Jornal dos Desportos

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Entrevistas

"Dirigente advoga mais espaços para motocross"

Helder Jeremias - 17 de Janeiro, 2017

Orlando Almeida assegura que o futuro de motocross é promissor

Fotografia: Jornal dos Desportos

Quando o assunto é motocross, não se pode esquecer de Orlando Almeida. O empresário e dirigente desportivo responde pelas funções de vice-presidente da Federação Angolana de Desportos Motorizados. No seu primeiro ano, promete implementar o Campeonato Nacional de Motocross para galvanizar um desporto que arrasta multidão em todo o país. Na primeira entrevista ao Jornal dos Desportos, destaca a competência dos jovens na gestão da Associação de Luanda e apela às entidades competentes a preservar os espaços para a prática do desporto.

Hoje, o motocross arrasta a multidão para as pistas com a mesma dimensão do passado?

Não se podem fazer grandes comparações. São tempos diferentes. Podemos sublinhar que hoje há poucos espaços livres para a prática de motocross e de demais modalidades desportivas. Isso impossibilita o surgimento de potenciais atletas. Só o talento não faz o craque. É necessário a prática para se chegar aos níveis de performance da alta competição.

Está a dizer que há menos craques para atrair o público?
É com grande nostalgia que lembro o tempo em que nos fazíamos pelas pistas ao lado dos meus contemporâneos com os nossos meios simples. Não eram evoluídos, mas os jovens talentos tinham a oportunidade de mostrar a competência. Existiam vários espaços livres para realizações de competições e de treinos livres sem transtornos. Os jovens eram forjados a engrandecer a lista de grandes nomes que impulsionaram o grande movimento de motocross. Era uma geração que deu alegrias ao público e ainda hoje continua a gozar do elevado carinho e de prestígio na sociedade angolana. Naquele tempo, em caso de qualquer eventualidade, a assistência médica era facilitada.

Por falta de espaços, o motocross perde expressão no contexto desportivo?
Alertamos a quem de direito sobre a necessidade de atribuir zonas apropriadas para praticar o desporto. Notamos, com alguma apreensão, a pretensão de algumas instituições e de pessoas particulares de fazerem obras urbanísticas em locais cedidos para a componente desportiva. De nada vale termos habitações e outras infra-estruturas, se não tivermos uma sociedade sã. Isso passa pela prática de desporto. Esse pressuposto leva-nos a crer que a modalidade atravessa um período crítico, mas não está na iminência de desaparecer. Nota-se grande adesão da população nas províncias que acolhem provas de motocross. É um indicador de que no futuro, além de Luanda, outros grandes pólos de desenvolvimento vão formar-se.

Que outras vantagens proporciona a vossa modalidade?
Além de ter a particularidade de formar jovens na componente desportiva, o motocross também tem uma grande função social: tem a capacidade de congregar grandes molduras humanas em harmonia, que só encontra paralelos nos desportos de maior vulto desportivo.

A aquisição de uma motorizada não é acessível a todas as classes. Como possibilitar a inserção de maior número de jovens nas competições?
O motocross é uma modalidade com custos altos, ao contrário de outras modalidades desportivas como o futebol, basquetebol, andebol, só para citar essas. Os jovens encontram na onerosidade dos meios afins o maior empecilho, apesar de haver um mercado mais acessível a motorizadas e equipamentos actualmente. A Associação Provincial de Motocross de Luanda faz um trabalho de louvar ao disponibilizar os meios às equipas e aos pilotos individuais mais destacados que cumprem com os requisitos e regulamentos emanados pela instituição.

A Associação Provincial dispõe de motorizadas suficientes para atender a demanda?
Infelizmente, não. Antes, já era difícil e a crise económica agravou a situação. Graças ao empenho pessoal do ex-presidente da Associação, Osvaldo Varela, actual embaixador de Angola na Suíça, foram adquiridas novas motorizadas das categorias 250cc, 150cc e 450cc. Os meios têm sido de grande valia para o motocross manter-se vivo. A gestão permite que as equipas bem estruturadas beneficiem da mesmas.

