Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

Director pretende equipa competitiva

Benigno Narciso- Lubango - 21 de Dezembro, 2014

Dirigente do grémio militar da Região Sul quer espírito de vitória em cada partida

Fotografia: Jornal dos Desportos

O director administrativo e financeiro do Desportivo da Huíla, Ezequias Domingos, revelou ao Jornal dos Desportos, os preparativos em curso para a época de  2015 e recapitulou a actuação da equipa principal em 2014.  A prestação do grupo em 2013, quando obteve o sexto lugar no Girabola e, no mesmo ano, a participação na Taça da Confederação, também foi abordada pelo dirigente dos  militares da Região Sul.

 O técnico  Ivo Traça vai levar o clube mais longe?

 Os nossos objectivos são sempre modestos. Manter a equipa na Primeira Divisão. Não queremos colocar os bois à frente da carroça, apontar grandes metas, afirmar que vamos conquistar o primeiro, segundo ou terceiro lugar. Não estávamos a ser correctos. Os atletas vão para o campo para ganhar, encarar cada jogo com ambição de vencer.

Este ano vai haver mais ambição?

A equipa vai entrar sempre em campo com o propósito de ganhar. Pretendemos que o técnico monte uma equipa competitiva, capaz de vencer o maior número de jogos sobretudo em nossa casa. Vamos constituir um grupo à altura de amealhar pontos fora de casa. À  medida que o campeonato for decorrendo, vamos definindo os nossos objectivos. Mas de forma geral, a pretensão é que a nova equipa técnica e o plantel para 2015 encarem com espírito de vitória cada partida.

 Porque foram dispensados  Bena e Sargento?

Não dispensamos nenhum atleta indispensável. Tivemos sim um atleta titular da equipa inicial que saiu, que é o Bena, por não termos chegado a acordo para a renovação do contrato, face às exigências do próprio atleta e devido à incapacidade financeira do clube.  Além de Bena sai também o Sargento que vai representar o 1º de Agosto fruto do intercâmbio desportivo que mantemos.

A direcção do clube não podia evitar a saída dos dois?

O Sargento alternava ultimamente entre ser a titular e suplente. O Bena era titular , mas o futebol é uma dinâmica. Amanhã, quem sabe, pode eventualmente sair mais um ou outro. Nunca se sabe. Mas os que ficam vão responder bem.

 Os outros clubes estão a assediar mais atletas?

Estamos a procurar tentar fazer, dentro da nossa política, que os atletas considerados indispensáveis, que são 15 e eram regularmente utilizados em 2014, não saiam. Essa é a aposta da direcção. A estes  vamos juntar as novas aquisições quando formos ao mercado buscar reforços.
 
Os reforços vão estar ao nível de Bena e Sargento?
É prematuro responder de forma afirmativa, mas não vamos fazer contratações de atletas sonantes, porque não temo capacidade financeira para  isso. Há clubes que estão a contratar atletas na ordem dos quatro  milhões de dólares. Não temos essa possibilidade.


ESTÁDIO
“Há imensas dificuldades”


O Desportivo da Huíla não dispõe de estádio próprio isso é um obstáculo ?
Afirmativo. Veja que recentemente a direcção do Clube Desportivo da Huíla fez um contrato com a Administração Municipal do Lubango para a gestão do Estádio Municipal de Nossa Senhora do Monte, mas temos estado a encontrar muitos problemas.

Quais são os problemas?

Recebemos o estádio já com muitos problemas, com as bombas de água avariadas. Carecem, por isso, de uma substituição completa imediata. Há imensas dificuldades. A rega tem sido feita à mangueira. Outro problema é a avaria do gerador que faz funcionar o sistema de rega e outras dependências do estádio.  O estádio não tem energia da rede pública, foi cortada pela Empresa Nacional de Energia devido a uma dívida de quatro anos.

Qual a reacção do clube diante dessa situação?
Fizemos contactos com a empresa Omatapalo, que trouxe as primeiras peças para a recuperação do gerador, infelizmente não serviram. Enquanto isso, a manutenção e gestão do estádio tem sido feita com bastante dificuldade.  Fazemos todos esses esforços sem energia eléctrica para assegurar o funcionamento do sistema de rega e outras funcionalidades. Continuamos a fazer esforços junto da empresa Omatapalo para que possamos ter a peça o mais breve possível.

