Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Do Marçal ao reconhecimento da FIDE

Simão Kibondo - 18 de Setembro, 2012

O tetracampeão nacional absoluto de xadrez, Eduardo Pascoal

Fotografia: Jornal dos Desportos

O tetracampeão nacional absoluto de xadrez, Eduardo Pascoal, 31 anos, viu este ano reconhecido o seu nível também pela Federação Internacional de Xadrez, com a atribuição oficial do título de mestre FIDE, obtido em 2010, por ter conseguido mais de 50 por cento por cento dos pontos na Olimpíada disputada em Khanty-Mansiysk (Rússia). Eduardo Pascoal é o quinto mestre FIDE, depois de João Francisco, Arsitotéles Ramos, Catarino e Ediberto Domingos. A nível nacional, detém o invejavel palmarés de quatro títulos de Campeão Nacional Individual Absoluo, ficando apenas atrés do mestre internacional Adérito Pedro, o melhor jogador angolano “de todos os tempos”, com cinco títulos nacionais.

Eduardo Pascoal começou a praticar xadrez aos 14 anos, na brincadeira com os primos em casa da tia Glória, no bairro Marçal, onde também se jogava ao “quinito”, uma espécie de futebol de botões, mas com tampas de garrafa. Mas foi a primeira modalidade que o cativou.“Quando cheguei à casa da minha tia, vi que todo o mundo estava a jogar ao quinito e o xadrez. Fiquei a observar durante muito tempo os dois jogos e pedi que me ensinassem a jogar xadrez”, contou . “Tinha entre 14 e 15 anos quando um vizinho meu, chamado Zé Maria, começou a ensinar-me o jogo no primeiro dia. No segundo dia, deu-me mais alguns pormenores e  no terceiro já estava a jogar bem”, adiantou.  

Primeiras vitórias no GD da Nocal
Passando algum tempo de aprendizagem básica, isto em 1997, o novo mestre FIDE decidiu praticar a modalidade de forma mais séria, recorrendo ao extinto Grupo Desportivo da Nocal, onde encontrou o dirigente Manuel da Cunha, também residente no Bairro Marçal, que o aconselhou a voltar no dia seguinte para a realização dos testes de admissão. “O teste foi-me efectuado por Domingos Fernandes, que na altura já era um jogador consagrado, inclusivé admiro-o muito, tendo este  reconhecido igualmente as minhas capacidades, dando o veredicto final para a minha admissão no Grupo Desportivo da Nocal e a minha consequente filiação para o desporto federado”, disse ainda.

Eduardo Pascoal afirma que as exigências do xadrez federado obrigaram-no a aprender a anotação (linguagem do xadrez  em que cada movimento de uma peça é (d)escrito de forma abreviada numa folha específica) e passando por outros treinadores como o mestre internacional Armindo de Sousa, actual treinador da selecção masculina, que na altura também jogava na Nocal. No GD da Nocal encontrou jogadores da sua geração, como António Félix, Tito Agostinho e Júnior da Silva, que o estimularam ainda mais nos treinos e na sua evolução, até ser admitido na equipa principal da equipa cervejeira, que a par da sua homónima da Cuca, detinha a hegemonia no xadrez e fomentava a existência de Escolas de formação, sem descurar o Núcleo de Xadrez da Constroi, que na Maianga absorvia os estudantes do Mutu ya Kevela (ex-Liceu Salvador Correia) com aptidões para o jogo “ciência”.

Na altura, faziam parte da equipa princiapl do GD da Nocal, os mestres Adérito Pedro (MI) e Catarino Domingos (MFIDE), Agostinho Diogo, Domingos Paulino, João Castelo e Eduardo Pascoal passou a ser o sexto tabuleiro, sendo que cada equipa podia alinhar em cada torneio com quatro jogadores efectivos e dois suplentes. “No Campeonato Nacional por equipas que a Nocal ganhou em 2007,  fiz oito pontos em igual número de jornadas, tendo contribuído sobremaneira para o tirunfo da equipa na segunda maior competição nacional”, frisou.

A título individual, Eduardo Pascoal obtém o seu primeiro título nacional em 1998,  quando venceu o Campeonato Nacional de júniores no Lubango. “Na altura, Angola já detinha o título de campeão africano de juniores através de Vladimiro Pina e devia acompanhá-lo no Campeonato Mundial realizado no Brasil, em defesa do continente, mas, infelizmente, a viagem foi abortada por motivos que desconhecemos. Não nos desmoralizamos e continuamos a trabalhar para a melhoria do nosso nível”, disse confiante.

MUDANÇAS
DE ARES E  ESCALÃO

Eduardo Pascoal deixa a categoria junior depois de voltar a vencer o campeonato  do escalão, em 1999, na capital do país. Como sénior, transferiu-se para a Rangol, que em 2000 se fundiu com o Benfica de Luanda, e ajudou a equipa encarnada a vencer três campeonatos provinciais, nos anos 2000, 2001 e 2002. Em 2003, transferiu-se para o Grupo Desportivo da EPAL, entrando da melhor maneira ao obter o o primeiro título nacional da equipa das águas de Luanda nesta temporada. A partir daí, a EPAL conquistou a hegemonia da modalidade em termos colectivos até 2009 com Eduardo Pascoal sempre na equipa principal. Voltando às provas individuais, em 2004 Eduardo Pascoal não se consegue apurar no zonal A para o Campeonato Nacional Absoluto, mas, por ironia do destino e como a prova foi disputada em Luanda, foi escolhido (repescado) pela Associação local para representar a província na prova maior, que acabou por vencer, obtendo o seu primeiro triunfo no Campeonato Nacional Absoluto e o título de mestre nacional (MN).

