Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

Director do Minjud quer nova atitude

Srgio V. Dias/no Cuito - 07 de Julho, 2014

Director do MINJUD quer aces para impulsionar a prtica das vrias modalidades

Fotografia: Edson Fabrizio

O novo director da Juventude e Desportos dos Bié admitiu, em entrevista concedida ao Jornal dos Desportos, que o sector anda adormecido nestas paragens do Planalto Central no que se refere às diferentes modalidades. Jacinto dos Santos José disse ser “preciso apoiar as pessoas e deixar que elas trabalhem” sem interferência para que a partir dos projectos e programas traçados o desporto na região caminhe seguramente. O interlocutor do “Jornal dos Desportos” admite, também, que o novo elenco do Ministério da Juventude e Desportos (MINJUD) não surge como salvador do actual quadro, mas que ainda assim há-de trabalhar arduamente para reavivar as diferentes modalidades desportivas. Jornal dos Desportos-Quais são as grandes linhas de actuação que tem em carteira durante o seu “consulado” na Direcção do Ministério da Juventude e Desportos na província do Bié?

Jacinto dos Santos José-Como novo director do MINJUD no Bié começo, antes, por realçar que o desporto na nossa província anda adormecido. Por este andar da carruagem, não seremos nós os salvadores do desporto. Para o desporto caminhar seguramente na nossa província é preciso apoiar as pessoas que dirigem essa grande máquina e deixar que elas trabalhem. Este é um aspecto essencial. Nós temos ideias e projectos para direccionarmos algumas acções para que o desporto comece a reviver no Bié. Se aparecerem pessoas a interferir no projecto e no programa, criando barreiras e obstáculos, então não estaremos a fazer nada e o desporto na nossa região não irá a lado nenhum. Este é o ponto de partida que nós devemos ter como referência. Uma outra questão que gostava de referir tem a ver como o homem em si. Quem vai fazer desporto têm de ser pessoas conhecedoras do desporto e que gostem dele. Não podem ser pára-quedistas do desporto, que só aparecem para interferir, que não fazem nada nem deixam os outros fazer. É como estar com a bola na pequena área, deixando as pessoas na expectativa, não marcando o golo e nem sequer passando para que o outro o faça. Acredito que se se removerem essas pequenas coisinhas podemos ter meio-caminho andado em relação ao desporto na nossa província.

JD-Que novos eixos de intervenção aponta para reavivar as diferentes modalidades desportivas no Bié?
JSJ-Nessa vertente gostava de me referir a modalidades que já deram glória ao Bié, como o basquetebol em cadetes femininos, o boxe e até o karaté, muita gente desconhece isso. O Bié já foi campeã continental de judo, por altura de realização dos II Jogos da África Central, que ocorreram em 1981, em Luanda. O José Raúl, que conquistou esse feito, anda por cá nessas paragens. Tivemos outras referências da modalidade aqui na nossa província nessa época. É o caso do radialista Abel Abraão, que foi também um judoca de referência da nossa província, e outros. Portanto, a província do Bié já obteve glórias em muitos campeonatos em que participou e daí esperamos contar com o contributo destes ex-praticantes, sobretudo pela experiência e vontade que demonstram no sentido de impulsionar a prática desportiva na nossa região. Quero também recordar que o Bié já forneceu atletas às várias selecções, casos da de sub-20 de futebol, no basquetebol, no andebol, no boxe, na ginástica, no atletismo e em outras modalidades desportivas.

JD-Quer com isso admitir que o Bié já foi um viveiro do desporto no país?

JSJ-Efectivamente. Sem sombra de dúvidas, afirmo isso com firmeza. Quem conhece o Bié sabe disso e não me deixa mentir.

FACTO
“O Conselho da Juventude 
é importante”

 JD-Este organismo assume capital importância no seio da instituição que dirige?
JSJ-Efectivamente. O Conselho Provincial da Juventude (CPJ) joga um papel muito importante no seio desta franja da etária da sociedade e por isso deve ser muito interventivo nas suas acções. Aqui inserimos os jovens das igrejas, de associações como as dos taxistas, de estudantes universitários, do ensino médio, as “zungueiras” e outros, por isso, tem de se criar políticas direccionadas para cada área específica. Portanto, o trabalho com diferentes associações juvenis é uma questão que merece uma atenção redobrada, porque os jovens são, também, grandes fazedores de opinião.

JD-Essas políticas direccionadas para a juventude obviamente vão contribuir para estancar muitos dos males com que esta franja se confronta na sociedade, com realce para o consumo excessivo do álcool, das drogas e outros.
JSJ-Obviamente. Temos de direccionar a linha de pensamento que o Governo tem para colocar essa franja etária no caminho certo, ocupando o seu tempo de lazer com actividades que visem combater esses males a que se refere.

