Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Desporto escolar regista vazio

Jlio Gaiano - 14 de Agosto, 2010

Jos Pedro pede apoios de todos os lobitangas ao desporto de recreao

Fotografia: Jesus Silva

A secção municipal do Lobito está a organizar torneios infanto-juvenis de futebol em masculinos e femininos. O que se lhe oferece dizer sobre esse movimento desportivo?
Estamos a executar um vasto programa elaborado pela secção municipal da Juventude e Desportos. O programa é coordenado pelo chefe da repartição para os Assuntos Sociais. O movimento está a decorrer bem, embora haja alguns problemas de ordem material na maioria das equipas. Algumas não têm dinheiro para suportar os encargos da prova. Para minimizar a carência, adoptamos algumas cláusulas tendentes a minimizar os custos das equipas participantes, como ponderar nalgumas multas e castigos resultantes dos jogos. Foi assim que, em concertação com os responsáveis das equipas, se determinou ponderar as faltas de comparência e cartolinas vermelhas.

Quais as reais dificuldades que as equipas enfrentam?
As dificuldades são várias. Algumas equipas fazem a pé os percursos entre os locais de concentração e os campos, andando distâncias de 10 a 20 km. Não tem sido fácil, se tivermos em consideração que se trata de crianças de 12, 13 e 14 anos de idade. Algumas chegam ao local do jogo cansadas e sedentas. É uma tarefa dura gerir situações como essas, que devem envolver toda a sociedade lobitanga.

Quantas equipas movimentam em cada uma das provas?
Inicialmente, tínhamos 33 equipas, sendo 22 na classe masculina, e 11 na feminina, mas, devido aos problemas de materiais e à ausência de alguns incentivos, como lanches e transporte para os atletas, algumas equipas desistiram, reduzindo para 12 o número de equipas masculinas e seis formações femininas. Não estamos parados, o trabalho continua nas comunidades, no sentido de as termos de volta ao convívio desportivo nos próximos anos.

Houve uma empresa que distribuiu uma bola a cada equipa. O gesto diz-lhe alguma coisa ou foi uma gota de água no oceano?
Não devemos encarar as coisas nesse ângulo, até porque aprendemos dos nossos mais velhos que toda a oferta que nos é dada com bom coração, por mais pequena que seja, deve ser enaltecida. Logo, o gesto da COSAL, em distribuir bolas para as nossas equipas é a todos os títulos louvável, por isso, merecedor de reconhecimento da nossa parte. Aliás, o chefe de repartição dos Assuntos Sociais foi o primeiro a reconhecer o gesto da empresa. Portanto, as minhas preocupações são muito mais abrangentes, pelo que estaria satisfeito se a sociedade lobitanga se unisse em torno desse projecto de recreação, que no futuro, pode orgulhar-nos a todos, naturais e amigos desta parcela do território nacional.

Adulteração das idades
deve ser combatida


Nos últimos tempos, tem-se falado muito no problema da adulteração de idades. Têm tido problemas desse tipo?
A prática da falsificação das idades dos atletas tornou-se uma constante, tanto nos clubes como nas academias desportivas. O problema é nacional, senão mundial. Assim sendo, cabe a todos os homens de bem combater tais procedimentos, sob pena de queimarmos etapas dos nossos futuros jogadores. A adulteração de idades de atletas é uma prática que continuamos a combater. Os responsáveis das equipas foram aconselhados a abdicar de tais práticas, já que não estão em causa os resultados, mas o convívio entre os jovens atletas.

Há algumas equipas que ameaçam desistir dessas provas pelo facto de a organização permitir que algumas equipas continuem a utilizar atletas com idades duvidosas.
Estamos diante de uma questão desencontrada com a realidade dos factos. A adulteração é um facto, não só em Angola, mas em todo o mundo. O Lobito não foge à regra, apesar de lamentarmos que assim seja. Não faz sentido negar isso, é uma preocupação nossa e das instâncias superiores do município. Reconhecemos ser uma tarefa difícil, se tivermos em conta o princípio de que a ambição leva o homem a extremos.

Existem dificuldades em combater esse fenómeno?
O trabalho visa responsabilizar as pessoas ligadas ao processo de inscrição dos atletas. As dificuldades aumentam, quando apresentam documentos que comprovam as respectivas identidades. Os pais, os encarregados de educação e as direcções das escolas são as principais fontes de consultas. Agora, se estamos diante de falsificações ou não, compete a essas instâncias confirmarem o facto. O resto não passa de meras suposições até agora não comprovadas.

O que acontece quando há situações que indiciam a uma adulteração de idade?
À falta de documentos comprovativos da identidade, optamos pelo equilíbrio. Ou seja, rapazes com um porte físico maior do que os outros são colocados na baliza. Esta pode ser uma atitude menos aconselhável, mas foi a solução encontrada para não deixarmos ninguém de fora das provas.

"Pretendemos estender
a nossa acção às escolas"


Um dos objectivos do projecto é ocupar os tempos livres das crianças com práticas sadias. Existem outras actividades nesse sentido?
Ocupar a criança com a prática do desporto, evitando eventuais desvios para acções ilícitas, faz parte dos nossos objectivos. Ademais, existem outros objectivos, como recrear, criar e incutir nos petizes o espírito de camaradagem, de respeito e lembrar-lhes que o importante não é ganhar, mas jogar bem e limpo para dignificar o resultado alcançado em campo. Não importa a vitória, o empate ou a derrota. É preciso incutir nas crianças que o adversário, por mais duro que seja, não deve ser encarado como inimigo, mas como um irmão que joga numa equipa diferente pelo mesmo resultado: ganhar o jogo.

