Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

Desportivo da Hula aposta em reforos

Aro Martins , no Lubango - 25 de Dezembro, 2017

Em entrevista ao Jornal dos Desportos, o director administrativo e financeira, do nico representante das terras altas da Chela no Campeonato Nacional da Primeira Diviso clube, Ezequias Domingos, fez uma avaliao do momento actual do futebol, as dificul

Fotografia: Edies Novembro

Em entrevista ao Jornal dos Desportos, o director administrativo e financeira, do único representante das terras altas da Chela no Campeonato Nacional da Primeira Divisão clube, Ezequias Domingos, fez uma avaliação do momento actual do futebol, as dificuldades que muitos enfrentam e possíveis soluções para amenizar a crise.

Depois de uma campanha de altos e baixos na época finda, como é que a direcção está a preparar administrativamente as próximas duas competições?
“Estamos a preparar-nos em função da actual conjuntura. Sabemos que a situação económica e financeira do Mundo e do país em particular tem vindo também a afectar os clubes e não podemos esconder essa realidade. Ainda assim, estamos a tentar criar condições que visem manter uma certa estabilidade para a próxima época”.

Já é possível falar de reforços e saídas?
“Em relação ao plantel da temporada finda posso garantir que estamos a trabalhar para permanecermos com o grosso do plantel principal do ano passado, na ordem dos setenta porcento. Quero garantir que alguns jogadores vão ser dispensados porque não apresentaram níveis com­pe­titi­vos que pudessem dar garantia aos membros da equipa técnica”.

Fala-se também da saída de alguns atletas influentes, o que pode adiantar-nos a este respeito?
“Como é sabido, alguns jogadores que se apresentaram bem na época passada estão a ser cobiçados e possivelmente podem representar outras colectividades desportivas, que do ponto de vista financeiro oferecem melhores condições que o Clube Desportivo da Huíla. Acredito que estes irão sair e representar outras colectividades”.

Pode adiantar nomes?

“Posso destacar a saída do Muenho, atleta que a época passada foi um dos que mais se notabilizou e, por aquilo que ele nos comunicou vai representar o Sagrada Esperança da Lunda Norte, formação que anunciou publicamente a pretensão de lutar para o título. Esta é a saída de maior realce. Os outros que saírem serão mais por opção técnica”.

Falou em vários, mas apontou apenas um nome?
“Neste momento não podemos anunciar mais nomes porque decorre ainda alguns acertos relativamente à vinda de novos atletas. Mas, aqueles que irão sair são atletas que já não têm vínculos com o Desportivo da Huíla e os seus contratos terminam praticamente no fim do ano. No momento certo, vamos fazer chegar a comunicação. Eu não tenho aqui dados, mas creio que temos 8 a 10 atletas, dos três sectores, que assinaram por uma e outros por duas épocas, que em principio, salvo por indicação contraria do treinador Mário Soares, têm a continuação garantida”.

De um tempo a esta parte o Desportivo da Huíla tem fornecido jogadores aos clubes que lutam pelo título, com destaque para o Petro e 1º de Agosto. Isto demonstra que o investimento na formação tem sido a grande aposta da direcção?

“Claro. Temos estado a dizer que o Desportivo da Huíla é um clube de pequena dimensão e do ponto de vista de capacidade estrutural ainda não reúne condições para competir com os de maior dimensão em Angola, como é o caso do 1º de Agosto, Interclube, Petro de Luanda, Sagrada Esperança da Lunda Norte, Kabuscorp do Palanca, Recreativo do Libolo e posso também incluir o Progresso do Sambizanga. Não estamos ao nível da estrutura destes clubes”.

Ainda assim, todos os anos lançam atletas no mercado que atiçam o interesse dos considerados grandes do futebol nacional?
“As próprias condições climatéricas que a cidade do Lubango, província da Huíla, oferece e a política traçada pelo clube que passa por potenciar os jovens faz com que muitos deles que chegam ao clube, ainda no anonimato, passados uma ou duas época despontem. Quando assim acontece, criam nova cobiça por parte dos grandes clubes. Esta tem sido a sina do Desportivo da Huíla. A cada época que passa perdemos as nossas melhores unidades”.

Pelos vistos, a direcção está consciencializada que no final de cada ano podem perder um dois atletas?

“O ano passado, por exemplo, tivemos o caso do avançado Nandinho que foi para o Petro de Luanda, o Cassinda para o Kabuscorp do Palanca. Temos ainda atletas com idades na mediana, como são os casos de Dani Traça que foi para o Sagrada Esperança da Lunda Norte e o Tchitchi para o Progresso da Lunda Sul”.

Isto só prova que a aposta da direcção tem dado os frutos preconizados?