REINAMENTO DESPORTIVO
Província conta também com nomes de referência


Jacinto dos Santos José, o novo titular da pasta da Juventude e Desportos (MINJUD) do Bié, referiu-se também ao aspecto do treinamento desportivo. Nesse particular, realça o facto de a província contar com alguns nomes de referência no contexto nacional

Jornal dos Desportos-Na vertente de treinamento desportivo, a província do Bié conta com nomes de referência?
Jacinto dos Santos José-Tivemos alguns nomes de referência no treinamento desportivo. Posso apontar o caso particular de Amílcar Bambi Benjamim, que foi um grande obreiro do andebol na província do Bié. Hoje anda pela capital do país, depois de ter dado o seu contributo na Federação Angolana de Andebol (FAA) e de outras modalidades. Além de Amílcar Benjamim, há outras referências do Bié nessa vertente.

JD-O que tem a dizer sobre a unidade em torno dos fazedores do desporto nestas paragens.
JSJ-Precisamos de passar o testemunho aos novos talentos do desporto bieno sobre o quanto a nossa província já elevou o seu nome bem alto nesse campo. Hoje por hoje o desporto no Bié caminha num sentido menos positivo, talvez pela falta de unidade. Por essa razão, devia existir uma maior aproximação entre os agentes desportivos porque o desporto repercute-se na saúde, reaviva o homem e acima de tudo cria uma menta sã ao ser humano. São essas bases que no futuro nós gostávamos de delinear bem para dar outros “inputs” ao desporto no Bié.

JD-Depois dessa caracterização que faz em torno da união dos fazedores do desporto, que planos existem de concreto em relação ao trabalhos com as distintas associações desportivas na província, incluindo as juvenis?

JSJ-A nossa Direcção Provincial conta com uma área do Desporto, que tem as associações desportivas e que engloba várias modalidades, e temos ainda a área da Juventude, que abarca as associações juvenis, filantrópicas, entre outras. Na área do Desporto, um dos propósitos que pensamos atingir passa por unir todos os ex-praticantes das várias modalidades e fazermos um diagnóstico a cada uma delas. Vamos procurar saber qual é a situação concreta de cada modalidade. Aí temos o ponto de partida para conhecermos especificamente o problema que cada uma destas modalidades enfrenta na realidade, direccionando assim uma política para cada uma. Uma para futebol, outra para andebol e para as demais modalidades. Na área da Juventude, que é uma franja em que encontramos muitos talentos virados para o empreendedorismo, associações estudantis e outras, aí vamos ter um trabalho muito direccionado para o Conselho Provincial da Juventude (CPJ).

FALTA DE INCENTIVOS    
Jacinto José caracteriza triste cenário da ginástica na cidade

Durante a longa conversa mantida com o Jornal dos Desportos, Jacinto dos Santos José fez, também, uma caracterização em torno da ginástica, uma disciplina de que o Bié é uma referência no país. Nesse sentido, o responsável do MINJUD na província do Planalto Central frisou que o professor Auxílio Jacob, um dos grandes obreiros da ginástica no país, conhece as performances do Bié nesse campo.

Jornal dos Desportos-Em relação à prática da ginástica há também algum plano estratégico em carteira já que o Bié é uma referência nessa vertente a nível do país?
Jacinto dos Santos José-Falar da ginástica no Bié hoje é um assunto envolto em alguma tristeza porque as pessoas que incentivavam a prática dessa disciplina a deixaram por falta de apoios, acompanhamento e especialmente de incentivos por parte das estruturas de direito. Se houvesse incentivos, talvez a realidade da ginástica hoje fosse outra na nossa província. O professor Auxílio Jacob, um dos grandes obreiros da ginástica a nível nacional, conhece perfeitamente as potencialidades do Bié nessa disciplina. Não queremos aqui assumir o discurso de que a ginástica é prioritária. Pelo contrário, temos a visão de que todas as modalidades são prioritárias. Porém, dentro desta perspectiva vamos definir aquelas que são, ainda, as mais prioritárias. E nesta base podemos referir que a ginástica hoje está no topo a nível do Bié. Não obstante isso, temos de ter em conta que se os níveis desta não se mantiverem pode surgir uma outra modalidade que a supere. Por isso, a nossa estratégia passa por manter um ponto fulcral nesse sentido ou nesta direcção. Há a ginástica competitiva, a de recreação e por aí fora, mas salta aqui à vista que nessa disciplina podemos trabalhar com cerca de 400 crianças de uma só vez, integrando-as em vários esquemas. Esta é a grande vantagem que a disciplina da ginástica tem.