A massificação e o fomento do desporto no município não fazem parte dos vossos objectivos?
Na qualidade de quadro técnico do Ministério da Juventude e Desportos, estamos a fazer a nossa parte, com todas as dificuldades que se conhecem. Bem ou mal, estamos a fazer alguma coisa em prol do desporto local. Agora, que surjam outras forças com outras visões e melhores projectos. Sabemos que existem clubes, associações e academias desportivas que poderiam melhorar o projecto. Não o fazem, não podemos fazer por eles. Na verdade, era nossa intenção massificar e fomentar a prática desportiva no município, mas não nos esqueçamos que essa tarefa pertence a outros foros do desporto nacional, como as federações, associações, clubes e academias desportivas. Da nossa parte, as actividades circunscrevem-se a simples acções de recreação da garotada, que precisa de se divertir nos seus tempos livres, sobretudo aos fins-de-semana e ainda mais nos períodos de férias escolares.

Podemos concluir que o projecto visa preencher o vazio entre as actividades escolares?
Sem dúvida. Sentimos um vazio enorme em relação a actividades extra-escolares. As crianças não praticam o desporto escolar faz muito tempo, apesar dos esforços do executivo municipal para o seu relançamento. Foi por isso que convidamos algumas escolas para participarem das actividades promovidas por nós. Infelizmente, a maioria não acedeu ao nosso convite, alegando problemas técnicos e administrativos. É pena, mas não nos cansamos. Vamos continuar a batalhar no sentido de juntarmos mais escolas ao nosso projecto.

Quais os próximos passos a seguir?
Além de estender o projecto às demais escolas públicas e privadas do município, o próximo passo a dar será a institucionalização do projecto junto das instâncias competentes da província. Um acordo com a repartição municipal da Educação consta dos nossos projectos. Recentemente, contactei o coordenador municipal para as actividades extra-escolares nesse sentido. No encontro informal que mantive com o professor Wilson Camilo, chegámos a um pré-acordo de entendimento, que prometemos formalizar ao mais alto nível, tão logo amadureçamos o processo.

"Fraco ritmo competitivo
ditou a derrota dos Sub-20"

Como analisa a eliminação da Selecção Nacional de Sub-20 na campanha para o CAN da categoria?
À partida, diria que foi mau, porque perdemos e ficámos eliminados, atirando por terra todo um sonho alimentado por milhares de angolanos, que era de ver os nossos Sub-20 a desbobinarem bom futebol na Líbia, ao lado de outras oitos selecções. Não aconteceu. Não vamos chorar sobre o leite derramado. A derrota é um facto e isso não se pode inverter. Continuamos a registar um grande défice de atletas convocados nos escalões de formação. A maioria chega à selecção com poucos jogos nas pernas, fruto da fraca
competitividade no país. A continuarmos assim, dificilmente teremos uma selecção forte e capaz de nos proporcionar alegrias e glórias, como aconteceu na era dos professores Oliveira Gonçalves, Vesco e Carlos Alves.

Há quem atire as culpas para o actual seleccionador nacional ...
Se calhar, os que assim procedem podem ter as suas razões, pelo que devemos respeitá-las. Pelo que me chegou aos ouvidos, esse não é o problema. O problema é muito mais sério e devia ser bem estudado pelas estruturas competentes. Em comparação com as demais províncias, está em curso um campeonato com mais de 20 equipas de juniores em Luanda, perto de 30, em juvenis, e outros tantos em iniciados. Em Benguela, por exemplo, temos dez ou 11 equipas juniores, 12 juvenis e 15 de iniciados, isso para não falar de outras que nem passam de três equipas. Noutras províncias, não existem escalões de formação. Logo, para se fazer uma boa selecção nacional, os técnicos vão aonde encontram melhores alternativas. É o caso de Luanda. Havendo um maior número de equipas, há mais jogos e os atletas são mais rodados, embora isso não funcione nalguns aspectos.

Que avaliação faz da participação de Angola nos jogos da CPLP?
Contento-me com os resultados alcançados nas distintas disciplinas. Os atletas paralímpicos foram briosos, dignificaram mais uma vez o país, ao conquistarem três preciosas medalhas de ouro. Apesar das demais não terem tido a mesma sorte, fizeram o possível, deram o máximo e dignificaram Angola ao discutir os resultados com os adversários que foram superiores em campo. Daí a derrota, apesar de os relatos que nos chegavam colocarem em causa algumas vitórias contra as nossas equipas.

Considera que houve injustiça nalguns resultados contra as nossas equipas?
Por mais que queiramos ignorar esse pormenor, os factos não mentem. Foram os próprios organizadores e outros representantes de países participantes na prova a reconhecer a situação que em nada dignifica o desporto africano, já que o “gato” foi detectado nalgumas selecções dos PALOP. Diante dessa tamanha borrada, ao defrontarem contra os adultos, os nossos atletas, em idade real (Sub-17), nada podiam fazer senão contentarem-se com os resultados obtidos. É um mal que deve ser banido no desporto, sob pena de, no futuro, assistirmos a coisas piores, como por exemplo, um jovem de 25 anos de idade a jogar com adolescentes de 15 anos, só porque é franzino do ponto físico-estrutural.