Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

Domingos Abel defende prova de esperanças

Augusto Panzo - 29 de Fevereiro, 2012

Responsável do grémio vianense está preocupado com o futuro dos campeões nacionais de Sub-17

Fotografia: José Soares

O Sporting Brilhantes de Viana sagrou-se campeão nacional de juvenis. Que perspectivas tem a direcção que preside para os jogadores que conquistaram o ceptro, pois, como se sabe, a vossa agremiação só movimenta um escalão?
Como qualquer pessoa, depois de conseguir um feito dessa dimensão, queremos ver estes rapazes desfilarem em grandes clubes ou serem chamados para integrarem as selecções dos escalões superiores, onde poderão mostrar o quanto valem. Temos um projecto de longo prazo, não queremos usar o imediatismo. Sabemos que as nossas capacidades são limitadas, e como tal, não queremos dar um passo maior que a perna.

Onde a direcção dos Brilhantes de Viana pensa enquadrar os jogadores campeões nacionais de juvenis?
Como o nosso clube é uma escola de formação de jogadores, a nossa política é formar primeiro. Não vamos aparecer tão cedo nas grandes competições, porque, para isso ser possível, teríamos de ter verbas. E como nós não temos essa possibilidade, vamos continuar a formar. No ano passado, por exemplo, tivemos os escalões de iniciados e juvenis, mas nesta temporada vamos participar já com juniores. Isso quer dizer que estamos a pensar promover três ou quatro jogadores a juniores e os outros vão manter-se nos juvenis.

Isso é suficiente para resolver o enquadramento dos mesmos?
Não. Essa é a grande preocupação que já nos começa a atormentar, porque depois deles atingirem os 20 ou 21 aos, vão querer aparecer em grandes clubes, mas podem não ter essa oportunidade, porque os treinadores das grandes equipas angolanas dão sempre maior preferência aos frutos das suas escolas. Então, isso complica de certa forma as coisas, porque esses meninos formados em clubes pouco conhecidos ficam à deriva.

Nesse contexto, que ideia tem a esse respeito?
Por mim, seria bom que a Federação Angolana de Futebol criasse um outro campeonato, em que se pudesse enquadrar jogadores de 21 a 25 anos de idade, porque ao atingirem essas idades que me referi, a vontade de jogar torna-se maior, mas as oportunidades de integração nas equipas escasseiam e ficam sem continuidade. Isso cria outros transtornos para os mesmos e para os clubes que os formaram.

Isso prejudica o futebol nacional?
Exactamente, porque os que estão na I Divisão não deixam espaço para que estes miúdos entrem para os seus lugares. Sabe que o nosso futebol só tem duas grandes competições, que são o Girabola e a Segundona, e se calhar, cada uma das equipas que militam nessas provas tem já as suas escolas. Tendo as suas escolas, não iriam, com certeza, gastar energias para a integração de jogadores vindos de outras partes, quando podem promover cinco ou seis jogadores das suas escolas. Então, havendo um campeonato do tipo a que me referi, iria ajudar muito no desanuviamento dessa preocupação.

“Há pessoas atentas
ao nosso trabalho”


Como caracteriza os vossos projectos de formação?
Infelizmente, em função dessa preocupação que acabei de frisar, a nossa tarefa de formação não tem aquele objectivo pelo qual trabalhamos. Imagine que eu comece o trabalho de formar e quando os jogadores chegarem aos 21 anos, não tenho onde colocá-los, eles se vão embora. A partir daí digo que a nossa tarefa de formar é um investimento sem lucro. Mas como é mesmo essencial criarmos esses jogadores, estamos sempre firmes nessa empreitada. 
 