É o único benfeitor do motocross?
É importante que as pessoas sigam o exemplo de Osvaldo Varela. É com muita pena que as actuais funções não lhe permitem manter-se na direcção da Associação. Mesmo de longe, continua a acompanhar os meandros da Associação.

PARA MODALIDADE
“Soweto é uma personalidade incontornável”

A direcção anterior passou testemunho aos jovens que terminaram as carreiras  desportivas, recentemente. Que apreciação faz  do primeiro ano de mandato?
Sinto-me muito orgulhoso por saber que temos jovens com capacidade suficiente para dar seguimento ao trabalho levado a cabo pelos mais velhos. Carlos Soweto chegou ao mais alto patamar desportivo e conquistou todos os títulos. Nos últimos anos da minha carreira desportiva, Soweto estava a dar indícios de uma carreira promissora. Era dotado de um talento invejável; vertical no posicionamentos e responsável perante os compromissos. Esses atributos fizeram dele uma personalidade incontornável no motocross.

Há outros potenciais nomes para a gestão da modalidade?
Sem descurar os demais jovens de quem continuamos a esperar disponibilidade para se enquadrar nos mais variados domínios da gestão desportiva, Carlos Soweto destaca-se. É necessário esclarecer que os nossos rapazes só podem levar o barco a bom porto, caso tenham nos mais velhos a fonte de inspiração e de conselhos para actuar com prudência na resolução dos problemas. Essa sincronia, entre as duas gerações, tem surtido efeitos positivos até agora. Aproveito para lançar um apelo aos associados no sentido de cumprirem com as obrigações, ou seja, participar das actividades e manter as quotas em dia. Só com o pagamento das quotas é que a Associação pode levar adiante as principais linhas de actuação.

Fala em quotas em dia. Há incumprimento?
Constatamos que nem todos pautam por uma postura responsável. As consequências aparecem, quando a Associação  se vê- a braços na hora de organizar as actividades sem patrocínio. Por um lado, existem os incumpridores, por outro, há pessoas que dão o apoio incondicional  que compensa as lacunas. Quero exortar a todos os membros para um trabalho mais aturado e complacência para com os desígnios da Associação no ano corrente. Da sua entrega depende o futuro do nosso desporto.

GESTÃO DE MOTORIZADAS
Roberto Talaia deve manter rigor

As equipas tem sabido gerir as motorizadas da Associação?

É uma questão muito pertinente. Há tempos, surgiu um pequeno diferendo em sequência da constatação feita sobre o uso de uma motorizada por parte de um jovem que prefiro não revelar o nome. É uma questão de ética. O piloto apresentou um lista de peças que supostamente tinha substituído na moto sob a sua responsabilidade. A realidade contrastou com o número de provas em que esteve presente. Era escasso. Nessa perspectiva, concluiu-se que ou o piloto não está a altura de gerir a motorizada ou a usa para outras actividades extras. As máquinas usadas pelos meus pilotos só fazem substituição, após duas ou três épocas com presenças regulares nas provas do Campeonato Provincial de Motocross de Luanda.

Que medidas profiláticas deve a Associação tomar para estancar as eventuais situações não abonatórias?

Quero reiterar a minha solidariedade a Roberto Talaia. É um dirigente com bom desempenho na gestão das motorizadas pertencentes à Associação. Talaia é bastante rigoroso. Não se pode permitir que os jovens beneficiados, em detrimento de outros, façam uso pouco racional dos meios. Quem não estiver à altura de uma gestão parcimoniosa, deve abdicar da actividade desportiva para permitir que outros também tenham a possibilidade de usufruir dos escassos recursos. Aproveito para desejar às rápidas melhoras ao Roberto Talaia e que continue a trabalhar com a mesma dedicação em benefício do motocross.

