Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Director Nacional considera positivo desempenho em 2009

Silva Cacuti - 23 de Dezembro, 2009

Director Nacional dos Desportos, Raimundo Ricardo

Fotografia: Jornal dos Desportos

A terminar o ano, o que se pode dizer, em jeito de balanço, sobre o trabalho das federações desportivas?
Podemos dizer que tivemos um ano desportivo positivo, porque até ao primeiro trimestre, tivemos todas as federações desportivas, com excepção do ténis de campo, com os seus elencos desportivos em dia. Isso significa que as direcções das federações desportivas estão legitimadas para exercerem os cargos. Dizemos também que o ano foi bom, porque alcançamos patamares extremamente positivos quanto às vitórias, fundamentalmente, aquelas que aconteceram na canoagem, na pesca, no atletismo, na ginástica, basquetebol, andebol, karaté-dó, hóquei em patins, atletismo para pessoas com deficiência, entre outras.

Particularizou o ténis de campo. Como está e que perspectivas há em torno desta federação?
Essa angústia vai acabar nos próximos dias, porque há uma orientação do Senhor Ministro Gonçalves Muandumba, no sentido de se dar um basta a isso. Já estamos a fazer aquilo que foi orientado e posso dizer que a situação já está solucionada.

O ano foi positivo só pelas vitórias conseguidas?
É também positivo, porque a relação de diálogo entre o Ministério da Juventude e Desportos (Minjud), representado pela Direcção Nacional dos Desportos (DND) com o associativismo melhorou muito. Temos o ano corrente como o de grande desafio à passagem para 2010, por causa dos grandes compromissos que temos no país. Além das nossas participações em termos de clubes e de selecções, temos a Taça Africana das Nações Orange Angola’2010, já em Janeiro, e, em seguida, temos os Jogos da Comunidade de Países de Língua Portuguesa, vulgarmente conhecidos como Jogos da CPLP, marcados para Maputo, Moçambique, em Junho.

Qual é o objectivo que Angola leva a esses jogos?
Podemos adiantar que todas as federações de modalidades envolvidas já foram intimadas para que até 28 de Fevereiro apresentem à DND um documento que espelha a adesão ou não da federação para a participação nesses jogos. Alcançámos o segundo lugar na edição do Rio de Janeiro, no ano passado, significa que ficámos à frente de Portugal, por exemplo. Vamos para os jogos de Moçambique com muita responsabilidade, porque dizem que quem organiza quer ganhar. Então, do ponto de vista de estrutura desportiva, teríamos Portugal, Brasil e, agora, Moçambique. Vamos neste quarteto definir as posições e procurar fazer um esforço para mantermos o lugar.

Qual é a premissa para o alcance desse objectivo?
Para mantermos esse lugar, colocamos às federações uma situação que entenderão, talvez, como nova: deverão apresentar os seus programas de trabalho visando a prova que de seguida serão acompanhados, analisados, criteriosamente, por técnicos com gabarito técnico profissional e científico da DND. Aquelas situações que estiverem ultrapassadas dentro daquilo que sabemos, vamos recorrer às pessoas que entendem para preparar as melhores selecções que já saíram em termos de representação do país nos Jogos da CPLP.

"Precisamos cientificar o nosso desporto"

Há grande importância numa preparação criteriosa dos jogos da CPLP?
Sim, porque a CPLP é uma antecâmara dos Jogos Pan-africanos que devem acontecer também em Moçambique no ano de 2011. Parte desses jovens que vão evoluir nos Jogos da CPLP tendem a evoluir também nos Pan-africanos. Se fizermos um trabalho aturado, planificado, teremos, quiçá, uma boa participação nos Jogos Olímpicos. Não se vai aos Jogos Olímpicos com planificação de um ano. Alguns países já começaram a preparar jovens que vão representá-los há oito anos. Estamos a falar em laboratórios, aquilo que não temos em Angola.

E faz muita falta ao nosso desporto…
Atingimos um patamar muito bom; é verdade que temos vitórias, mas não nos esqueçamos de que atrás das vitórias precisamos de cientificar o nosso desporto. Falo de uma Faculdade de Educação Física, Institutos de Educação Física, uma educação física escolar apurada, formação de técnicos, de dirigentes, da família, da comunidade, porque tudo começa em casa. Quando o pai não tem o hábito da prática desportiva, não podemos querer que a sociedade, os nossos filhos a tenham. Digamos que o desporto se aprende.