JD-Pode ser mais específico em relação as esses aspectos a que faz referência?
JSJ-Há, por exemplo, muitos jovens sem fazer nada, apegando-se às drogas, ao alcoolismo, perdendo noites, por não terem o tempo livre ocupado, tendo a ginástica o condão de poder albergar muitos mais jovens. É uma direcção que vemos para ultrapassar alguns destes males a partir da prática desse desporto. Não só nesse sentido. A ginástica básica pode estender-se aos adultos e idosos. Ela possibilitaria a redução dos problemas de stress, de sedentarismos e outros. É nessa vertente que vemos a grande amplitude da prática da ginástica. Não quero com isso dizer que as outras modalidades não tenham também as suas especificidades e importância.

KARATÉ E OUTRAS
“É importante unir as artes marciais”


Jornal dos Desportos-O que lhe apraz dizer sobre as artes-marciais?
Jacinto dos Santos José-É uma questão fulcral que me coloca. Ao assumir as funções de novo director do MINJUD no Bié, penso ser importante unir também as artes-maciais. Elas estão a fazer muita falta na província do Bié. Há vários grupos que treinam karaté e outras modalidades de luta, mas que na verdade não estão unidos. Precisamos de unir a família das artes-marciais porque estas já deram muitas glórias ao Bié. Há jovens que treinam, não vemos os seus dotes, mas apenas vemos esporadicamente a correrem pelas artérias da província. Regra-geral, o jovem que pratica artes-marciais torna-se numa pessoa bem-educada, íntegra, tem uma mente sã, tem maiores cuidados, atenção, apreende disciplina que pode ajudar a própria sociedade. Enfim, a prática das artes-marciais ajuda bastante na educação das pessoas e pode também fazer despoletar vários talentos que, às vezes, as selecções precisam.

JD-Que comentários faz à massificação do desporto de rua?
JSJ-Estamos a definir estratégias para esse efeito. É frequente vermos crianças a praticarem o basquetebol de rua no Bié, mas que não têm a oportunidade de mostrar o seu talento. Por isso, vamos tentar criar formas de encontrar esses miúdos que praticam esse desporto nas ruas. Vamos tentar reactivar essa prática para ocupar os tempos livres destes jovens que revelam talento nessa modalidade.

META
“Infra-estruturas têm importância”


Jacinto dos Santos José caracterizou, ainda, as infra-estruturas como questão de grande importância. O director da Juventude e Desportos no Bié lembrou, nesse contexto, que a província está a beneficiar de muitos recintos para as modalidades de salão, sobretudo em alguns municípios, mas que ainda assim “é preciso que se faça uma gestão correcta dessas estruturas”.

Jornal dos Desportos-No capítulo das infra-estruturas desportivas o quadro na província ainda é sombrio, pese embora alguns recintos que vão surgindo?
Jacinto dos Santos José-A questão das infra-estruturas reveste-se de grande importância. Penso ser importante que as pessoas estejam atentas às acções do Executiva na vertente de infra-estruturas. A nossa província, por exemplo, está a beneficiar de alguns recintos para as modalidades de salão. É preciso que se faça uma gestão correcta dessas estruturas. As pessoas que estão à frente da gestão desses recintos têm de ser sérias porque se não vamos continuar a enfrentar os mesmos problemas. Só no Cuito temos as quadras do IMNE-Marista, do Largo das Escolas e do Cunje. Nos municípios estão também a surgir algumas quadras desportivas. O grande défice nesse vertente tem a ver com os campos de futebol. Tudo que era campo desapareceu e muitos espaços onde estes existiam foram vendidos. Isso tem estorvado o desenvolvimento da modalidade-rainha, o futebol. Por isso, pensamos fazer um levantamento sobre o que existe e só depois faremos uma abordagem com propriedade sobre as infra-estruturas desportivas na nossa província. Essa vai ser uma das grandes lutas do nosso mandato.

PERCURSO
Director do MINJUD na primeira pessoa


Conhecido nas lides bienas por “Man Jaci” e também por Professor Jacinto, o novo director da Juventude e Desportos do Bié ostenta várias formações na vertente desportiva. Frequentou o Instituto Nacional de Desportos para a Formação de Quadros, afecta à então Secretaria de Estado de Educação Física e Desportos, em Luanda, e onde fez o curso de treinador de futebol do Grupo B.

O titular da pasta do Ministério da Juventude e Desportos (MINJUD) no Bié fez, igualmente, vários cursos na área de cultura, física e de recreação, estando paralelamente ligado muito tempo aos desportos militares. Na actividade militar, esteve incorporado na Direcção Política das ex-Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA).De seu nome completo Jacinto dos Santos José, o novo director do MINJUD do Bié é filho de José Luís e de Marta Cândida, já falecidos. Terceiro filho, entre os seis do casal, “Man Jaci” conta, ainda, que os dois irmãos que teve morreram durante a guerra no Bié. As três raparigas, recordou, estão em vida.