos e descer todos os anos. Ter uma certa estabilidade organizativa a nível das direcções dos clubes, a nível da própria APF e a nível financeiro. Gostaria de que de facto a Huíla tivesse, permanentemente, no mínimo uma equipa no Girabola, porque com a quantidade de infra-estruturas, quatro estádios relvados, um clima espectacular, alimentação acessível e barata e hotéis de grande nível, gostaria que de facto o futebol huilano se pautasse no mais alto patamar e que na província se realizassem todos os anos, um torneio internacional de futebol para dar dignidade e uso as infra-estruturas que temos.

Empenho
valeu-lhe ouro


Que lembranças guarda do início desta longa passagem pela presidência da APFH? Começou também jovem ou nem por isso?
Lembro-me perfeitamente. Acabava de chegar de Benguela, onde ainda jovem era já um exímio dirigente do Clube Estrela 1º de Maio. Porém, na província da Huíla não comecei com o futebol, mas como presidente da Associação Provincial de Karaté, posteriormente é que transitei para o futebol, primeiro como vice-presidente do Inter Clube da Huíla e mais tarde, devido a minha forma de ser e o meu empenho, os homens do futebol acharam que deveria começar a me encostar na altura ao presidente da APF da Huíla, uma pessoa muito querida e que mantemos um respeito particular, que é o senhor Pedro Rodrigues Garcez. A partir daquela altura fui ganhando experiência, primeiro nos dois mandatos como vice-presidente e no terceiro mandato já como presidente, funções que desempenhei até agora.

A sua entrada para o dirigismo desportivo deu-se exactamente em que período?
Estamos a falar dos anos 90, 92 do Século XX, foi quando comecei como vice-presidente do Inter Clube da Huíla, e em 1994 cheguei a vice-presidente da APF da Huíla. Em 2001 cheguei a presidente, altura em que fui eleito para o cargo que desempenhei até agora que chegou a hora de deixar essas funções para a geração mais jovem.