Federações vão ser reavaliadas

Surgiram algumas federações novas este ano…
Temos connosco documentos da Federação Angolana de Pesca. Encaminharam-nos e já estão na minha mesa para a última averiguação, para que possamos legitimar a sua existência. Essa nova federação é muito bem-vinda, porque testemunhamos a idoneidade e responsabilidade dos seus dirigentes e também as potencialidades imensuráveis que tem. Imagine uma modalidade deste porte que, mesmo sem ter federação, já tem trazido recordes mundiais! Estamos muito satisfeitos com esta modalidade.

Todas as federações existentes, no vosso entender, têm razão de ser? Ou seja, há demanda para tanta federação?
Nos próximos tempos, vamos fazer um trabalho e ver se todas as federações desportivas estão a cumprir com os pressupostos de serem chamadas federações: número de clubes, atletas, acções que desenvolvem versus verba alocada pelo Governo para o desenvolvimento da modalidade.

A conformidade das federações com o Regime Jurídico das Associações Desportivas, com elencos devidamente eleitos correspondeu a algum crescimento na percentagem da população praticante de desporto? Há algum dado sobre isso?
Há um crescimento sim, mas pode ser maior e melhorado, porque se formos a ver os investimentos públicos em relação ao crescimento registado, diremos que há necessidade de melhorar.

Como pode ser feito esse melhoramento?
Vamos melhorá-lo em várias vertentes. Estamos preocupados com os quadros que o desporto apresenta hoje. Precisamos de melhorar o nosso dirigismo desportivo, a nossa classe de treinadores, trazer mensagens cada vez mais positivas aos nossos atletas; precisamos melhorar as infra-estruturas desportivas, melhorar e encontrar mais material desportivo, porque não se faz o desporto apenas com boa vontade. Tudo isso também depende da sensibilidade de cada presidente de federação, de cada governo de província, de cada dirigente desportivo.

FORMÁMOS 557 PESSOAS

A DND assumiu o papel de liderança na formação de técnicos desportivos este ano. Qual é o resultado desta actividade e que perspectivas há, neste capítulo, para o ano de 2010?
Tivemos em termos de formação desportiva cerca de 557 pessoas formadas em várias especialidades no âmbito do ‘Programa Despontar’, em que cada província pode indicar 6, 10, algumas até 12 elementos nas modalidades populares como andebol, atletismo, basquetebol, futebol, entre outras; acompanhámos o trabalho das federações desportivas, fundamentalmente, a de ginástica que bateu todos os recordes, tanto em termos de formação como de participação. Em termos de formação, perspectivamos o trabalho com os dirigentes desportivos, porque são eles que vão dar as linhas mestras do desenvolvimento ou não do desporto. Temos em carteira, já no primeiro trimestre, uma formação na região Leste, onde vão participar as províncias de Malanje, Lunda-Norte, Lunda-Sul e Moxico. Essa actividade vai ser feita em Saurimo no âmbito das comemorações do Dia Nacional do Desporto.

"Programa Despontar"
está a tropeçar nas obras

O que se pode dizer do “Programa Despontar”?
O Governo, através do Ministério da Juventude e Desportos, adjudicou para quase todas as províncias verbas expressivas de modo que pudessem construir campos de futebol popular. Desses teríamos campos do tipo A, B e C, desde campos que podem ter balneários aos sem balneários. O objectivo é que os meninos pratiquem actividade desportiva e desta prática vamos encontrar alguns talentos. Algumas províncias já têm os campos construídos, mas devo dizer que uma boa parte ainda não está na metade daquilo que devia ter feito. Mas, por orientação do Senhor Ministro, temos estado a fazer deslocar pontualmente técnicos para aqueles lugares onde foi o dinheiro do Estado e procedemos ao levantamento do que foi feito e naturalmente vamos incentivar os empresários ou pessoas que estão à frente destas construções para terminarem o mais rápido possível, porque os jovens precisam desses recintos. 

Sente-se alguma influência do "Despontar" nos distintos campeonatos juvenis que se disputam em várias modalidades? Ou seja, está a funcionar a observação de talentos um ano depois do seu lançamento?
Claro que somos cúmplices, pelo bom e pelo mau. Os nossos parceiros têm sido as direcções provinciais dos Desportos e as federações. Aquelas províncias, que têm o desporto como dimensão de desenvolvimento, estão a colher esses frutos. Às demais, aconselhamo-las a terem esta visão. Temos tido uma grande adesão.