Partindo desse princípio, o Sporting Brilhantes de Viana tem algum convénio com outros clubes, no sentido de poder vender os vossos jogadores?
Neste momento ainda não temos acordos concretos, mas existe essa intenção, porque queremos formar bons jogadores, para que no futuro os outros clubes venham buscá-los. Tenho fé que isso vai mesmo funcionar, porque mesmo no “nacional” de juvenis que se disputou em Benguela, começamos a ter visitas. O treinador dos Sub-17, por exemplo, esteve muito atento no trabalho que os nossos jogadores foram demonstrando ao longo da prova. Acredito que para além dele, outros agentes de futebol poderão aparecer no nosso clube para solicitar alguns atletas que acharem bons para eles.  

Mas do vosso lado não há iniciativas direccionadas para essa intenção?
Há sim. No ano passado por exemplo, o nosso presidente da Mesa da Assembleia-Geral, Augusto Alegria, esteve em Portugal, onde, acredito que já teve alguns contactos, porque na altura ele havia levado pessoalmente consigo uma carta para a Direcção do Sporting Clube de Portugal. Até hoje ainda não obtivemos resposta, mas como devem saber, recentemente houve algumas mudanças na Direcção do clube leonino luso, o que também deve ter contribuído na vacilação sobre a resposta. Ainda há dias, houve um jogador cujo pai nos trouxe uma carta dizendo que o seu filho tinha conseguido um contacto com um clube brasileiro, e é possível que o jogador siga ainda este ano para aquele país. A Direcção dos Brilhantes de Viana não tem nada a ver com essa transferência, se assim podemos chamar, mas congratula-se com o facto, porque é um jogador que sai da nossa escola.

“Houve jogadores
que dormiram mal”


Como é que o Sporting Brilhantes de Viana tem sobrevivido?
O nosso clube sobrevive através das quotas de certos sócios e alguns apoios de pessoas amigas. Por exemplo, aquando da nossa participação no Campeonato Nacional de juvenis, em Benguela, contámos com o apoio de muitas pessoas amigas, desde a transportação da caravana de Luanda para o local da competição, a movimentação da equipa e a sua acomodação durante a prova.Devo também realçar a total entrega do nosso presidente da Mesa da Assembleia-Geral, Augusto Alegria, que não se tem cansado de lutar pela causa do clube.
 
Essa será a razão que vos leva a apostar apenas na formação?
Efectivamente. Em termos financeiros, o clube não tem condições para se expor. Resistimos mesmo por força dos apoios dos amigos, tal como referi há pouco.

Ainda assim, a direcção sente-se sempre motivada a trabalhar? Isso não cria certos transtornos aos vossos programas?

Encoraja-nos e de que maneira. Sobretudo agora, que conseguimos ganhar o Campeonato Nacional de juvenis, as obrigações aumentam. Quer dizer que, neste momento, vamos arregaçar as mangas, tentar fazer mais e melhor do que aquilo que fizemos no ano passado, procurar descobrir mais talentos, para ver se a partir da venda desses valores conseguimos sobreviver, tal como foi traçado o nosso projecto.

O que achou do Campeonato Nacional de juvenis?
Foi abrangente, na medida em que contou com a presença de equipas de várias províncias, como Bié, Benguela, Moxico, Malanje, enfim, todos os campeões regionais estiveram presentes. O grande problema foi o curto tempo em que se disputou a competição. Foi muito prejudicial para os miúdos a forma como foi realizado o campeonato. São miúdos com 14 anos ou 15 e pô-los a jogar durante seis dias consecutivos é muito prejudicial. Faço aqui um apelo aos dirigentes da FAF para que, na próxima vez, não voltem a fazer isso, porque aquilo foi muito desgastante para os petizes e estaríamos mesmo a rebentar com eles.

E em termos de organização administrativa?
Também houve uma grande falha, sobretudo no anúncio sobre a não atribuição dos valores monetários antes previstos. Não se podem comunicar essas coisas justamente no momento da reunião técnica do campeonato. Tem de se fazer isso com a devida antecedência.Isso não pode continuar a acontecer, porque até os comunicados oficiais chegaram muito atrasados aos clubes. Para já, há até coisas que aconteceram lá que muitos clubes não tiveram e nem têm coragem de denunciar.
 