Quando prevê a normalização da situação no Estádio da Nossa Senhora do Monte?
Não posso fazer uma previsão. Há estádios alternativos, como o do Benfica do Lubango, Nacional da Tundavala e do Ferroviário da Huíla. Contudo, para treinarmos nesses recintos o clube tem que pagar. Uma sessão de treino ronda os 35 mil kwanzas. Imagine uma semana de treinos duas vezes por dia . 
 BN



Promoção
Clube valoriza prata da casa


Vão promover juniores a seniores?
Sempre valorizamos a prata da casa, por isso vamos contar com jovens das nossas escolas de formação. Alguns vão ser promovidos à equipa principal. A nossa equipa júnior é a campeã provincial e por isso é a representante da Huíla na competição nacional do escalão.  Vamos contar com alguns atletas juniores porque devemos continuar a lançar a juventude.

Qual é o orçamento do Desportivo para fazer face às do Girabola?
É sempre delicado falar em orçamentos porque, por vezes, somos mal interpretados. Se dissermos que precisamos no mínimo de quatro milhões de dólares para toda a época, se podem interpretar que o Desportivo da Huíla já tem esses quatro milhões de dólares. Não temos quatro milhões de dólares. O nosso orçamento para uma época desportiva não chega a esses valores.

 Qual é o orçamento do Desportivo da Huíla por época?
São valores ínfimos que não vamos revelar. Com valores reduzidos temos estado a fazer o possível para que a equipa permaneça no escalão máximo do futebol nacional até onde dá para chegar.

 Diante das limitações financeiras o clube vai continuar na elite do futebol ?

Para minimizar a incapacidade financeira, vamos sempre fazendo esforços no sentido de encontrar outras parcerias que permitem manter a estabilidade e a presença no Girabola. Por isso é que geralmente apelamos os sócios também para contribuírem.  Os sócios, adeptos e empresas devem contribuir. O Desportivo da Huíla não tem grande capacidade financeira para fazer face aos custos decorrentes da participação numa prova exigente e dispendiosa como o Girabola.
BN


AVALIAÇÃO
“Adeptos são muito frios”


Os adeptos ajudam o Desportivo da Huíla?
 Os adeptos são muito frios. peço-lhes que vivam  com mais euforia o fenómeno do futebol. Precisamos que nos apoiem. Mesmo que não  paguem as quotas, comparticipem com o mínimo indo ao estádio e comprando bilhetes. Organizar um jogo em casa implica gastos de um milhão de kwanzas.

Porque?

Temos que pagar aos árbitros o prémio, a alimentação, transporte, alojamento. Temos de pagar ao comissário do jogo, à Cruz Vermelha, o aluguer do estádio, prémios aos atletas e outras despesas inerentes a realização de um jogo. O nosso apelo é que os adeptos não se limitem  a criticar o plantel. Os adeptos têm que apoiar, mas não apoio moral, porque o futebol não vive nem sobrevive de apoio moral. O futebol sobrevive de apoio material e financeiro.
 
As Sociedades Anónimas Desportivas  são solução?
Os clubes devem viver do associativismo. Está correcto. Mas a nossa realidade em Angola ainda é completamente diferente da Europa. Na Europa quem suporta os grandes clubes são empresas e, em alguns casos, multimilionários. Temos o caso do Chelsea da Inglaterra. São realidades completamente diferentes. Um jogo do campeonato espanhol ou inglês tem sempre o estádio cheio.  Lá existeá outra cultura, outra mentalidade completamente diferente da nossa. Para um dia chegarmos a esse nível de desenvolvimento vai levar um certo tempo.

Em Angola quem paga o futebol?
Nesta fase ainda temos que contar com o Estado porque fora desse âmbito dificilmente os clubes desportivos vão sobreviver e infelizmente a nossa realidade no Girabola tem sido essa. Ainda assim, é o Estado que de uma forma directa ou indirecta vai suportando a actividade desportiva. Porque se for só para contar com o empresariado local ou as forças vivas não tínhamos futebol de alta competição em Angola.                                  BN


“Grupo teve queda na sua produção”

O director administrativo e financeiro do Desportivo da Huíla, Ezequias Domingos, considera que a equipa teve uma honrosa participação no campeonato nacional da primeira divisão, ganho este ano pelo Recreativo do Libolo.