PRÁTICA DESPORTIVA E TRABALHO
Além de praticar xadrez, Eduardo Pascoal é cadrastrador de clientes na Empresa Provincial de águas de Luanda (EPAL). Segundo o jogador, foi a própria empresa que, através dos Recursos Humanos, integrou os xadrezistas da equipa principal do seu Grupo Desportivo em áreas de serviços da empresa compatíveis com as suas capacidades.  “Eu e os meus colegas, para conciliarmos a nossa actividade desportiva com a profissional como cadastradores - que é o registo/recolha dos dados dos clientes que pagam regularmente a água ou não -, temos de acordar muito mais cedo”, afirma Eduardo Pascoal. “No meu caso, acordo todos os dias por volta das 4h00 da manhã para fazer os meus treinos de duas horas, começando a prepara-me para as minhas actividades laborais, que iniciam às 06h00”, acrescentou.

PALMARÉS
Eduardo Pascoal teve a sua primeira integração na selecção nacional olímpica em 2004, quando Angola participaçou na Olimpiada de Palma de Maiorca (Espanha). Voltou a fazer parte da selecção olímpica seis anos depois (2010) em Khanty-Mansiysk (Rússia), onde conseguiu a performance que lhe deu direito ao título de mestre FIDE. Os quatro títulos de campeão nacional absoluto obteve-os em 2004, 2006, 2007 e 2009, sendo em duas ocasiões através de finalissimas diante do também mestre FIDE Catarino Domingos, em que venceu por iguais scores (3-2). Em termos colectivos, deu cinco títulos ao GD da EPAL e três títulos à Rangol-Benfica de Luanda.

PERGUNTAS E RESPOSTAS
Jornal dos Desportos - O que é para si atingir o título de mestre? Eduardo Pascoal - É uma honra. Muitos jogadores dão o seu máximo ao longo da carreira para conseguir conquistar um título nacional ou internacional. Fruto de muito trabalho e dedicação.

Vai parar por aqui ou almeja outros patamares? Quero atingir o nível máximo de grande mestre, mas antes tenho de ser mestre internacional, o que pode acontecer mais cedo ainda. Neste momento, já tenho um convite para participar no XI Festival Internacional de Xadrez de Benidom, em Alicante, Espanha, de 20 de Novembro a 9 de Dezembro, onde pretendo lutar para alcançar o título de mestre internacional.

Qual é a sua opinião sobre a selecção que este ano disputou as Olmpíadas na Turquia? Os critérios de selecão não foram, na minha opnião, os mais correctos. Reconheço que os jogadores que foram selecionados fizeram um esforço muito grande e foram mesmo patriotas, atendendo Às condições em que deixaram o País. O resultado podia ser melhor, se houvesse os estímulos que se recomenda aos atletas de alta-competição. Acho que alguma coisa de anormal se passou. Confio nos meus colegas e sei que também dão o seu melhor. Foi uma opção técnica da Federação.

Angola já esteve melhor no contexto africano, o que se está a passar? O nível de Angola tem baixado consideravelmente nos últimos anos por faltar melhor organização da própria Federação e melhor preparação dos nossos jogadores. A preparação para estas Olimpíadas, por exemplo, foi atabalhoada. Tem de haver muito trabalho no xadrez, o que hoje não acontece. Dá para fazer muito mais.

O que falta ao xadrez angolano? Falta mais empenho dos nossos dirigentes. A Federação tem de refletir sobre os verdadeiros motivos que provocam esta queda do xadrez angolano no contexto africano. Os próprios jogadores tem de se conscienciliar que, para um xadrezista de alta-competição, fazer 30 jogos por ano é muito pouco. No mínimo, para subir de nível, os jogadores precisam de ter uma bagagem de cem jogos por ano. Se a Federação não organiza torneios suficientes, têm de ser os próprios jogadores a recorrer a patrocínios para poderem jogar torneios no exterior com os níveis que lhes permitam aumentar o seu ELO.

O que pensa fazer para contornar essa situação? Já tentei falar com os outros mestres para ver se constituímos uma associação que passe a defender os nossos direitos. Pessoalmente, estou a pensar em criar uma Escola de Mestres para começar já a transmitir os meus conhecimentos às novas gerações.

POR DENTRO

Nome completo: Eduardo António Pascoal.
Filiação: José Luís Pascoal
e Elisa Kizomba João António.
Naturalidade e data de nascimento: Luanda, Bairro Marçal, 7 de Novembro de 1980.
Estado civil: Solteiro
Altura: 1,90m
Peso: 118 kgs
Calçado: Nº 48
Estilo de Jogo: Posicional (mais estratégia do que táctica).
Cidade: Roma
País: Espanha
Hoobyes: Escrever, ler livros especializados
Virtude: Dar para receber
Defeito: “Esquecer coisas nos lugares por onde passo.”
Música: De Paulo Flores
Filme: Comédia e românticos
Prato: Funge com peito alto
Cor: Azul
O que mais detesta: “Telefone desligado é chato.”
Já recorreu a mentira: “Já menti. Não há como evitar.”
Tem casa própria: Não. arrendamento.
Carro: Não
O que mais teme na vida: A morte
Quantos anos gostaria de viver: Mais de 100.