Como o quê, por exemplo?
Houve jogadores que dormiram mal durante a competição, por falta de tal comunicação, pois, os clubes deslocaram-se para o palco dos jogos convencidos que a FAF iria cumprir a promessa, e isso acabou por prejudicar. Então, a comunicação tem de funcionar de forma célere. Houve inclusive quem justificou essa falha, alegando que os clubes não comparticipam na organização do campeonato.

Qual era o valor dessa compensação monetária?
Não sei ao certo, mas falava-se em dois ou três mil dólares para cada equipa.

E esse valor cobria as despesas que das equipas durante uma competição provincial?
Nem pensar. O que os clubes gastam durante uma temporada fica muito além desse valor irrisório que deveria ser atribuído na prova.

Falta protecção
aos atletas


Que avaliação faz do jogadores juvenis angolanos?
Uma avaliação razoável, na medida em que hoje já começamos a ver talentos. Neste campeonato que se disputou em Benguela, conseguimos ver muitos talentos e, se analisarmos muito bem, há dois ou três anos, os campeonatos eram apenas ganhos pelos ditos “papões” do futebol angolano, no caso o Petro de Luanda, Interclube, 1º de Agosto, ASA e outros. Mas a realidade actual é muito diferente. É só ver, por exemplo, que este ano quem ganhou o Campeonato Nacional em juniores foi uma equipa do Moxico e a coroa em juvenis ficou com uma formação de bairro. Isso demonstra quanta evolução se regista no futebol dos escalões de formação em Angola.

Comparando as equipas do interior com as de Luanda, não se notou muita diferença nos níveis competitivos?
Houve sim e eu até defendo que deviam aparecer mais equipas no campeonato, de maneira a que pudesse haver mais competitividade. Repare que a província de Luanda tem um campeonato de juvenis com 40 equipas. Então, interrogo-me porque só participaram duas, quando bem podiam mandar para lá mais equipas?

Acha que o jogador angolano tem a protecção requerida?
Não, e esse é um assunto que devia merecer maior atenção do Ministério da Juventude e Desportos, porque os nossos jogadores não têm essa protecção. Imagine, por exemplo, que eu fico aqui a formar um miúdo e depois aparece um clube dos chamados “papões” e pega no jogador, sem compensar o formador. Eu perco porque não tenho nada que defenda que este jogador foi formado por mim. Então, é necessário que haja essa política de defesa do formador e do jogador.

O sonho de um
campo próprio


Qual é a maior preocupação da vossa direcção?
A nossa grande preocupação de momento é adquirir um terreno, onde podemos erguer um campo próprio. Temos utilizado o campo da Zuid, um recinto que é de uma entidade privada. Temos vindo a envidar esforços junto da Administração Municipal de Viana, no sentido de nos concederem um espaço onde pensamos construir um campo próprio, porque enquanto não tivermos campo próprio, o nosso futuro não pode ser brilhante.

Em que pé se encontram esses contactos?
Estamos a elaborar as cartas pela segunda vez, para as enviar à Administração Municipal, porque, nos primeiros contactos que havíamos feito, falava-se num campo existente no bairro da CAOP, que por sinal é pertença da SGT, isto é, uma propriedade alheia. A administração havia-nos autorizado a fazer a reabilitação, mas nós preferimos não o fazer, porque seria investir no vazio, pois iríamos esbanjar verbas desnecessariamente. Mas, ainda este ano, vamos voltar a bater as portas da Administração com muita persistência, para ver se nos concedem um terreno onde pensamos construir o nosso campo e erguermos a nossa sede.

Perfil 

Nome: Domingos Abel

Data de Nascimento: 10 de Abril de 1968

Local de nascimento: Negage (Uíje)

Estado civil: Solteiro

Filhos: Sete

Profissão: Militar

Calçado: 40

Prato preferido: Funje com carne seca

Hobby: Ver jogos de futebol

Formação Académica: Frequência da Faculdade