Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Dirigente da Federao quer espao para provas

Hlder Jeremias - 08 de Fevereiro, 2018

Isaque Rodrigues apela reviso da questo do autdromo para bem do desporto

Fotografia: Mota Ambrsio | Edies Novembro

Apesar de assumir o cargo há pouco mais de um ano, sempre esteve por dentro de todo o movimento dos desportos motorizados. Que avaliação faz do estágio de desenvolvimento até agora alcançado?
Na verdade não sou a pessoa indicada para fazer a abordagem sobre o que representa o percurso dos desportos motorizados, desde o surgimento da Federação, em Março de 2012. Contudo, devo realçar que de lá para cá foram alcançados numerosos ganhos, assim como também surgiram obstáculos. As linhas de força do primeiro elenco, sustentavam um rumo mais promissor. O nosso secretário -geral podia fazer uma incursão mais detalhada do que foram os primeiros cinco anos desde a existência da FADM. No entanto, devemos focar-nos no futuro e dizer que a estratégia do actual elenco passa pela criação de um ambiente cada vez mais favorável às aspirações dos amantes dos desportos motorizados. Está ciente da grande popularidade de que esses gozam. Contamos com alguns parceiros e julgamos que com a colaboração dos demais segmentos, alcançaremos o objectivo projectado para os desportos motorizados: o patamar mais elevado.

Como tem sido possível gerir a instituição?
O nosso principal suporte é o Orçamento do Estado, por intermédio do Ministério da Juventude e Desportos. Anualmente, recebemos uma verba à semelhança das demais Federações. No ano transacto, tínhamos cinco milhões de kwanzas. Este ano, cabe-nos seis milhões. Como se pode perceber, os valores não são suficientes para cobrir todas as despesas. Temos de pagar funcionários e outros serviços prestados.

Quem assume as despesas dos eventos realizados fora de Luanda?
As despesas dos eventos realizados nas províncias são suportadas pelos governos locais. A província da Huíla conta com um patrocinador próprio, a Coca-Cola, mas nos dois últimos anos reduziu o apoio a metade. Ainda assim, realizaram-se corridas. Em Luanda, contamos como principal patrocinador a JMPLA, promotora do Grande Prémio Juventude. De resto, contamos com outros apoios do Ministério de tutela e dos próprios pilotos que também se juntam para organizar corridas.

Que garantias oferecem para atrair as empresas patrocinadoras?
É preciso ter em conta que o patrocínio no desporto motorizado, representa a troca de serviços. O desporto dá visibilidade aos patrocinadores, e esses, canalizam apoios nas mais variadas formas.

Já ocorreram constrangimentos nesse sentido?
Não poderemos satisfazer o desejo de patrocinadores, sem realizarmos o número necessário de provas. Estamos a lutar para resolver as questões de espaços de provas, não só na capital do país, como noutras grandes praças nacionais. No caso de Luanda, vemo-nos de braços atados, enquanto a situação do Autódromo não for resolvida. A infra-estrutura está num terreno particular e a pessoa proprietária condiciona o uso da pista. Além de sermos obrigados a pagar o aluguer para a realização de provas, as equipas e os pilotos individuais ficaram privados de um lugar apropriado para preparação. A situação não nos permite desenvolver o desporto motorizado.

E, noutras paragens do país?
Quanto a Benguela, as pessoas escondem muito as coisas. Apercebemo-nos de que o circuito estava sobre a responsabilidade de um clube, que vendeu o terreno a uma instituição, que desconhecemos, com a promessa de adquirir outro. Parece que o referido clube arranjou outro terreno na zona do Dombe Grande, mas o espaço não está vedado, nem conta com qualquer infra-estrutura para o efeito, o que pressupõe grandes dificuldades para solucionar a questão. 

Como foi possível o Autódromo de Luanda ter dono, depois de todos esses anos?
O Autódromo não tem dono. Trata-se de uma superficiária, ou seja, alguém que não se sabe como conseguiu a concessão de um terreno com cerca de 300 hectares, em que estava construído o autódromo. E, por via disso, acha-se no direito de ter o Autódromo como a sua pertença. Esperamos que quem de direito reveja essa questão. Caso contrário, o esforço levado a cabo para catapultarmos o desporto nacional, vai redundar num insucesso. Isso, é que ninguém espera acontecer, depois de chegarmos onde estamos com grande esforço.


INSCRIÇÃO DA FADM
Falta de cinco mil euros impede entrada na FIA


Um dos grandes objectivos da FADM é formalizar o vínculo de Angola às instituições internacionais, nomeadamente, a Federação Internacional de Automobilismo (FIA) e a Federação Internacional de Motociclismo (FIM). Que passos foram dados neste sentido?
Foram feitos contactos preliminares e passos foram dados para que a meta fosse alcançada o mais breve possível. Temos em posse os arquivos do elenco passado, já que o desiderato podia trazer grandes benefícios para o país, quer do ponto de vista desportivo, como social. O grande empecilho foi o agravamento da crise económica e financeira entre 2014 e 2015. Naquela altura, a FADM estava para receber valores para esse propósito, mas foram inviabilizados pela conjuntura.