Qual é o balanço que a direcção do Clube Desportivo da Huíla faz da participação da equipa no Girabola de 2014?
O balanço é positivo. O clube conseguiu materializar os objectivos iniciais e, mais do que isso, o principal objectivo, que era a manutenção da equipa no Girabola. Alcançámos essa meta. Contudo, independentemente de na época anterior, em 2013, termos tido uma classificação excelente, que foi o sexto lugar, em 2014 a equipa quedou-se na 11ª posição.

Essa oscilação ou recuo carece de uma simples e conjuntural análise. Temos que entender que as especificidades do Girabola são completamente diferentes de ano para ano. A participação da equipa, pela primeira vez no seu historial, nas competições africanas em representação do país, reforça também esse balanço positivo.

Juntando esses dois factores, a permanência e a participação inédita nas afrotaças, podemos dizer que a época foi positiva. A equipa conseguiu passar a primeira fase nas competições africanas, o que é bastante positivo para uma estreante.

Não fomos mais além porque o factor experiência esteve na base desta não continuidade na prova africana. Em suma, conseguimos materializar os objectivos do clube e sentimo-nos satisfeitos por isso, apesar de a época ter sido muito difícil.

 Quais os factores que ditaram o insucesso no Girabola depois da estreia positiva nas Afrotaças?
 Na verdade o clube nunca esteve à beira da despromoção. É verdade que vivemos um período um pouco crítico em que tivemos uma sequência de quatro jogos sem ganhar, o que podia ter influenciado negativamente, mas sabíamos que com maiores ou menores dificuldades íamos permanecer na primeira divisão.

Nunca estivemos, sobretudo na segunda volta, que era a fase decisiva da competição, entre os últimos três lugares. Portanto, nunca estivemos abaixo da linha de água, como se diz na gíria futebolística.

Sabíamos que tínhamos um plantel à altura e o campeonato é feito de avanços e recuos. Estávamos cientes de que tarde ou cedo a equipa ia estabilizar-se em função de alguns resultados negativos, porque as equipas que estavam mais abaixo ou que desceram de divisão tinham uma pontuação que em função dos jogos que restavam, dificilmente iam permanecer. Portanto, ficámos em 11º, o que consideramos uma prestação positiva.

 Concorda com a avaliação de que a produtividade de 2014 esteve muito longe da obtida em 2013 já que há quem até ouse em considerar o desempenho de 2014 atípico?
Podemos considerar meio atípico em função dos resultados anteriores em que o Desportivo conquistou o sexto lugar. Do ponto de vista prático, a exigência da época seguinte era melhorar a classificação, mas a realidade e a prática não dizem isso, porque o Girabola é uma prova muito difícil, imprevisível e rica em contratempos.

Por isso, tivemos equipas com maiores investimentos em relação ao Desportivo da Huíla e que também não tiveram uma prestação conforme idealizaram. E mais, posso acrescentar o seguinte: se considerarmos os objectivos que as equipas prognosticaram no início da época, podemos dizer que se calhar o Benfica de Luanda é a única que conseguiu materializar os seus objectivos.

Senão vejamos, o 1º de Agosto pretendia a conquista do título, não conseguiu. O Petro de Luanda tinha a mesma meta e também foi incapaz. O Kabuscorp do Palanca pretendia revalidar o título, não conseguiu. O Progresso do Sambizanga pretendia ficar entre os cinco primeiros lugares, também fracassou. O FC Bravos do Maquís aspirava aos três primeiros lugares, não alcançou.

O Sagrada Esperança da Lunda Norte traçou figurar entre os cinco primeiros lugares, também não conseguiu. Portanto, se formos a ver, mesmo as equipas com maior estrutura financeira e administrativa comparativamente ao Desportivo da Huíla, idealizaram lugares cimeiros e nenhuma delas conseguiu.