\"Tudo isso é fruto das temporadas positivas e competitivas que o Desportivo da Huíla tem estado a realizar. Se reparou, o final da época 2017, fundamentalmente na segunda volta, o Desportivo da Huíla fez um campeonato com muita dinâmica em termos de vitórias e bons resultados. Tudo isso criou interesse por parte de alguns clubes em contactar e negociarem os nossos atletas\".

CLASSIFICAÇÃO
“Primeiro a preferência
e depois os objectivos”


A continuidade do técnico Mário Soares a frente do Clube Desportivo da Huíla é uma certeza?
 “Sim. O ano passado quando Mário Soares veio para o Desportivo da Huíla assinamos o contrato válido por quatro anos. Não houve manifestação por parte do treinador em deixar o clube e nem há também interesse do Clube em prescindir dos seus préstimos. Mário Soares já está a preparar a época e temos estado a conversar. Estamos a reunir condições para que na primeira semana de Janeiro começamos a trabalhar”.

A direcção traça como meta a permanência no Girabola e, por conseguinte, a melhoria da classificação. Para quem ocupou a 8ª posição no recém-terminado campeonato nacional, de certeza que augura  melhorar alguns degraus?

“Por vezes, tenho o hábito de afirmar que é muito difícil definirmos objectivos. Se eu garantir que vamos lutar para o título, não estarei a ser realista. Se Vamos lutar para os primeiros cinco lugares, também não estarei a ser realista, porque não temos essa estrutura, mas pode acontecer. A título de exemplo, se na época 2016 tivéssemos sido mais eficientes em casa, poderíamos, se calhar, nos classificarmos nos primeiros cinco lugares. Agora dizer que no próximo ano vamos aumentar à fasquia em termos de tabela classificativa e definir o título, não estaria a ser pragmático”.

Sendo assim, a aposta da direcção é realizar uma campanha tranquila e classificar-se na melhor posição possível? 

“Somos daqueles que traçam a preferência e depois os objectivos. De princípio temos o objectivo primário, que é de ficar entre os 10 lugares. Esses são os objectivos primários. Significa dizer que tudo que ocorrer nesse espaço enquadra-se nos nossos objectivos, mas as surpresas podem acontecer”.


Há alguns clubes
com tendência
para desaparecer


Ao longo da época finda muitas equipas enfrentaram dificuldades financeiras e chegaram mesmo a colocar em risco a sua continuidade na prova. Que avaliação faz da situação financeira do Desportivo da Huíla?
“Este ano foi difícil, devemos reconhecer isso. Não podemos tirar o futebol da realidade económica que se vive. Se repararmos, Angola é um país que atravessa uma crise conhecida por todos nós e tem muita influência nos clubes. Como é do conhecimento público, muitos dos clubes ainda vivem do financiamento de algumas instituições do Estado que também enfrentam dificuldades. O sector privado ainda não tem capacidade neste momento de corresponder com aquilo que é a demanda das colectividades desportivas”.

A nível do associativismo não têm tido receitas para fazer face as inúmeras necessidades?
“Vivemos um fenómeno em que o associativismo desportivo não está muito enraizado nos cidadãos, porque dificilmente os adeptos ou sócios pagam quotas. O que existe, não é possível suportar o Girabola, já que os clubes têm essa dificuldade do ponto de vista de sustentabilidade, porque as instituições privadas também têm as suas preocupações e recusam-se na generalidade em apoiar os clubes. Por isso, é que assistimos os clubes com tendência a desaparecerem”.

Na sua óptica como é que os clubes devem agir para inverterem o quadro?
“Nós vivemos um modelo económico no passado que vigorou durante muito tempo, agora é outra fase e todas as instituições vivem momento de adaptação e de dificuldades. O ano 2018 também pode ser difícil e tudo pode a acontecer”.

Repito. Diante deste quadro, no seu ponto de vista qual é a maior dificuldade dos clubes em Angola e o que devem fazer para ultrapassarem as debilidades que enfrentam?

“Tenho dito que a maior dificuldade dos clubes em Angola prende-se com o facto de serem clubes que dependem de patrocinadores. A maior parte em Angola não têm fonte de sustentabilidade própria. Não tendo fonte de sustentabilidade, tornam-se vulneráveis. Se uma instituição que patrocina um determinado clube de repente decidir retirar o patrocino, o clube pode desaparecer e deixam de exercer a sua actividade fundamental. Estamos numa realidade socio-económica muito diferenciada das outras realidades”.

O que está na base deste mal que em nada dignifica o futebol nacional?
“Ainda notamos que o futebol em Angola não é prioridade. As atenções estão centradas no sector social, como a educação, saúde e outros. Com o futebol, não sendo prioridade, os clubes não têm muitas opções. O sector privado em Angola ainda é frágil, basta vermos anualmente quantas empresas decretam falência e acabam por desaparecer e outras a despedirem trabalhadores. Tudo isto, torna ainda mais estes potenciais patrocinadores que deviam dar suporte aos clubes a ficarem mais frágeis”.