O que lhe apraz dizer sobre a época'2016?

Fomos os campeões nas classes rainha (250cc) e moto4 (450cc) com um total de oito vitórias e dois segundos lugares em cada uma delas. Os resultados levam-nos a considerar uma época profícua. Devemos dizer que não foi fácil em função da conjuntura económica. O esforço titânico de todos os membros da equipa esteve na base do sucesso. Por isso, felicito os pilotos, mecânicos e todos aqueles com impressões digitais gravadas nessa grande obra. Podemos orgulhar-nos da abnegação de todos e que serve de alento para continuar a dar o melhor de nós. Queremos mantermo-nos na vanguarda do motocross. É de realçar também o desempenho das demais equipas envolvidas na empreitada. Sem o alto nível competitivo dos seus pilotos, o campeonato não tinha a qualidade que lhe é caracterizado.

REVELAÇÃO
Campeonato Nacional está na forja


Assumiu o cargo de vice-presidente da Federação Angolana de Desportos Motorizados. Como pretende gerir a empreitada na qualidade de proprietário do Team Orbel?
Enquanto vice-presidente da Federação para o motocross, um dos grandes objectivos é o lançamento do Campeonato Nacional de Motocross. Até agora, tivemos os melhores pilotos do país, tal como Carlos Soweto, que venceu todas as competições, mas limitou-se com o título de campeão provincial por não existir o campeonato nacional. Na primeira edição, queremos  disputar quatro provas, no máximo, de maneiras a que o motocross deixa de ter um cariz provincial e seja catapultado para a dimensão nacional. Só assim,  pela primeira vez, o país vai ter um campeão nacional.

Elevar um piloto para campeão nacional de motocross não cria ciúmes àqueles que muito fizeram no passado e limitaram-se com o título provincial?
A ideia é arranjar um meio termo de forma a que os antigos campeões nacionais passem também a ostentar o título de campeões nacionais. Isso faz todo o sentido. Quem venceu um campeonato provincial de Luanda foi o melhor piloto de Angola. Só não foi condecorado, porque não havia um campeonato nacional.

Qual seria o roteiro da primeira edição do Campeonato nacional?
Estamos a pensar em Saurimo, Cabinda, Moçâmedes e Ndalatando por serem as capitais de províncias com bases para se erguer com facilidade, apesar de mostrarem um motocross incipiente. Qualquer outra província, que reúna as condições para o efeito, pode ser contemplada. Neste particular, quero sublinhar o Governador do Cuanza Norte, José Maria Ferraz dos Santos, por  se revelar uma personalidade amante do desporto, em particular, do motocross. Graças ao empenho pessoal, Ndalatando acolheu duas grande provas de sucesso: GP Independência Nacional e GP MPLA. Hoje, o Cuanza Norte conta com um dos melhores circuitos no país. Tenho a certeza de que vai tornar-se um novo pólo de desenvolvimento de motocross.

PERFIL
O tanquista
de motocross

O roncar de motores sempre foi a sua paixão. Orlando Almeida, de 54 anos de idade, fez parte da primeira geração de pilotos após a independência nacional, ao lado de Bianchi, Victor Santos "Vitó", Roberto Talaia, Mancha e outros "dinossauros". Aos 14 anos de idade, integrou-se nas Forças Armadas Populares de Libertação de Angola. Com tenra idade, deu o seu contributo na preservação da soberania nacional ao integrar o primeiro batalhão de tanques.

Foi vice-presidente da Associação Provincial de Motocross de Luanda nos consulados de Osvaldo Varela e de Alfredo Pitra. Hoje, enquanto empresário de sucesso, continua a dar o contributo no desenvolvimento do motocross. É vice -presidente da Federação Angolana de Desportos Motorizados e proprietário da melhor equipa da actualidade, o Team Orbel, campeão provincial de motocross de Luanda das categorias de 250cc e 450cc.