Enquanto a crise se mantiver nada vai ser feito nesse sentido?
Felizmente, tudo indica que ultrapassemos esta questão, muito em breve. Recebemos garantias da actual ministra da Juventude e Desportos, Ana Paula de Sacramento Neto, durante a nossa Assembleia Geral de que o ministério de tutela vai encontrar formas de solucionar o impasse com a sua intervenção. Foi uma \'boa nova\' para toda a família dos desportos motorizados. Agora, resta-nos esperar que a promessa se materialize para que todo o processo seja levado adiante.

Que benefícios Angola espera obter da FIA e da FIM?

A Federação Internacional de Automobilismo (FIA) tem o maior programa de luta contra a sinistralidade rodoviária. Gasta fortunas todos os anos, em benefício dos países filiados. Isso, significa que para além da inserção dos nossos pilotos no sistema internacional, o país podia também beneficiar dos seus projectos sociais. A sinistralidade rodoviária é na actualidade, uma das maiores causas de mortes em Angola, de maneira que pode ser um ganho muito importante inverter o quadro, por intermédio de programas que se revelam eficientes noutros países. Volto a dizer que ainda não foi possível estabelecer o vínculo com essas importantes instituições, porque os trâmites incluem o pagamento de uma taxa equivalente a cinco mil euros, que nos vimos impossibilitados de obter com o agravamento da crise económica e escassez de divisas.


EXPANSÃO
“Motocross é apreciado pelo público”


Como avalia o resultado da primeira edição do Campeonato Angolano de Motocross?
Positiva. Podemos aferir que o motocross é apreciado pelo público angolano, nas diversas províncias e ficamos satisfeitos. O primeiro campeão nacional é um piloto da província de Benguela, o Fernas Baptista. Ainda não foi possível realizar um número maior de provas. Tudo serviu de “balão de ensaio”. Temos a certeza de que o motocross vai expandir-se cada vez mais pelo país adentro. A Federação está sempre predisposta a ajudar as iniciativas das Associações e agentes desportivos.

O rali nacional destaca-se nos últimos tempos. Há condições para a breve trecho internacionalizar o Campeonato Angolano de Rali Raid/CARR?
É necessário dizer, que a internacionalização do Campeonato Angolano de Rali Raid, só acontece a partir do momento em que a FADM estiver filiada na Federação Internacional de Automobilismo (FIA). Enquanto isso não acontecer, nunca vamos ter a internacionalização da prova. Nessa competição participam pilotos de nacionalidades estrangeiras, residentes em Angola. Esses podem vencer as provas, são sempre campeões angolanos, nunca vamos ter um campeão português, espanhol, belga nem de qualquer outra nacionalidade. Vamos fazer todo o esforço para nos filiarmos na FIA. Queremos a ajuda de pessoas interessadas a ultrapassar essa barreira. Só depois é que pensamos na internacionalização das provas. Como disse antes,  a FIA gasta fortunas na luta contra a sinistralidade e não estamos inscritos nesta instituição, por falta de cinco mil euros.

Pneus acessíveis
Apesar de todos os problemas económicos, a Federação conta com novos parceiros?

Esta é uma realidade que nos permite respirar de algum alívio. O destaque vai para uma entidade que se prontificou a fornecer uma marca de pneus, para o automobilismo e motociclismo. Esta entidade encontra-se na República Popular da China a tratar de todos os quesitos relativos ao fornecimento de pneus, que serão vendidos a preços  acessíveis. A situação vai permitir que as grandes dificuldades na obtenção deste importante material sejam minimizadas. Numa primeira fase, vão ser contemplados os pilotos que actuem no Campeonato Angolano de Velocidades, porém, o objectivo é que todas as categorias, desde o karting, motocross, supermoto, rali, etc.. também possam ver as suas dificuldades reduzidas.

Que medidas foram tomadas para que haja melhor segurança em relação ao público e pilotos, sobretudo, nos circuitos citadinos?
Esta questão é pertinente. A segurança do público sempre foi o principal apanágio da Federação. Trabalhamos com as autoridades das províncias, Polícia Nacional, Bombeiros e Serviços de Emergências Médicas. Sempre que notarmos a falta de condições técnicas no circuito, a prova não pode realizar-se para evitar sinistralidades. Aconteceu há alguns anos, na cidade de Benguela, um incidente que culminou com vitimas. O público, por desconhecimento, ocupou a zona de escapatória. O piloto perdeu os travões e não teve alternativa. De lá para cá, não existe relato de outro acontecimento do género. As medidas de segurança foram reforçadas. De recordar que em 2016 as provas de Benguela e do Namibe só foram realizadas, porque as autoridades criaram condições para tal, depois de termos constatados debilidades na sua segurança.