Isso prova que a nossa prova é bastante competitiva e por vezes a idealização de uma meta, uma classificação, um objectivo e a sua não materialização por si só não pode significar como sendo resultado negativo ou objectivos não cumpridos.

O Girabola é feito de derrotas, empates e vitórias. Por isso é que ainda assim a época foi positiva, se olharmos para as dificuldades da competição e a estrutura do Clube Desportivo da Huíla.

Maus resultados

Até que ponto a alteração na equipa técnica, feita no decurso do campeonato, com a saída de Mário Soares e entrada de Lacerda Chipongue, influenciou na produtividade da equipa?
Quanto à saída do técnico Mário Soares é sabido que na época passada o clube Desportivo da Huíla teve uma sequência de 11 jogos sem ganhar. Não ganhávamos em casa e não ganhávamos também fora, situação que estava a preocupar e a colocar em risco os objectivos preconizados pela direcção no início da época.

 Foi assim que tivemos que prescindir dos préstimos do técnico Mário Soares. Se reparar, tão logo a saída dele (Mário Soares), a equipa começou a ter bons resultados. Vencemos o Petro de Luanda fora de casa, ganhámos ao Progresso do Sambizanga, fora de casa, triunfámos sobre o Recreativo da Caála em casa, e por aí fora.

A equipa teve uma sequência positiva de resultados. Contudo, na última fase do campeonato, o grupo teve uma queda do ponto de vista de produção. Mas isso é normal. Veja que o Progresso ficou 14 jogos sem ganhar.

O futebol é mesmo isso. Por isso é que é uma modalidade que inflama paixões e move milhões de milhares e milhares de pessoas, de adeptos, porque é imprevisível. Os resultados são por isso também eles imprevisíveis. Mas no geral temos que nos dar por satisfeitos porque a equipa está e continua na Primeira Divisão à custa de muito sacrifício.


ENCARGOS
“Atletas modernos exigem somas avultadas”


Desportivo da Huíla tem de fazer muito sacrifício para estar no Girabola?
O Girabola é uma prova bastante dispendiosa do ponto de vista financeiro, isto porque temos que ter em conta que os custos, por exemplo de rede hoteleira, transporte, alojamento, salários, prémios de jogo e contratação de atletas são bastante elevados.

Temos que ter em conta que os atletas do futebol moderno exigem somas mais avultadas, face também ao próprio custo de vida elevado, aliado ao facto de os atletas terem tempo de prática desportiva muito curto.

 Daí exigirem, na perspectiva de assegurar o seu futuro. Por isso, as exigências altas. Acresce a isso o facto de hoje termos apenas adeptos, os sócios praticamente não se fazem sentir. Não contribuem com quotas. Diante desse quadro todo o peso financeiro acaba por recair ao clube.

Tudo isso encarece a própria participação da equipa e diminui a capacidade do clube em satisfazer as suas obrigações, ao mesmo tempo que não há sempre possibilidades de irmos ao mercado buscar ou contratar atletas valiosos. Então estamos numa situação em que não se pode fazer muito.
O clube faz aquilo que pode. Porque não há outras envolventes que possam tornar o clube muito forte e competir de igual para igual com os clubes que do ponto de vista financeiro estão muito acima do Desportivo da Huíla.

Diante dessas dificuldades que obrigam a tamanho esforço da direcção, qual tem sido o apoio da classe empresarial da província e de restantes forças vivas locais?
Temos tido alguns apoios a nível local, mas muito diminutos e que por isso não cobrem mais de dez a 15 por cento das necessidades da equipa para uma época desportiva.

Pelo contrário, até temos tido alguns apoios significantes a partir de algumas instituições de Luanda, ao contrário das instituições públicas e privadas da Huíla. Pronto, os empresários também têm as suas dificuldades. Se calhar no futuro, possam sentir, ver e ter um outro panorama em termos de apoio ao desporto.

Temos lançado apelos, solicitações, mas com resultados diminutos. Por vezes colocamos o estádio à disposição, para que as empresas possam publicitar as suas marcas e em contrapartida termos algum benefício financeiro ou até mesmo material, mas nem por aí resulta. Não há essa apetência da classe empresarial em apoiar o futebol, infelizmente.    
BN