Com a fraca participação dos sócios e o pouco apoio de algumas instituições, não acha que os clubes deviam ter outras fontes de rendimento?

“Os sócios que também auferem algum salário não têm capacidade de dar uma mensalidade de 20 ou 30 mil kwanzas a um clube para que este possa prosseguir com a sua missão. É um cenário difícil e temos que perceber isso, mas temos que lutar sempre para encontrarmos soluções para que o futebol não morra e continuarmos a desempenhar a nossa função”.


TAÇA DE ANGOLA
Direcção aponta custos como razão da ausência


Em 2013, o Desportivo da Huíla representou o país na TAÇA CAF, por via da Taça de Angola. Em 2017 esteve ausente na disputa desta competição e o próximo ano como será?
É verdade que o Desportivo da Huíla já esteve nas duas finais da Taça de Angola e uma das quais mereceu o mérito de representar o país nas Afrotaças,  isso aconteceu em 2014, num ano em que a realidade socioeconómica era outra. O país vive momento de crise desde finais de 2014 e inicio de 2015, com a queda do preço do petróleo, que trouxe uma alteração significativa da nossa economia.

Com a crise financeira a direcção repensou a estratégia e decidiu então definir prioridades?
O Desportivo da Huíla tem estado a priorizar o Girabola. Não adianta participar na Taça de Angola e no decorrer da prova declinarmos. Dai, temos estado a fazer contas e participar na prova em que temos de facto possibilidades de fazermos uma boa campanha. Aliás, a própria Federação Angolana de Futebol (FAF) tem estado a apelar isto. Os clubes que não têm capacidade financeira para entrar no Girabola e na Taça de Angola, não devem faze-lo.

Com a experiência da época finda pelos vistos esta posição é para manter por mais algumas épocas?
Ao fazermos a avaliação das nossas reais capacidades do ponto de vista financeiro, decidimos abdicar da Taça de Angola na época finda. Se tivéssemos capacidade para participar nas duas provas, faríamos, por isso, tivemos que traçar prioridades. O actual modelo da Taça de Angola define que a determinada altura da prova as equipas têm que efectuar dois jogos  para cada eliminatória. É benéfico, mas também traz custos. Se repararmos, uma equipa que começa a competir nos 16 avos de finais até ao final da Taça de Angola, realiza oito jogos com gastos financeiros na ordem de uma volta e com implicações nos prémios de jogos.


ESTÁDIOS
“A próxima época
teremos mais alternativas”


Este ano o CDH utilizou exclusivamente o estádio do Ferrovia em jogos oficiais e da Senhora do Monte como campo de treino. O cenário vai continuar em 2018?
A época passada, maioritariamente os nossos treinos foram feitas no estádio do Ferroviário da Huíla. Nós tínhamos uma média de quatro treinos por semana e em alguns casos três treinos por semana. Se vermos bem, dos dias de treinos durante a semana, tirando os de folga, maioritariamente treinávamos no Ferrovia e a Senhora do Monte era mais para sessões centradas para os aspectos físicos.

Pensam manter o mesmo cenário ou estão a trabalhar para terem outras alternativas?
Para a próxima época vamos ter mais uma alternativa que é o campo do Benfica do Lubango e por aquilo que temos estado a constatar, o campo deste clube vai estar em condições de ser utilizado pelo nosso clube e o campo da Nossa Senhora do Monte também vai entrar no processo de plantação de relva, a exemplo do que foi feito no campo do Ferrovia e do Benfica.

Isto quer dizer que para o ano as alternativas serão maiores?
Vamos colocar a relva tradicional que mais se adapta, se calhar, as nossas dificuldades, porque a relva que foi colocada no âmbito do Campeonato Africano das Nações (CAN´2010), por aquilo que é a nossa conjuntura social e dificuldades de água, de energia e até de dificuldades técnicas e material, pois estamos num país que vive à base de importação é a melhor solução. Se avariar uma bomba tem que se importar e tudo isto fez com que não tivéssemos grandes capacidades de manter esse tipo de relva. Estamos num processo de substituição.

É ponto assente que em termos de infra-estrutura estão bem servidos para realizarem uma campanha sem sobressaltos?
Estamos em crer que no princípio do segundo semestre de 2018, possamos ter na cidade do Lubango três opções, enquanto se aguarda pela recuperação da relva do Estádio Nacional da Tundavla, que oferece melhores condições, quer do ponto de vista de adeptos, comunidade, parqueamento de viaturas e acesso. O Estádio Nacional da Tundavala é o melhor estádio que oferece condições de albergar um jogo do Girabola.