PARTICIPAÇÃO
Famílias estáveis sustentam o desporto

A Federação está reunida de condições técnicas para avaliar a habilitação dos pilotos?

Um dos pressupostos para a emissão de licença desportiva, é precisamente certificar que o piloto está habilitado para a competição. Desta forma, trabalhamos em sintonia com serviços médicos e especialistas, que fazem a avaliação no início de cada prova. Até agora, só tivemos pilotos dotados de níveis técnicos aceitáveis, para fazerem parte das grandes competições.
Vamos continuar com o critério principal, a apresentação de licenças desportivas, emitidas pela Federação.

Com todos os entraves, é possível o surgimento de novos talentos junto das camadas menos favorecidas?
O desporto motorizado sobrevive com equipas e pilotos provenientes de famílias economicamente estáveis. Precisamos de um “pai - trocínio”. Sempre há lugar para aqueles jovens que independentemente da sua condição social, garantam uma carreira de sucesso e convençam com as suas habilidades. São modalidades que acarretam custos financeiros, por isso, a crise financeira tem efeito directo sobre si. Hoje, torna-se mais difícil apoiar os nossos jovens. Todo o mundo  esconde-se detrás da crise. Como não é para todos, surgem algumas aberturas. O campeão nacional de Supermoto, Victor Barros, é um exemplo paradigmático de que jovens talentosos têm sempre um lugar. Não vem de uma família abastada, criou a sua equipa com meios limitados e angariou patrocinadores que acreditaram nas suas potencialidades. Acredito que outros possam ter a mesma sorte.

Pilotos como Hélder Coelho “Vuty” e Victor Barros são convidados a participar de eventos na África do Sul e na Namíbia. Há possibilidade de internacionalizar as suas carreiras?
O “super-piloto Vuty” é de facto, um dos grandes talentos que o país conheceu no motociclismo, mas com a idade avançada não se pode pensar em internacionalização. Quanto ao Victor Barros não sei se reúne as condições ou se pensa em internacionalizar a carreira. Tudo demonstra que não deve ser essa opção a seguir. Neste momento, não podemos falar em internacionalização dos pilotos angolanos. Temos de organizar melhor as nossas competições nacionais, regularizar a situação junto das instituições internacionais e apostar na formação de jovens. A internacionalização fica para o futuro não muito distante.

Pilotos como Luís Sá Silva e outros já estiveram a representar o país, em patamares mais avançados do automobilismo mundial. Há possibilidade de voltar a competir a esse nível?

Não existe qualquer possibilidade desses pilotos terem sucesso, devido à idade. O Luís Sá Silva com todo o talento que pudesse ter, nunca podia alcançar grandes proezas, devido à idade. O automobilismo é um processo que requer muito tempo. Foi bom chegar onde chegou. Inspirou outros jovens. A verdade é que se começa a trabalhar dentro dos limites. Sobre os outros pilotos, prefiro não falar.


SEGUROS
ENSA assegura
o desporto motorizado

A Empresa Nacional de Seguros de Angola e a Federação Angolana de Desportos Motorizados rubricaram um memorando de asseguramento para as provas nacionais de automobilismo e motociclismo, para a época 2018. O seguro é extensivo a todos o membros de equipas e oficiais de provas.
O memorando \"é um passo de grande alcance\", segundo o vice-presidente para o Marketing & Publicidade da FADM, Manuel Padrão, quando abordava em entrevista o estado da modalidade.
O responsável sustentou, que até o ano passado, os agentes dos desportos motorizados estavam à mercê de eventualidades, sem  garantia de uma estrutura que actuasse com celeridade em casos inesperados.
“Isso, faz-se em qualquer parte do mundo, onde se realizem eventos desportivos que movimentam grandes massas populacionais. Nos anos anteriores, não foi possível assegurar a prova nem os efectivos, porque as condições não permitiam. Hoje, a nova dinâmica leva-nos nesta direcção”, revelou Manuel Padrão.
Manuel Padrão revelou ainda, que a FADM projecta a criação de um fundo para a resolução das operações, com vista a dar mais dignidade à instituição e actuar com determinada autonomia nos interesses da classe. As verbas cedidas pelo Ministério da Juventude e Desportos, avaliadas em seis milhões de kwanzas, por anos, não são suficientes para colmatar todas as necessidades.
“Acreditamos que a contribuição de cada piloto, membro de equipa ou associado, pode servir para criar um fundo que suprima algumas deficiências no nosso funcionamento e dê mais dignidade à instituição que vele pelo bem da classe”, avançou Manuel Padrão.
Além de Manuel Padrão, a entrevista contou com o secretário-geral da FADM, Isaque Rodrigues \"Zazá\". As provas nacionais de automobilismo e motociclismo começam a 11 de Março, na cidade de Moçâmedes.